629. 629. Aparição aos apóstolos com Tomé.Discurso sobre a dignidade do sacerdócioe sobre os futuros sacerdotes.


9 agosto de 1944

[…]

629.1Os apóstolos estão reunidos no Cenáculo. Ao redor da mesa na qual foi consumada a Páscoa. Porém, por respeito, o lugar central — o de Jesus — foi deixado vazio.

Também os apóstolos, agora que não há quem os concentre e distribua por própria vontade ou por amorosa escolha, foram se colocando de modo diferente. Mas Pedro está ainda em seu lugar. Contudo, no lugar de João agora está Judas Tadeu. Depois vem o mais ancião dos apóstolos, que eu não sei ainda quem1 é, depois vem Tiago, irmão de João, que está quase no canto da mesa do lado direito, olhando-se daqui onde eu estou. Perto de Tiago, mas do lado mais curto da mesa, está sentado João. Depois de Pedro, para o lado contrário, vem Mateus e, depois dele, Tomé; depois um, cujo nome eu não sei, depois André, depois Tiago, irmão de Judas Tadeu, e depois um outro, cujo nome eu não sei, do outro lado. O lado do comprimento, que fica em frente a Pedro está vazio, estando os apóstolos mais próximos em suas cadeiras do que foi pela Páscoa.

As janelas estão trancadas e as portas também. A lamparina, acesa somente em dois bicos, derrama uma luz fraca somente sobre a mesa. O resto do vasto salão está na penumbra.

João, que tem atrás de si uma credência, está encarregado de servir aos companheiros de tudo o que desejam dos seus parcos alimentos, compostos de peixe, que já está sobre a mesa, pão, mel e uns queijinhos frescos. E é justamente quando ele se vira de novo para a mesa, a fim de passar ao irmão o queijo que ele pediu, que João vê o Senhor.

629.2Jesus apareceu de um modo muito curioso. O muro atrás das costas dos comensais, uma peça única exceto no canto da pequena porta, iluminou-se no centro, a uma altura de um metro do chão aproximadamente, com uma luz tênue e fosforescente, como a luz que emana de certos quadrinhos que se iluminam somente na escuridão da noite. A luz, alta quase dois metros, tem a forma oval, como se fosse um nicho. Na luminosidade, como se avançasse de detrás de véus de névoa luminosa, Jesus emerge cada vez mais nitidamente.

Não sei se consigo explicar bem. Fica parecendo que o corpo Dele flui através da espessura da parede. Mas ela não se abre. Fica sempre compacta, mas seu Corpo passa facilmente. A luz parece ser a primeira emanação do seu corpo, o sinal de que Ele se aproxima. O Corpo de antes agora é formado por leves linhas de luz, do mesmo modo como eu vejo no Céu o Pai e os santos Anjos: é um corpo imaterial. Depois ele vai se materializando cada vez mais, tomando completamente, afinal, o aspecto de um corpo real. Do seu divino Corpo glorificado.

Eu levei muito tempo para descrever, mas a coisa aconteceu em poucos segundos.

Jesus está vestido de branco, como quando ressuscitou e apareceu à sua Mãe. Está belíssimo, amoroso e sorridente. Está com os braços ao longo dos lados do corpo, um pouco afastados dele, com as Mãos para o chão e com as palmas viradas para os apóstolos. As suas Chagas das Mãos parecem duas estrelas de diamantes, das quais partem dois raios vivíssimos. Não estou vendo seus Pés, cobertos pelas vestes, nem o seu Lado. Mas do tecido de sua veste, que não é terrena, transparece luz nos lugares onde ela está cobrindo as divinas feridas. No princípio parece que Jesus seja um Corpo de candor lunar; depois, quando Ele se concretiza, aparecendo fora do halo de luz, tem as cores naturais nos seus cabelos, nos olhos e na pele. Afinal, é Jesus, Jesus Homem Deus, mas que se tornou mais solene, agora que ressuscitou.

629.3João o vê quando Ele já está assim. Nenhum outro havia percebido a aparição. João se levanta de repente, deixando cair sobre a mesa o prato de queijos redondos e, apoiando as mãos na beira da mesa, inclina-se um pouco para ela, obliquamente, como se um ímã o atraísse, e deixa escapar um “Oh!” em voz baixa, mas muito intenso.

Os outros, que haviam levantado os olhos de cima dos seus pratos quando o prato de queijos caiu fazendo barulho, e pelo salto de João, ficaram olhando-o espantados; e, vendo a posição extática dele, acompanham-no com os seus olhares. Giram a cabeça ou sobre si mesmos, conforme o lugar em que estão em relação ao Mestre, e aí é que eles veem Jesus. Todos se põem de pé, comovidos e felizes, e correm para Ele que, acentuando o sorriso, vai para perto deles, caminhando agora pelo chão como todos os mortais.

Jesus, que antes olhava somente para João — e eu acho que este se tenha virado, atraído por aquele olhar que o acariciava — olha para todos e diz:

– A paz esteja convosco.

Todos agora estão ao redor dele, uns de joelhos diante de seus pés, e entre esses estão Pedro e João — alias, João beija uma ponta da veste e a põe sobre o seu rosto como que para ser acariciado — enquanto os outros estão atrás, alguns inclinados, em um ato de respeito.

Pedro, querendo chegar perto mais depressa, deu um verdadeiro pulo por cima da cadeira, saltando sobre ela, sem esperar que Mateus, que saiu por primeiro, deixasse livre o lugar. É preciso lembrar que os bancos eram daqueles em que podiam sentar-se duas pessoas de cada vez.

629.4O único que fica um pouco mais atrás, embaraçado, é Tomé. Ele ajoelhou-se perto da mesa. Não ousa ir para a frente e parece até que queira se esconder atrás do canto da mesa.

Jesus, estendendo suas mãos para que as beijem — pois os apóstolos as buscam com ansiedade santa e amorosa — corre o olhar por cima das cabeças inclinadas como se estivesse procurando o undécimo. Mas Ele já o viu desde o primeiro momento, e só faz assim para dar tempo a Tomé para criar coragem e aparecer. E vendo que o incrédulo está com vergonha por sua falta de fé e que ainda não tem coragem, chama-o:

– Tomé, vem cá.

Tomé levanta a cabeça, confuso, quase chorando, mas não ousa vir. Abaixa a cabeça novamente.

Jesus faz alguns passos em sua direção e diz outra vez:

– Tomé, vem cá.

A voz de Jesus está mais imperiosa do que na primeira vez.

Tomé se levanta, relutante e confuso, e vai até Jesus.

– Eis aqui aquele que não crê se não vê! –exclama Jesus. Mas sua voz vem com um sorriso de perdão.

Tomé o ouve, cria coragem de olhar para Jesus ao ver que Ele está sorrindo mesmo, e decide ir mais depressa.

– Vem cá, bem perto de mim. Olha. Vem pôr o teu dedo aqui, se é que não te basta olhar, põe-no nas feridas de teu Mestre.

Jesus estendeu as Mãos e depois abriu suas vestes no peito, descobrindo a ferida do Lado. Agora a luz não emana mais das Feridas. Não emana mais desde que Ele, tendo saído daquele halo de luz lunar, pôs-se a caminhar como um homem mortal, e as feridas aparecem em sua sangrenta realidade: são dois furos irregulares, dos quais o esquerdo vai até o polegar, atravessam o pulso e a palma em sua base; e se vê um corte longo que, em sua parte superior, parece ter a forma de um acento circunflexo. É a ferida do Lado.

Tomé treme, olha, mas não toca. Move os lábios, mas não consegue falar claramente.

– Dá-me tua mão, Tomé –diz Jesus com muita doçura.

E pega, com sua mão direita a mão direita do apóstolo, segura o indicador dela e o leva até o furo de sua Mão esquerda, enfiando-o bem dentro dele, a fim de fazê-lo compreender que a palma da mão foi atravessada. Depois leva a mão dele ao Lado, ou melhor, pega os quatro dedos pela base, no metacarpo, e leva-os até o rasgão do Peito, enfiando-os também na ferida. Não se limita a apoiá-los na beirada, mas os segura lá dentro, olhando fixamente para Tomé.

Com um olhar severo, mas benigno, Jesus vai dizendo:

– Coloca aqui o teu dedo, põe os teus dedos e a mão no meu Lado, se quiseres, e não sejas mais incrédulo, mas fiel.

Isso Ele ia dizendo, à medida que ia fazendo o que eu disse antes.

Tomé — parece que a proximidade do Coração divino, que ele quase toca, tenha-lhe dado coragem — consegue finalmente falar e pronunciar as palavras. Caindo de joelhos, com os braços levantados, num acesso de choro de arrependimento, diz:

– Meu Senhor e meu Deus!

E não consegue dizer mais nada.

Jesus o perdoa. Põe-lhe a mão direita sobre a cabeça e responde:

– Tomé, Tomé! Agora crês porque viste… Mas felizes aqueles que crerão em Mim sem terem visto! Que prêmio Eu deverei dar a eles, se devo premiar a vós, cuja fé teve que ser socorrida pela força de ver?…

629.5Depois Jesus coloca o braço sobre as costas de João, pegando as mãos de Pedro, e se aproxima da mesa. Senta-se em seu lugar. Agora estão dispostos como na noite de Páscoa. Porém, Jesus quer que Tomé se sente depois de João.

– Comei, meus amigos –diz Jesus.

Mas nenhum deles tem fome. A alegria os sacia. A alegria de contemplar.

Então, Jesus pega os queijinhos que ficaram espalhados, ajunta-os em um prato, corta-os e os distribui, e Ele dá o primeiro pedaço justamente a Tomé, pondo-o sobre um pedaço de pão e passando-o por detrás das costas de João; derrama o vinho das ânforas para o cálice e o entrega aos seus amigos: desta vez é Pedro o primeiro a ser servido. Em seguida, faz que lhe entreguem uns favos de mel e os reparte, dando em primeiro lugar um pedaço a João, com um sorriso que é mais doce do que o mel dourado. E, para encorajá-los, Ele também come. Mas só prova o mel.

João, conforme o seu costume, apoia a cabeça sobre o ombro de Jesus, e Jesus o aperta contra o Coração, e fala conservando-o assim.

629.6– Não deveis perturbar-vos, amigos, quando Eu apareço a vós. Sou sempre o vosso Mestre, que partilhou convosco o alimento e o sono, e que vos elegeu porque vos amou. Ainda agora vos amo.

Jesus frisa bem essas últimas palavras.

– Vós –continua Ele–, estivestes comigo nas provações… Estareis também comigo na glória. Não baixeis a cabeça. Na noite do domingo, quando apareci a vós pela primeira vez depois de minha Ressurreição, infundi em vós o Espírito Santo… que sobre ti também, que não estavas presente, desça o Espírito… Não sabeis que a infusão do Espírito Santo é como um batismo de fogo, porque o Espírito é amor, e o amor anula as culpas? O pecado que cometestes, quando me abandonastes, já vos foi perdoado.

Ao dizer isso, Jesus beija a cabeça de João, que não o abandonou. João chora de alegria.

– Eu vos dei o poder de perdoar os pecados. Mas não se pode dar aquilo que não se possui. Vós deveis estar certos de que este poder Eu o possuo perfeitamente, e faço uso dele sobre vós, que deveis estar perfeitamente limpos, a fim de poderdes limpar os que vierem a vós, sujos pelo pecado. Como poderia2 alguém julgar e purificar se merecesse a condenação e fosse impuro? Como poderia alguém julgar um outro se estivesse com traves diante de seus olhos e com pesos infernais em seu coração? Como poderia ele dizer: “Eu te absolvo em nome de Deus?”, se, pelos pecados não tivesse Deus consigo?

629.7Amigos, pensai sobre a vossa dignidade como sacerdotes.

Antes Eu estava entre os homens para julgar e perdoar. Agora Eu vou para o Pai. Retorno para o meu Reino. Não me foi tirada a faculdade de julgar. Ao contrário, ela está toda em minhas mãos, pois o Pai ma deferiu. Mas é um tremendo julgamento. Pois ele acontecerá quando não houver mais possibilidade de fazer-se perdoar com anos de expiação sobre a terra. Cada criatura virá a Mim com o seu espírito, quando deixar a carne, pela morte material, como uns despojos inúteis. E Eu a julgarei por uma primeira vez. Depois a Humanidade voltará com sua veste de carne, recebida de novo por uma ordem do Céu, a fim de ser separada em duas partes. Os cordeiros ficarão com o Pastor e os bodes com o seu Torturador. Mas quantos seriam os homens que estariam com o seu Pastor, se, depois do banho do Batismo, eles não mais tivessem tido quem os perdoasse em meu Nome?

É para isso que Eu crio os sacerdotes. Para salvarem os que foram salvos por meu Sangue. O meu Sangue salva. Mas os homens continuam a cair de novo na morte. A cair de novo na Morte. É preciso que quem tem poder para isso os lave continuamente nele, setenta e sete vezes, para que eles não fiquem presos pela Morte. Vós e os vossos sucessores fareis isso. Por isso, Eu vos absolvo de todos os vossos pecados. Porque vós tendes a necessidade de ver, e a culpa vos torna cegos, tirando dos espíritos a luz, que é Deus. Porque tendes necessidade de compreender, e a culpa impede porque tira do espírito a inteligência. Porque vós tendes o ministério de purificar, e a culpa emporcalha porque tira do espírito a Pureza, que é Deus. ‘

Grande ministério é o vosso de julgar e absolver em meu Nome!

Quando consagrardes para vós o Pão e o vinho, e deles fizerdes o meu Corpo e o meu Sangue, fareis uma coisa grandiosa, sobrenaturalmente grande e sublime. Para realizá-la dignamente, deveis estar puros, porque ireis tocar naquele que é o puro, e vos nutrireis da Carne de um Deus. Puros no coração, na mente, nos membros e na língua devereis estar, porque deveis amar com o coração a Eucaristia, e não deverão estar misturados com esse amor celeste os amores profanos, pois seriam sacrilégios. Puros de mente, porque devereis crer e compreender esse mistério de amor, já que a impureza de pensamentos mata a Fé e a Inteligência. Fica em vós a ciência do mundo, mas morre em vós a Sabedoria de Deus. Puros nos membros devereis estar, porque no vosso seio descerá o Verbo, assim como desceu no seio de Maria por obra do Amor.

629.8Tendes o exemplo vivo de como deve ser um seio que acolhe o Verbo que se faz Carne. O exemplo é a Mulher sem pecado original e sem culpa individual que Me trouxe.

Observai como é puro o cume do monte Hermon, quando ele está ainda enfaixado pelo véu da neve invernal. Olhado do Monte das oliveiras, ele parece um acúmulo de lírios despetalados ou de espuma do mar, que se eleva como uma oferta ao encontro de outro candor, o das nuvens trazidas pelo vento de abril aos campos azuis do céu. Observai um lírio que abre agora a boca de sua corola para um sorriso perfumado. No entanto, tanto uma pureza como a outra são menos vivas do que a do Seio materno que me trouxe. A poeira transportada pelos ventos caiu sobre as neves do monte e sobre a seda da flor. O olho humano não a percebe, por ser ela tão fina como é. Mas ela existe, lá está, e mancha o candor.

Outra coisa: olhai a pérola mais pura que tenha sido tirada do mar, arrancada de sua concha nativa para ir adornar o cetro de um rei. Ela é perfeita em sua iridescência compacta que desconhece o contato profanador de qualquer carne, tendo-se formado na cavidade de madrepérola da ostra, isolada na safira fluídica das profundidades marinhas. Contudo, ela é menos pura do que o Seio que me trouxe. No centro dela está o grãozinho de areia: um corpúsculo muito miúdo, mas sempre uma coisa da Terra. Mas Naquela que é a Pérola do Mar não existe grãozinho de pecado, nem de concupiscência. Pérola nascida no Oceano da Trindade para levar à Terra a Segunda Pessoa, Ela é compacta ao redor do seu centro, que não é uma semente de concupiscência terrena, mas uma centelha do Amor eterno. É uma centelha que, encontrando correspondência Nela, gerou os turbilhões da Divina Estrela, que agora chama e atrai os filhos de Deus: Eu, o Cristo, a Estrela do Manhã.

Esta Pureza inviolada é a que Eu vos dou para servir de exemplo.

629.9Mas quando, depois, como lavradores ao lado de uma tonel, vós mergulhais as mãos no mar do meu Sangue e dali extraís com o que purificar as estolas corruptas dos miseráveis que pecam, sede não só puros, mas perfeitos, para não vos manchardes com um pecado ainda maior, aliás, com mais pecados, espalhando e tocando de modo sacrílego o Sangue de um Deus, ou faltando com a caridade e a justiça, negando-o ou dando-o com um rigor que não é de Cristo — que foi bom para com os maus a fim de atraí-los ao seu Coração, e três vezes bom para com os fracos a fim de confortá-los com a confiança — usando esse rigor indignamente por três vezes, porque indo contra a minha Vontade, a minha Doutrina e a Justiça. Como é que podem ser rigorosos para com as ovelhas se eles são ídolos de si mesmos?

Ó meus diletos, meus amigos que Eu mando pelos caminhos do mundo a fim de continuarem a obra que Eu iniciei e que prosseguirá até que chegue o Tempo, lembrai-vos destas minhas palavras. Eu vo-las digo a fim de que as digais àqueles que vós consagrareis para o ministério ao qual eu vos consagrei.

629.10Eu estou vendo… Eu olho através dos séculos… O tempo e as multidões numerosas dos homens que irão existir estarão todos diante de Mim… Eu estou vendo… as matanças e guerras, as pazes mentirosas e as horrendas carnificinas, o ódio e o latrocínio, a sensualidade e o orgulho. De vez em quando, um oásis verde: um período de retorno à Cruz. Como um obelisco que parece uma onda pura por entre as áridas areias do deserto, a minha Cruz será levantada com amor, depois que o veneno do mal tiver tornado doentes de raiva os homens e, ao redor dela, plantadas à beira das águas saudáveis, florescerão as palmeiras de um período de paz e de bem no mundo. Os espíritos, como veados e gazelas, como andorinhas e pombas, irão para aquele refúgio repousante, fresco e nutritivo, para se curarem de suas dores e novamente ficarem esperando. E isso fará que as árvores entrelacem abundantemente os seus ramos, formando uma espécie de cúpula para os protegerem das tempestades e das canículas, e fará que fiquem longe as serpentes e as feras, por meio do Sinal que põe o Mal em fuga. E assim será, enquanto os homens o quiserem.

Eu vejo… Homens e homens… mulheres, idosos, crianças, guerreiros, estudiosos, doutores, agricultores… Todos vêm e passam com o seu fardo de esperança e de sofrimento. E vejo que muitos vacilam, porque a dor é demais e a esperança é a primeira a desaparecer… no meio dessa carga pesada demais, e se despedaçou por terra… E vejo muitos que caem à beira do caminho, porque outros mais fortes os empurram, mais fortes ou mais afortunados no seu peso que é leve. E vejo muitos que, sentindo-se abandonados por quem passa, até pisoteados, sentindo que estão morrendo, chegam a odiar e a maldizer.

Pobres filhos! Entre todos esses perseguidos pela vida, que passam ou que caem, o meu amor tem intencionalmente espalhado os samaritanos piedosos, os médicos bons, as luzes da noite, as vozes no silêncio, a fim de que os fracos que caem encontrem uma ajuda, tornem a ver a luz, tornem a ouvir a voz que lhes diz: ‘Espera. Tu não estás sozinho. Acima de ti está Deus. Contigo está Jesus’. Eu coloquei intencionalmente essas caridades operantes, para que os meus pobres filhos não morram em seu espírito, perdendo a morada paterna, mas continuem a crer em Mim Caridade, vendo nos meus ministros o reflexo de Mim.

629.11Mas, ó dor que me fazes sangrar a Ferida do Coração como quando foi ela aberta no Gólgota! Mas o que estão vendo os meus Olhos divinos? Será que não há sacerdotes em meio à multidão infinita que passa? Será por isso que o meu Coração sangra? Estão vazios os seminários? O meu divino convite, portanto, não ecoa mais nos corações? Ou o coração do homem não é mais capaz de ouvi-lo? Não. Durante os séculos haverá seminários e, neles, haverá levitas. Deles sairão sacerdotes, porque na hora da adolescência o meu convite terá ressoado com voz celeste em muitos corações e eles a terão seguido. Mas outras, outras, outras vozes terão vindo depois, com a juventude e com a maturidade, e a minha Voz terá sido abafada nesses corações. A minha Voz que fala, ao longo dos séculos, aos seus ministros, para que eles sejam sempre aquilo que agora vós sois: os apóstolos na escola de Cristo. A veste permaneceu. Mas o sacerdote morreu. Durante os séculos, para muitos acontecerá assim. Sombras inúteis e escuras não serão uma alavanca que levanta, uma corda que puxa, uma fonte que tira a sede, um grão que mata a fome, um coração que é uma almofada, uma luz nas trevas, uma voz que repete aquilo que o Mestre lhes disse. Mas, para a pobre humanidade, serão um peso de escândalo, um peso de morte, um parasita, uma putrefação… Horror! Os maiores Judas do futuro, Eu os terei ainda e sempre entre os meus sacerdotes!

629.12Amigos, Eu estou na glória e, no entanto, eu choro. Tenho piedade dessa multidão infinita, rebanhos sem pastor ou com pastores raros demais. Uma piedade infinita! Pois bem, Eu juro pela minha divindade, que darei a eles o pão, a água, a luz, a voz que os eleitos para essas obras não querem dar. Repetirei ao longo dos séculos o milagre dos pães e dos peixes. Com poucos e míseros peixinhos, e com escassos pedaços de pão — almas humildes e leigas — Eu darei de comer a muitos, e ficarão saciados, e ainda sobrará para o futuro, porque “tenho compaixão desse povo” e não quero que pereça.

Benditos aqueles que merecerem ser tais. Não são benditos porque são tais. Mas porque o terão merecido com seu amor e sacrifício! E benditos aqueles sacerdotes que souberam permanecer apóstolos: pão, água, luz, voz, repouso e remédio para os meus pobres filhos. Eles resplandecerão no Céu com uma luz especial. Eu vo-lo juro. Eu que sou a Verdade.

629.13Levantemo-nos, meus amigos, e vinde comigo, para que Eu vos ensine ainda a rezar. A oração é o que alimenta as forças do apóstolo, porque ela o funde com Deus.

E neste ponto Jesus se levanta, e se encaminha para a escada.

Mas quando chega ao pé da escadinha, Ele se vira e olha para mim. Oh! Pai! Ele me olha! Pensa em mim! Está procurando a sua pequena “voz”, e a alegria de estar com os seus amigos não o faz esquecer-se de mim. Ele me olha por cima das cabeças dos discípulos, e me sorri. Levanta a mão para abençoar-me, e diz:

– A paz esteja contigo.

E a visão termina.

1 não sei ainda quem é, visto que a “visão” atual, escrita em 1944, precede quase todas as visões da vida pública de Jesus. A ceia pascal, à qual MV faz referência, está descrita em 17 de fevereiro de 1944 de forma muito condensada em relação à outra, a de 9 de março de 1945, que se encontra nesta obra, no capítulo 600. (Sobre a dupla redação de muitos episódios direcionamos à nossa nota em 587.13).
2 Como poderia… deve ser subentendido de maneira digna, assim como mais abaixo, falando da Eucaristia, dirá: Para realizá-la dignamente… O discurso verte sobre dignidade, não sobre autoridade, conferida aos apóstolos em 278.2 e a Pedro como primado em 343.5.


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