262. 262. Uma filha indesejada e a missão damulher redimida. Iscariotes pede a ajuda de Maria.


24 de agosto de 1945.

262.1Num sobe e desce de colinas, sobre as quais desemboca a estrada que vai para Nazaré, aproveitando as sombras dos olivais e pomares, espalhados por esta região fértil e cultivada, Jesus vai tomando o rumo de Nazaré.

Tendo chegado à encruzilhada, de onde sai o caminho para Ptolomaida, Ele para e diz:

 Vamos parar junto a esta casa, onde já parei outras vezes, tomemos aqui o nosso alimento; e, enquanto o sol vai fazendo o seu caminho, estejamos unidos, antes de nos separarmos de novo. Nós iremos para Tiberíades, minha Mãe e Maria para Nazaré e João com Hermasteu para Sicaminon.

Dirigem-se, através de um olival, para uma casa grande e baixa de camponeses, tendo ao lado a figueira que não falta, e coroada com uma grinalda de festões de uma videira que se alastra para cima, subindo pela escadinha, para ir estender os seus ramos por sobre o terraço.

 A paz esteja convosco. Estou aqui de novo.

 Vem, Mestre. É sempre bem-vinda a tua presença. Deus te dê a paz, a ti e aos teus –responde um velhinho, que ia atravessando o terreiro, com uma braçada de gravetos.

Depois, ele grita:

 Sara! Sara! Aqui está o Mestre com os seus discípulos. Põe mais farinha para o teu pão!

Sai de um quarto uma mulher toda embranquecida pela farinha, que certamente ela estava peneirando, pois ainda está com a peneira na mão, cheia de farelo, e se ajoelha sorrindo, diante de Jesus.

 A paz esteja contigo, mulher. Eu me fiz acompanhar até a tua casa por minha Mãe, como te havia prometido. Aqui está ela. E esta é a cunhada dela, a mãe de Tiago e de Judas. Onde estão Dina e Filipe?

A mulher, depois de ter saudado as duas Marias, responde:

 Dina teve ontem a sua terceira menina. Estamos um pouco tristes, porque não tivemos a sorte de ter um neto. Mas assim mesmo estamos contentes, não é, Matatias?

 Sim, porque é uma bela menina, e é sempre o nosso sangue. Eu a vou mostrar. Filipe foi buscar Ana e Noemi na casa de seus pais. Mas ele já estará de volta.

A mulher volta a ir fazer o seu pão, enquanto o homem, pondo no forno os feixes de gravetos, ocupa-se com os seus hóspedes, oferecendo-lhes cadeiras e leite tirado na hora, para quem quiser, frutas e azeitonas a quem as preferir.

262.2O quarto térreo é sombreado e fresco, grande e aberto na frente, e no fundo da casa, com as duas portas sombreadas, uma pela figueira, a outra por uma sebe com flores em forma de estrelas, uma espécie de girassóis na forma, mas menos agigantados do que estes nas corolas. Uma luz esmeraldina entra no amplo quarto, para alívio dos olhos cansados pelo calor do sol. Bancos e mesas estão colocados no espaçoso quarto, que deverá ser o quarto onde as mulheres fiam e tecem, onde os homens consertam suas ferramentas agrícolas, e aí guardam as provisões de farinha e de frutas, como nos dão a entender aquelas vigotas cheias de ganchos, delas pendurados, e as mesas colocadas sobre outras mesas maiores, do outro lado das compridas caixas-bancos, postas ao longo das paredes. Umas borlas de estopa de linho ou de cânhamo parecem-se com tranças soltas, ao longo da parede pintada com cal, e um tecido vermelho como fogo está estendido sobre um tear, que tinha ficado descoberto, e parece ser para alegrar o ambiente todo com sua cor risonha e festiva.

A dona da casa está de volta, pois já acabou de fazer o pão, e pergunta aos hóspedes se querem ver a recém-nascida.

Jesus responde:

 Eu irei abençoá-la.

Maria, por sua vez, se levanta, e diz:

 Eu também irei, para saudar a mãe.

Todas as mulheres lá se vão.

 Como se está bem aqui –diz Bartolomeu que, visivelmente, está muito cansado.

 É verdade. Aqui há sombra e silêncio. Acabaremos dormindo –confirma Pedro, já meio sonolento.

 Dentro de três dias, estaremos, e por muito tempo, em nossas casas. Lá repousareis, porque ireis evangelizar pelas circunvizinhanças –diz Jesus.

 E Tu?

 Eu estarei, por algum tempo, em Cafarnaum, indo quase sempre de lá para fazer algumas permanências em Betsaida. Depois, quando chegar a lua de Tisri, recomeçaremos a andar. A tarde, contudo, continuarei a melhorar-vos…

Jesus se cala, porque vê que o sono torna inúteis as suas palavras. Ele sorri, sacudindo a cabeça, ao observar este grupo de pessoas, que o cansaço venceu, e que, em posições mais ou menos cômodas, põem-se a dormir. O silêncio da casa e do campo ensolarado é completo. Parece um lugar encantado. Jesus chega até à porta, ao lado das sebes floridas, e fica olhando, através dos ramos, as doces colinas Galileias, todas acinzentadas pela cor das oliveiras imóveis.

262.3Um leve ruído, unido ao grito isolado de um recém-nascido, soa por cima de sua cabeça. Jesus levanta o rosto, e sorri para sua Mãe, que vem descendo e trazendo nos braços um pacotinho branco, do qual emergem três coisinhas vermelhas, uma cabecinha e dois punhozinhos que se agitam,

 Olha, Jesus, que bela menina! Ela se parece um pouco contigo, quando estavas com um dia. Eras também louro, a tal ponto, que parecias sem cabelos, se eles não se tivessem encaracolado desde então, em flocos leves como de nuvens, e na cor parecias uma rosa. E olha, olha como ela abre os olhinhos, no meio desta sombra, e procura o peito da mãe. Ela tem os olhos azul-escuros como os teus… Oh! Querida! Mas eu não tenho leite, pequenina, rosinha, minha pombinha!

E a Senhora embala a pequenina, que transforma o seu vagido em um arrulho, como o de uma pombinha, e adormece.

 Minha Mãe, tu fazias assim comigo? –pergunta Jesus, que está observando sua Mãe embalar a pequena, estando com a face apoiada na cabecinha loura.

 Sim, meu Filho. Mas a ti eu dizia “cordeirinho meu.” É bela, não é verdade?

 Muito bela e robusta. A mãe deve estar feliz com ela –confirma Jesus, inclinado também Ele, a observar aquele sono inocente.

 Mas não está. O marido está irritado, porque todos os filhos são mulheres. É verdade que, com estes campos que temos, é melhor que sejam do sexo masculino. Mas a nossa filha não tem culpa disso… –suspira a dona da casa, que acabou de chegar.

 Eles são jovens. Que se amem e terão também filhos homens –diz com firmeza o Senhor.

262.4 Aí vem Filipe… Já está escurecendo… –murmura, perturbada, a mulher.

E diz em voz mais alta:

 Filipe, aqui está o rabi de Nazaré.

 Muita satisfação em vê-lo. A paz esteja contigo, Mestre.

 E contigo também, Filipe… Já vi a tua bela menina. E até a estou olhando ainda, porque é digna de louvor. Deus te abençoa com crianças belas, sãs e boas. Tu lhe deves ser agradecido… Não respondes? Pareces estar angustiado…

 Eu esperava que fosse um menino homem.

 Não estarás querendo dizer-me, já que és injusto, acusando a inocente de ser mulher e muito menos, que irás ser duro com a tua esposa? –pergunta Jesus com severidade.

 Eu queria um filho homem! Para o Senhor e para mim! –exclama, ressentido, Filipe.

 E vai ser com essa injustiça e com essa revolta, que esperarás consegui-lo? Por acaso, já leste alguma coisa no pensamento de Deus? Serás tu mais do que Ele, para lhe dizeres: “Faze assim, porque assim é justo”? Esta mulher, minha discípula, por exemplo, não tem filhos. E ela chegou a dizer-me: “Eu bendigo a minha esterilidade, que me dá asas para te acompanhar.” E esta outra é mãe de quatro filhos homens e deseja que todos os quatro não sejam mais dela. Não é verdade, Susana e Maria? Tu as estás ouvindo? E tu, casado há poucos anos, com uma mulher fecunda, abençoado com três botões de rosa, que pedem o teu amor, estás assim irritado? Com quem? Por quê? Não queres dizer? Então Eu o digo: porque és um egoísta. Deixa logo o teu rancor. Abre os braços para esta filha, nascida da tua semente, e ama-a. Vem adiante, toma-a –e Jesus pega o pacotinho de linhos, e o coloca nos braços do jovem pai.

Jesus continua a falar:

 Vai à tua mulher, que está chorando, e dize que tu a amas. Senão, Deus, com toda a certeza, não te dará nunca mais um filho homem. Eu te digo. Vai!…

O homem sobe para o quarto onde está a esposa.

 Obrigada, Mestre! –sussurra a sogra–, Ele, desde ontem estava muito cruel…

Ele torna a descer, poucos minutos depois, e diz:

 Já o fiz, Senhor. A mulher te agradece. E diz que eu te pergunte qual vai ser o nome da menina, porque… eu havia escolhido para ela um nome muito feio, naquele ódio injusto em que eu estava…

 -lhe o nome de Maria. Ela bebeu o pranto amargo junto com a primeira gota de leite, amargo pela tua dureza. Por isso, ela pode chamar-se Maria, e Maria a amará. Não é verdade, minha Mãe?

 Sim, pobrezinha dela. É tão bonitinha! E certamente vai ser boa, tornando-se uma das estrelinhas do Céu.

262.5Voltam para a grande sala, onde os apóstolos, cansados, estão dormindo profundamente, menos Iscariotes, que parece estar muito aflito.

 Estarás me esperando, Judas? –pergunta Jesus.

 Não, Mestre. É que eu não consigo dormir, e gostaria de sair um pouco.

 Quem é que te proíbe? Eu também saio. Vou subir para aquele cômoro. Lá há muita sombra. Eu descansarei rezando. Não queres ir comigo?

 Não, Mestre. Eu iria te perturbar, porque não me sinto em condições de rezar. Às vezes, eu não me sinto bem, e isso me perturba…

 Então, fica aí. Eu não forço a ninguém. Adeus. Adeus mulheres. Minha Mãe, quando João de Endor acordar, dize-lhe que vá até Mim, e vá sozinho.

 Sim, meu Filho. A paz esteja contigo.

Jesus sai, Maria e Susana se inclinam para observar o tecido que está no tear. Maria se assenta, com as mãos no colo, ficando um pouco encurvada. Ela também deve estar rezando. Maria de Alfeu fica logo cansada para continuar observando o trabalho. Ela vai sentar-se no canto mais escuro e logo pega no sono. Susana fica pensando em imitá-la.

Ficam despertos Maria e Judas. Ela muito concentrada em seus pensamentos. Ele, que olha para Ela com olhos bem abertos, não a perdendo de vista. Finalmente, ele se levanta e se aproxima lentamente dela, sem fazer barulho. Não sei por que, mas assim mesmo a sua indiscutível beleza me faz pensar em um felino, ou em uma serpente, que se aproxima da presa. Talvez seja a antipatia que eu sinto por ele que me faz vê-lo traiçoeiro e cruel, até em seu modo de andar… Ele a chama em voz baixa: “Maria!”

 Que queres de mim, Judas? –pergunta Maria, e olha para ele com um suavíssimo olhar.

 Eu gostaria de falar-te…

 Fala. Eu estou te ouvindo.

 Aqui, não. Eu não gostaria de ser ouvido… Não gostarias de sair um pouco lá para fora? E lá está escuro…

 Então, vamos. Mas tu estás vendo… Todos estão dormindo… podíamos, pois, falar aqui mesmo –diz a Virgem.

Mas ela se levanta e sai, em primeiro lugar, indo encostar-se a uma sebe alta e florida.

 Que queres de mim, Judas? –torna ela a perguntar, fitando friamente o apóstolo, que se sente um pouco perturbado, e parece estar com dificuldade de encontrar as palavras–. Estás sentindo te mal? Ou terás feito algum mal e não sabes como dizê-lo? Ou talvez estejas te sentindo prestes a fazer o mal e aches difícil confessar que estás tentado? Fala, meu filho. Como já cuidei da tua carne, cuidarei da tua alma. Dize-me o que é que te perturba, e eu, se puder, te tranquilizarei. Se eu não o puder fazer sozinha, irei dizê-lo a Jesus. Ainda que tivesses pecado muito, Ele te perdoará, se eu pedir perdão para ti. O próprio Jesus te perdoaria imediatamente… Mas, talvez dele, do Mestre, te envergonhes. Eu sou uma mãe… Não causo vergonha…

 Sim. Não causas vergonha, porque és uma mãe, e tão boa. És realmente a paz entre nós. 262.6Eu… me sinto muito perturbado. Eu tenho um péssimo caráter, Maria. Eu não sei o que tenho no sangue e no coração. Às vezes eu não sei controlá-los. E nesses casos eu faria as coisas mais estranhas… as piores coisas.

 Mesmo estando perto de Jesus, não consegues resistir a quem te tenta?

 Nem assim. E sofro com isso, podes crer. Mas assim é. Eu sou um infeliz.

 Eu rezarei por ti, Judas.

 Não basta.

 Eu farei que rezem, sem dizer por quem é a oração que eu peço aos justos.

 Não basta.

 Farei que as crianças rezem. Há tantas delas que vêm a mim, no meu jardim, como passarinhos à procura de sementes. E as sementes são as carícias e as palavras que eu lhes dou. Eu lhes falo de Deus… E eles, inocentes, preferem isso aos seus jogos, às histórias. A oração das crianças é agradável ao Senhor.

 Mas nunca como a tua. Mas não basta ainda.

 Direi a Jesus que ore ao Pai por ti.

 Não basta ainda.

 Mas, mais do que isso, não existe. A oração de Jesus vence até aos demônios…

 Sim. Mas Jesus não rezaria sempre. E eu voltaria a ser o que era… Jesus sempre está dizendo que um dia ir-se-à embora. Eu devo pensar como haverá de ser, quando eu ficar sem Ele. Jesus agora quer mandar-nos evangelizar. Eu tenho medo de ir com este meu inimigo, que sou eu mesmo, para espalhar a palavra de Deus. Eu gostaria de me ter preparado para esta hora.

 Mas, meu filho, se achas que nem Jesus consegue, que queres que eu faça?

 Tu, ó Mãe! Deixa-me ficar um pouco de tempo contigo. Contigo estiveram os pagãos e as meretrizes. Eu também posso estar. Se não queres que eu esteja onde tu moras, à noite eu irei dormir na casa de Alfeu e de Maria de Cléofas, mas o dia o passarei contigo, com as crianças. Das outras vezes, eu procurei agir por mim mesmo, e fiquei pior. Se eu for para Jerusalém, lá tenho muitos amigos maus e, nas condições em que me encontro, sempre que se me cria esta situação, eu me torno um objeto de escárnio para eles… Se vou a outra cidade, é a mesma coisa. A tentação do caminho se acende em mim junto com esta que eu já tenho. Se eu vou a Keriot, para perto de minha mãe, a soberba logo me escraviza. Se eu vou para a solidão, o silêncio me dilacera, fazendo-me ouvir as vozes de satanás. Mas em tua casa… Oh! em tua casa já sinto que vai ser diferente! Deixa-me ir para lá! Dize-o a Jesus, que Ele me permita! Queres tu que eu me condene? Tens medo de mim? Ficas olhando para mim com este olhar de gazela ferida, e que não tem mais força para fugir de seus atacantes. Mas eu não te atacarei. Eu também tenho uma mãe… e te amo mais que a minha mãe. Tem piedade de um pecador, Maria. Olha: eu estou chorando a teus pés… Se tu me rejeitas, isso poderá ser a minha morte espiritual…

E Judas chora de verdade, aos pés de Maria, que olha para ele com um olhar de piedade e de angústia, um olhar meio de medo.

Ela está muito pálida. Mas, apesar de tudo, ela dá um passo à frente, pois ela se havia jogado sobre a sebe para escapar de Judas, que se ia aproximando dela demais, e põe uma mão sobre os cabelos trigueiros do Iscariotes.

 Cala-te! Que não te ouçam. Eu falarei a Jesus. E, se Ele quiser, irás para a minha casa. Com o julgamento do mundo eu não me preocupo. Ele não lesa a minha alma. Eu só teria horror de estar sendo culpada diante de Deus. A calúnia me deixa indiferente. Mas eu não serei caluniada, porque toda Nazaré sabe que sua filha não é nenhum escândalo na cidade. E depois, aconteça o que acontecer, o que me preocupa é que te salves em tua alma. Eu irei a Jesus. Fica em paz.

E ela se envolve em seu véu, branco como o seu vestido, e se dirige, ligeira, para um caminho que vai para um cômoro coberto de oliveiras.

262.7Procura o seu Jesus, e o encontra, absorto em profunda meditação.

 Meu Filho, sou eu… Escuta-me!

 Oh! Minha Mãe! Vieste rezar comigo? Que alegria, que consolo me dás!

 Por quê, meu Filho? Estás cansado em tua alma? Estás triste? Dize-o à tua Mãe!

 Cansado, como disseste, e aflito. Não somente pelo cansaço e pelas misérias que Eu vejo nos corações, mas pela persistência em seu estado por parte daqueles que são os meus amigos. Mas Eu não quero ser injusto com eles. Só um deles é que me cansa. E é Judas de Simão…

 Meu Filho, é dele que eu vinha falar-te…

 Ele fez algum mal? Ele te fez sofrer?

 Não. Mas deu-me dó que eu teria se tivesse visto um leproso… Pobre filho! Como está doente em sua alma!

 E tu tens dó dele? Não tens mais medo dele? Há tempo tu o tinhas…

 Meu Filho, a minha piedade é ainda maior do que o meu medo. E eu gostaria de ajudar-te e a salvar a sua alma. Tu tudo podes, e não tens necessidade de mim. Mas Tu dizes que todos devem cooperar com o Cristo em redimir… e este filho está tão necessitado de redenção!

 Que devo fazer mais do que estou fazendo por ele?

 Tu já não podes fazer mais do que fazes. Mas poderás deixar-me agir. Ele me pediu que o deixasse ficar em nossa casa, porque lhe parece que lá ele poderia livrar-se do seu monstro… Tu estás sacudindo a cabeça? Não queres assim? Eu lhe direi…

 Não, minha mãe. Não é que Eu não queira. Eu sacudo a cabeça, porque sei que isso é inútil. Judas é como alguém que está se afogando e que, mesmo percebendo que vai afogar-se, rejeita, por orgulho, a corda que lhe jogaram, para puxá-lo para a margem. De vez em quando, ele, tomado pelo terror de afogar-se, procura e pede ajuda, mas depois a rejeita, e quer agir por si mesmo… e sempre vai ficando mais pesado, por causa da água lamacenta que engole. Mas, para que não se diga que eu deixei de experimentar um remédio, então que também isso se faça, pobre Mãe… Sim, pobre Mãe, que te submetes, por amor de uma alma, ao sofrimento de teres como vizinho a alguém que te faz medo.

 Não, Jesus. Não digas isso. Eu sou uma pobre mulher, pois estou ainda sujeita às antipatias. Censura-me. Eu o mereço. Mas não é por outro motivo que eu sou uma pobre mulher. Oh! Se eu pudesse devolver-te Judas espiritualmente curado! Dar-te uma alma é dar-te um tesouro. E quem dá tesouros não é pobre. Meu Filho!… Posso ir dizer a Judas que sim, que Tu o permites? Tu mesmo o disseste1: “Tempo virá em que tu dirás: ‘Como é difícil ser Mãe do Redentor’.” Eu já o disse uma vez…. por causa da Aglaé… Mas que vale uma vez? A humanidade é tão grande! E Tu, de todos és o Redentor, meu Filho! Meu Filho, assim como eu tive em meus braços aquela pequenina, para levá-la a receber a tua bênção, deixa que eu tenha em meus braços Judas, para trazê-lo para receber a tua bênção…

 Minha Mãe. Minha Mãe… Ele não te merece…

 Meu Jesus, quando Tu estavas titubeando em dar, ou não, Marziam a Pedro, eu te disse que aquilo o teria alegrado. E não podes negar que Pedro se renovou, a partir daquele momento… Deixa-me agir com Judas.

 Seja, pois, como tu queres! E que sejas bendita pela tua intenção de amor para comigo e para com Judas! Agora, vamos rezar juntos, minha Mãe. É tão doce rezar contigo!

262.8… E o pôr do sol apenas havia começado, quando revejo a partida da casa que os havia hospedado.

João de Endor com Hermasteu se despedem de Jesus, logo depois de terem chegado à estrada. Maria, porém, com as mulheres, continua junto com o Filho, indo por um caminho por entre as oliveiras das colinas. Vão conversando. E, naturalmente, os assuntos são os fatos do dia.

Pedro diz:

 Aquele Filipe é um grande doido! Em certos momentos chegava a renegar sua mulher e a filha, se não o chamávamos à compreensão do que é razoável.

 Esperamos, porém, que ele persevere no arrependimento atual, e não torne de novo a agarrar-se com aquele mau humor para com a mulher. No fundo… é pelas mulheres que o mundo vai para a frente –diz Tomé, e muitos se riem de sua saída.

 É mesmo. É verdade. Mas elas são mais imundas do que nós e… –responde Bartolomeu.

 Mas, deixa disso! A respeito do que é imundo!… Nós também não somos uns anjos. Aí está. Eu gostaria de saber se, depois da ressurreição vai continuar a ser assim para a mulher. Somos ensinados a honrar a mãe, a ter o maior respeito para com as irmãs, para com as filhas, as tias, as noras, as cunhadas, e depois… Maldição de cá, maldição de lá! No Templo, não. Aproximar-se delas muitas vezes, não… Eva pecou? Certamente. Mas Adão também pecou. Deus deu a Eva o seu castigo, e é bem severo. Não basta?

 Ora, Tomé! A mulher, até por Moisés foi considerada impura.

 Mas ele, sem as mulheres, teria morrido afogado… Mas tem paciência, Bartolomeu, pois eu quero fazer-te lembrar, ainda que eu não seja doutor como tu, pois sou apenas um ourives, que Moisés cita as impurezas carnais da mulher, a fim de que nós a respeitemos, e não para amaldiçoá-la.

262.9A discussão pega fogo.

Jesus, que estava à frente, justamente com as mulheres, com João e Iscariotes, para, vira-se e intervém:

 Deus tinha diante de Si um povo moral e espiritualmente informe, contaminado por contatos com idólatras. E queria fazer dele um povo forte, no físico e no espírito. Ele lhe deu como preceitos as normas saudáveis para a robustez física e também saudáveis para a honestidade dos costumes. Ele não podia agir de outro modo para refrear as concupiscências masculinas, a fim de que os pecados, pelos quais a terra foi submersa2 e foram queimadas Sodoma e Gomorra, não se repetissem mais. Mas, no tempo futuro, a mulher redimida não será oprimida como o é agora. Continuarão as proibições de prudência física, mas serão tirados os obstáculos para a ida delas ao Senhor. Eu já lhes estou tirando, a fim de preparar as primeiras sacerdotisas do tempo futuro.

 Oh! Então, haverá mulheres sacerdotisas? –pergunta Filipe, meio assombrado.

 Não me entendais mal. Não serão sacerdotisas como os homens, não consagrarão, nem administrarão os dons de Deus, que vós, por enquanto, não podeis saber. Mas pertencerão à classe sacerdotal do mesmo modo, cooperando com os sacerdotes para o bem das almas, de muitos modos.

 Elas pregarão? –pergunta, incrédulo, Bartolomeu.

 Como minha Mãe já está pregando.

 Farão peregrinações apostólicas? –pergunta Mateus.

 Sim, levando a fé até muito longe e, devo dizê-lo, com mais heroísmo do que os homens.

 Elas farão milagres? –pergunta, rindo-se, Iscariotes.

 Algumas farão até milagres. Mas, não vos baseeis no milagre como se ele fosse a coisa essencial. Elas, as mulheres santas, farão também muitos milagres de conversões por meio da oração.

 Hum! As mulheres pregando e chegando a fazer milagres! –resmunga Bartolomeu.

 Não sejas fechado como um escriba, Bartolomeu. Que pensas que é a oração?

 É dirigir-nos a Deus com as fórmulas que sabemos.

 É isto, e mais ainda. A oração é a conversação do coração com Deus, e deveria ser o estado habitual do homem. A mulher, por sua vida mais retirada do que a nossa, e pela sua faculdade afetiva mais forte do que a nossa, e também a de suportar-nos a nós homens, encontra com que enxugar os prantos deles e restituir um sorriso aos seus corações. Porque ela sabe falar com Deus, e mais ainda o saberá no futuro. Os homens serão os gigantes da doutrina, as mulheres serão sempre as que, com sua oração, sustentarão os gigantes e até o mundo, porque muitas desventuras serão evitadas pelas orações delas, e muitos castigos serão retidos. Por isso, elas farão milagres, geralmente invisíveis e conhecidos só por Deus, mas nem por isso irreais.

262.10 Também Tu hoje fizeste um milagre invisível, mas certamente real. Não foi, Mestre? –pergunta Tadeu.

 Sim, meu irmão.

 Era melhor torná-lo visível –observa Filipe.

 Querias que Eu transformasse a pequena em um pequenino? O milagre, na verdade, é uma alteração de coisas já estabelecidas, uma desordem benéfica, que Deus permite para atender à oração do homem, a fim de mostrar-lhe que o ama, e a fim de persuadi-lo que Ele é Quem é. Mas, visto que Deus é a ordem, Ele não viola exageradamente a ordem. A menina nasceu mulher, e mulher fica sendo.

 Eu estava muito aflita esta manhã –suspira a Virgem.

 Por quê? A menina não amada não era tua –diz Susana.

E acrescenta:

 Eu, quando vejo alguma desventura em uma criança, digo: “Ainda bem para mim, que não tenho filhos!”

 Não digas assim, Susana! Isso não é caridade. Eu também poderia dizê-lo, porque a minha única Maternidade se deu ultrapassando as leis naturais. Mas não o digo, porque sempre fico pensando: “Se Deus não me tivesse querido como virgem, talvez aquela semente teria caído em mim, e eu seria mãe deste infeliz”, e por isso tenho piedade de todos… Porque eu digo: “Ele teria podido ser meu filho e, como mãe, eu quereria que todos fossem bons, sadios, amados e amáveis, porque isso é o que desejam as mães para os seus filhos” –responde docemente Maria.

E Jesus parece estar revestindo-a de luz, enquanto está olhando para ela com uns olhares radiantes.

 É por isso que tens piedade de mim… –diz Iscariotes a meia voz.

 De todos. Ainda que fosse do assassino de meu Filho. Porque eu penso que seria o mais necessitado de perdão… e de amor. Porque o mundo todo o odiaria, com certeza.

 Mulher, precisarias cansar-te muito para defendê-lo, e dar-lhe tempo para se converter… Eu daria cabo dele em primeiro lugar… –diz Pedro.

262.11 Chegamos ao lugar da despedida. Minha Mãe, Deus esteja contigo. E contigo, Maria. E também contigo, Judas.

Beijam-se e Jesus ainda acrescenta:

 Lembra-te de que Eu te permiti uma grande coisa, Judas. Usa dela para o teu bem, e não para o mal. Adeus.

E Jesus, com os onze que ficaram e com Susana, vão apressados para o lado do Oriente, enquanto Maria, a cunhada e Iscariotes vão diretamente para casa.

1 disseste, em 157.7; disse, em 168.9.
2 a terra foi submersa¸como se narra emGênesis 6,5-22; 7; queimadas Sodoma e Gomorra, como se narra em Gênesis 19,1-29.


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