454. 454. Maria Santíssima e o seu perfeito amor.Desencontro de Iscariotes com o pequeno Alfeu.


3 de julho de 1946.

454.1 A tarde vem descendo, trazendo consigo estas brisas que nos causam um grande bem-estar, depois de um forte calor, esta agradável meia-sombra, depois de um dia de sol ardente.

Jesus se despede dos moradores de Hipo, estando firme em seu propósito de não ficar tardando a partir, visto que seu desejo é estar em Cafarnaum no sábado. O povo se afasta, contrariado, e alguns mais teimosos o acompanham até do lado de fora da cidade.

Entre estes está a mulher de Afeca, a viúva que, na vila à margem do lago, pediu ao Senhor que a escolhesse para ser a tutora do pequeno Alfeu que foi rejeitado pela mãe. Ela se mistura com as discípulas, como se fosse uma delas, e já está familiarizada com elas a tal ponto que estas a consideram uma pessoa da família. Agora ela está com Salomé e conversa seriamente com ela, em voz baixa.

454.2 Um pouco atrás, está Maria com sua cunhada e as duas regulam seus passos pelos do menino, que vai caminhando entre elas, dando as mãos às duas, e divertindo-se a dar pulos de uma para a outra pedra desta estrada, que certamente terá sido construída pelos romanos assim com chapas do mesmo tamanho. E ele se ri, dizendo, a cada pulo que dá:

– Estais, vendo como eu já sou um craque? olha, olha outra vez!

É uma brincadeira, que todos os meninos do mundo terão feito, quando estão seguros pelas mãos daqueles que eles percebem que lhe têm afeto. E as duas santas criaturas que o estão segurando pelas mãos, mostram grande interesse em sua brincadeira, e o elogiam pela destreza que ele mostra ao saltar.

O pobre menino floresceu de novo nos poucos dias daquela vida de paz e de amor. Seu olhar é alegre como o dos meninos felizes, e seu riso, com o timbre metálico de sua boca, o torna até mais bonito e, sobretudo, mais menino. Já sem ter aquela expressão de homenzinho triste antes do tempo, com que ele estava na tarde da partida de Cafarnaum.

Maria de Alfeu, observando isso, e ouvindo algumas palavras de Sara, a viúva, diz à sua cunhada:

– Seria, de fato, bom assim! Eu, se fosse Jesus, lho daria.

– Mas ele tem uma mãe, Maria…

– Uma mãe? Não o digas! Uma loba é mais mãe do que aquela malvada.

– É verdade. Mas mesmo se ela não reconhece seu dever para com o seu filho, sempre tem o direito sobre um filho, diz Maria.

– Hum! Para fazê-lo sofrer! Olha só como ele está melhor!

– Eu estou vendo. Mas… Jesus não tem o direito de tirar os filhos às mães, nem mesmo para entregá-los a quem os trataria com amor.

– Também os homens não teriam o direito de… Basta. Eu sei que…

– Oh! Eu te entendo… Queres dizer: também os homens não teriam o direito de tirar-te teu Filho e, no entanto, o farão… Mas, fazendo isso, que é um ato humanamente cruel, produzirão um bem infinito. Mas aqui, pelo contrário, eu não sei se seria um bem para aquela mulher.

– Mas para o pequenino, sim. 454.3Mas por que Ele foi dizer-nos uma coisa horrível como aquela? Eu não tenho mais paz desde que a fiquei sabendo…

– E não sabias também antes que o Redentor devia padecer e morrer?

– Sim, que o sabia! Mas não sabia que era Jesus. Eu lhe queria bem, sabes? Mais do que aos meus próprios filhos. Tão bonito, tão bom… Oh! Eu te invejava por causa dele, minha Maria, quando Ele era menino, e depois sempre… sempre… até um sopro de vento que ia a Ele me desagradava, e… nem posso pensar que irá ser torturado.

E Maria de Cléofas chora por baixo do seu véu.

E Maria, a Mãe, a conforta:

– Minha Maria, não fiques olhando a coisa do lado humano. Pensa nos seus frutos… Eu, bem podes pensar como consigo ver chegar ao fim a luz de cada dia… Quando essa luz morre, eu digo: um dia de menos para ter Jesus… Oh! Maria! Por uma coisa especialmente eu agradeço ao Altíssimo: por ter-me Ele concedido chegar ao amor perfeito, perfeito até o ponto que numa criatura ele pode chegar, o que já me permite ir curando e fortalecendo o meu coração, dizendo: “A dor dele e a minha são úteis aos meus irmãos, por isso bendita seja a Dor.” Se eu não amasse assim ao próximo, não poderia, não, bem pensar que levariam Jesus à morte…

– Mas, que amor, então, é esse teu? Que amor é que se deve ter para poder dizer tais palavras? Para… para… para não se fugir com seu Filho, defendê-lo e dizer ao próximo: “O meu primeiro próximo é o meu Filho e eu o amo sobre todas as coisas”?

– Quem é amado sobre todas as coisas é Deus.

– E Ele é Deus.

– Ele faz a vontade do Pai, e eu com Ele. Que amor é esse meu? Que amor é que se deve ter para poder dizer tais palavras? É um amor de união com Deus, uma união total, um abandono total, um viver somente nele, não ser mais do que uma parte dele, assim como a mãe é uma parte de si mesma, só faz o que a cabeça ordena. Eis aí o meu amor e qual é o amor que se deve ter, para se fazer sempre e com boa vontade a Vontade de Deus.

– Mas tu és tu. És a bendita entre todas as criaturas. Certamente tu já eras assim, mesmo antes de teres Jesus, pois Deus te escolheu para o teres, e para ti é fácil…

– Não, Maria. Eu sou a Mulher e a Mãe como todas as mulheres e mães. O dom de Deus não suprime a criatura. Esta continua a ter a sua humanidade, como qualquer outra criatura humana, ainda que o dom lhe comunique uma espiritualidade muito forte. Tu já sabes que eu tive que aceitar o dom, por minha espontânea vontade, e com todas as consequências que ele acarretasse. Porque todo dom divino é uma grande felicidade, mas também um grande empenho. E Deus não violenta a nenhum homem para que aceite os seus dons, mas Ele interroga a sua criatura e, se a criatura àquela voz espiritual que lhe fala, responder: “Não!” Deus não a força. 454.4Todas as almas, pelo menos uma vez na vida, foram interrogadas por Deus se…

– Oh! Eu, não! A mim Ele nunca me perguntou nada! –exclama, com segurança, Maria de Alfeu.

A Virgem Maria sorri mansamente e lhe responde:

– Não prestaste atenção e respondeste com a tua alma, sem que tu o percebesses, isso porque tu já amas muito o Senhor.

– Eu te digo que Ele nunca me falou nisso!

– E, por que, então, estás aqui como discípula, acompanhando Jesus? E por que, então, vives ansiosa para que os teus filhos todos acompanhem a Jesus? Sabes tu o que quer dizer acompanhá-lo? E, no entanto, queres que teus filhos o acompanhem.

– É certo. Eu quereria dar-lhos todos. Então, com verdade eu poderia dizer que já teria dado à Luz todos os meus filhos. E rezo, rezo para poder dá-los a essa Luz, a Jesus, com uma verdadeira e eterna maternidade.

– Estás vendo? E isso por quê? Porque Deus te interrogou um dia, e te disse: “Maria, tu me concederás os teus filhos, a fim de que sejam os meus ministros na nova Jerusalém?” E tu respondeste: “Sim, Senhor.” E, mesmo agora, quando já sabes que o discípulo não é mais do que o Mestre, Deus continua a perguntar-te para provar o teu amor, tu lhe respondes: “Sim, meu Senhor. Eu já estou querendo que eles sejam teus!” Não é assim?

– Sim, Maria. É assim. É verdade. Eu sou tão ignorante que não sei entender o que acontece na alma. Mas, quando Jesus, ou tu, me fazeis pensar, eu digo que é verdade. É verdade mesmo. Eu digo que gostaria até de vê-los mortos pelos homens, do que inimigos de Deus… Certamente… se eu os visse morrer… se… oh! Mas o Senhor… me ajudaria, não é? O Senhor naquela hora… ou irá ajudar somente a ti?

– Ajudará a todos os seus filhos fiéis e mártires no espírito, ou no espírito e na carne, pela sua glória.

– Mas quem é que deve ser morto? –pergunta o menino que, ao ouvir falar naquele assunto, deixou de ficar pulando e ficou todo ouvidos.

E pergunta ainda, um pouco curioso, um pouco espantado, olhando para um lado e para outro pelo campo solitário, que começa a ficar escuro:

– Aqui há ladrões? Onde estão?

– Aqui não há ladrões, menino. E ninguém, por enquanto, vai ser morto. Pula, podes pular ainda –responde a Virgem Maria.

454.5 Jesus, que estava muito lá na frente, parou para esperar as mulheres. Dos que o vieram acompanhando desde Hipo, estão ainda presentes três homens e a viúva. Os outros resolveram, um depois do outro deixá-lo e voltar para sua cidade.

Os dois grupos se reúnem. Jesus diz:

– Paremos aqui, esperando o nascer da lua. Depois continuaremos, de tal modo que, lá pela aurora, possamos entrar na cidade de Gamala.

– Mas, Senhor! Não te lembras de que te expulsaram de lá? E te suplicaram1 que te fosses embora…

– E daí? Eu parti, agora volto. Deus é paciente e prudente. Naquele tempo, na agitação em que estavam, não eram capazes de acolher a Palavra, que só pode ser acolhida com a alma em paz, para ser frutuosa. Lembrai-vos de Elias2 e do encontro dele com o Senhor no Horeb, considerai que Elias já era uma alma dileta para o Senhor e acostumado a entendê-lo. Somente na paz de uma brisa ligeira, quando sua alma já estava repousando, depois das angústias na paz do lugar em que estava e do seu eu honrado, só então foi que o Senhor falou. O Senhor esperou que a angustia deixada como lembrança de sua passagem por aquela região pela legião de demônios, pois que, quando a passagem é de Deus, é pacífica, mas a de Satanás é de perturbação, e o Senhor esperou que a angústia cessasse, se refizessem límpidos de novo os corações e o entendimento, para voltar a esses de Gamala, que são ainda seus filhos. Não temais. Eles não vos farão mal!

454.6 A viúva de Afeca vai à frente, e se prostra:

– E a mim não irás, Senhor? Afeca também está cheia de filhos de Deus…

– Áspero é o caminho e breve é o tempo. Temos conosco as mulheres, devemos voltar para passarmos o sábado em Cafarnaum. Não insistas, mulher –diz, curto e breve, Iscariotes, como que repelindo-a.

– É que… Eu queria que Ele resolvesse que eu poderia ficar com o menino.

– Mas o menino já tem a mãe dele, entendes? –diz ainda Iscariotes, de um modo grosseiro.

– Conheces algum atalho para se ir de Gamala a Afeca? –pergunta Jesus à mulher maltratada.

– Oh! Sim. Há um caminho pela montanha, mas é bom e fresco, porque vai por entre bosques. E, depois, para as mulheres, eu pago, se os pudermos arranjar uns burrinhos…

– Eu irei à tua casa para consolar-te, porque Eu não posso dar-te o menino, visto que ele tem sua mãe. Mas Eu te prometo que, se Deus achar que o inocente desamado ache de novo o amor, Eu pensarei em ti.

– Obrigada, Mestre. Tu és bom, diz a viúva, e olha para Judas de uma maneira tal, que só pode querer dizer: “E tu és mau.”

O menino, que estava escutando e entendeu, pelo menos em parte, que estava já também afeiçoado com a viúva, que está sempre procurando conquistá-lo com carícias, com pequenos bons bocados, um pouco pela natural movimento de reflexão, e um pouco por aquele espírito de imitação próprio das crianças, repete exatamente o que a viúva fez: somente não se prostra aos pés de Jesus, mas se agarra nos joelhos dele, levantando o rosto que, ao luar, ficou branco, e diz:

– Obrigado, Mestre. Tu és bom.

E não se limita a isso, quer esclarecer bem o que está pensando e termina dizendo:

– E tu és mau, e dá um pequeno pontapé com seu pezinho no pé de Iscariotes, para que não haja possíveis erros de pessoa.

454.7 A risada de Tomé é fragorosa e leva os outros a rir, enquanto ele diz:

– Pobre Judas! Bem que se diz que os meninos não gostam de ti. De vez em quando um deles te julga e sempre te julga3 mau.

Judas tem tão pouco domínio de si mesmo que logo mostra sua ira, uma ira injusta, desproporcionada para a causa e o objeto que a provocam, e se desabafa, arrancando com força o pequenino de entre os joelhos de Jesus, puxando-o para trás e gritando:

– Isto acontece quando se transforma o que é sério em pantomima. É indecoroso e inútil trazer atrás de si um apêndice de mulheres e bastardos…

– Isto é que não. O pai dele tu conheceste bem. Era um esposo legítimo e um homem justo –observa com severidade Bartolomeu.

– E então? Este aí não é agora um vagabundo e amanhã um futuro ladrão? Houve quem pensasse que ele era filho de tua Mãe… E onde está o esposo de tua mãe para justificar um filho desta idade? Ou então ficam pensando que ele é filho de um de nós e…

– Basta. Tua linguagem é uma linguagem mundana. Mas o mundo só fala em lama para as rãs para as cobras, para os lagartos, para todos os animais imundos… 454.8Vem cá, Alfeu. Não chores. Vem a Mim. Eu te levarei nos braços.

O sofrimento do menino é grande. Toda a sua dor de órfão e de rejeitado pela mãe, dor que estava adormecida nestes dias de paz, desperta agora, ferve e transborda. Mais do que os arranhões que ele fez na testa e nas mãos, quando caiu no chão pedregoso, arranhões que as mulheres estão limpando e beijando para consolá-lo, ele está chorando por sua dor de filho sem amor. É um choro longo, cheio de mágoa, invocando seu pai morto, sua mãe… Oh! Pobre menino!

Eu choro com ele, eu, a sempre desamada pelos homens, e, com ele, me refugio entre os braços de Deus, hoje, dia do aniversário dos funerais de meu pai, hoje, quando uma injusta decisão me priva da Comunhão frequente…

Jesus o pega, o beija, o nina e consola, vai caminhar na frente de todos, com o inocente nos braços, ao clarão do luar… E, enquanto o choro vai diminuindo lentamente, começa a interromper-se, pode-se ouvir no silêncio da noite a voz de Jesus, que diz:

– Aqui estou Eu, Alfeu. Eu por todos. Eu, para servir-te de pai e mãe. Não chores. O teu pai está a meu lado e te beija comigo. Os anjos estão cuidando de ti, como se fossem tuas mães. Todo o amor está contigo, todo o amor, se tu fores bom e inocente…

454.9 E a voz rouca de um dos três, que vieram de Hipo, diz:

– O Mestre é bom e atrai. Mas os seus discípulos, não. Eu vou-me embora…

Ouve-se a voz severa do Zelotes que diz ao Iscariotes:

– Estás vendo o que fazes?

E depois, enquanto somente a viúva de Afeca é que ficou entre as discípulas, e suspira com elas, ouvem-se apenas as batidas de um menor número de passos. Porque os três de Hipo lá se foram. E assim continuam até irem parar numa grande caverna, talvez um refúgio dos pastores, porque ali se vê uma camada de éricas e fetos, cortados há pouco tempo e jogados no chão para secarem.

– Permaneçamos aqui. Aproveitemos este leito da Providência para as mulheres. Nós poderemos deitar-nos aqui fora sobre a grama do chão, diz Jesus.

E assim fazem, enquanto a lua cheia lá vai navegando placidamente pelo firmamento.

1 suplicaram, em 186.7.
2 Lembrai-vos de Elias, na passagem de 1 Reis 19,13-18.
3 De vez em quando um deles te julga, como Menino de Mágdala em 184.7 (e em 490.6), e Jabé-Marziam em 196.6 (em 365.3/4). Lê-se em 309.4: “… A Judas de Simão… lembra que o Senhor faz as crianças falarem…”. Até o neto de Nahum, garoto deforme curado por Jesus, colocará Judas entre os maus em 584.6.


1
2
3
4
5
6