89. 89. Despedida de Jonas que Simão Zelota pensaresgatar e chegada de Jesus em Nazaré.
27 de janeiro de 1945.
89.1 Apenas um vislumbre de luz. À porta de uma pobre cabana (digo assim, porque chamá-la de casa seria honra demais) está Jesus com os seus, Jonas e outros pobres camponeses. É hora da despedida.
– Não te verei mais, meu Senhor? –pergunta Jonas–. Tu nos trouxeste a luz no coração. A tua bondade fez destas jornadas uma festa, que durará por toda a vida. Mas Tu viste como somos tratados. O jumento é tratado com mais cuidados do que nós. A planta é mais humanamente tratada. Essas coisas valem dinheiro. Nós somos apenas moendas que produzimos dinheiro. Somos usados, até morrermos, por excesso de uso. Mas as tuas palavras têm sido como muitas carícias aladas. O pão nos tem parecido mais abundante e bom, visto que Tu o saboreavas conosco, este pão que Jonas não dá nem aos cães. Torna a parti-lo conosco, Senhor. Somente a Ti ouso dizer isso. Para qualquer outro seria uma ofensa oferecer-te um abrigo e um alimento que os mendigos desdenham. Mas Tu…
– Mas Eu encontro neles um perfume e um sabor celeste, por causa da fé e do amor. Eu virei, Jonas. Virei. Fica no teu lugar, ligado como um animal às estacas. Que o teu lugar seja a escada de Jacó. Na verdade, os anjos vêm e vão do Céu até ti, atentos em recolher todos os teus méritos para levá-los a Deus. Eu virei a ti, para aliviar o teu espírito. Permanecei todos fiéis a Mim. Oh! Eu queria dar-vos também uma paz humana. Mas não posso. Eu vos devo dizer: sofrei, ainda um pouco mais. Isto é triste para Alguém que ama…
– Senhor, se Tu nos amas, já não é sofrer. Antes não tínhamos ninguém que nos amasse… Oh! Se pudesse, eu pelo menos, ver tua Mãe!
– Não te angusties. Eu a trarei a ti. Quando a estação estiver mais amena, virei com Ela. Não te exponhas a castigos desumanos, pela pressa de querer vê-la. Saiba esperá-la, como se espera o nascimento de uma estrela, da primeira estrela. Ela te aparecerá de repente, exatamente como faz a estrela vespertina, que antes não se via, e logo depois, palpita no céu. Pensa também que, desde agora, e Ela derrama sobre ti os seus dons de amor. Adeus, a todos vós. Que a minha paz vos proteja contra as durezas dos que vos afligem. Adeus, Jonas. Não chores. Esperaste tantos anos, com fé paciente. Eu te prometo agora uma espera bem breve. Não chores. Eu não te deixarei sozinho. A tua bondade enxugou as lágrimas da minha infância. Não basta a minha para enxugar as tuas?
– Sim… Mas Tu vais… e eu fico…
– Jonas, meu amigo, não me faças partir acabrunhado pelo desgosto de não poder consolar-te…
– Não choro, Senhor… Mas, como farei para viver sem te ver mais, agora que sei que estás vivo?
Jesus acaricia ainda o velho entristecido e, depois, se separa dele. Mas de pé, no limite da pobre eira, abre os braços, abençoando o campo. Em seguida, põe-se a caminho.
– Que foi que fizeste, Mestre? –pergunta Simão, que notou o estranho gesto.
– Eu pus um selo sobre todas as coisas. Para que os satanases não possam prejudicar aqueles infelizes, arruinando essas terras. Nada mais podia fazer… – Mestre… vamos na frente mais rápido… Queria dizer-te uma 89.2coisa que não fôsse ouvida pelos outros.
Afastam-se mais ainda do grupo, e Simão fala:
– Queria dizer-te que Lázaro tem ordem de usar o suficiente para socorrer a todos aqueles que, em nome de Jesus, a ele recorressem. Não poderíamos libertar Jonas? Aquele homem está acabado, e não tem nada mais, senão a alegria de haver-te. Demos-lhe essa alegria. Que queres que seja o trabalho dele ali? Livre, ele seria o teu discípulo nesta planície tão bonita e desolada. Aqui, os mais ricos de Israel têm terras férteis e as espremem com usura cruel, exigindo dos trabalhadores cem por um. Há anos que eu sei disso. Pouco poderás ficar aqui, onde impera a seita farisaica, e creio que ela nunca será tua amiga. Os mais infelizes em Israel são esses trabalhadores oprimidos e sem luz. Tu o ouviste, nem mesmo pela Páscoa eles têm paz, nem tempo para a oração, enquanto que os seus duros patrões, com grandes gestos e manifestações estudadas, colocam-se na primeira fila entre os fiéis. Terão ao menos a alegria de saber que Tu estás aqui e poderão ouvir as tuas palavras, repetidas por alguém que não alterará nelas nem uma vírgula. Se concordas, Mestre, dá tuas ordens, e Lázaro as cumprirá.
– Simão, Eu havia compreendido porque tu te despojavas de tudo. Não me é desconhecido o pensamento do homem. E te amei também por isso. Tornando Jonas feliz, fazes Jesus feliz. 89.3Oh! Como me angustia ver sofrer quem é bom! A minha condição de pobre e desprezado pelo mundo só me angustia por isso. Judas, se me ouvisse, diria: “Mas, não és Tu o Verbo de Deus? Ordena, e as pedras se transformarão em ouro e pão para os miseráveis.” Repetiria a insídia de satanás. Bem que Eu quero matar a fome. Mas não como Judas gostaria. Ainda sois por demais ignorantes para compreender a profundidade do que estou dizendo. Mas a ti o digo: Se Deus fôsse prover a tudo, cometeria um furto contra os seus amigos. Ele os privaria da faculdade de serem misericordiosos e de obedecerem ao mandamento do amor. Os meus amigos devem ter este sinal de Deus, em comum com Ele: a santa Misericórdia pelas obras e pelas palavras. As infelicidades alheias dão aos meus amigos a ocasião de praticá-la. Compreendeste o pensamento?
– É profundo. Estou meditando nele. E me humilho, compreendendo quanto eu sou obtuso e quão grande é Deus, que nos quer com todos os seus mais doces atributos, chamar-nos seus filhos. Deus se revela a mim em sua múltipla perfeição, por cada luz que Tu lanças em meu coração. Dia a dia, como alguém que vai andando por um lugar desconhecido, sinto aumentar em mim o conhecimento desse algo imenso, que é a perfeição, que nos quer chamar seus “filhos”. Parece-me que estou subindo como uma águia, ou imergindo como um peixe em duas profundidades sem limites, que são o céu e o mar, e sempre mais subo e me emerjo, sem jamais tocar o fim. Mas, afinal, que é Deus?
– Deus é a inatingível Perfeição, Deus é a Beleza plena, Deus é o Poder infinito, Deus é a Essência incompreensível, Deus é a Bondade insuperável, Deus é a Compaixão indestrutível, Deus é a imensurável Sabedoria, Deus é o Amor que se tornou Deus. É o Amor! É o Amor! Tu dizes que, quanto mais conheces a Deus em sua perfeição, mais te parece estar subindo ou emergindo em duas profundidades sem limites e de um azul sem sombras… Mas, quando compreenderes o que é o Amor que se tornou Deus, não subirás, não te emergirás mais no azul, mas em um sorvedouro incandescente e em chamas, e serás aspirado, rumo a uma felicidade, que será para ti morte e vida. Terás a Deus, em uma posse completa, quando, por tua vontade, conseguires compreendê-lo e merecê-lo. Então te fixarás na sua perfeição.
– Ó Senhor!…
Simão sente-se esmagado.
89.4 Faz-se o silêncio. Alcançaram a estrada. Jesus para, à espera dos outros.
Quando o grupo se reúne, Levi se ajoelha:
– Eu deveria deixar-te, Mestre. Mas o teu servo te faz um pedido. Leva-me à tua Mãe. Este é órfão como eu. Não negues a mim o que dás a ele, para que possa ver um rosto de mãe…
– Vem. Tudo o que em nome de minha Mãe se pede, em nome de minha Mãe Eu dou…
89.5 … Jesus está sozinho. Caminha rapidamente entre os bosques de oliveiras carregadas de azeitonas já bem formadas. O sol, lá para o lado do ocaso, lança seus raios além das cúpulas cinzento-esverdeadas daquelas árvores preciosas e pacíficas, mas não penetra o entrelaçamento dos ramos, senão com pequeninos olhos de luz. A estrada mestra, ao invés, encaixada entre duas margens, é como uma fita de poeirenta incandescência ofuscante.
Jesus avança e sorri. Chega a um outeiro… e sorri ainda mais vivamente. Eis ali Nazaré… parecer tremular ao sol, tal é a incandescência do sol que a circunda. Jesus desce ainda mais rápido. Alcança a estrada, agora, sem preocupar-se com o sol. Parece que voa, de tão rápido que vai, com o manto, que pôs na cabeça como proteção, que se incha e agita ao seu lado e atrás. A estrada está deserta e silenciosa, até às primeiras casas. Ali já se ouve alguma voz de criança ou de mulher, vindo das casas ou das hortas, as folhas de suas árvores que pendem sobre a estrada. Jesus aproveita dos espaços sombreados, para fugir do sol implacável. Ele entra por uma estradinha, cuja metade está na sombra. Lá estão algumas mulheres que se aglomeram ao redor de um poço de água fresca. Quase todas o saúdam e suas vozes agudas dão-lhe as boas-vindas.
– Paz a todas vós… Mas guardai silêncio. Quero fazer uma surpresa a minha Mãe.
– A cunhada dela foi embora agora com uma ânfora de água fresca. Mas vai voltar. Ficaram sem água. A nascente deve ter secado, ou então, a água se perde no chão ardente, antes de chegar à tua horta. Não sabemos. Maria do Alfeu nos contava agora. Ei-la que está vindo.
A mãe de Judas e Tiago vem com uma ânfora na cabeça, e outras duas em cada uma das mãos. Não vê Jesus, e grita:
– Assim faço mais depressa. Maria está muito triste, porque as suas flores estão morrendo de sede. São ainda aquelas de José e de Jesus e vê-las morrer lhe arranca o coração.
– Mas agora que vai me ver… –diz Jesus, aparecendo por detrás do grupo.
– Oh! O meu Jesus! Bendito sejas! Vou dizer…
– Não. Eu é que vou. Dá-me as ânforas.
– A porta está só encostada. Maria está na horta. Oh! Como vai ficar feliz! Hoje de manhã estava ainda falando de Ti. Mas, com este sol! Vires até aqui! Estás todo suado! Estás sozinho?
– Não. Com os amigos. Mas Eu vim na frente. Para ver primeiro minha Mãe. E Judas?
– Está em Cafarnaum. Ele vai lá frequentemente…
Maria não diz mais nada. Mas sorri, enquanto enxuga com seu véu o rosto molhado de Jesus.
89.6 As ânforas já estão prontas. Jesus coloca duas delas em equilíbrio, usando sua cinta, e a outra leva na mão.
Ele dobra a esquina, chega à casa, empurra a porta, entra no pequeno quarto, que parece escuro por causa do sol que está forte do lado de fora, levanta devagar a cortina que está sobre a entrada da horta, e fica observando.
Maria está de pé junto a um roseiral, de costas para a casa e se compadece das plantas sedentas. Jesus põe a ânfora no chão, e o cobre tine, ao bater numa pedra.
– Já estás aí, Maria? –diz a Mãe, sem virar-se–. Vem ver este roseiral! E estes pobres lírios. Todos vão morrer, se não os socorrermos. Traz também umas varinhas para sustentar este caule que está caindo.
– Vou trazer-te tudo, Mãe.
Maria se vira com ímpeto. Fica por um momento de olhos arregalados, depois, com um grito, corre, com os braços estendidos para o Filho, que já abriu os seus, e a espera com um sorriso cheio de amor.
– Oh! Meu Filho!
– Mãe! Querida!
A expansão é longa, suave, e Maria está tão feliz, que não vê, nem sente como Jesus está acalorado. Mas em logo em seguida o ocorre:
– Por que meu Filho, a tal hora? Estás como púrpura, e estás suando como uma esponja. Vem para dentro. Para que a Mãe possa enxugar-te e refrescar-te. Agora vou trazer para Ti uma veste nova e sandálias limpas. Mas Filho! Filho! Por que viajar com este sol? As plantas estão morrendo por causa do calor, e Tu, minha Flor, estás viajando!
– Para vir antes a ti, minha Mãe!
– Oh! Querido! Estás com sede? Certamente que sim. Agora vou te preparar…
– Sede do teu beijo, Mãe. Das tuas carícias. Deixa-me ficar assim, com a cabeça sobre o teu ombro, como quando Eu era pequeno… Oh! Mãe! Que falta me fazes!
– Mas, manda que eu vá, Filho, e eu irei. Que foi que te faltou na minha ausência? A comida de que gostas? Vestes frescas? Uma cama bem feita? Oh! Diz para mim, minha Alegria, o que foi que te faltou. A tua serva, ó meu Senhor, procurará prover a tudo.
– Não faltou nada, a não ser tu mesma…
Jesus, que reentrara em casa seguro pela mão de sua Mãe e sentara-se sobre o banco, junto à parede, tinha à sua frente Maria, que cinge com seus braços, estando com a cabeça sobre o seu coração e beija-a de vez em quando, e a olha fixamente:
– Deixa que Eu te olhe. Que se encha minha vista de ti, minha Mãe santa!
– Primeiro, a veste. Faz mal ficar assim molhado. Vem.
Jesus obedece. 89.7Quando volta com uma veste fresca, o colóquio continua, suave.
– Vim com discípulos e amigos. Mas os deixei no bosque de Melca. Eles virão amanhã, ao romper do dia. Eu… não podia mais esperar. A minha Mãe!… –e lhe beija as mãos–. Maria de Alfeu se retirou para deixar-nos a sós. Ela também compreendeu a minha sede de ti. Amanhã… amanhã tu estarás com os meus amigos e Eu com os nazarenos. Mas nesta tarde tu és a minha Amiga e Eu o teu. Eu te trouxe… Oh! Mãe, Eu encontrei os pastores de Belém. E te trouxe dois deles: são órfãos, e tu és a Mãe. De todos. E mais ainda dos órfãos. E te trouxe também um que tem necessidade de ti, para vencer a si mesmo. E um outro que é um justo e que chorou. E depois, João… E te trouxe lembranças de Elias, de Isaque, de Tobias, que agora é Matias, de João e Simeão. Jonas é o mais infeliz. Eu te levarei a ele. Eu lhe prometi. Outros, Eu ainda irei procurar. Samuel e José já estão na paz de Deus.
– Foste a Belém?
– Sim, Mãe. Levei lá os discípulos que estavam Comigo. E para ti Eu trouxe estas florzinhas, nascidas entre as pedras da entrada.
– Oh! –Maria pega os caules ressecados, e os beija–. E Ana?
– Morreu na carnificina de Herodes.
– Oh! Coitada! Ela te amava tanto!
– Os belemitas sofreram muito. Não foram justos com os pastores. Mas sofreram muito…
– Mas Contigo, então, foram bons!
– Sim. Devemos ter pena deles. satanás está invejoso da bondade deles, e os incita ao mal. Eu estive também em Hebron. Os pastores de lá foram perseguidos…
– Oh! Chegaram até esse ponto?!
– Sim. Eles foram ajudados por Zacarias e, por meio dele, puderam ter patrões e pão, ainda que duros patrões. Mas são almas de justos, e das perseguições e das feridas fizeram para si pedras de santidade. Reuni-os de novo. Curei Isaque e… dei o meu Nome a um pequenino… Em Juta, onde Isaque estava de cama, e da qual ele tornou a levantar-se, existe agora um grupo inocente, que se chama Maria, José e Jesai…
– Oh! O teu Nome!
– E o teu, e daquele do Justo. E em Keriot, pátria de um dos discípulos, um fiel israelita veio morrer sobre o meu coração. Pela alegria de ter-me encontrado… 89.8E depois… oh! quantas coisas tenho para dizer-te, minha perfeita Amiga, Mãe suave! Mas, em primeiro lugar, Eu te peço, tem piedade dos que virão amanhã. Escuta: eles me amam… mas não são perfeitos; Tu, Mestra de virtude… oh! Mãe, ajuda-me a torná-los bons… Eu queria salvá-los todos…
Jesus deixou-se cair aos pés de Maria. Agora Ela aparece em sua majestade de Mãe.
– Meu Filho! Que queres que tua pobre Mãe possa fazer mais do que Tu??
– Santificá-los… tua virtude santifica. Eu os trouxe a ti de propósito. Mãe… um dia Eu te direi: “Vem”, porque então será urgente santificar os espíritos, a fim de que Eu encontre neles a vontade de redenção. Eu sozinho não poderei… O teu silêncio será tão ativo, como a minha Palavra. A tua pureza ajudará o meu poder. A tua presença obrigará satanás a ficar para trás… e o teu Filho, Mãe, encontrará força, ao saber que estás perto. Virás, não é verdade, minha doce Mãe?
– Jesus! Querido! Filho! Não te sinto feliz… Que é que tens, ó Filho do meu coração? O mundo foi duro Contigo? Não? É para mim um alívio crer que não… mas… Oh! sim. Irei. Aonde Tu quiseres. Como Tu quiseres. Quando Tu quiseres. Mesmo agora, debaixo de sol, ou debaixo das estrelas, como no gelo, ou entre os aguaceiros. Queres a mim? Eis-me aqui.
– Não. Agora não. Mas um dia… Como é doce a casa! E a tua carícia! Deixa-me dormir assim, com a cabeça sobre os teus joelhos. Estou tão cansado! Sou sempre o teu Filhinho…
E Jesus realmente adormece, cansado e extenuado, sentado na esteira, com a cabeça no colo da Mãe que, feliz, lhe acaricia os cabelos.