599. 599. A chegada ao Cenáculo e o adeus de Jesus à Mãe.
17 de fevereiro de 1944.
599.1Estou vendo o Cenáculo, onde deve consumar-se a Páscoa. Vejo-o em seus pormenores. Eu poderia contar todas as rugas da parede e as fendas do pavimento. É um salão não perfeitamente quadrado, mas também pouco retangular.
Deve haver uma diferença de um metro ou pouco mais, no máximo, entre o lado mais comprido e o mais curto. O forro é baixo. Talvez ele assim pareça, porque a largura não corresponde à altura. É levemente encurvado, ou seja, os dois lados mais curtos não terminam em ângulo reto com o forro, mas com um ângulo em forma de arco, como esse:
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Nos dois lados mais curtos há duas janelas largas e baixas, em frente uma da outra. Não sei para quais lados elas estão viradas, se é sobre algum pátio ou sobre alguma entrada, porque agora estão com as venezianas, que as fecham, fechadas. Eu disse venezianas. Não sei se o termo está certo. São como uns batentes de pranchas bem fechadas por meio de uma barra de ferro que as atravessa.
O pavimento é de tijolos largos, de argila cozida, que o tempo fez ficar pálidos e quadrados.
No centro do forro está pendurada uma lâmpada de azeite, com vários bicos.
Das duas paredes mais compridas, uma é toda sem aberturas. Na outra, em vez disso, há uma portinha, em um canto, que é acessada por uma escadinha, sem corrimão, de seis degraus, terminando em um patamar de um metro quadrado. Sobre este, pegado à parede, há um outro degrau, sobre o qual se abre a porta nivelada com o degrau. Não sei se me expliquei bem. Eu tento fazer o desenho:
As paredes são simplesmente caiadas, sem ornatos. No centro do salão há uma mesa grande, retangular, muito comprida em comparação com a largura, meio paralela à parede, que é mais comprida e feita de uma madeira comum. Ao longo das paredes compridas, estão as cadeiras que vão ser usadas. Nas paredes mais curtas, abaixo da janela, há uma espécie de baú, sobre as quais há umas bacias e ânforas, e por baixo de uma outra janela está uma credência baixa e comprida sobre a qual, por enquanto, não há nada.
599.2É esta é a descrição do salão onde se irá consumir a Páscoa. Justamente hoje é que estou vendo-a distintamente, a ponto de ter podido contar os degraus e observar todos os seus particulares. E agora que vem chegando a noite, meu Jesus me conduz ao final da contemplação.
Estou vendo que o salão me conduz pela escadinha dos seis degraus para uma entrada escura, que fica ao lado esquerdo, como é vista daqui por mim, e se abre para a rua por uma porta larga, baixa e maciça, reforçada com brochas e barras de ferro. Diante da portinha, que vai do cenáculo para a entrada, há uma outra porta para quem vai para a outra sala menor. Eu diria que o Cenáculo foi feito num lugar escavado sobre um desnível do terreno, pelo que se vê do resto da casa e da rua, e é como um meio aterro, uma sala meio subterrânea, que precisou ser limpa e adaptada, mas que sempre ficou mergulhada um bom metro no solo, talvez para torná-la mais alta e proporcionada ao tamanho do conjunto.
Na sala que agora estou vendo está Maria com outras mulheres. Destas, eu reconheço Madalena e Maria, mãe de Tiago, de Judas e de Simão. Parece que elas acabaram de chegar, conduzidas por João, porque estão tirando os seus mantos, pondo-os dobrados sobre os banquinhos espalhados pela sala, enquanto saúdam o apóstolo que vai saindo, uma mulher e um homem que foram ao seu encontro quando chegaram, e que eu tenho a impressão de que são os donos da casa e discípulos, ou que simpatizam com o Nazareno, pois eles estão cheios de atenções e com uma atenção respeitosa para com Maria. Ela está vestida com um azul celeste escuro, um azul quase anil muito escuro. Está com um véu branco na cabeça, que aparece quando ela tira o manto que lhe cobre a cabeça. Ela está com um rosto muito emagrecido. Parece envelhecida. Está muito triste, ainda que sorria com doçura. Mas está muito pálida. Até os seus movimentos são cheios de cansaço e de incerteza, como os de uma pessoa que está absorta em algum pensamento.
599.3Pela porta semiaberta vejo que o proprietário vai e vem pela entrada e pelo cenáculo que ele está iluminando completamente, acendendo os últimos bicos da lâmpada. Depois ele vai até à porta que dá para a estrada e a abre para que Jesus entre com os apóstolos. Vejo que já chegou o entardecer, pois as sombras da noite já vêm descendo pela rua estreita, por entre as casas altas. E Ele está com todos os apóstolos.
Jesus cumprimenta o proprietário com sua habitual saudação: “A paz a esta casa”, e depois, enquanto os apóstolos vão descendo para o cenáculo, Ele entra na sala onde está Maria. As piedosas mulheres O saúdam com profundo respeito, e deixam à vontade a Mãe e o Filho.
Jesus abraça sua Mãe e a beija na fronte. Maria beija antes a mão do seu Filho e depois a face direita. Jesus faz que Maria se assente e assenta-se também a seu lado, em dois bancos que estão perto um do outro. Ele a faz sentar-se, acompanhando-a até o banco, levando-a pela mão, e continua a segurar a mão dela mesmo depois de Ela ter-se sentado.
Também Jesus está absorto, pensativo e triste, por mais que se esforce para sorrir. Maria olha com ansiedade a expressão do rosto dele. Pobre Mãe, que pela graça e pelo amor compreende que hora é esta! Contrações de dor se deixam ver no rosto de Maria, e seus olhos se dilatam, diante de uma visão interna de espasmo. Mas ela não faz cenas. É majestosa como o Filho.
599.4Ele lhe fala. E a saúda, e se recomenda às suas orações.
– Minha Mãe, Eu vim para receber força e conforto de ti. Eu sou como um menino pequenino, minha mãe, que sente necessidade do coração da mãe para a sua dor e do seio da mãe para sua força. Eu voltei a ser, nesta hora, o teu pequeno Jesus de outros tempos. Não sou mais o Mestre, minha Mãe. Sou unicamente o teu Filho, como em Nazaré quando eu era pequeno, como em Nazaré antes de deixar a vida oculta. Eu tenho só a ti. Os homens neste momento não são amigos, e amigos leais, do teu Jesus. Eles não são nem corajosos em fazer o bem. Somente os malvados é que sabem ser constantes e fortes em fazer o mal. Mas tu me és fiel, és a minha força, minha Mãe, nesta hora. Sustenta-me com o teu amor e a tua oração. Não há senão tu, que nesta hora sabes orar entre os que mais ou menos me amam. Rezar e compreender. Os outros estão em festa, pensando só em festa, ou pensando em cometer delitos, enquanto que eu vou sofrendo muitas coisas. Mas muitas coisas morrerão depois desta hora. E entre elas a humanidade deles, e saberão ser dignos de Mim, todos, menos aquele que se perdeu e que nenhuma força é capaz de reconduzir ao arrependimento. Mas, por enquanto, são homens tardos, que não percebem que vou morrer, mas se alegram crendo mais do que nunca que está próximo o dia do meu triunfo. Os hosanas de dias atrás os deixaram embriagados. Minha Mãe, Eu vim para esta hora e, sobrenaturalmente, Eu a vejo chegar com alegria. Mas o meu Eu também a teme, porque este cálice tem o nome de traição, renegação, ferocidade, blasfêmia, abandono. Sustenta-me, ó minha mãe. Assim como quando, com tua oração, atraíste sobre ti o Espírito de Deus, dando por Ele ao mundo o Esperado das Nações, atrai agora sobre o teu Filho a força que me ajude a completar a obra para a qual Eu vim. Mãe, adeus. Abençoa-me, Mãe; também pelo Pai. E perdoa a todos. Perdoemos juntos, desde agora perdoaremos aos que nos torturam.
599.5Jesus, ao falar, foi deslizando, de joelhos, até os pés de Maria, e a ficou olhando, segurando-a abraçada pela cintura.
Maria chora sem gemer, com o rosto levemente levantado, em uma oração interior a Deus. As lágrimas lhe rolam sobre as faces pálidas, caem sobre o seu colo e sobre a cabeça que Jesus, por fim, apoia sobre seu coração. Depois Maria põe sua mão sobre a cabeça de Jesus, como para abençoá-lo, e depois se inclina, beija-o sobre os cabelos e os acaricia, acaricia os ombros, os braços, pega o seu rosto entre as mãos e o move em Sua direção, o aperta contra o coração. Beija-o ainda entre lágrimas, na testa, no rosto, nos olhos dolorosos, depois o nina, aquela pobre cabeça cansada, como se Ele fosse uma criancinha, como eu a vi niná-lo na gruta do divino Recém-nascido. Mas agora ela não canta, somente diz:
– Filho! Filho! Meu Jesus!
E o diz com uma voz que me dilacera o coração.
Depois Jesus se levantar. Ajeita o manto, fica em pé diante da Mãe, que está ainda chorando, e por sua vez a abençoa. Em seguida, dirige-se para a paorta.
Antes de sair, lhe diz:
– Minha Mãe, Eu virei ainda, antes de consumar a minha Páscoa. Reza, enquanto me esperas.
E sai.