193. 193. Chegada a Siquém depois de dois dias de caminho.
18 de julho de 1945.
193.1 Pelos caminhos, cada vez mais cheios de peregrinos, Jesus continua, indo para Jerusalém. Um aguaceiro, que desceu de noite, formou um pouco de lama nas estradas, mas, em compensação, abaixou a poeira e tornou o ar mais claro. As campinas parecem agora jardins bem cuidados pelo jardineiro.
Vão indo todos bem dispostos, porque puderam descansar bastante na parada, e porque o menino, agora com suas sandalinhas novas, não sofre com a viagem, mas, ao contrário, cada vez mais se vai acostumando com os companheiros, fala com um e com outro, conta a João que seu pai se chamava João, e sua mãe Maria e que, por isso, ele gosta muito de João.
– Mas também –termina ele–, quero bem a todos, e, no Templo, vou rezar muito, tanto por vós, como pelo Senhor Jesus.
É comovente ver como este grupo de homens, em sua maior parte sem filhos, tenham ares paternais e cheios de cuidado para com o menor dos discípulos de Jesus. Até o homem de Endor se enternece em seu aspecto, quando obriga o pequeno a beber um ovo, ou quando entra pelos bosques, que tornam verdes as colinas e as montanhas, sempre mais altas, fendidas por grandes vales, em cujo fundo passa a estrada mestra, para ir apanhar raminhos ligeiramente ácidos de sarça, ou talos cheirosos do funcho selvagem, trazendo-os para o pequeno, a fim de matar-lhe a sede, sem enchê-lo de água. Também assim o vemos, quando ele não o deixa ficar pensando na duração da viagem, fazendo-o observar as vistas e panoramas que vão se apresentando.
O antigo pedagogo de Cíntium, arruinado pela maldade humana, revive por este menino, que é uma miséria como ele mesmo também é, e vai desfazendo as rugas de sua desventura e de suas amarguras com este sorriso bom que agora mostra. Se Jabé, agora com suas sandalinhas novas, já se sente menos infeliz e com sua carinha menos triste, na qual não sei se não terá sido alguma mão apostólica que terá tido o cuidado de cancelar todos aqueles sinais da vida selvagem levada por ele durante tantos meses, arrumando-lhe agora os cabelos, até aqui descuidados, mas agora aparados e macios, depois de uma boa lavada, até o homem de Endor que ainda fica um pouco perplexo, quando ouve que o estão chamando pelo nome de João, sacudindo depois a cabeça, com um sorriso de compaixão para com a sua fraca memória, até ele também está bem diferente. A cada dia que passa, seu rosto vai perdendo aquela dureza que tinha antes e vai adquirindo uma seriedade, que não causa mais medo. Naturalmente, estas duas misérias que revivem pela bondade de Jesus, giram agora, pelo seu amor, ao redor de seu Mestre. Os companheiros são queridos para eles, mas Jesus… Quando Ele olha para eles, ou fala com eles, a expressão do rosto deles se torna inteiramente feliz.
193.2 Depois de terem atravessado o grande vale e, em seguida, uma colina verde e muito bonita, do alto da qual se pode avistar a planície de Esdrelon — e isto faz que o menino suspire:
– Que estará fazendo o meu velho pai?
E faz que ele termine com um suspiro bem triste e um brilho de lágrimas em seus olhos castanhos:
– Oh! Ele está bem menos feliz do que eu… e ele é tão bom! –e o lamento do menino lança um ar de tristeza sobre todos os rostos.
E aqui se começa a descer para um vale fértil cheio de campos cultivados e de oliveiras, e um vento brando está fazendo cair a neve das florzinhas das videiras e das oliveiras mais precoces. E a planície de Esdrelon se perde de vista para sempre.
Uma parada para a refeição, e de novo se toma o caminho para Jerusalém. Mas, ou deve ter chovido muito ou, então, aqui é um lugar rico em águas subterrâneas, pois as pradarias estão parecendo mais um grande brejo, visto que a água está brilhando por entre a folhagem cerrada, e sobe até alcançar a estrada um pouco mais acima e, no entanto, não deixa por isso de ser muito lamacenta. Os adultos sungam as vestes, para que elas não virem crostas de barro, enquanto Judas Tadeu põe sobre os ombros o menino, para que ele descanse e para que possam atravessar mais depressa aquela zona inundada e talvez doentia. O dia já está no fim e eles, depois de terem rodeado novas colinas e superado outro vale rochoso e enxuto, entram por uma região elevada sobre um planalto rochoso e, abrindo caminho por entre os muitos peregrinos, vão procurar alojamento em uma espécie de albergue muito rústico: é uma grande tenda, debaixo da qual foi posta palha abundante. e nada mais.
Pequenas lâmpadas acesas aqui e ali iluminam as ceias das famílias dos peregrinos, famílias pobres como a dos apóstolos, porque os ricos, em geral, já levantaram suas tendas fora do povoado, evitando os contatos com os populares do lugar e com os pobres peregrinos.
Cai a noite e o silêncio….O primeiro que começa a dormir é o menino: ele se encolhe, cansado, no colo de Pedro, que, depois, vai colocá-lo sobre a palha e o cobre com cuidado.
Jesus reúne os adultos para uma oração, depois cada um se joga sobre a palha, para descansar da longa jornada.
193.3 No dia seguinte, a comitiva apostólica, que saiu de manhã, à tarde já está para entrar em Siquém, tendo atravessado Samaria, de tão belo aspecto, cercada por muros, coroada por belos e majestosos edifícios, ao redor dos quais se comprimem belas casas, enfileiradas. Tenho a impressão de que a cidade, como Tiberíades, tenha sido reconstruída há pouco, e conforme os usos de Roma. Ao redor, do outro lado dos muros, há uma faixa de terras muito férteis e bem cultivadas.
A estrada que da Samaria conduz a Siquém, vai se desenrolando e descendo, de um outeiro para outro, com uma série de muros de arrimo para o terreno, o que me faz lembrar das colinas de Fiésole, com uma vista magnífica para as verdes montanhas do sul e para uma planície muito bonita, que se estende para o oeste1.
A estrada se inclina para descer até o vale, mas, de vez em quando, volta a subir, para atravessar outras colinas, do alto das quais tem-se a visão da terra da Samaria, com suas belas culturas de oliveiras, de trigais, de vinhedos, sobre os quais vigiam lá do alto das colinas os bosques de carvalhos e de outras árvores de tronco alto, que devem ser providenciais contra os ventos que, vindos das gargantas, tendem a formar turbilhões, que acabariam com as culturas. Esta região me faz lembrar muito aqueles pontos do nosso Apenino aqui perto da Amiata, quando os nossos olhos contemplam, ao mesmo tempo, as culturas comuns e as de cereais da Marema, e as colinas festivas, e os montes severos, que se elevam bem mais altos, no interior. Agora, não sei como está a Samaria. Naquele tempo era muito bonita .
Agora, eis que, entre dois altos montes, os mais altos da região, vê-se, ao longo de um dos lados, um vale e, no centro dele, muito férteis e com águas abundantes, estão as terras de Siquém. É aqui que Jesus e os seus são alcançados pela faustosa caravana da corte do Cônsul, que está de viagem para as festas de Jerusalém. Uns escravos vão a pé, outros vão em carros para tomarem cuidado com o transporte da mobília… Meu Deus, quanta coisa podiam levar atrás de si naquele tempo! E, com os escravos, carros verdadeiros, carregados com um pouco de tudo, e até de liteiras completas e carros para viagens: são carros amplos, de quatro rodas, com um bom molejo, cobertos, para que neles se abriguem as damas… E depois, outros carros e escravos…
Um toldo está sendo afastado, sustentado por uma mão de uma mulher cheia de jóias, e aparece, então, o perfil severo de Plautina, que saúda sem dizer nada, mas com um sorriso. A mesma coisa faz Valéria, que está com sua pequenina entre os joelhos, toda animada, dando gritos e risadinhas. O outro carro de viagem, mais pomposo ainda, passa sem que nenhum toldo seja afastado. Mas, depois de ter passado, faz-se ver, na parte traseira do carro, o rosto rosado de Lídia, que faz um gesto de inclinação. E a caravana se distância…
193.4 – Viajam bem eles! –diz Pedro, cansado e suado–. Mas, se Deus nos ajudar, depois de amanhã, à tarde, já estaremos em Jerusalém.
– Não, Simão. Eu preciso afastar-me do caminho e ir pelo Jordão.
– Mas, por quê, Senhor?
– Por causa do menino. Ele está muito triste e muito mais triste ficaria, ao ver o monte do triste acontecimento.
– Mas não o vamos ver! Ou melhor, vamos vê-lo do outro lado… e… eu cuido de mantê-lo distraído. Eu e João… Com pouca coisa ele se distrai, o pobre pombinho sem ninho. Mas, ir pelo Jordão, nunca! É melhor por aqui. Melhor por aqui. Caminho direto. Mais breve. Mais seguro. Não. Não. Este, este. Tu o vês? Também as romanas o fazem. Ao longo do mar e do rio se exalam as febres, com estas primeiras chuvas do verão. Por aqui é saudável. E depois… Quando iremos chegar, se por lá se prolongar a viagem? Pensa um pouco em que aflição ficará tua mãe depois do triste acontecimento com o Batista!…
Pedro vence e Jesus concorda.
– Repousaremos logo e bem então, e amanhã bem ao alvorecer partiremos, para estarmos depois de amanhã à tarde no Getsêmani. No dia seguinte, sexta-feira, iremos à mãe, em Betânia, onde descarregaremos os livros de João, que nos cansaram não pouco, e iremos encontrar Isaac, ao qual daremos este pobre irmão…
– E o menino, dá-lo-às logo?
Jesus sorri:
– Não. Eu o darei à minha mãe, a fim de que o prepare para a “sua” festa. Depois, o teremos conosco pela Páscoa. Mas, após isso, deveremos deixá-lo também… Não te apegues demais! Ou melhor: ama-o, como se fosse um teu filho, mas com espírito sobrenatural. Tu vês: ele é débil e se cansa. A Mim também me teria agradado instruí-lo e fazê-lo crescer nutrido por Mim na Sabedoria. Mas Eu sou o Incansável, e Jabé é muito novo e muito fraco para passar pelas nossas fadigas. Nós iremos pela Judeia, depois voltaremos a Jerusalém em Pentecostes, depois iremos… iremos evangelizando… E o en contraremos de novo no verão em nossa terra. 193.5Eis-nos às portas de Siquém. Vai adiante com o teu irmão e com Judas de Simão, para procurar alojamento. Eu irei para a praça do mercado, e lá te esperarei.
E se separam, enquanto Pedro sai correndo à procura de um abrigo, e enquanto os outros vão caminhando com dificuldade pelas estradas cheias de gente, que grita e gesticula, de burros, de carros, todos indo para Jerusalém para a Páscoa iminente. As vozes, os chamados, as imprecações se misturam aos urros dos asnos, fazendo tudo um rumor, que ribomba forte sob os arcos lançados de uma casa para outra, fazendo um rumor parecido com aquele que se ouve em certas conchas, quando as encostamos ao ouvido. O eco vai de uma abóbada para outra, onde as sombras já se vão adensando, e o povo, como uma água, que vai sendo empurrada, espraia-se pelas ruas e por elas vai entrando à procura de alguma área coberta, de alguma praça ou de algum lugar onde possa passar a noite…
Jesus, segurando o menino pela mão, está encostado a uma árvore, esperando Pedro na praça que, àquela hora, já está sempre cheia de vendedores.
– Que ninguém nos veja, nem nos reconheça –diz Iscariotes.
– Como reconhecer um grãozinho num montão de areia? –responde Tomé–. Não está vendo que mundão de gente?
Pedro já está de volta:
– Fora da cidade, há uma tenda com feno. E não achei outra.
– Não iremos atrás de outra. É até bonita demais para o Filho do homem.
1 para o oeste. No desenho que segue, MV escreveu, além dos quatro pontos cardiais (que se lêem por extenso porque foi escrito em lápis): planície, Samaria e montes do sul.