622. 622. Aparição a Joana de Cusa.


4 de abril de 1945.

622.1Numa sala rica, onde a luz externa penetra com muito custo, Joana está chorando, abandonada totalmente numa poltrona ao lado da cama baixa recoberta por uma colcha esplêndida. Chora com um braço apoiado na poltrona e a testa no braço, toda sacudida pelos soluços, que devem lhe rasgar o peito. No afã do pranto, quando ela levanta por um momento o rosto, buscando ar, vê uma mancha larga de umidade na coberta preciosa, e o seu rosto está literalmente inundado de lágrimas. Depois torna a curvá-lo sobre o braço e novamente o que se vê dela é o pescoço delicado e muito branco, as madeixas de cabelos morenos, os ombros e o alto do tronco muito esguios. O resto se perde na penumbra que anula o corpo, envolvido no vestido roxo escuro.

Sem mover a cortina nem entreabrir qualquer porta, Jesus entra e, sem fazer barulho, vai para perto dela. Toca-lhe os cabelos com a Mão e pergunta, sussurrando:

– Por que estás chorando, Joana?

E Joana, que deve crer que seja o seu anjo que lhe fez a pergunta, e não vendo nada porque não levantou a cabeça da beira do leito, com um choro ainda mais desolado, diz qual é o seu tormento:

– Porque eu não tenho mais nem o Sepulcro do Senhor para ir lá derramar o meu pranto, e não ficar sozinha…

– Mas Ele já ressuscitou. Não ficas feliz com isso?

– Oh! Sim. Mas todas já o viram, menos eu e Marta. Mas Marta certamente o verá em Betânia… porque lá é uma casa amiga. A minha… a minha já não é mais casa amiga… Tudo eu perdi com a Paixão dele… o meu Mestre e o amor do esposo… e a alma dele… porque ele não crê… não crê… e zomba de mim… e me proíbe até de venerar a memória do meu Salvador… para não arruiná-lo… Para ele é mais importante o interesse humano… Eu… eu… eu… não sei se devo continuar a amá-lo ou ter aversão por ele. Não sei se lhe obedeço, como sua mulher, ou se lhe desobedeço, como quereria minha alma, pelos esponsais do espírito com Cristo ao qual eu continuo fiel… Eu… gostaria de saber… E quem me pode dar um conselho se Ele não é mais tão facilmente encontrável pela pobre Joana? Oh! Para o meu Senhor a Paixão terminou!… Mas para mim ela começou na Sexta-feira, e continua… Oh!Como eu sou fraca e sem força para suportar essa cruz!…

– Mas se Ele te ajudasse, gostaria de carregá-la por Ele?

– Oh! Sim! Contanto que Ele me ajude… Ele sabe o que é levar sozinho uma cruz… Oh! Piedade da minha desventura!…

– Sim. Eu sei bem o que é levar sozinho a cruz. Por isso é que Eu vim e estou ao teu lado. 622.2Joana, compreendes quem é que te fala? A tua casa não é mais amiga de Cristo? Por quê? Se ele, o esposo terreno, é como um astro coberto por uma nuvem de miasmas humanos, tu és sempre a Joana de Jesus. O Mestre não te deixou. Jesus nunca deixa as almas desposadas com Ele. É sempre o Mestre, o Amigo, o Esposo, também agora que Ele ressuscitou. Levanta a cabeça, Joana. Olha para Mim. Nessa hora de ensinamento secreto, e mais doce que se Eu tivesse aparecido a ti como fiz às outras, Eu te digo qual deve ser a tua conduta futura. A mesma que deverão ter muitas outras tuas irmãs. Ama com paciência e submissão o esposo confuso. Aumenta a tua doçura quanto mais ele fermentar em si a amargura de medos humanos. Aumenta a tua luminosidade espiritual quanto mais ele gerar por si mesmo sombras de interesses terrenos. Sê fiel por dois. E se forte em tuas bodas espirituais. Quantas, no futuro, terão de escolher entre a vontade de Deus e a vontade do cônjuge! Mas elas serão grandes quando, acima do amor e da maternidade, seguirão a Deus. A tua paixão está começando. Sim. Mas tu estás vendo que toda paixão termina em ressurreição…

Joana, pouco a pouco, foi levantando a cabeça. Os seus soluços foram diminuindo. Agora ela olha e vê, e cai de joelhos, adorando e murmurando:

– É o Senhor!

– Sim. O Senhor. Estás vendo que Eu não estive com nenhuma outra como contigo. Mas eu vejo as necessidades particulares e sei graduar o socorro a ser prestado às almas que esperam ajuda de Mim. Sobe o teu Calvário de esposa com a ajuda do meu carinho e da ajuda do teu inocente. Ele entrou comigo no Céu e me deu sua carícia em teu lugar. Eu te abençoo, Joana. Tem fé. Eu te salvei. Tu salvarás se tiveres fé.

622.3Joana agora sorri e tem a coragem de perguntar.

– E não vais até as crianças?

– Eu os beijei ao romper do dia, enquanto ainda estavam dormindo em seus bercinhos, e eles acharam que Eu era um dos anjos do Senhor. Os inocentes Eu posso beijar quando quero. Mas Eu não os despertei para não perturbá-los demais. A alma deles conserva a lembrança do meu beijo… e a transmitirá à mente a seu tempo. Nada se perde de tudo o que é meu. E tu, sê sempre uma mãe para eles. E sejas sempre filha para minha Mãe. Não te afastes nunca completamente Dela. Ela perpetuará para ti, com suavidade materna, o que foi a nossa amizade. E leva até Ela as crianças. Ela precisa delas para sentir-se menos sozinha, agora que vai ficar sem o Filho…

– Cusa não o permitirá.

– Sim, permitirá.

– Ele não me repudiará, Senhor?

E ela dá um grito de dor.

– Ele é como um planeta envolvido nas trevas. Leva-o para a luz com o teu heroísmo de esposa e de quem tem fé. Adeus. A não ser a minha Mãe, não digas a nenhuma outra pessoa que Eu vim te ver. Pois as revelações se fazem a quem é justo fazê-las.

E Jesus, no meio de um belíssimo sorriso, desaparece.

Joana se levanta estupefata, dividida entre a alegria e o sofrimento, entre o temor de ter tido um sonho e a certeza de ter visto.

Mas aquilo que está sentindo lhe dá a certeza. 622.4Vai até os filhos, que estão brincando tranquilos no terraço superior, e os beija.

– Não choras mais, mamãe? –pergunta timidamente Maria, que não é mais aquela criança pobrezinha, mas uma delicada e gentil menina com uma veste bem cuidada e os cabelos penteados.

E Matias, moreno e desembaraçado, com a exuberância de um rapazinho, diz:

– Dize-me quem é que te faz chorar e eu o punirei!

Joana os recolhe num só abraço em seu coração, e diz, falando por sobre a cabecinha castanha de Maria e sobre os cabelos morenos do Matias:

– Eu não choro mais. Jesus ressuscitou e nos abençoa.

– Oh! Então Ele não está sangrando mais? Já não sofre mais?

–pergunta Maria.

– Tolinha! É melhor dizer: não está mais morto! Então, agora Ele está feliz. Porque estar morto deve ser ruim… –diz Matias.

– Nesse caso, não há por que chorar, não é, mãe? –torna a perguntar a Maria.

– Não. Para vós inocentes, não. Alegrai-vos com os anjos.

– Os anjos!… Esta noite, não sei em que vigília foi, eu senti uma carícia, e acordei dizendo: “Mamãe!”, mas não era a ti que eu chamava. Eu estava chamando a minha mamãe que já morreu, porque aquela carícia era mais leve e mais doce do que a tua e, por um momento, eu abri os olhos. Mas eu vi somente uma grande luz, e eu disse: “O meu anjo me beijou para consolar-me da grande dor que eu sinto pela morte do Senhor” –diz Maria.

– Eu também. Mas eu estava com muito sono, e disse: “És Tu?” Eu pensava que era o meu anjo da guarda, e queria dizer-lhe: “Vai beijar Jesus e Joana, para que não tenham mais medo”, mas eu não consegui. Tornei a dormir e a sonhar, e me parecia estar no Céu contigo e com Maria. Depois veio aquele terremoto e eu despertei espantado. Mas Ester me disse: “Não tenhas medo. Já passou,” e eu voltei a dormir outra vez.

Joana os beija de novo, e depois os deixa em suas brincadeiras serenas 622.5e vai até a casa do Cenáculo.

Pergunta por Maria. Entra e vai até Ela. Fecha a porta e diz a grande palavra:

– Eu O vi. A ti eu posso dizer. Estou confortada e feliz. Ama-me, pois Ele disse que eu devo estar unida a ti.

A Mãe responde:

– Eu já te disse isso, no dia de sábado, que te amo. Foi ontem. Ontem mesmo… E parece estar bem longe aquele dia de pranto e de trevas, longe deste dia de luz e sorriso!

– Sim… Tu já disseste, agora me lembro, aquilo que Ele me repetiu agora mesmo. Tu disseste: “Nós, mulheres, deveremos agir porque nós ficamos e os homens fugiram… é sempre a mulher que gera…” Oh! Mãe, ajuda-me a gerar Cusa! Ele fugiu da Fé!…

E Joana chora de novo.

Maria a toma nos braços:

– Mais forte do que a fé é o amor. Esta é a virtude mais ativa. Com ela tu criarás uma alma nova em Cusa. Não temas. Pois eu te ajudarei.