233. 233. Parábola da ovelhinha tresmalhadaouvida também por Maria de Magdala.


[12 de agosto de 1944.]

233.1Jesus fala às multidões. Tendo subido à margem arborizada de uma pequena torrente, Ele está falando a muitas pessoas, espalhadas pelo campo, onde o trigo acabou de ser ceifado, e mostra ainda o aspecto triste dos restolhos queimados.

Já chegou a tarde. O crepúsculo vem descendo, mas a Lua também já vem subindo. É uma bela e clara tarde de um começo de verão. Alguns rebanhos estão voltando para o redil, e o din-don das campainhas já se mistura com o forte cantar dos grilos ou das cigarras, em um contínuo cri, cri, cri

Jesus busca o assunto nas manadas que vão passando. Ele diz:

 O vosso Pai é como um pastor cuidadoso. Como faz o bom pastor? Ele procura pastos bons para as suas ovelhinhas, e as pastoreia onde não há cicutas nem tóxicos, mas trevos de bom sabor, poejos aromáticos e amargos e saudáveis agriões. Procura os lugares onde, junto com o alimento, haja também algum pequeno regato de águas frescas e limpas, haja sombra de árvores, e onde não encontre cobras pelo meio do verdor das ervas. Ele não procura de preferência as pastagens mais viçosas, porque sabe que nelas é fácil encontrar a cilada das serpentes e das ervas nocivas, mas prefere as pastagens da montanha, onde as orvalhadas conservam sempre limpas e frescas as pequenas ervas, enquanto o Sol as mantém sempre limpas de répteis, lá onde o ar está sempre em movimento e é bom, e não pesado e insalubre como o ar da planície. O bom pastor observa uma por uma as suas ovelhas. Trata delas, quando estão doentes e faz curativos nelas, quando estão feridas. Ele grita com a que ficaria doente, por estar comendo demais, e a outras que pegariam alguma doença por ficarem muito tempo em lugares encharcados ou muito isolados, ele as chama para irem para outro lugar. E, se uma está sem apetite e não come, ele procura para ela ervas ligeiramente ácidas e aromáticas, capazes de despertar-lhe o apetite e lhe dá com sua mão, conversando com ela, como com uma pessoa amiga.

Assim é que faz o bom Pai, que está nos Céus, com os seus filhos errantes sobre a terra. Seu amor é a vara que os reúne e a voz que os guia, e as pastagens são a sua Lei, e seu redil é o Céu.

233.2Mas acontece que uma ovelhinha se afastou dele. Quanto Ele a amava! Ela era nova, pura, cândida, como uma nuvem em céu de abril. O pastor olhava para ela com muito amor, pensando em quanto bem Ele podia fazer a ela e quanto amor dela podia receber.

Mas ela o abandona.

Havia passado por ali um tentador, ao longo da estrada que vai margeando a pastagem. Ele não vinha vestido de um modo austero, mas com uma veste de mil cores. Não vinha com cinturão de couro, com um machado e uma faca pendurados, mas, sim, com um cinturão de ouro, tendo pendurados nele guizos de prata, de sons melodiosos como a voz do rouxinol e ampolas de perfumes que inebriam…Não trazia um bordão, como os bons pastores, para reunir e defender as ovelhas e que, quando não basta o bordão, estão prontos a defendê-las com o machado e a faca e a até com sua vida. Mas aquele tentador, que havia passado, tinha nas mãos um turíbulo brilhante por suas pedras preciosas, das quais subia fumaça, que é de mau cheiro e perfume ao mesmo tempo, mas que atordoa tanto como as joias, que são lapidadas, sim, mas totalmente falsas! Ele estava deslumbrante. E ia cantando e deixando cair punhados de um sal que brilhava sobre a terra escura.

Noventa e nove ovelhas olharam, e pararam. A centésima, a mais nova e querida, dá um pulo, e desaparece, indo atrás do tentador. O pastor bem que a chama. Mas ela não volta. E lá vai, mais rápida do que o vento, para alcançar aquele que passou e, para ter forças para correr, ela experimentou daquele sal. E, quando ele ia descendo por dentro dela, a queimou. Então, um delírio estranho fez que ela procurasse água profundas e verdes em matas escuras. E, nas matas, indo atrás do tentador, ela vai-se entranhando, sobe e desce, e cai… uma, duas, três vezes. E uma, duas, três vezes. ela sente, ao redor do seu pescoço, o abraço viscoso dos répteis, e, querendo beber, bebe daquelas águas impuras. E querendo alimentar-se, morde ervas que têm o brilho de uma baba repugnante.

233.3Que faz, entretanto, o bom pastor? Ele fecha em lugar seguro as outras noventa e nove, e depois põe-se a caminho, e não para de andar, enquanto não encontra os rastros da que se perdeu. E, como ela não volta a ele, que está confiando aos ventos as palavras com que a chama, ele continua a ir em busca da perdida. E chega a vê-la lá ao longe, estonteada por entre as espirais dos répteis, e já tão tonta, que nem sente mais saudade do rosto que a ama. Até ainda zomba dele. E ele a torna a olhar, culpada por haver penetrado, como uma ladra, em casa alheia, tão culpada, que nem tem mais coragem de olhar para ele… Contudo, o pastor não se cansa… e vai. Procura-a, procura-a, e a acompanha, seguindo os seus rastros. Vai chorando sobre os sinais deixados por ela: são flocos de lã: traços de alma; traços de sangue: delitos diversos; sinais bem diferentes, sujeiras, provas de sua luxúria. Ele vai indo até que a alcança.

Ah! Eu te encontrei, querida, eu te alcancei. Que caminhada eu fiz por causa de ti! Para tornar a levar-te para o redil. Não inclines tua fronte aviltada. O teu pecado está sepultado em meu coração. Ninguém, a não ser eu, que te amo, ficará sabendo disso. Eu te defenderei das críticas dos outros, eu te cobrirei com a minha pessoa, para servir-te de escudo contra as pedras dos acusadores. Vem. Estás ferida? Oh! Mostra-me as tuas feridas. Eu as conheço. Mas eu quero que tu as mostres, com a confiança que tinhas quando eras pura, e olhavas para mim, teu pastor e deus, com olhos inocentes. Aqui estão elas. Todas elas têm um nome. Como são profundas! Como foram feitas estas tão profundas, que chegam ao fundo do coração? Foi o Tentador, eu sei. E ele, que não usa bordão nem machado, mas que fere ainda mais fundo com a sua mordida envenenada, e, atrás dela, continuam ferindo as joias falsas do seu turíbulo: aquelas que te seduziram por seu brilho… e que eram os enxofres do inferno, trazidos à luz, para queimar-te o coração. Olha, quantas feridas! Quanta lã rasgada, quanto sangue, quanta sarça.

233.4Ó pobre, pequena alma iludida! Mas, dize-me: Se eu te perdôo, me amarás ainda? Mas, dize-me: Se eu te estendo os braços, tu virás para cá? Mas, dize-me: Tens sede de amor bom? E, então! Vem, e nasce de novo. Volta para as pastagens santas. Chora. O teu com o meu pranto lavam as manchas deixadas pelo teu pecado, e eu, para alimentar-te, visto que tu estás consumida pelo mal, que te queimou, abro o meu peito, abro minhas veias, e te digo: “Alimenta-te, mas vive!”

Vem, que eu te tomo nos braços: Iremos mais bem dispostos às pastagens santas e seguras. Tudo haverás de esquecer desta hora de desespero. E as tuas noventa e nove irmãs se alegrarão pela tua volta, porque, eu te digo, a minha ovelhinha tresmalhada, que eu fui procurar, tendo que andar até tão longe, e que eu afinal alcancei, que eu salvei, pois maior festa se faz entre os bons por um tresmalhado que volta, do que por noventa e nove justos que jamais se afastaram do redil.

223.5Jesus nenhuma vez se virou para olhar para o caminho, que está atrás dele, e pelo qual acaba de chegar, por entre as penumbras da tarde, Maria de Magdala, ainda elegantíssima, mas vestida muito mais simplesmente, coberta com um véu escuro, que uniformiza os seus gestos e suas formas. Mas, quando Jesus fala: “Eu te encontrei, querida”, Maria põe as mãos debaixo do véu, e chora baixo, mas continuamente. As pessoas não a veem, porque ela está para além do barranco, que fica à beira da estrada. Quem a vê é somente a Lua, que já vai alta, e o espírito de Jesus… o qual me diz:

 O comentário está na visão. Mas Eu te falarei dele ainda. Agora repousa, porque é tarde. Eu te abençôo, Maria fiel.