198. 198. O encontro com a mãe em Betânia.Jabé tem seu nome trocado por Margziam.
23 de junho de 1945.
198.1 Através da sombreada estrada, que liga o Monte das Oliveiras a Betânia, — e eu poderia dizer que o monte chega com suas ramificações verdes até às campinas de Betânia — Jesus com os seus vai caminhando solícito, para a cidade de Lázaro. Ele ainda não entrou, mas já está sendo reconhecido, e os estafetas voluntários vão correndo por todos os lados, a fim de darem notícia de sua chegada. Por causa deles, eis que, por um lado, vão-se pondo em movimento Lázaro com Maximino, Isaac com Timoneo e José do outro; em terceiro lugar vem vindo Marta com Marcela e esta levanta seu véu para curvar-se e beijar a veste de Jesus e logo depois vão chegando Maria de Alfeu com Maria Salomé, que prestam sua veneração ao Mestre e depois abraçam seus filhos e, enquanto o pobre Jabé sempre levado pela mão de Jesus, agitado por todos estes que chegam de todos os lados, observa espantado e João de Endor, sentindo-se um estranho, vai para trás do grupo e fica separado, eis que vem se aproximando pelo caminho que conduz à casa de Simão, a mãe.
Jesus abandona a mão de Jabé e, delicadamente, vai deixando para trás os amigos, apressando-se em ir ao encontro dela. As conhecidas palavras rasgam os ares, e ressoam, como um solo de amor, pelo meio do murmúrio da multidão: “Filho!”; “Mamãe!” E se beijam, mas no beijo de Maria vê-se a ânsia de quem ficou temendo por muito tempo e agora — desfazendo-se o terror que a infernizou —, sente o cansaço pelo esforço feito, mede em toda a sua extensão o perigo em que incorreu…
Jesus a acaricia, Ele que compreende e diz:
– Além do meu anjo, Eu tinha o teu, mãe, a velar sobre Mim. Assim, nada de mal me podia acontecer.
– Louvores sejam dados ao Senhor. Mas Eu sofri tanto!
– Eu queria vir mais depressa, mas tive que fazer outro caminho, para obedecer a ti. E foi bom, porque a tua ordem, minha mãe, como sempre, floresceu para produzir o bem.
– Foi a tua obediência, Filho!
– Foi a tua ordem sábia, minha mãe…
E sorriem como dois enamorados.
Mas, será possível que esta mulher seja a mãe deste Homem? Onde estão os dezesseis anos de diferença? O frescor e a graça do rosto e do corpo virginal fazem de Maria a irmã do seu Filho, que está na plenitude de sua belíssima virilidade.
– E não me perguntas por que é que tudo floresceu para produzir um bem? –pergunta-lhe Jesus, sempre sorrindo.
– Eu sei que meu Jesus não esconde nada de mim.
– Mamãe querida!
E a beija de novo…
As pessoas se conservaram longe, à distancia de alguns metros, e fazem como se não estivessem observando aquela cena. Mas eu tenho certeza que nenhum desses olhos, que parecem estar olhando para outro lado, deixe de estar olhando, de soslaio para uma cena de tão grande suavidade.
198.2 Quem está olhando, mais que todos é Jabé, que Jesus deixou, quando foi abraçar sua mãe, e que ficou sozinho porque, desde que começaram a atropelar-se com perguntas e respostas, não prestaram mais atenção no pobre menino… Ele fica olhando, olhando, depois inclina a cabeça, luta contra o choro… mas, enfim, não aguenta mais e explode em um choro, gemendo: “Mamãe! Mamãe!”
Todos, então, e, em primeiro lugar, Jesus e Maria, e todos os outros, procuram remediar o caso e saber quem é o menino. Maria de Alfeu chega e também Pedro — eles estavam juntos — e ambos dizem:
– Por que estás chorando?
Mas antes que, em seu forte pranto, Jabé possa achar fôlego para falar, Maria já correu e o tomou nos braços, dizendo:
– Sim, meu filhinho, é a mamãe! Não chores mais… desculpa, se eu não te vi antes. Aqui está, meus amigos, o meu filhinho…
Compreende-se que Jesus, naqueles poucos metros que andou até o menino, deve ter dito a Maria: “É um pobre orfãozinho que Eu tomei comigo.” E todo o resto Maria compreendeu logo.
O menino ainda está chorando, mas agora menos inconsolável e, visto que Maria o tem nos braços e o beija, acaba até por sorrir, com o seu rostinho banhado pelo pranto.
– Vem cá, que eu te enxugo todas estas lágrimas. Não deves chorar mais. Dá-me um beijo…
Jabé… não desejava senão aquilo, e, depois de receber tantas carícias até de homens barbudos, ele se aconchega agora no calor do afeto, beijando a face lisa de Maria.
198.3 Mas Jesus saiu procurando e já avistou João de Endor, e vai buscá-lo lá em seu cantinho afastado. E, enquanto todos os outros apóstolos saúdam Maria, Jesus chega até perto dela, segurando pela mão João de Endor, e diz:
– Eis, mãe, o outro discípulo. Estes dois filhos, foi a tua ordem que os conseguiu.
– A tua obediência, meu Filho –repete Maria, e depois cumprimenta o homem, dizendo–: A paz esteja contigo.
O homem, o rústico e inquieto homem de Endor, que já mudou tanto, desde aquela manhã em que um capricho de Iscariotes levou Jesus até Endor, acaba agora de despojar-se do seu passado, enquanto se inclina para Maria. Eu acho que é assim, de tal forma o rosto que se levanta, depois daquela profunda inclinação, aparece sereno, verdadeiramente “pacificado.”
198.4 Põem-se todos a caminho da casa de Simão. Maria, com Jabé nos braços, Jesus, segurando pela mão João de Endor, e depois, ao redor e atrás ,estão Lázaro e Marta, os apóstolos com Maximino, Isaac, José e Timoneu.
Entram na casa, em cuja soleira o velho servo de Simão venera a Jesus e a seu patrão.
– A paz esteja contigo José, e com esta casa –diz Jesus, levantando a mão para abençoar, depois de tê-la posto sobre a cabeça já branca do velho servo.
Lázaro e Marta, depois da primeira alegria, ficaram um pouco tristes e Jesus pergunta:
– Por que, amigos?
– Porque Tu não estás conosco e porque todos vêm a Ti, menos a alma que nós quereríamos que fosse tua.
– Animai-vos com paciência, na esperança e na oração. Além disso, Eu estou convosco. Esta casa!… Esta casa não é mais do que o ninho, ao qual o Filho do Homem voará todos os dias para os queridos amigos, que estão tão perto no espaço, mas que, considerando-se sobrenaturalmente o assunto, estão infinitamente mais perto no amor. Vós estais no meu coração, e Eu estou no vosso. Pode-se estar mais perto do que estando assim? Mas, nesta tarde, estaremos juntos. Vinde sentar-vos à minha mesa.
– Oh! pobre de mim! E eu fico aqui me balançando. Vem cá, Salomé. Temos muito que fazer!
O grito de Maria de Alfeu faz todos sorrirem, enquanto a boa parenta de Jesus se levanta prontamente para ir ao seu trabalho.
Mas Marta logo lhe diz:
– Não te preocupes, Maria, pela comida. Eu vou dar ordens. Tu, prepara somente as mesas. Eu vou te mandar cadeiras suficientes e tudo mais que for preciso. Vem Marcela. Eu volto logo, Mestre.
198.5 – Eu vi José de Arimateia, Lázaro. Segunda-feira ele vai vir aqui com uns amigos.
– Oh! Então, naquele dia serás meu!
– Sim. Ele vem para estarmos juntos, mas também para combinarmos uma cerimônia, que diz respeito a Jabé. João: leva o menino para o terraço. Ele vai se divertir.
João de Zebedeu, sempre obediente, levanta-se logo do seu lugar e, pouco depois, já se ouve a voz do menino e o barulho de seus pezinhos, no terraço que está ao redor da casa.
– O menino –explica Jesus à mãe, aos amigos, às mulheres, entre as quais está Marta, que andou voando para não perder nem um minuto da alegria de estar perto do Mestre–, é neto de um dos camponeses de Doras. Eu passei por Esdrelon…
– É verdade que os campos estão uma desolação, e que ele os quer vender?
– Que estão uma desolação, estão. Quanto à venda, não estou sabendo. Um dos camponeses de Jocanã me falou do assunto. Mas não sei se é coisa certa.
– Se ele os vendesse… eu os compraria de boa vontade, para ter neles um abrigo para Ti, também dentro daquele ninho de serpentes.
– Não sei se conseguirás. Jocanã está disposto a ficar com eles.
– Isso veremos… Mas, continua o que ias dizendo. De que camponeses se trata? Os que tinha antes, ele os esparramou todos.
– É verdade. Os de agora estão vindo de suas terras na Judeia, pelo menos o velho, que é parente do menino. O menino era mantido no bosque, como um animal selvagem, a fim de que Doras não o visse… e esteve lá desde o inverno…
– Oh! pobre menino! Mas por quê?
As mulheres estão todas comovidas.
– Porque o pai e a mãe dele ficaram sepultados pela avalancha nas vizinhanças de Emaús. Todos: o pai, a mãe e os irmãozinhos. Ele ficou vivo, porque não estava em casa. Levaram-no para a casa do avô. Mas, que podia fazer um camponês de Doras? Tu, Isaac, falaste de Mim, como de um salvador, também para este caso.
– Eu fiz mal, Senhor? –pergunta humildemente Isaac.
– Fizeste bem. Deus assim queria. O velho me deu o menino, que está até para tornar-se maior de idade por estes dias.
– Oh! pobrezinho! Tão pequeno, com doze anos?! O meu Judas tinha quase o dobro de altura, quando estava nesta idade… E Jesus? Que flor! –diz Maria de Alfeu.
E Salomé:
– Meus filhos também eram bem mais fortes!
Marta murmura:
– De fato, é bem pequenino! Eu pensava que nem tivesse ainda dez anos.
– É isso. A fome é bruta. E ele deve ter passado fome desde que nasceu. Agora, então… Que é que o velho lhe iria dar, se lá todos estão morrendo de fome? –diz Pedro.
– Sim, ele sofreu muito. Mas ele é muito bom e inteligente. Eu o tomei para consolar o velho e o menino.
198.6 – Tu o vais adotar? –pergunta Lázaro.
– Não. Não posso.
– Então, eu fico com ele.
Pedro vê desvanecer-se sua esperança, e solta um bem claro e verdadeiro gemido:
– Senhor! Tudo para ele?
Jesus sorri:
– Lázaro, tu já fizeste tanto e Eu te sou agradecido por isso. Mas este menino não o posso confiar a ti. É o “nosso menino.” De todos nós. É a alegria dos apóstolos e do Mestre. Além disso, aqui ele cresceria no meio da riqueza. E Eu lhe quero dar de presente o meu manto real: “a honesta pobreza.” Aquela que o Filho do homem quis para Si, para poder aproximar-se de todas as grandes misérias, sem humilhar ninguém. Tu tiveste, há pouco tempo, um presente meu…
– Ah! sim. O velho patriarca e sua filha. Muito ativa a mulher e o velho é muito bom.
– Onde estão eles agora? Quero dizer: em que lugar?
– Estão aqui, em Betânia. Achas que eu iria afastar de mim a bênção que me enviaste? A mulher trabalha com o linho. O trabalho com ele exige mãos ligeiras e experientes. O velho, visto que ele só quer mesmo é trabalhar, eu o mandei tomar conta das colmeias. Ontem — não é verdade, mana? — ele estava com a barba toda cor de ouro. As abelhas, tendo enxameado, tinham-se agarrado todas àquele barba e ele estava conversando com elas, como com umas filhas. Ele está feliz.
– Eu faço ideia! Que tu sejas bendito! –diz Jesus.
– Obrigado, Mestre. 198.7Mas aquele menino vai fazer-te gastar! Tu me permitirás, pelo menos…
– Eu estou pensando em sua veste para a festa –grita Pedro.
Todos se riem da impulsividade do grito.
– Está bem. Mas haverá necessidade também de outras roupas. Simão, sê bom. Eu também não tenho filhos. Deixa que eu e Marta nos consolemos, tratando das pequenas vestes a serem feitas.
Pedro, tendo sido assim rogado, de repente se comove, e diz:
– As vestes… sim. Mas a veste para quarta-feira, dela eu trato. O Mestre já me prometeu, e até disse que eu devo ir com a mãe comprá-la amanhã.
Pedro diz tudo isso por medo de que haja alguma mudança em seu desfavor.
Jesus sorri, e diz:
– Sim, mãe. Eu te peço que vás amanhã com Simão. Senão, este homem acaba morrendo de aflição. Tu o aconselharás na escolha.
– Eu disse: veste vermelha e cinta verde. Ficará muito bem. Pelo menos melhor do que a cor que ele tem agora.
– Vermelho ficará muito bem. Também Jesus estava vestido de vermelho. Mas eu diria que ficaria melhor sobre o vermelho uma cinta vermelha, ou pelo menos, bordada em vermelho –diz Maria com doçura.
– Eu dizia assim, porque estou vendo como Judas, que é moreno, fica muito bem com aquelas fitas verdes sobre o hábito vermelho…
– Mas elas não são verdes, amigo –diz, rindo, Iscariotes.
– Não? Então, de que cor são?
– Esta cor é chamada “veio de ágata.”
– E, que queres que eu entenda disso?! A mim me pareceu verde. É a cor que eu vejo nas folhas!
Maria intervém com benignidade:
– Simão tem razão. É exatamente a cor que as folhas tomam, com as primeiras chuvas de Tisri…
– Aí está! E, assim como as folhas são verdes, eu dizia que era verde –termina, contente, Pedro.
A Virgem Suave fez haver paz e alegria até numa pequena coisa como esta.
198.8 – Quereis chamar o pequeno? –pede Maria.
E o menino chega logo, junto com João.
– Como te chamas? –pergunta Maria, acariciando-o.
– Eu sou… eu era Jabé. Mas agora estou esperando o nome…
– Tu o estás esperando?
– Sim. Jabé está querendo um nome que queira dizer que Eu o salvei. Tu procurarás esse nome, minha mãe. Um nome de amor e salvação.
Maria fica pensando… e depois diz:
– Marjiziam (Maarhgziam). Tu és a pequena gota do mar dos salvados de Jesus. Agrada-te? Assim ele faz pensar em mim e na Salvação.
– É muito bonito –diz contente o menino.
– Mas, este, não é um nome de mulher? –pergunta Bartolomeu.
– Com um L no fim, em lugar do M, quando este esboço de homem se tornar um adulto, podereis mudar o seu nome em nome de homem. Por enquanto, vai levar o nome que lhe deu a Mamãe. Está bem?
O menino diz que sim, e Maria o acaricia.
A cunhada lhe pergunta:
– Esta lã é bonita –e toca na capinha de Jabé–, mas tem uma cor! Que achas? Eu a tingirei de vermelho escuro. Ficará bem.
– Amanhã de tarde faremos isso. Porque amanhã é que ele vai receber sua veste nova. Agora não podemos tirar esta.
Marta diz:
– Virias comigo, menino? Te levo aqui perto, para ver muitas coisas e depois retornamos aqui…
Jabé não recusa. Ele nunca recusa nada… mas parece que está com um pouco de medo de ir com uma mulher quase desconhecida. Ele diz, entre tímido e delicado:
– João poderia ir comigo?
– Sem dúvida!
E lá se vão. 198.9E, enquanto eles estão ausentes, as conversações entre os vários grupos continuam. São narrações, comentários, suspiros por causa da dureza humana.
Isaac conta tudo o que ele pôde ficar sabendo do Batista. Há quem diga que ele está em Maqueronte, e quem diga que está em Tiberíades. Os discípulos ainda não voltaram…
– Mas, eles não o haviam acompanhado?
– Sim. Mas, perto de Doco, os captores atravessaram o rio com o prisioneiro e não se sabe se depois subiram para o lago ou se desceram para Maqueronte. João, Matias e Simeão puseram-se em seu encalço, para saberem, e certamente não o abandonarão.
– E tu, Isaac, com certeza não abandonarás este novo discípulo. Por enquanto, ele está comigo. Quero que faça a Páscoa comigo.
– Eu a farei em Jerusalém, na casa da Joana. Ela me viu, e me ofereceu um quarto para mim e os meus companheiros. Todos irão este ano. E estaremos com Jônatas.
– Virão também os do Líbano?
– Também. Mas talvez não poderão vir os discípulos de João.
– Sabes que virão os de Jocanã?
– É verdade? Estarei junto à porta, junto aos sacerdotes que fazem as imolações. Eu os verei e levarei comigo.
– Podes esperá-los, lá pela última hora. Pois eles têm, um tempo contado. Mas têm o cordeiro.
– Eu também. Magnífico! Foi Lázaro quem o deu. Imolaremos este; e o outro, o deles, servir-lhes-á para a volta.
198.10 – Está entrando de novo Marta com João e o menino, vestido este com uma pequena veste de linho branco e uma sobreveste vermelha. Sobre o braço traz umo manto também vermelho.
– Estás reconhecendo isto, Lázaro? Estás vendo como tudo serve?
Os dois irmãos sorriem.
Jesus diz:
– Eu te agradeço, Marta.
– Oh! Senhor meu! Eu tenho a mania de ficar guardando tudo. Eu a herdei de minha mãe. Tenho ainda muitas vestes do meu irmão. Muito queridas, porque foram tocadas pela minha mãe. De vez em quando, eu tiro uma parte delas para algum menino. Agora, vou dá-la a Margziam. São um pouco compridas, mas podem ser encurtadas. Lázaro, quando se tornou maior de idade, não as quis mais… Um bonito capricho, próprio de crianças… e que venceu porque minha mãe adorava o seu Lázaro.
A irmã o acaricia com amor e Lázaro pega sua belíssima mão, beija-a e diz:
– E tu, não?
Sorriem um para o outro.
– Foi providencial isto –observam muitos.
– Sim, o meu capricho deu bom resultado. Talvez me será perdoado por isso.
A ceia está pronta, e cada um vai para o seu lugar…
198.11 Já é noite, quando Jesus pode falar em paz com sua mãe. Eles subiram para o terraço e, sentados em cadeiras um ao lado da outra, com a mão na mão, falam e escutam um ao outro. Primeiro é Jesus, que narra as coisas que aconteceram. Depois, é Maria que diz:
– Meu Filho, depois da tua partida, logo depois, veio à minha casa uma mulher… Ela estava Te procurando. Uma grande miséria. E uma grande redenção. Mas essa criatura tem necessidade do teu perdão, para ser firme em sua resolução. Eu a confiei à Susana, dizendo que era uma das curadas por Ti. É verdade. Eu a poderia ter comigo, se nossa casa não fosse o que é, um verdadeiro mar, onde todos navegam, e muitos com más intenções. E a mulher já está com repugnância pelo mundo. Queres saber quem é?
– É uma alma. Mas, dize-me o seu nome, para que Eu possa acolhê-la sem erro.
– É Aglaé. É a romana, dançarina e pecadora, que Tu começaste a salvar no Hebron, que Te procurou e Te encontrou em Águas Belas e que, por sua renascida honestidade, já tem sofrido. E quanto!… Ela me disse tudo… Que horror!…
– O seu pecado?
– Este é…., diria, mais ainda; que horror é o mundo! Oh! Meu Filho! Desconfia dos fariseus de Cafarnaum! Daquela infeliz eles queriam servir-se para Te fazerem mal. Até dela…
– Eu sei, mãe… Onde está Aglaé?
– Chegará com Susana, antes da Páscoa.
– Está bem. Eu falarei com ela. Estarei aqui todas as tardes, menos na tarde do dia da Páscoa, que Eu devo consagrar à família, Eu a atenderei. Basta detê-la aqui, se ela vier. É uma grande redenção, como disseste. E tão espontânea! Em verdade, Eu te digo que em poucos corações a minha semente se enraíza com a força com que se enraizou nesse terreno infeliz. E depois André ajudou o crescimento, até a sua completa formação.
– Ele me disse.
– Mãe, que foi que sentiste, ao te aproximares daquela ruína?
– Senti asco e alegria. Parecia-me estar à beira de um abismo do inferno, mas, ao mesmo tempo, me sentia sendo transportada ao azul. Como Tu és Deus, meu Jesus, quando realizas esses milagres!
Ficam calados por baixo das estrelas luminosíssimas e na brancura de um quarto de lua que já está quase cheia. Calados, e repousando um no amor da outro.