346. 346. Primeiro anúncio da Paixãoe reprovação a Simão Pedro.
30 de novembro de 1945.
346.1 Jesus deve ter deixado a cidade de Cesaréia de Filipe às primeiras horas da manhã, porque a esta hora ela já ficou longe, com os seus montes, e a planície já está outra vez ao redor dele, que vai se dirigindo para o lago Meron, de onde seguirá depois para o de Genezaré. Estão com Ele os apóstolos e todos os discípulos que estavam em Cesaréia. Mas, que uma caravana tão numerosa esteja pela estrada, não é para causar admiração em ninguém, porque outras caravanas já vêm aparecendo, dirigindo-se para Jerusalém, tanto de israelitas como de prosélitos, que estão chegando de todos os lugares da diáspora, e que desejam parar, por algum tempo, na Cidade Santa, a fim de ouvirem os rabis e respirar, por um tempo mais prolongado, o ar do Templo.
Vão indo depressa, expostos a um sol bem alto, mas que, por enquanto, não lhes causa aborrecimento, porque é um sol de primavera, que brinca com as frondes ainda novas e com os ramos floridos, fazendo aparecer flores e mais flores de todos os lados. A planície, que vem antes do lago, é um verdadeiro tapete florido, e nossos olhos, voltando-se para as colinas que a circundam, as vêem salpicadas de moitas brancas, levemente rosadas, ou de um róseo firme, ou quase vermelho, conforme as diferentes árvores frutíferas, e vão passeando pelas raras casas dos camponeses, ou pelos postos de veterinários, semeados aos lados da estrada. Nossa vista se alegra com os primeiros roseirais floridos, ao longo das sebes, ou junto às paredes das casas.
– Os jardins de Joana devem estar todos floridos –observa Simão Zelotes.
– Também o jardim de Nazaré deve estar parecendo um cesto cheio de flores. Maria é como uma laboriosa abelha, que vai de uma a outra roseira, e destas aos jasmins, que logo também estarão floridos, aos lírios, que já estão com o botão sobre a haste, e vai apanhar o ramo de amendoeira, como sempre faz, ou melhor, agora vai apanhar o da pereira ou da macieira, para colocá-lo na ânfora, em seu pequeno quarto. Quando éramos pequenos, nós lhe perguntávamos cada ano: “Por que conservas sempre ali um ramo de árvore florido e não as primeiras rosas?” E Ela nos respondia: “Porque sobre aquelas pétalas eu vejo escrita uma ordem de Deus, e sinto o odor puro da aragem celeste.” Tu te lembras disso, Judas? –pergunta Tiago a seu irmão.
– Sim, eu me lembro. E me lembro também que, tendo-me tornado homem, eu ficava ansioso, esperando a primavera, para ir ver Maria caminhando pelo seu jardim, por baixo das nuvens de suas árvores em flor, e por entre as sebes cobertas pelas primeiras rosas. Eu nunca tinha visto espetáculo mais lindo do que o daquela eterna menina, voejando por entre as flores, por entremeio aos vôos dos pombos.
346.2 – Oh! Vamos logo vê-la, Senhor! Que eu possa também ver tudo isso! –suplica Tomé.
– Basta que apressemos a marcha, e paremos bem pouco, para chegarmos em tempo a Nazaré –responde Jesus.
– Vais mesmo dar-me este prazer, Senhor?
– Sim, Tomé. Iremos todos a Betsaida, e depois a Cafarnaum. E lá nos separaremos, indo nós de barca para Tiberíades, e depois para Nazaré. Assim, cada um, menos vós judeus, poderemos vestir-nos com vestes mais leves. O inverno terminou.
– Sim. E nós iremos dizer1 à Pomba: “Levanta-te, apressa-te, ó minha querida, e vem, porque o inverno já passou, a chuva acabou, as flores já estão na terra… Levanta-te, ó minha amiga, mostra-me o teu rosto e faze-me ouvir a tua voz, ó Pomba que estás escondida.”
– Bravo João. Pareces um namorado que canta a sua canção para sua bela! –diz Pedro.
– Eu o sou. De Maria eu o sou. Não verei outras mulheres que despertem o meu amor. Somente Maria, a amada por todo o meu ser.
– Eu também assim dizia, faz um mês. Não é verdade, Senhor? –diz Tomé.
– Eu creio que todos nós estamos enamorados por Ela. Um amor muito alto, muito celestial!… Um amor que só aquela mulher pode inspirar. E nossa alma ama completamente a alma dela, nossa mente ama e admira a sua inteligência, nossos olhos olham e se felicitam, por verem a graça pura dela, que produz prazer, mas sem nenhum frêmito, assim como quando se olha para uma flor… Maria é a beleza da terra, e eu acho que é a Beleza do Céu –diz Mateus.
– É verdade! É verdade! Todos nós vemos em Maria tudo o que há de mais amável em uma mulher. Foi uma menina pura, e é Mãe amabilíssima. E não sabemos se a amamos mais por uma ou por outra graça… –diz Filipe.
– Nós a amamos, porque é “Maria.” Pronto! –sentencia Pedro.
346.3 Jesus os ouviu falar, e diz:
– Todos vós dissestes bem. E muito bem Simão Pedro. Ama-se Maria porque ela é “Maria.” Eu vos disse, quando íamos indo para Cesaréia, que somente os que unirem uma fé perfeita com um perfeito amor é que conseguirão saber o verdadeiro significado destas palavras: “Jesus, o Cristo, o Verbo, o Filho de Deus é Filho do homem.” Mas agora também, Eu vos digo que existe um outro nome cheio de significados. É o de minha Mãe. Somente aqueles que unirem uma perfeita fé a um perfeito amor, é que conseguirão saber qual o significado verdadeiro do nome “Maria”, da Mãe do Filho de Deus. E o verdadeiro significado começará a aparecer claro aos verdadeiros crentes e aos verdadeiros amorosos, em uma hora de tremenda aflição, quando a Genitora irá ser supliciada junto com seu Filho, quando a Redentora redimirá com o Redentor, aos olhos de todo o mundo, e por todos os séculos dos séculos.
– Quando? –pergunta Bartolomeu, enquanto os outros estão parados às margens de um córrego de águas boas, no qual muitos dos discípulos se puseram a beber.
– Vamos parar aqui para partirmos o pão. O sol está a meio-dia. À tarde, estaremos ao lado do lago Meron, e poderemos encurtar o caminho por meio das barquinhas –respondeu Jesus, evitando o assunto.
Assentam-se todos sobre a erva baixa, tenra e morna por causa do sol, sobre as beiras do córrego, e João diz:
– É uma pena machucar estas florzinhas tão gráceis. Parecem uns pedacinhos de céu, que caíram sobre os prados.
São centenas e centenas de miosótis.
– Eles renascerão mais bonitos amanhã. E florescerão para fazerem da gleba uma sala de banquete para o seu Senhor –consola-o Tiago, seu irmão.
Jesus oferece e abençoa a comida, e todos se põem a comer com alegria. Os discípulos, como uns outros tantos girassóis, estão todos olhando para o lado de Jesus, que está sentado no meio da fileira de seus apóstolos.
346.4 A refeição logo se acaba, temperada com serenidade e água pura. Mas, uma vez que Jesus continua sentado, ninguém sai. Eles ainda lhe estão fazendo perguntas sobre tudo o que Ele disse antes, a respeito de sua Mãe.
– Sim. Porque o ser ela minha Mãe pela carne, já seria uma coisa grandiosa. Pensai que Ela nos faz lembrar de Ana de Elcana, que foi mãe de Samuel. Mas ele não foi um profeta. No entanto, a mãe dele é lembrada por tê-lo gerado. Por isso, lembrada, e com altíssimos louvores, haverá de ser Maria, por ter dado ao mundo Jesus, o Salvador. Mas seria pouco, considerando-se o muito que Deus exige dela, para completar a medida exigida para a redenção do mundo. Maria não decepcionará o desejo de Deus. Ela nunca o decepcionou. Desde as exigências de um amor total até às de um sacrifício total, Ela se doou e se doará. E, quando tiver consumado o maior dos sacrifícios, comigo e por Mim e pelo mundo, aí é que os verdadeiros fiéis e os verdadeiros amorosos compreenderão o verdadeiro significado do seu nome. E, pelos séculos dos séculos, para todo verdadeiro fiel, para todo verdadeiro amoroso, será concedido que o possam saber. O Nome da Grande Mãe, da Santa Nutriz, que amamentará pelos séculos dos séculos os filhos de Cristo, com o seu pranto, a fim de fazê-los crescer para a vida dos Céus.
– Falaste em pranto, Senhor? Tua Mãe deverá chorar? –pergunta Iscariotes.
– Todas as mães choram. E a minha chorará mais do que qualquer outra.
– Mas, por quê? Eu fiz que a minha chorasse, lá alguma vez, porque não sou sempre um bom filho. Mas Tu! Tu nunca dás desgosto à tua Mãe.
– Não. Eu, de fato, não lhe dou desgosto como Filho. Mas muita dor lhe darei como Redentor. Dois serão os que hão de fazer chorar a minha Mãe, com um choro sem fim: Eu, para salvar a Humanidade, e a humanidade com o seu contínuo pecar. Todos os homens que já viveram, os que estão vivendo, e os que ainda viverem custam lágrimas a Maria.
– Mas, por quê? –pergunta espantado, Tiago de Zebedeu.
– Porque cada homem me custa torturas para redimi-lo.
– Mas, como podes dizer isso daqueles que já morreram, ou que não nasceram ainda? Os que te farão sofrer são os que estão vivos, os escribas, os fariseus, os saduceus, com suas acusações, seus ciúmes, sua malvadez. Mas outros não, fora esses –diz com segurança Bartolomeu.
– João Batista também foi morto… e não é ele o único profeta que Israel matou, nem o único sacerdote do querer eterno, morto, porque odiado pelos que desobedecem a Deus.
– Mas Tu és mais do que um profeta e do que o próprio João Batista, teu Precursor. Tu és o Verbo de Deus. A mão de Israel não se levantará contra Ti –diz Judas Tadeu.
– Achas que vai ser assim, meu irmão? Pois estás errado –respondeu-lhe Jesus.
– Não. Não pode ser. Isso não pode acontecer! Deus não o permitirá! Seria aviltar para sempre o seu Cristo!
Judas Tadeu está tão agitado, que se põe em pé.
Jesus também o imita, e olha fixamente para o seu rosto empalidecido, mas com olhos sinceros. E lhe diz devagar:
– No entanto, assim será –e abaixa o braço direito, que estava erguido, como se Ele estivesse jurando.
346.5 Todos se levantam e se apinham ainda mais ao redor dele, formando uma coroa de rostos compadecidos, mas mais incrédulos ainda e, através do grupo, passa este murmúrio:
– É certo… Se fosse assim… Tadeu teria razão.
– Aquilo que aconteceu com Batista é um mal. Mas, afinal, exaltou aquele homem, que foi um herói até o fim. Se isso acontecesse com o Cristo, seria para Ele um rebaixamento.
– Cristo pode ser perseguido, mas não rebaixado.
– A unção de Deus está nele.
– Quem poderia crer ainda, se te vissem entregue ao arbítrio dos homens?
– Nós não o permitiremos!
O único que fica calado é Tiago de Alfeu. E seu irmão o interpela:
– Não dizes nada? Não te moves? Não estás ouvindo? Defende o Messias que está contra Si mesmo!
Tiago dá como resposta levar as mãos ao rosto, e afastar-se um pouco para chorar.
– É um tolo! –diz seu irmão.
– Talvez o seja menos do que tu achas –responde-lhe Hermasteu.
E continua:
– Ontem, ao explicar a profecia, o Mestre falou de um corpo desfeito, que se reintegra, e de um que por si mesmo se ressuscita. Eu acho que ninguém pode ressuscitar, se antes não tiver morrido.
– Mas pode morrer de morte natural, de velhice. E isso já é muito para o Messias! –replica Tadeu, e muitos lhe dão razão.
– Sim, mas nesse caso não seria um sinal dado a esta geração, que é muito mais velha do que Ele –observa Simão Zelotes.
– Isto é verdade. Mas não está dito que Ele fale de Si mesmo –responde Tadeu, insistindo em seu amor e em seu respeito.
– Ninguém, a não ser o Filho de Deus, pode ressuscitar-se por si mesmo, assim como ninguém, a não ser o Filho de Deus pode ter nascido como Ele nasceu. Eu o digo, eu que vi a glória do seu nascimento –diz Isaque, dando um testemunho seguro.
Jesus, com os braços cruzados, ouviu-os falar, olhando para cada um por sua vez. Agora Ele faz sinal de que vai falar, e diz:
– O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens, porque Ele é o Filho de Deus, mas também é o Redentor do homem. E não há redenção sem sofrimento. O meu sofrimento vai ser no corpo, na carne e no sangue, para reparar os pecados da carne e do sangue. Será moral, para reparar os pecados da mente e das paixões. Será espiritual, para reparar as culpas do espírito. Será completo! Por isso, na hora marcada, Eu vou ser preso em Jerusalém e, depois de já ter sofrido muito, por culpa dos Anciãos e dos Sumos Sacerdotes, dos escribas e dos fariseus, serei condenado à morte infamante. E Deus deixará que o façam, porque assim deve ser, sendo Eu o Cordeiro de expiação pelos pecados de todo o mundo. E, em um mar de angustias, compartilhado por minha Mãe e por poucas outras pessoas, Eu morrerei no patíbulo e, três dias depois, somente por meu poder divino, ressuscitarei para a vida eterna e gloriosa, como Homem, e voltarei a ser Deus no Céu2, com o Pai e o Espírito Santo. Mas, antes disso, terei que padecer, sofrendo todos os opróbrios, e ter meu coração traspassado pela Mentira e pelo ódio.
346.6 Um coro de gritos escandalizados se levanta, através do ar morno e perfumado da primavera.
Pedro, com um rosto perturbado, e escandalizado também ele, pega a Jesus por um braço, e o leva um pouco para um lado, dizendo-lhe baixinho, ao ouvido:
– Nunca, Senhor! Não digas uma coisa destas. Não fica bem. Não estás vendo? Eles estão escandalizados. Tu cais no conceito deles. Por nenhuma coisa do mundo podes permitir isso. E uma coisa assim não te acontecerá nunca. Por que, então ficas falando dela, como se fosse verdade? Tu precisas crescer sempre mais no conceito dos homens, se queres tornar-te forte, e deves terminar, talvez, com um último milagre como, por exemplo, reduzindo a cinzas os teus inimigos. Mas nunca rebaixar-te, nem te tornares igual a um malfeitor que é castigado.
E Pedro até parece um mestre ou um pai aflito que censura, amorosamente angustiado, a um filho que falou alguma tolice.
Jesus, que estava um pouco inclinado, para escutar o cochicho de Pedro, ergue-se severo, com uns olhos relampejantes, mas cheios de irritação, e grita alto, para que todos o ouçam, e a lição sirva para todos:
– Vai para longe de Mim, tu que, neste momento, és um satanás, aconselhando-me a deixar de obedecer a meu Pai! Para isso é que Eu vim! Não para receber honras! Tu, ao me aconselhares a ser soberbo, a ser desobediente e a usar de um rigor sem caridade, tentas seduzir-me a fazer o mal. Vai! Tu me escandalizas! Tu não compreendes que a grandeza está, não nas honras, mas no sacrifício, e que pouco importa parecer um verme aos olhos dos homens, quando Deus nos julga como homens? Tu, um homem estulto, não compreendes o que é grandeza para Deus e as razões de Deus, e vês, julgas e falas com meios humanos.
O pobre Pedro fica aniquilado, censurado com uma repreensão tão severa.
E ele se afasta, humilhado, e põe-se a chorar… Já não é aquele pranto alegre de poucos dias antes. Mas um pranto sem consolo de quem compreende que pecou e que entristeceu a quem ama. E Jesus o deixa chorar. Depois, tira as sandálias, arregaça as vestes, e passa a vau o córrego. Os outros o imitam em silêncio. Ninguém tem coragem de dizer mais nada. Atrás de todos vai o pobre Pedro, que em vão está sendo consolado por Isaque e por Zelotes.
346.7André se vira mais de uma vez, a fim de olhar para ele, e depois murmura qualquer coisa a João, que está muito aflito. Mas João sacode a cabeça, como quem diz que não.
Então, André cria coragem. Corre para frente. Chega perto de Jesus. E o chama em voz baixa, parecendo estar tremendo:
– Mestre! Mestre!…
Jesus deixa que ele o fique chamando muitas vezes. Afinal, Ele se vira, muito sério, e pergunta:
– Que queres?
– Mestre, meu irmão está aflito… e chorando…
– Ele o mereceu.
– É verdade, Senhor. Mas ele não é mais do que um homem… Não pode falar sempre certo.
– De fato, hoje ele falou muito mal –responde Jesus.
Mas Jesus já está menos sério, e uma centelha de sorriso já vem abrandando o seu olhar divino.
André se desabafa e aumenta a defesa que está fazendo do seu irmão:
– Mas Tu és justo, e sabes que o amor que ele tem a Ti é o que o faz errar…
– O amor deve ser luz, e não trevas. Ele o transformou em trevas, e com elas enfaixou o seu espírito.
– É verdade, Senhor. Mas as faixas, podemos tirá-las, quando quisermos. Não são a mesma coisa que ter o espírito cheio de trevas. As faixas estão no exterior. O espírito está no interior, é um núcleo vivo… E o interior do meu irmão está bom.
– Que ele tire, então, as faixas que sobre ele colocou.
– Certamente ele vai fazer isso, Senhor! E já o está fazendo. Vira-te, e olha para ele, e vê como ele está desfigurado de tanto chorar, porque Tu não o consolas. Porque és severo assim com ele?
– Porque ele tem a obrigação de ser ele “o primeiro”, como Eu lhe dei a honra de ser. Quem muito recebe, muito deve dar…
– Oh! Senhor! Sim, é verdade. Mas, não te lembras de Maria de Lázaro? Nem de João de Endor? De Aglaé? Da Beldade de Corozaim? De Levi? A estes Tu deste tudo… e eles não te haviam dado ainda nada mais do que a intenção de se redimirem… Senhor!… Tu me ouviste em favor da Beldade de Corozaim e de Aglaé. Não me ouvirias em favor do teu e meu Simão, que pecou por ter amor a Ti?
Jesus abaixa o olhar para o manso que se torna corajoso, e que faz pressão em favor do seu irmão, como a fez, silenciosamente, em favor de Aglaé e da Beldade de Corozaim, e o rosto de Jesus se enche de luz:
– Vai chamar-me o teu irmão –diz Ele–, e traze-o aqui.
– Oh! Obrigado, meu Senhor! Eu vou…
E sai correndo, rápido como uma andorinha.
346.8 – Vem cá, Simão. O Mestre não está mais encolerizado contra ti. Vem que Ele quer te izer isso.
– Não, não. Eu estou com vergonha… Faz muito pouco tempo que Ele me repreendeu… Ele deve estar querendo que eu vá para me repreender de novo…
– Como tu o conheces mal! Vamos, vem! Achas que eu te estaria levando a um outro sofrimento? Se eu não estivesse certo de que o que lá te espera é uma alegria, não estaria insistindo contigo. Vem.
– Mas o que eu lhe haverei de dizer? –diz Pedro, encaminhando-se para ir, mas um pouco de má vontade, refreado pela sua natureza humana, mas incentivado pelo seu espírito, que não suporta ficar sem a condescendência de Jesus e sem o seu amor–. Que é que eu irei dizer a Ele? –continua a perguntar.
– Não terás que dizer nada. Mostra-lhe o teu rosto e isso bastará –encoraja-o seu irmão.
Todos os discípulos, à medida que os dois vão passando por eles, olham para os dois irmãos e sorriem, compreendendo o que é que está acontecendo.
Já estão junto a Jesus. Mas no último momento Pedro pára de andar. André não tem dúvidas: dá-lhe um enérgico empurrão, como aqueles que costumava dar a uma barca para que ela se apartasse da terra, e assim ele faz que Pedro seja lançado para frente. Jesus fica parado. Pedro levanta o seu olhar… Jesus abaixa o seu olhar… Eles olham um para o outro. Duas grandes lágrimas estão descendo pelas faces enrubescidas de Pedro…
– Vem cá, meu meninão sem juízo, para que eu te sirva de pai, enxugando essas lágrimas –diz Jesus, e levanta a mão, na qual ainda está bem visível o sinal da pedrada de Gíscala, e enxuga com os seus dedos as duas lágrimas.
– Oh! Senhor! Já me perdoaste? –pergunta, tremendo, Pedro, agarrando a mão de Jesus em suas mãos, e olhando para Ele com os dois olhos de um cão fiel, que quer ser perdoado por um dono zangado.
– Eu nunca te puni com a condenação.
– Mas antes…
– Eu te amei. É amor não permitir que em ti criem raízes os desvios do sentimento e da sabedoria. Deves ser o primeiro em tudo, Simão Pedro.
– Então… então, Tu ainda me queres bem? Não que eu queira o primeiro lugar, sabes? Basta-me até mesmo o último, contanto que eu esteja contigo, a teu serviço… morrer em teu serviço, Senhor, meu Deus!
Jesus lhe passa o braço pelas costas, e o aperta ao seu lado. Então, Simão, que está ainda agarrando a mão de Jesus, a cobre de beijos… todo feliz. E murmura:
– Quanto eu sofri… Obrigado, Jesus.
– Agradece antes ao teu irmão. E, para o futuro, fica sabendo transportar o teu peso com justiça e heroísmo. 346.9Vamos esperar os outros. Onde estão eles?
Eles estão parados no lugar onde estavam, quando Pedro chegou perto de Jesus, para deixarem livre o Mestre, a falar ao seu apóstolo humilhado. Jesus lhes faz sinal para que venham para frente. E com eles estão uns camponeses que haviam parado de trabalhar nos campos, para irem fazer perguntas aos discípulos.
Jesus, conservando sempre a mão sobre o ombro de Pedro, diz:
– Por tudo o que aconteceu, vós tereis compreendido, que é uma coisa muito séria estardes a meu serviço. Eu lhe dei uma repreensão. Mas ela era para todos. Porque aqueles mesmos pensamentos estavam na maioria dos corações, ou já bem formados, ou somente em semente. Assim, Eu vo-los cortei. E quem os cultivar ainda, mostra que não compreende a minha Doutrina, a minha Missão, a minha Pessoa.
Eu vim para ser o Caminho, a Verdade e a Vida. Eu vos dou a Verdade, com aquilo que Eu vos ensino. Eu vos aplaino o Caminho, com meu sacrifício, e o traço para vós, e vo-lo mostro. Mas a vida, Eu vo-la dou, com a minha Morte. E lembrai-vos de que quem quer que corresponda ao meu chamado, e se coloque em minhas fileiras para cooperar na redenção do mundo, deve estar pronto a morrer para dar aos outros a Vida. Por isso, quem quiser vir atrás de Mim, deve estar pronto a renegar-se a si mesmo, ao seu velho “eu” com suas paixões, tendências, costumes, tradições e pensamentos, para acompanhar-me com o seu novo “eu”.
Tome cada um a sua cruz, como Eu irei tomar a minha.Tome-a, por mais infamante que ela pareça ser. Deixe que o peso da sua cruz esmague o seu “eu” humano, para livrar o “eu” espiritual, ao qual a cruz não causa horror, mas, pelo contrário, é objeto de apoio e de veneração, porque o espírito sabe e se lembra. E, com a sua cruz, Me siga. Esperá-lo-á, no fim do caminho, a morte ignominiosa, como a que Me espera? Não importa. Não se aflija, mas se rejubile, porque a ignomínia da terra se transformará em grande glória no Céu, enquanto que será uma desonra o ser covarde, frente aos heroísmos espirituais. Vós sempre dizeis que quereis seguir-me até a morte. Segui-me, então, e Eu vos conduzirei ao Reino, por um caminho áspero, mas santo e glorioso, ao termo do qual conquistareis a Vida sem mudanças, para sempre. Isto será “viver”. Mas, ao contrário, seguir os caminhos do mundo e da carne, é “morrer”. De modo que, se alguém quiser salvar a sua vida nesta terra, a perderá. Enquanto que o que perder a sua vida nesta terra por causa de Mim, e por amor ao Evangelho, a salvará. Mas, considerai: que adiantará ao homem ganhar todo este mundo, se depois ele perder a sua alma?
346.10 E ainda, guardai-vos bem, agora e no futuro, de envergonhar-vos das minhas palavras, no meio da geração estulta, adúltera e pecadora, da qual Eu falei, e esperando receber dela proteção ou vantagens, começar a adulá-la e a renegar a Mim e à minha Doutrina e, lançando as palavras que tinham nas gargantas imundas de uns porcos e de uns cães, para receber deles, em pagamento excrementos em lugar de moedas, será julgado pelo Filho do homem, quando Ele vier na glória do seu Pai, com os anjos e com os santos para julgar o mundo. Ele, então, se envergonhará desses adultos e fornicadores, desses covardes e usurários, e os expulsará do seu Reino, porque não há lugar na Jerusalém celeste para os adúlteros e fornicadores, os blasfemadores e os ladrões. E, em verdade, Eu vos digo que há alguns presentes que não passarão pela morte, antes de terem visto o Reino de Deus ser fundado, como seu Rei coroado e ungido.
Começam de novo a andar, conversando animadamente, enquanto o sol, pouco a pouco, vai descendo para o ocidente.
1 dizer, como em: Cântico dos Cânticos 2,10-14. 2 voltarei a ser Deus no Céu, que não é mais Deus na Terra (o Filho permaneceu unido com o Pai), mas Deus no Céu (O Filho que retornou ao Pai), como explicado nas notas 342.5. A expressão é semelhante à registrada em João 16,28: “Eu vim do Pai e vim ao mundo, agora deixo o mundo e vou para o Pai”, e é consistente com a formulação do Credo: “Porque eu desci do céu,… subiu aos céus e está sentado à direita do Pai”.1
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