345. 345. Milagre no castelo em Cesaréia de Panéades.


29 de novembro de 1945.

345.1 Terminaram as refeições na casa hospitaleira. E Jesus sai com os doze e o velho dono da casa. Estão indo de volta para a Grande Nascente. Mas não se demoram lá. Continuam pela estrada, subindo sempre na direção do norte.

A estrada que tomaram, ainda que bastante íngreme, é cômoda, porque é uma verdadeira estrada, boa até para as carroças e cavalgaduras. Lá no alto dela, já no cume do monte, há um castelo maciço, ou talvez uma fortaleza, que causa admiração, por sua forma singular. Parece-se com duas construções, colocadas em um desnível, com alguns metros uma da outra, de modo que a mais afastada e mais estratégica está mais no alto que a outra, e a domina e defende. Um muro alto e largo, sobre o qual se erguem umas torres toscas e quadradas, está entre as duas construções, que afinal são uma única construção, pois está cercada por um único muro de grandes pedras salientes, perpendiculares, ou melhor, um pouco oblíquas na base, para sustentarem melhor o peso do bastião. Eu não vejo o lado oeste. Mas os dois lados norte e sul descem a pique, acompanhando o monte, que está isolado, e que desce também a pique, daqueles dois lados. E acho que também o lado oeste esteja nas mesmas condições.

O velho Benjamim, por um pequeno orgulho, próprio de todo cidadão para com a sua cidade, enaltece o castelo do Tetrarca, que é, além de castelo, um posto de defesa da cidade, e conta a beleza e o poder da obra, sua solidez, as comodidades das cisternas e tanques, seu espaço e seu amplo raio de visão, sua posição etc. etc.

– Até os romanos o acham bonito. E eles entendem bem disso –termina o velho. E acrescenta:

– Eu conheço o intendente. Por isso, posso entrar. Eu vos farei ver o mais amplo e belo panorama da Palestina.

Jesus escuta com benevolência. Os outros estão sorrindo um pouco, eles que já viram tantos panoramas… Mas o velho é tão bom, que eles não têm coragem de humilhá-lo, e o acompanham em seu desejo de mostrar coisas bonitas a Jesus.

345.2 Chegam ao cume do monte. A vista é, de fato, muito bonita, também pela pequena praça, que está diante do portão de ferro, na entrada. Mas o velho diz:

– Vinde, vinde! Por dentro é ainda mais bonito. Subiremos à torre mais alta da cidadela. Vereis…

E já vão entrando por um corredor escuro, escavado na muralha larga, na extensão de muitos metros, até chegarem a um pátio, no qual estão para atendê-los o intendente com sua família. Os dois amigos se saúdam, e o velho explica qual o fim daquela visita.

– O Rabi de Israel? Que pena que Filipe esteja ausente. Desejava vê-lo, pois já ouviu falar dele. Ele ama os rabis verdadeiros, porque são eles os únicos que defenderam o seu direito, e também para causar despeito ao Antipas, que não o ama. Vinde, vinde!…

O homem, a princípio, olhou de soslaio para Jesus, mas depois pensou bem, e o honrou com uma inclinação como se faz a um rei.

Passam para um outro corredor, aparece um segundo pátio, além do qual há um grande valo e o grande muro torreado da cidadela. Olhares curiosos dos armígeros e dos que atendem às casas, mostram-se por toda parte. Penetram depois na cidadela, sobem para cima do bastião, e dele passam para uma torre. Na torre entram somente Jesus com o intendente, Benjamim e os doze. Mais do que estes não poderiam entrar, porque onde estão já se acham apertados como sardinhas na lata. Os outros ficam sobre o bastião.

Mas, que vista, quando Jesus e os que estão com ele saem da torre para o pequeno terraço, e todos olham, lá do alto do parapeito de granito! Debruçando-se por cima do abismo, que está neste lado oeste e que é o mais alto do castelo, vê-se toda a Cesaréia lá em baixo, estendida aos pés do monte, e pode-se vê-la bem, porque ela não é plana, mas edificada em aprazíveis encostas. Para além de Cesaréia, se estende toda a fértil planície, que vem antes do lago Meron. E ela parece um pequeno mar, de um verde agradável à vista, com águas da cor de turquesas claras, que brilham na superfície esverdeada como retalhos de céu sereno. Depois, vêem-se graciosas colinas, ali colocadas como colares de esmeralda escura, riscada pela cor de prata das oliveiras, que estão espalhadas aqui e ali, até nos confins da planície.Vêem-se penachos pendurados das árvores em flor, ou melhor, as bolas arredondadas das árvores que já floriram… Mas, olhando-se para o norte e o oriente, lá está o grande Líbano, o Hermon, que brilha ao sol com suas neves peroladas e os montes da Ituréia e o vale do Jordão, através do berço encerrado entre as colinas, o mar de Tiberíades e os montes da Gaulanítide, ele aparece, em um traço breve e feliz, e que vai sumindo nas lonjuras de uma sombra.

– Bonito! Muito bonito! –exclama Jesus admirado, e parece abençoar ou querer abraçar estes lugares tão bonitos, abrindo Ele os braços e com um rosto sorridente. Depois responde aos apóstolos, que lhe pediram uma ou outra explicação, mostrando os lugares onde estiveram, isto é, as regiões e as direções em que eles estão.

– Mas eu não estou vendo o Jordão –diz Bartolomeu.

– Não o estás vendo, mas ele está lá perto daquela vastidão, por entre duas cadeias de montanhas. Logo depois daquela do poente, lá está o rio. Por lá é que nós desceremos, pois a Peréia e a Decápole ainda estão esperando o Evangelizador.

345.3 Mas, de vez em quando se vira, como se estivesse fazendo perguntas ao ar, por causa de um gemido longo e meio sufocado, que não é a primeira vez que chega aos seus ouvidos. Depois, olha para o intendente, como se lhe estivesse perguntando o que é que está acontecendo.

– É uma das mulheres do castelo. É casada. Está para ter um filho. É o primeiro e o último, pois seu esposo morreu nas calendas de Casleu. E não sei se a criança viverá, porque a mulher, desde quando ficou viúva, nada mais faz, senão desfazer-se em pranto. Parece uma sombra. Estás ouvindo? Não tem nem força para gritar… Tem razão… Viúva aos dezessete anos… E eles se amavam muito. Minha mulher e a sogra dela lhe dizem: “No filho encontrarás de novo Tobias.” Mas isso são palavras.

Vão descendo da torre, e fazendo a volta pelos bastiões, admirando o lugar e o panorama. Depois o intendente insiste em oferecer bebidas e frutas aos visitantes, e eles entram em uma ampla sala do castelo, onde os servos colocam o que foi mandado buscar. O gemido agora está dilacerante e próximo, e o intendente pede desculpas por aquilo, e porque o que está acontecendo obriga sua mulher a estar longe do Mestre. Mas uma gritaria, ainda mais triste do que o gemido de antes, é o que vem suceder a este, e faz que fiquem paradas no ar as mãos que estão trazendo as frutas ou os cálices, que estão indo a caminho das bocas.

– Vou ver o que aconteceu –diz o intendente. E vai saindo, enquanto a confusão dos gritos e prantos vem entrando, ainda mais forte, pela porta entreaberta.

345.4 O intendente já está de volta:

– O menino morreu, logo que nasceu… Que angústia. Estão procurando reanimá-lo, mas a vida se lhe escapa… Não respira mais. Está ficando preto…

E sacode a cabeça, dizendo:

– Pobre Dorcas!

– Traze-me o menino.

– Mas ele já morreu, Senhor.

– Traze-me o menino, é o que Eu estou dizendo. Do jeito que ele estiver. E dize à mãe que tenha fé.

O intendente sai correndo. Depois volta:

– Ela não quer. Diz que não o entrega a ninguém. Parece que ficou doida. Diz que estamos fazendo assim para tirá-lo dela.

– Leva-me até à soleira do quarto dela. Que ela me veja.

– Mas…

– Deixa-me ir! Eu me purificarei depois, se for o caso…

Vão indo depressa, por um corredor escuro, até chegarem a uma porta fechada. Jesus mesmo a abre, ficando na soleira, em frente da cama, na qual uma mulher pálida esta apertando sobre o coração um pequeno ser, que não dá mais sinal de vida.

– A paz esteja contigo, Dorcas. Olha para Mim. Não chores. Eu sou o Salvador. Dá-me o teu pequenino…

Que havia na voz de Jesus, eu não sei. Só sei que aquela desesperada que, logo que o viu, havia apertado ferozmente o recém-nascido contra seu coração, olha agora para ele, e os seus olhos, angustiados e loucos, se abrem diante de uma luz cheia de dor, mas também de esperança. Ela entrega o pequenino ser, enrolado em uns panos leves, à mulher do intendente… e lá fica, com as mãos estendidas, com a vida e a fé naqueles olhos dilatados, surda a todos os pedidos da sogra, que a queria colocar sobre umas almofadas.

345.5 Jesus pega o pequenino embrulho de carne, já meio fria, e de panos, segura de pé o menino pelas axilas, apóia sua boca sobre aqueles labiozinhos entreabertos, tendo que ficar inclinado, porque a cabecinha está caindo para trás. Ele sopra com força para dentro daquela garganta inerte… Fica com os lábios apoiados àquela boquinha por um instante, depois se afasta… e um pio, como o de um passarinho, se ouve, trêmulo, através do ar parado… depois, um segundo pio, mais forte… e um terceiro… e finalmente um vagido e um balancear da cabecinha pelada e do rostinho miúdo, e quem lhe responde é o grito da mãe:

– Meu filho! Meu amor! A semente do meu Tobias. Sobre o coração! Estás sobre o coração da mamãe!… que ela morra feliz… –diz a mulher em um sussurro, que termina em um beijo e no abandono de qualquer reação que se pudesse imaginar.

– Ela está morrendo! –gritam as mulheres.

– Não. Ela está tomando um justo repouso… Quando ela acordar, dizei-lhe que dê ao menino o nome de Jesai-Tobias. Eu a tornarei a ver no Templo, no dia da purificação. Adeus. A paz esteja convosco.

Jesus fecha a porta devagar, e se vira a fim de voltar para onde estava com os seus discípulos. Eles estão todos lá, todos comovidos pelo que viram, e olham, admirados para Ele.

Voltam juntos para o pátio. Saúdam ao intendente, que está assombrado e que só sabe repetir:

– Como vai ficar aborrecido o Tetrarca, por não ter estado aqui!

E retomam a descida, para voltarem à cidade.

Jesus põe a mão sobre o ombro do velho Benjamim, dizendo-lhe:

– Eu te agradeço por tudo o que nos mostraste, e por ter sido esse teu convite razão de um milagre…