272. 272. Reencarnação e vida eternano diálogo com um escriba.
6 de setembro de 1945.
272.1Quando Jesus põe o pé na margem direita do Jordão, a uma boa milha, ou talvez mais, da pequena península de Tariqueia — lugar onde não há nada mais do que campinas verdes, porque o terreno, agora enxuto, mas úmido nas camadas profundas, conserva ainda vivas até as vegetações mais finas —, Ele encontra muita gente a esperá-lo.
Vão ao seu encontro os primos, em companhia de Simão, o Zelotes:
– Mestre, as barcas é que indicaram onde estamos… E talvez Manaém tenha servido de indicador…
– Mestre –desculpa-se Manaém–, eu quis partir de noite para não ser visto, e saí sem falar com ninguém. Podes crer. Muitos me perguntaram onde estavas. Mas a todos eu disse somente isto: “Ele partiu.” Mas eu creio que quem fez mal foi um pescador, dizendo que te havia dado a barca…
– É aquele imbecil do meu cunhado!, troveja Pedro. Eu lhe havia dito que não falasse nada! E lhe havia dito que íamos a Betsaida! E lhe havia dito também que, se ele falasse, eu lhe arrancaria a barba! E agora? Adeus, paz, isolamento, repouso!
– Está bem, está bem, Simão. Nós já tivemos os nossos dias de paz, E, afinal, uma parte do que Eu desejava Eu consegui: ensinar-vos, consolar-vos e acalmar-vos, para impedir ofensas e choques entre vós e os fariseus de Cafarnaum. Agora, vamos a estes que nos esperam. Para premiar a fé e o amor deles. Pois este amor também não é uma coisa que consola? Nós estamos sofrendo por causa do ódio. Aqui há amor. E por isso há alegria.
Pedro se acalma, como vento que cessa de repente. E Jesus se dirige à multidão dos doentes, que o estão esperando com o desejo visível em seus rostos, e os vai curando, um depois do outro, cheio de benevolência, paciente até para com um escriba, que lhe apresenta seu filhinho doente.
272.2É esse escriba que lhe diz:
– Estás vendo? Tu foges. Mas é inútil fazê-lo. O ódio e o amor são astutos para encontrarem o que querem. Aqui foi o amor que te encontrou, como está escrito1 no Cântico dos Cânticos. Para muitos Tu és como o Esposo dos Cânticos. E eles vêm a Ti, como a Sulamita vai ao esposo, desafiando os guardas da ronda e as quadrigas de Aminadab.
– Por que estás dizendo isso, por quê?
– Porque é verdade. Vir é um perigo, porque és odiado. Não sabes que Roma te espreita e que o Templo te odeia?
– Por que me tentas, homem? Tu estás colocando uma cilada em tuas palavras, para ir levar depois ao Templo e a Roma as minhas respostas. Não foi com ciladas que Eu curei o teu filho…
O escriba, diante daquela doce censura, inclina, confuso, a cabeça, e confessa:
– Vejo que realmente Tu vês os corações dos homens. Perdoa-me. Eu vejo que realmente és santo. Perdoa-me. Eu tinha vindo sim, fermentando em mim o lêvedo que outros em mim haviam colocado…
– E que encontrou em ti o calor próprio para fermentar.
– Sim. É verdade… Mas agora, vou-me daqui sem lêvedo. Ou melhor, com lêvedo novo.
– Eu sei. E não tenho rancor. Muitos estão culpados por sua própria vontade, e muitos, por vontade dos outros. Diferente vai ser a medida com que vão ser julgados pelo justo Deus. Tu, escriba, sê justo, e não corrompas no futuro, como foste corrompido. Quando as pressões do mundo te premerem, olha esta graça viva, que é o teu filho, que foi salvo da morte, e sê reconhecido para com Deus.
– Para contigo.
– Para com Deus. A Ele toda glória e louvor. Eu sou o Messias, e sou o primeiro a louvá-lo e a glorificá-lo. O primeiro a obedecer-lhe. Porque o homem não se avilta por honrar e servir a Deus em verdade, mas se degrada, servindo ao pecado.
– Dizes bem. Falas sempre assim? A todos?
– A todos. Se Eu falasse a Anás ou a Gamaliel, ou se Eu falasse ao mendigo leproso, que está à beira de um caminho, minhas palavras seriam as mesmas, porque a Verdade é uma só.
– Fala, então, porque todos estamos aqui, como mendigos precisando de tua palavra, ou de tua graça.
– Eu falarei. Para que não se diga que Eu tenho preconceitos contra quem é honesto em suas convicções.
– Morreram aquelas que eu tinha. Mas é verdade. Eu era honesto nelas. Eu pensava estar servindo a Deus, quando combatia contra Ti.
– És sincero. E por isso mereces compreender a Deus, que nunca é mentira. Mas as tuas convicções não estão ainda mortas. Eu te digo. Elas são como gramíneas queimadas. Por cima parecem mortas, mas, na verdade, elas apenas sofreram um duro assalto que as enfraqueceu muito. Mas suas raízes estão vivas. E o terreno as nutre. E as orvalhadas as convidam a lançar novos rizomas, e estes lançam novas folhas. É preciso vigiar para que isso não aconteça, ou serás de novo invadido pelas gramíneas. 272.3Israel é duro para morrer.
– Israel, então, deve morrer? É uma planta má?
– Deve morrer para ressurgir.
– Uma reencarnação espiritual?
– Uma evolução espiritual. Não há reencarnações de nenhuma espécie.
– Há quem creia que há.
– Eles estão errados.
– O helenismo colocou entre nós também essas crenças. E os doutos se nutrem com elas, e se gloriam de serem elas um alimento muito nobre.
– É uma contradição absurda naqueles que gritam o anátema para transcurar um dos seiscentos e treze preceitos menores.
– É verdade. Mas… assim é. Gostam de imitar até o que odeiam.
– Nesse caso, imitai a Mim, já que me odiais. Será melhor para vós.
O escriba deve sorrir de um modo sutil, mesmo que não queira, por esta saída de Jesus. As pessoas estão de boca aberta, escutando, e os que estão mais longe pedem aos que estão mais perto que lhes repitam as palavras dos dois.
– Mas Tu, em confidência, que é que achas da reencarnação?
– Que é um erro. Eu já o disse.
– Há pessoas que dizem que os vivos são gerados pelos mortos, e os mortos pelos vivos, porque o que existe não se destrói.
– O que não é eterno se destrói, de fato. Mas, dize-me: No teu parecer, o Criador tem limites para Si mesmo?
– Não, Mestre. Aceitar isso seria um rebaixamento.
– Tu o disseste. E, então, poder-se-à pensar que Ele permita que um espírito se reencarne, porque mais do que os muitos espíritos que já existem não podem existir outros?
– Não se deveria pensar assim. E, no entanto, há quem assim pense.
– E, o que é pior, pensa-se assim em Israel. Esse pensamento da imortalidade do espírito, que já é um grande pensamento em um pagão, ainda mesmo quando ele está unido ao erro de uma avaliação injusta sobre como é que acontece essa imortalidade, em um israelita esse pensamento deveria ser perfeito. Mas, pelo contrário, em quem o admite, nos termos da tese pagã, torna-se um pensamento limitado, rebaixado, culpável. Já não é uma glória o pensamento, que se mostra como digno de admiração, por ter passado rente à Verdade por si só, e que por isso dá um testemunho da natureza composta do homem, como ela o é também no pagão, por essa sua intuição de uma vida perene desta coisa misteriosa, que tem o nome de alma, e que nos distingue dos brutos. Mas um rebaixamento do pensamento que, conhecendo a Divina Sabedoria e o Deus verdadeiro, torna-se materialista, até em coisa tão altamente espiritual. 272.4 O espírito não transmigra, a não ser do Criador para o ser e do ser para o Criador, ao qual ele se apresenta depois da vida, para receber julgamento de vida ou de morte. Esta é a verdade. E, para onde for mandado, lá fica. Para sempre.
– Não admites o Purgatório2?
– Sim. Por que perguntas?
– Porque Tu dizes: “Para onde for mandado, lá fica.” O Purgatório é temporário.
– Exatamente. Eu o absorvo no meu pensamento da Vida Eterna. Pois o Purgatório já é “vida.” É verdade que é uma vida amortecida, ainda atada, mas sempre é vital. Terminada a temporária parada no Purgatório, o espírito conquista a Vida perfeita, a alcança, agora sem limites e sem nenhum outro vínculo. Duas são as coisas que permanecerão: O Céu, o Abismo, o Paraíso e o Inferno. Os Bem-aventurados e os condenados. Mas daqueles três reinos, que agora existem3, nenhum espírito voltará a revestir-se de carne. E isso até o dia da ressurreição final, que encerrará para sempre a encarnação dos espíritos na carne, do imortal no mortal.
– Eterno, não?
– Eterno é Deus. Eternidade é não ter principio, nem fim. E isto, só Deus. E a imortalidade é continuar a viver, desde quando se começou a viver. E isso se dá com o espírito do homem. Eis a diferença.
– Tu dizes “Vida eterna.”
– Sim. Desde quando alguém é criado para a vida, pode, pelo espírito, pela graça e pela vontade, conseguir a vida eterna. Não a eternidade. Vida pressupõe começo. Não se diz “Vida de Deus”, porque Deus não teve princípio.
– E Tu?
– Eu viverei, porque também Eu sou carne, e ao Espírito divino Eu tenho unida a alma do Cristo na carne do homem.
– Deus é chamado4 “o Vivente.”
– De fato. Ele não conhece morte. Ele é vida. A vida inexaurível. Não vida de Deus. Mas vida. Só isto. Isto são esfumaturas, ó escriba. É nas esfumaturas que se encerra Sabedoria e Verdade.
272.5– É assim que falas aos pagãos?
– Não é assim. Eles não compreenderiam. Eu lhes mostro o Sol. Mas assim como Eu o mostraria a um menino, até então cego e tolo que, por um milagre, tivesse voltado a ver e a entender. Assim: como um astro. Sem começar a explicar a composição dele. Mas vós em Israel, não sois cegos nem tolos. Há séculos o dedo de Deus vos abriu os olhos e desanuviou a mente.
– É verdade, Mestre. No entanto, somos cegos e tolos.
– Vós vos fizestes assim. E não quereis o milagre de quem vos ama.
– Mestre…
– É verdade, escriba.
Este inclina a cabeça, e se cala. Jesus o deixa, e anda para diante e de passagem acaricia Marziam e o filhinho do escriba, que estavam brincando com pedrinhas de várias cores. Mais do que uma pregação, o que Jesus faz é uma conversação com este ou com aquele grupo. Mas é uma pregação continua, porque vai resolvendo todas as dúvidas, esclarecendo todos os pensamentos, resume ou amplia coisas que já foram ditas, ou conceitos, em alguns dos pontos de que alguém vai-se lembrando. E assim passam as horas.
1 está escrito, especialmente no Cântico dos cânticos 3,1-4 (em 7,1 figura o nome de Sulamite dado a esposa).
2 o Purgatório, desconhecido naquele tempo como vocábulo, porém era conhecido como conceito, esboçado em 2 Macabeus 12,45 (vulgata: 12,45-46). Portanto a expressão Purgatório, cada vez que é referida à cultura judaica e não à doutrina cristã, se deve entender como a tradução daquele conceito na linguagem moderna da obra valtortiana. De “purificação” da alma como “preparação ao gáudio”, fala ainda Jesus em 524.9.
3 daqueles três reinos, que agora existem, refletem a tríplice espera no limbo, do qual tratamos em nota em 223.7.
4 é chamado, por exemplo, em Jeremias 10,10.
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