377. 377. Parábola da água e do junco para Mariade Magdala, que escolheu a melhor parte.


14 de agosto de 1944.

377.1 Logo pude compreender que ainda estamos vendo a figura da Madalena, porque a vejo em primeiro plano, vestida com uma veste simples de um rosa lilás como a flor da malva. Nenhum ornamento precioso e os seus cabelos estão simplesmente recolhidos em tranças sobre a nuca. Parece estar mais jovem do que quando era uma obra-prima de toucador. Não tem mais aquele olhar despudorado de quando era a “pecadora” e também não tem aquele olhar envilecido de quando ouvia a parábola da ovelhinha, nem aquele, vergonhoso e brilhando pelo pranto de quando estava na sala do Fariseu… Agora, ela tem um olhar calmo, que se tornou límpido como o de uma menina e um riso tranquilizador é o que nela resplende.

Ela está apoiada a uma árvore, que está perto da linha de limite da propriedade de Betânia e está olhando para o lado da estrada. Está esperando. Depois, dá um grito de alegria. Vira-se para a direção da casa, e grita forte para poder ser ouvida, grita com sua bela voz aveludada e apaixonada, inconfundível, dizendo:

– Vem cá!… Marta! Disseram-nos a verdade. O Rabi está aqui! –e sai correndo para ir abrir a pesada cancela, que range.

Ela não dá tempo aos servos de o irem fazer, e sai para a estrada com os braços estendidos como faz uma menina que quer correr para a mãe e, com um grito de amorosa alegria, diz:

– Ó meu Raboni! –e se prostra aos pés de Jesus, beijando-os por entre a poeira da estrada.

– A paz a ti, Maria. Venho repousar debaixo do teu telhado.

– Ó Mestre meu! –repete Maria, levantando o rosto com uma expressão de reverência e de amor quase indizíveis…

É agradecimento, é bênção, é alegria, é um convite para entrar e é júbilo porque Ele entra…

Jesus lhe colocou a mão sobre a cabeça, e parece que a absolve de novo.

377.2 Maria se levanta e, ao lado de Jesus, torna a entrar no recinto da propriedade. Enquanto isso, chegaram correndo os servos e Marta. Os servos, levando ânforas e copos. E Marta vai somente com o seu amor. Mas é muito.

Os apóstolos, cheios de calor, bebem os refrescos que os servos prepararam. Estes quereriam dá-los a Jesus em primeiro lugar. Mas Marta já chegou antes deles. Ela levou um copo cheio de leite e o ofereceu a Jesus. Marta deve saber que isso lhe agrada muito.

Depois que os discípulos se restauraram, Jesus lhes diz:

– Ide avisar aos fiéis. De tarde, Eu lhes falarei.

Os apóstolos se espalham em várias direções, logo que vão saindo do jardim.

Jesus entra, indo entre Marta e Maria.

– Vem, Mestre –diz Maria–, enquanto Lázaro repousa e toma uma pequena refeição.

Enquanto põem os pés no piso da sala fresca virada para o pórtico sombreado, Maria já vem voltando, pois ela se havia afastado em rápidos passos. Ela vem voltando com uma moringa d’água, acompanhada por um servo, que vem trazendo uma bacia. Mas é Maria que quer lavar os pés de Jesus. Ela desata as sandálias cheias de poeira e as dá ao servo para que volte com elas limpas, junto com o manto que Jesus lhe entregou para que dele sacudisse o pó. Depois, ela mergulha os pés na água, que está levemente rosada por causa de algum aroma nela depositado, e os enxuga, e os beija. Depois muda a água, oferecendo a Jesus água limpa para as mãos. E, enquanto espera o servo com as- sandálias, acocorada sobre o tapete aos pés de Jesus, ela lhos acaricia e, antes de pôr-lhe as sandálias, os beija de novo, dizendo:

– Santos pés que tanto caminhastes para procurar-me!

Marta, mais prática em seu amor, atende às necessidades humanas e pergunta:

– Mestre, além dos teus discípulos, quem virá?

E Jesus diz:

– Não sei ainda exatamente. Mas podes preparar para mais cinco, além dos apóstolos.

Marta se afasta dali.

377.3 Jesus sai para o fresco jardim sombreado. Ele está vestido com sua simples veste escura. Seu manto, dobrado cuidadosamente por Maria, está sobre uma caixa-banco da sala. Maria sai junto com Jesus.

Vão indo por pequenas alamedas bem conservadas por entre canteiros de flores, até perto do aquário, que parece um espelho, que veio pôr-se sobre o verde. A água, muito limpa, é só levemente encrespada pelo pulo de algum peixe prateado e pela chuvinha de um esguicho muito fino, bem alto e central. Algumas cadeiras estão perto do grande tanque, que é como um pequeno lago e do qual partem pequenos canais de irrigação. Eu creio até que um deles seja o que alimenta o aquário e os outros menores devem ser os de descarga, usados para a irrigação.

Jesus senta-se em uma cadeira colocada justamente ao lado do tanque. Maria foi sentar-se a seus pés, sobre a grama verde e bem tratada. A princípio, não falam. É visível que Jesus se sente bem naquele silêncio e no repouso que lhe proporciona a frescura do jardim. Maria se sente feliz ao olhar para Ele.

Jesus se entretém, brincando com a água clara do tanque. Nela Ele mergulha os dedos e a penteia, separando-a em muitos pequenos sulcos, depois deixa que sua mão fique toda mergulhada naquele agradável frescor.

– Como é bela esta água tão limpa! –diz Ele.

E Maria lhe responde:

– Ela te agrada muito, Mestre?

– Sim, Maria. Por sua grande transparência. Olha. Não tem nem um laivo de lama. É água, mas é tão pura que parece não ser nada, como se não fosse um elemento material, mas espiritual. Podemos ler lá no fundo as palavras que, um ao outro, estão dizendo os peixinhos.

– Como se pode ler no fundo das almas puras, não é Mestre? –e Maria suspira com uma secreta saudade.

377.4 Jesus ouve aquele suspiro reprimido, vê a saudade que foi encoberta por um sorriso e cura imediatamente o sofrimento de Maria.

– As almas puras, onde é que as encontramos, Maria? É mais fácil um monte sair andando do que uma criatura saber manter-se pura nas três purezas. Há inúmeras coisas que se agitam e fermentam ao redor de um adulto. E nem sempre se pode impedir que elas penetrem em seu interior. Somente as crianças que tiverem uma alma angélica, uma alma preservada por sua inocência, dos conhecimentos que possam transformar-se em lama. Por isso é que Eu as amo tanto. Eu vejo nelas um reflexo da Pureza infinita. São elas os únicos seres humanos que guardam consigo esta lembrança dos Céus.

Minha mãe é a Mulher com uma alma de criança. Mais ainda. Ela é a Mulher com uma alma de anjo. Como era Eva ao sair das mãos do Pai. Que penses nisso, Maria, como terá sido o primeiro lírio que floresceu no jardim terrestre? Eram tão belos como estes que servem de guia para esta água. Mas, o primeiro, o que tinha saído das mãos do Criador! Era uma flor ou era um diamante? A suas eram pétalas ou eram folhas da prata mais pura? E, no entanto, minha Mãe é mais pura do que esse pequenino lírio que perfuma os ventos. E o seu perfume de Virgem inviolada enche o céu e a terra, e atrás dele irão os bons pelos séculos dos séculos. O Paraíso é luz, perfume, alegria. Mas se nele não se felicitasse o Pai por poder contemplar a Toda Bela, que faz desta terra um Paraíso, e se o Paraíso tivesse no futuro que deixar de ser o lírio vivo, em cujo seio estão os três pistilos de fogo da Divina Trindade, da luz, do perfume e da harmonia, então as alegrias do Paraíso ficariam diminuídas pela metade1. A pureza da Mãe será a pedra preciosa do Paraíso.

Mas o Paraíso é ilimitado. Que diríeis de um rei que só tivesse uma pedra preciosa em seu Tesouro? Ainda que fosse a pedra preciosa por excelência? Quando eu tiver aberto as portas do Reino dos Céus… — não chores, Maria, pois para isso Eu vim — muitas almas de justos e de pequeninos entrarão, como exemplos de candor, atrás da púrpura do Redentor. Mas serão ainda poucos para povoar de pedras preciosas os céus e se tornarem os cidadãos da Jerusalém eterna. E depois… depois que a Doutrina da Verdade e da Santificação for conhecida pelos homens, como é que poderão os adultos conquistar os Céus, se a pobre vida humana é uma contínua lama, que nos torna impuros? Será, então, o meu Paraíso somente para os pequeninos? Oh! Não! Como pequeninos precisamos aprender a tornar-nos. Mas também para os adultos o Reino está aberto. Como pequeninos… Aí está a pureza.

Estás vendo esta água? Parece tão límpida. Mas, observa uma coisa… basta que Eu, com esta vareta, raspe no fundo dela que logo ela fica turva. Os detritos e a lama vêm à tona. o cristal que ela era se torna amarelento e ninguém mais quereria beber dela. Mas se Eu retiro a vareta, a água vai voltando pouco a pouco a ficar limpa e bela. A vareta é o pecado. Assim é que acontece com as almas. O arrependimento, podes crer, é o que limpa…

377.5 Chega a atarefada Marta:

– Ainda estás aqui, Maria? E eu me cansando de trabalhar!… O tempo vai passando. Os convidados logo virão e ainda há tanta coisa para fazer. As servas estão fazendo o pão. Os servos prepararam já as carnes e as estão cozinhando. Eu estou tratando de dispor a louça, as mesas e as bebidas. Mas ainda tenho de ir apanhar as frutas e preparar a água com hortelã e mel…

Maria fica ouvindo, indecisa, os queixumes de sua irmã. Mas, com um sorriso feliz, continua a olhar para Jesus sem mover-se de sua posição.

Marta então invoca a ajuda de Jesus:

– Mestre, olha como eu estou neste calor. Parece-te justo que eu fique a trabalhar sozinha? Dize Tu a ela que venha me ajudar.

Marta está realmente inquieta.

Jesus olha para ela com um sorriso meio doce e um pouco irônico, ou melhor, brincalhão.

Marta se inquieta um pouco com isso:

– Estou falando sério, Mestre. Olha como ela fica ociosa enquanto eu estou trabalhando. E ela fica aí olhando…

Jesus se torna mais sério:

– Ela não está ociosa, Marta. Não se trata de ócio, mas de amor. O ócio era antes. E tu tanto que choraste por causa daquele ócio infame. O teu choro deu ainda mais asas ao meu andar para salvá-la para Mim e entregá-la ao teu honesto afeto. Quererias impedi-la de amar ao seu Salvador? Preferirias que ela estivesse longe daqui para não te ver trabalhar, mas ficando também longe de Mim? Marta, Marta! Deverei Eu então dizer que esta aqui –(e Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça)–, que veio de tão longe, te superou no amor? Deixa-a em sua paz. Ela esteve tão doente! Agora, é uma convalescente que está ficando curada bebendo as bebidas que a reconstituem. Ela tem sido tão atormentada… Agora, tendo saído do incubo, está olhando ao redor de si e descobre que está nova, descobre um mundo novo. Deixa que ela o faça com segurança. Com este seu mundo “novo”, ela deve esquecer-se do passado e conquistar para si o que é eterno… Isso não será conquistado apenas com o trabalho, mas também com a adoração. Terá recompensa quem tiver dado um pão ao apóstolo e ao profeta. Mas dupla recompensa terá quem se tiver esquecido até de alimentar- se para me amar, porque maior do que a carne, terá sido o espírito, o qual terá tido vozes mais fortes até do que as que são lícitas entre as necessidades humanas. Tu te preocupas com muitas coisas, Marta. E esta aqui se preocupa com uma só, mas é a que basta para o seu espírito e sobretudo para o seu e teu Senhor. Deixa que caiam as coisas inúteis. Imita à tua irmã. Maria escolheu a melhor parte, a que nunca lhe vai ser tirada. Quando todas as virtudes tiverem sido superadas porque não serão mais necessárias aos cidadãos do Reino, a única que ficará será a Caridade. Esta continuará sempre. Como a única. Soberana. Ela, Maria, escolheu esta e esta ela tomou como seu escudo e bordão. Com esta, como sobre as asas de um anjo, ela irá para o meu Céu.

377.6 Marta abaixa a cabeça, humilhada, e sai dali.

– Minha irmã Te ama muito, e sofre para Te prestar homenagem… –diz Maria, para desculpá-la.

– Eu sei e por isso ela será recompensada.. Mas ela precisa ser purificada como se purificou esta água, do seu modo humano de pensar. Olha como ela se tornou límpida, enquanto estávamos falando. Marta também se purificará pelas palavras que Eu lhe disse. Tu… tu, pela sinceridade do teu arrependimento…

– Não, pelo teu perdão, Mestre. Não bastava o meu arrependimento para lavar o meu grande pecado…

– Bastava e bastará para as tuas irmãs que te imitarem. Para todos os pobres enfermos em seu espírito. O arrependimento sincero é como um filtro que purifica. Portanto, o amor é uma substância, que preserva de toda nova contaminação. Eis, pois, que aqueles que a vida tornou adultos e pecadores poderão tornar-se inocentes como os pequeninos e entrar como eles no meu Reino. Agora, vamos para casa. Que Marta não fique muito em sua dor. Vamos levar-lhe o nosso sorriso de Amigo e de irmã.

377.7Diz Jesus:

– Não há necessidade de um comentário. A parábola da água suja já é um comentário sobre a operação do arrependimento nos corações.

Tens assim completo o ciclo da Madalena2. Da morte para a Vida.

É a maior ressuscitada do meu Evangelho. Ressuscitou de sete mortes. Ela nasceu de novo. Tu a viste como uma planta que produz flor quando ergue de sobre a lama o caule com sua nova flor cada vez mais alta e depois floresce para Mim, exala odores por Mim, morre por Mim. Tu a viste como uma pecadora, e depois como uma sedenta, que se aproxima da Fonte, depois arrependida, depois perdoada, depois amante, depois piedosa sobre o Corpo morto do seu Senhor, depois serva da Mãe, que ela ama porque é minha Mãe. E, enfim, penitente sobre as soleiras do seu Paraíso.

Ó almas, que temeis, aprendei a não terdes medo de Mim, lendo a vida de Maria de Magdala. Ó almas, que amais, aprendei dela o amor, com um ardor seráfico. Ó almas, que errastes, aprendei dela a Ciência, que vos torna preparados para o Céu.

Eu vos abençoo a todos, para vos ajudar a subir. Vai em paz.

 

1 ficariam diminuídas pela metade, não pelo grau de beatificação (que consiste na posse e na contemplação de Deus, e enquanto tal é inalterável), mas, pela preciosidade do povo dos beatos, que são como predras preciosas as quais, todas juntas, valem como a pedra perciosa que é a Virgem Mãe de Deus.
2 o ciclo da Madalena compreende os episódios do chamado Evangelho da Misericórdia, selecionados em nota em 174.11, e outros episódios os quais se mencionam aqui e que fazem parte, como os já citados, da presente obra, exceto aquele assinalado em nota em 15.2.


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