521. 521. Em Técua, reunião dos cidadãose do velho Eliana.
31 de outubro de 1946.
521.1A parte detrás da casa de Simão de Técua não é mais do que uma praça à qual fazem asas os lados da casa feita assim
. Eu digo praça porque nos dias de feira, como é aquela que eu estou vendo, fica aberta em três pontos a forte cancela que a separa de uma praça pública maior, e muitos vendedores invadem, com as suas barracas, as séries de pórticos, que estão dos três lados da casa, e dos quais vejo agora a utilidade financeira, porque Simão, como bom hebreu, exige de todos os feirantes o aluguel do lugar ocupado. Ele vem trazendo consigo o velhinho, vestido com uma veste decente, e o apresenta a todos, dizendo:
– Olhai para cá: de hoje em diante pagareis a este a soma estabelecida.
Depois, tendo terminado seu giro por todos os pórticos, diz a Eliana:
– Eis o teu trabalho. Aqui e lá dentro, e também os albergues e estábulos. Não é difícil nem cansativo, mas que te faz ver quanta estima tenho por ti. Mandei embora, um depois do outro, três que me ajudavam, porque não eram honestos. Mas tu me agradas. Depois, porque foi Ele que te trouxe. E o Mestre sabe conhecer os corações. Vamos a Ele para dizer-lhe que, se quiser, a hora é boa para falar.
E lá se vai ele, acompanhado pelo velhinho…
As pessoas vão enchendo a praça e o barulho aumenta sempre mais. As mulheres que vêm fazer compras, compradores de animais, os que procuram bois para o arado ou outros animais; camponeses curvados sob o peso das cestas de frutas e que anunciam suas mercadorias; os cuteleiros com todas as ferramentas de cortar, bem expostas sobre as esteiras e que, com um barulho insuportável, batem os machados sobre cepos de madeira para mostrar como é boa a lâmina, ou então, com um martelo batem sobre foices penduradas em cavaletes, para mostrar como as lâminas são bem temperadas, ou que levantam os vômeres e, com as duas mãos os jogam no chão, que se abre, para darem uma prova da robustez do vômer, ao qual nenhum terreno pode resistir: e caldeireiros com ânforas e baldes, frigideiras e lâmpadas em que eles batem, até que fiquemos atordoados, para se ver que o metal delas é maciço; ou urram com toda a força de suas gargantas, oferecendo candeias, com um ou mais bicos, para as próximas festas do mês de casleu. E, acima de todos, monótono e penetrante como lamento da coruja, é o grito dos mendicantes, que estão espalhados pelos pontos estratégicos da feira.
521.2Jesus está vindo da casa, junto com Pedro e com Tiago de Zebedeu. Não estou vendo os outros. Mas acho que eles estão andando pela cidade, anunciando o Mestre, pois vejo que a multidão o reconhece logo, e que muitos se aproximam dele, enquanto a vozearia do povo vai ficando menos intensa e o barulho também. Jesus manda dar uma esmola a alguns mendigos e para, a fim de saudar dois homens que, acompanhados pelos servos, estavam já para saírem da feira, tendo já feito suas compras. Mas agora eles param também para ouvirem o Mestre. E Jesus começa a falar, tomando como assunto o que Ele está vendo.
– Cada coisa a seu tempo, cada coisa tem seu lugar. Não se faz feira aos sábados nem se fazem negócios nas sinagogas, e também não se trabalha de noite, e sim, enquanto é dia. Somente quem é pecador é que mercadeja no dia do Senhor, ou profana os lugares destinados à oração com comércios humanos, ou pratica ladroeiras de noite, cometendo furtos e delitos. Assim, igualmente, quem comercia honestamente se apressa em provar aos seus compradores a boa qualidade de suas mercadorias e a resistência de suas ferramentas, e quem compra vai-se embora contente pela boa compra que fez. Mas se, por exemplo, com muita astúcia, o vendedor conseguisse enganar ao comprador e este descobrisse que as mercadorias não eram boas e que valiam menos do que o preço que foi pago, não iria o comprador tomar medidas de defesa, que podem ser desde a menor, a de não ir nunca mais comprar daquele vendedor, até a maior, que seria recorrer ao juiz para reaver o seu dinheiro? Assim aconteceria e seria justo. Pois bem. Não vemos nós, em Israel, o povo sendo enganado por quem vende mercadorias estragadas, como se fossem boas, e fala mal de quem vende mercadorias boas e é chamado justo do Senhor? Sim. Todos nós estamos vendo isso.
Ontem de tarde, muitos de vós vieram contar as artes dos maus vendedores e Eu lhes disse: “Deixai-os fazer. Conservai firmes os vossos corações e Deus proverá.” Esses que vendem coisas estragadas, a quem é que vendem? A vós? A Mim? Não. Ao próprio Deus. Não é tão culpado o que fica enganado como o que engana. O pecado não é feito somente contra um homem, mas contra Deus, porque procura vender coisas estragadas a quem está com o desejo de comprar, e para que ele não vá às coisas boas. Eu não vos digo: reagi, vingai-vos. Esta não é uma palavra que possa nascer de Mim. Eu digo somente: escutai o verdadeiro som das palavras, observai bem as ações de quem vos fala, provai o primeiro gole ou o primeiro bocado que vos é oferecido; e se ouvis um som de aspereza, se o modo de agir dos outros tiver alguma coisa de tenebroso, se o sabor que vos fica no coração for perturbador, recusai aquilo que vos é oferecido como uma coisa não boa. A Sabedoria, a Justiça, a Caridade nunca são ásperas, nem perturbadoras, nem inclinadas a agir na sombra.
521.3Eu sei que sou precedido pelos meus discípulos e vos deixo os meus apóstolos. Além disso, ontem à tarde, mais com ações do que com palavras, dei testemunho de onde é que Eu venho e com que missão. Não são necessários, pois, longos discursos para atrair-vos ao meu caminho. Pensai e procurai estar nele. Imitai os fundadores desta cidade, que está à beira de um árido deserto. Pensai sempre que, fora de minha doutrina, há uma aridez de deserto, enquanto que em minha doutrina estão as fontes da Vida. E, seja lá por quantos acontecimentos possam sobrevir, não vos perturbeis, não vos escandalizeis. Lembrai-vos das palavras1 do Senhor em Isaías. Nunca ficará encolhida ou tornada pequena a minha mão para fazer o bem àqueles que seguem os meus caminhos, assim como não será reduzida a nada a mão do Altíssimo para ferir aqueles que a Mim — que vim e que bem poucos encontrei que me acolhessem; chamei, e poucos me responderam — ofendem e magoam. Porque, assim como quem Me honra, honra o Pai que Me enviou, assim também quem Me despreza, despreza Aquele que me enviou. E pela lei antiga de talião, a quem me repudia, será dado repúdio.
Mas vós, que acolhestes a minha palavra, não temais os opróbrios dos homens, nem tremais diante dos ultrajes deles, primeiramente feitos a Mim e depois feitos a vós porque me amais. Eu, ainda que pareça perseguido, e parecerei ferido, Eu vos consolarei e protegerei. Não temais, não temais o homem mortal, que hoje está vivo e amanhã não é mais do que uma lembrança e pó. Mas temei ao Senhor, temei com um santo amor, não com medo, temei por não o saberdes amar com uma medida proporcionada a seu amor infinito. Eu não vos digo: fazei isto ou aquilo. O que é para fazer-se, vós o sabeis. Eu vos digo: amai. Amar a Deus e ao seu Cristo. Amar ao vosso próximo, como Eu vos ensinei. E tudo fareis, se souberdes amar.
521.4Eu vos abençoo, cidadãos de Técua, cidade às margens do deserto, mas um oásis de paz para o perseguido Filho do homem, e a minha bênção esteja nos vossos corações e em vossas casas agora e sempre.
– Fica, Mestre! Fica conosco! O deserto foi sempre bom para os santos de Israel!
– Não posso. Tenho outros me esperando. Vós estais em Mim e Eu em vós, porque nos amamos.
Jesus passa com dificuldade por entre as pessoas que o acompanham, esquecidas dos negócios e de tudo mais. Doentes curados o bendizem ainda, corações consolados que lhe agradecem, mendigos que o saúdam: “Maná vivo de Deus!”
521.5O velhinho está sempre a seu lado, e lá fica até chegarem aos limites da cidade. E somente quando Jesus abençoa Mateus e Filipe, que vão ficar em Técua, é que ele se decide a deixar o seu Salvador, e o faz dando beijos nos pés nus do Mestre, chorando e dizendo palavras de reconhecimento.
– Levanta-te, Eliana, e vem para Eu te beijar. Um beijo de filho ao pai e que isso te compense por tudo. A ti Eu explico as palavras2 do profeta: “Tu que choras, não chorarás mais, porque o misericordioso teve pena de ti.” O Senhor te dará pão limitado e pouca água. Mais do que isso não pude fazer. Se tu foste expulso por um só, Eu tenho todos os poderosos de um povo a me expulsarem, e já será muito se Eu encontrar alimento e abrigo para Mim e para os meus apóstolos. Mas os teus olhos viram Aquele que desejavas ver e os teus ouvidos ouviram as minhas palavras, assim como o teu coração deve estar sentindo o meu amor. Vai e fica em paz, porque és um mártir de justiça, um dos precursores de todos aqueles que serão perseguidos por causa de Mim. Não chores, pai!
E o beija sobre a cabeça encanecida.
O velhinho lhe dá um beijo sobre a face e lhe murmura ao ouvido:
– Desconfia do outro Judas, meu Senhor! Eu não quero sujar minha língua… Mas Tu, desconfia. Ele não vem com pensamentos bons à casa de meu filho…
– Sim. Mas não penses mais no passado. Logo tudo vai terminar e ninguém me poderá fazer mal. Adeus. Eliana. O Senhor está contigo.
Eles se separam…
521.6– Mestre, que foi que te disse o velho com aquela voz tão baixa?
–pergunta Pedro, que vai caminhando ao lado de Jesus e com dificuldade, porque Jesus dá passos compridos com suas longas pernas, o que é impossível para Pedro, que é um tanto baixo.
– Pobre velho! Que queres tu que ele me tenha dito e que tu já não soubesses? –responde Jesus, evitando uma resposta mais clara.
– Estava falando do filho, não? Ele te disse quem é?
– Não, Pedro. Eu te garanto. Ele guardou o nome do filho no coração.
– Mas Tu o conheces?
– Eu conheço. Mas não te direi.
Há um silêncio bem demorado. Depois, aflita, vem a pergunta de Pedro e sua confissão.
– Mestre, mas por que e o que vai fazer Judas Iscariotes na casa de um homem mau, como é o filho do Eliana? Eu fico com medo, Mestre! Esse homem não tem bons amigos. Não tem franqueza. Nele não há força para resistir ao mal. Fico com medo, Mestre. Por quê? Por que é que vai à casa desses e escondido?
O rosto de Pedro está como a máscara de alguém aflito, que faz uma pergunta. Jesus olha para ele e não responde. Pois que terá Ele para responder? Que terá, para não mentir e para não lançar o fiel Pedro contra o infiel Judas? Ele prefere deixar Pedro falar.
– Tu não respondes? Eu, desde ontem, quando o velho reconheceu que Judas estava entre nós, não tive mais sossego. É como naquele dia em que Tu falaste com a mulher do saduceu… Tu te lembras? Lembras-te da minha suspeita3?
– Eu me lembro. E tu te lembras das palavras que Eu te disse?
– Sim, Mestre.
– Pois não há outra coisa a dizer, Simão. As ações do homem têm aparências diferentes da realidade. Mas Eu estou contente por ter tomado providências em favor daquele velho. É como se Ananias tivesse voltado. E, na verdade, se Simão de Técua não o tivesse acolhido, Eu o teria levado para a casinha de Salomão, para termos lá um pai que sempre nos esperasse. Mas para Eli foi melhor assim. Simão é bom, tem muitos netos. Ele gosta das crianças. E as crianças nos fazem esquecer muitas coisas dolorosas.
Com sua habitual ciência de distrair o interlocutor e levá-lo para outros assuntos, quando não acha conveniente responder a perguntas perigosas, Jesus distraiu Pedro dos seus pensamentos. E continua a falar-lhe de crianças conhecidas aqui ou ali, até chegar a Marziam, que talvez naquela hora esteja retirando as redes, depois da pesca no belo lago de Genezaré.
E Pedro, com o pensamento já longe de Eli e de Judas, sorri e pergunta:
– Mas depois da Páscoa, iremos lá, não é mesmo? Lá é tão bonito. Oh! Muito mais do que aqui! Oh! Nós galileus somos pecadores, por causa dos da Judéia. Mas para viver aqui! Oh! Eterna Misericórdia! Se nós formos castigados, certamente ficar aqui não seria nenhum prêmio.
Jesus chama os outros que ficaram atrás e se afasta com eles pela estrada escaldada pelo sol de dezembro.
1 palavras, similares as que estão em Isaías 50,2.
2 palavras, que estão em Isaías 30,19-20.
3 da minha suspeita… das palavras que Eu te disse..., em 503.3/4.
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