419. 419. Cura em um pequeno povoado da Decápole.Parábola do escultor e das estátuas.


2 de outubro de 1944.

419.1 É um pequeno povoado, situado perto de um rio e com poucas casas, muito modestas. Deve ser aquele lugar onde Jesus atravessou de barca o Jordão1, que estava na cheia, pois eu estou vendo vir ao encontro de Jesus, que havia mandado à sua frente Iscariotes e Tomé, o barqueiro e seus parentes.

O barqueiro, ao ver Jesus, que ainda estava longe, apressou o passo e, tendo chegado diante de Jesus, inclinou-se, com grande respeito, dizendo:

– Benvindo sejas, Senhor, aos nossos doentes. Eles te estão esperando. Eu tenho falado muito de Ti. Todos deste lugar te saúdam por minha boca, para te dizerem: “Bendito seja o Messias do Deus Altíssimo!”

– A paz para ti e para este lugar. Eu estou aqui por causa de vós. Não ficareis desiludidos em vossas esperanças. Quem crê terá a piedade do Céu. Vamos.

E Jesus se põe ao lado do barqueiro, dirigindo-se para o centro do pequeno povoado.

Mulheres, meninos, homens, todos aparecem nas soleiras e depois acompanham o pequeno cortejo à medida que ele vai indo para diante. A cada metro, cresce número das pessoas, pois sempre se vão unindo uma à outra até à primeira. Uns o saúdam, outros o bendizem, outros o invocam.

419.2 – Mestre –grita uma mãe–, meu filho está doente. Vem, bendito!

E Jesus se desvia para o rumo de uma pobre casa, põe uma das mãos sobre o ombro da mãe, que está chorando, e lhe pergunta:

– Onde está o teu filho?

– Aqui, Mestre, vem.

Entram a mãe, Jesus, o barqueiro, Pedro, João, Tadeu e alguns populares. Os outros se apinham na porta, espichando os pescoços para verem melhor.

Em um canto da pobre e escura cozinha, está uma caminha ao lado da lareira acesa. E em cima dela está o pequeno cadáver de um menino de sete anos. Eu digo um pequeno cadáver, pelo tanto que ele foi devastado pela doença, estando já amarelado e sem movimento. Somente a respiração estertorosa do pequeno peito se percebe, e eu diria que ele está doente de tuberculose.

– Olha, Mestre. Gastei todos os meus recursos para salvar pelo menos este. Eu o levei até Cesareia marítima, para mostrá-lo a um médico romano. Mas ele somente me soube dizer: “Resigna-te. O caruncho o está roendo.” Olha…

E a mãe descobre o pobre pequenino ser, puxando para trás as cobertas. Nos lugares em que o corpo não está enfaixado, há uns ossinhos que se deixam ver, saindo de uma pele ressequida e amarelenta. Mas poucas são as partes do corpo que estão descobertas. As outras estão sob bandagens e paninhos que, quando vão sendo tirados pela mãe, vão mostrando os buracos característicos, por onde gotejam os carcomas ósseos. É um espetáculo que inspira compaixão.

419.3 O doentinho está tão abatido, que não faz nenhum movimento. Parece até que nem seja com ele tudo aquilo. Ele apenas abre seus olhos encovados e espantados, lança um olhar indiferente, eu diria enfastiado, para todas aquelas pessoas. Depois torna a fechar os olhos.

Jesus o acaricia. Põe sua longa mão sobre a cabecinha caída, e o menino abre de novo os olhos, olhando com mais interesse para aquele homem desconhecido, que toca nele com tanto amor, e que lhe sorri com tanta piedade.

– Queres ficar são? –fala Jesus em voz baixa, inclinando-se sobre o pequeno rosto macilento. Antes, Ele cobriu de novo o corpinho, dizendo à mãe, que estava querendo pôr outras faixas:

– Não é preciso, mulher. Deixa como está.

O doentinho concorda, sem falar.

– Por quê?

– Por causa de minha mãe –diz a vozinha muito, muito fraca.

A mãe chora mais fortemente.

– Serás tu sempre bom, se ficares são? Serás um bom filho? Um bom cidadão? Um bom fiel?

Jesus vai fazendo estas perguntas bem separadas uma da outra, para dar tempo ao pequenino de responder a uma por uma:

– Lembrar-te-ás tu de tudo o que estás prometendo agora? E te recordarás disto sempre?

Os “sim”, ditos com voz fraca, mas revelando um profundo desejo, vão sendo emitidos um depois do outro, como outros tantos suspiros da alma.

– Dá-me uma das mãos, pequenino.

O doentinho quer estender-lhe a mão que está sã, a esquerda. Mas Jesus lhe diz:

– Dá-me a outra. Eu não vou fazer-te mal.

– Senhor –diz a mãe–, ela está que é uma ferida só. Deixa que eu a enfaixe. Por causa de Ti…

– Não importa, mulher. Eu só tenho nojo das impurezas dos corações. Dá-me a mão, e dize comigo: “Quero ser sempre bom como filho, como homem, e como quem crê no verdadeiro Deus.”

O menino repete, procurando emitir com mais força sua voz. Oh! Toda a sua alma está naquela voz, e a esperança… e certamente a da mãe também.

419.4Um silêncio solene se faz no quarto e na estrada. Jesus, que está segurando com a sua esquerda a mão direita do doente, levanta sua mão direita, e esse é o seu gesto quando Ele anuncia uma verdade, ou quando impõe a sua vontade às doenças e aos elementos, e, de pé, majestático e com voz forte, diz:

– Eu quero que tu fiques são. Levanta-te, menino, e louva o Senhor.

E deixa a mãozinha, que agora está completamente sã, ainda magra, mas sem a menor escoriação, e diz à mãe:

– Descobre o teu filho.

A mulher, cujo rosto parece o de quem está entre uma sentença de morte e uma graça, tira timidamente as cobertas… dá um grito, e se joga sobre o corpinho, muito magro, mas agora são, o beija, o abraça, está louca de tanta alegria, tanta, que nem vê que Jesus vai-se afastando da cama e dirigindo-se para a porta.

Mas o doentinho o vê, e diz:

– Abençoa-me, ó Senhor, e deixa que eu te bendiga. Minha mãe… tu não lhe agradeces?

– Oh! Perdão!

A mulher, com o menino nos braços, joga-se aos pés de Jesus.

– Eu compreendo, mulher. Vai em paz, e sê feliz. Adeus, menino. Sê bom. Adeus a todos.

E sai.

419.5 Mulheres e mais mulheres estão levantando os seus filhos para que a bênção de Jesus os preserve, no futuro, do mal. Os pequenos se intrometem por entre os grandes para serem acariciados. E Jesus os abençoa, acaricia, escuta e para de novo a fim de curar três doentes dos olhos e um que está todo trêmulo como os doentes da dança de S. Vítor.2 Agora Ele acabou de chegar ao centro do povoado.

– Há aqui um meu parente surdo e mudo de nascença. Ele talvez tenha até um espírito lúcido, mas não pode fazer nada. Cura-o, Jesus –diz o barqueiro.

– Leva-me a ele.

Entram em uma pequena horta, no fundo da qual está um jovem, com seus trinta anos, que está tirando água do poço para regar as verduras. Em sua surdez, e de costas viradas, ele não percebe o que está acontecendo, e continua tranquilamente o seu trabalho, mesmo estando tão fortes os gritos da multidão, que espantam até os pombos sobre os telhados.

O barqueiro se aproxima dele, e o pega pelo braço, levando-o a Jesus.

Jesus se coloca à frente do infeliz, bem perto dele, com seu corpo bem unido ao corpo dele, de tal modo que sua língua possa tocar na língua do mudo, reza por um instante, com seus olhos elevados para o céu, e depois diz:

– Abri-vos –tirando em seguida suas mãos, e afastando-se.

– Quem és tu, que me soltas a palavra e a audição? –grita o miraculado3.

Jesus faz um gesto, e procura ir-se embora, saindo pela parte de trás da casa. Mas, tanto o curado, como barqueiro, o detêm, um dizendo:

– É Jesus de Nazaré, o Messias.

E o outro exclamando:

– Oh, fica, para que eu te adore.

– Adora ao Deus Altíssimo, e sê-lhe sempre fiel. Vai! Não percas tempo com palavras inúteis. Não faças do milagre um motivo de divertimento. Usa da fala para o bem, e, mais do que com os ouvidos, escuta com o coração as vozes do Espírito Criador, que te ama e abençoa.

Mas, pois sim! Dizer a alguém, que está tão feliz, que não fale de sua felicidade, é inútil. O curado se desforra dos muitos anos de sua mudez e surdez, falando com todos os presentes.

419.6 O barqueiro insiste com Jesus para que entre em sua casa, a fim de descansar e tomar alguma coisa. Ele se considera o causador de todo o respeito que está sendo prestado a Jesus, e procura detê-lo consigo. Quer que esse direito seu seja reconhecido.

– Mas eu é que sou o notável do lugar –diz um velho imponente.

– Mas, se não fosse eu com as minhas barcas, tu não estarias vendo a Jesus –responde o barqueiro.

E Pedro, sempre sincero e impulsivo:

– É verdade… Mas, se não fosse eu a dizer-te uma coisinha, tu… e as tuas barcas…

Jesus intervém providencialmente, contentando a todos.

– Vamos para a beira do rio. Lá, enquanto esperamos a refeição, que há de ser pequena e frugal, porque o alimento deve ser útil ao corpo, e não ser o único desejo do corpo, enquanto isso Eu irei evangelizando. Todos os que quiserem ouvir-me e interrogar-me venham comigo.

Eu poderia dizer que todos os moradores do lugar o estão acompanhando.

419.7 Jesus sobe a uma barca, que foi puxada para a praia, e, daquela tribuna improvisada, fala aos seus ouvintes, tendo-os à sua frente, à beira d’água e por entre as árvores.

Ele toma como ponto de partida de sua pregação a pergunta que um homem lhe faz:

– A nossa Lei, Mestre, quase nos mostra como feridos por Deus os infelizes, pois até os proíbe4 de qualquer serviço junto ao altar. Mas, que culpa têm eles? Não seria justo dizer-se que os culpados são os pais deles, que os deram à luz assim infelizes? E especialmente as mães? E, como é que temos que proceder com estes que nasceram assim infelizes?

– Ouvi: Um escultor perito e perfeito fez um dia a fôrma de uma estátua, e ficou uma obra tão bem feita, que ele gostou muito dela, e disse: “Quero que a terra fique cheia de maravilhas como esta.” Mas ele, sozinho, não podia executar obra de tal magnitude. Então, chamou em sua ajuda outras pessoas, e lhes disse: “Segundo este modelo, fazei-me até dez mil estátuas igualmente perfeitas. Depois, eu lhes darei os últimos retoques, infundindo uma expressão em suas fisionomias.” Mas seus ajudantes não eram capazes de fazer aquilo, porque, além de serem muito inferiores ao seu mestre em capacidade, tinham ficado um pouco ébrios, depois de terem provado uma fruta, cujo suco cria delírios e névoas. Então, o escultor deu a eles umas espécies de fôrmas, e disse: “Modelai nelas o material. Ficará uma obra com medidas exatas, e eu a completarei, dando-lhe vida, com um último retoque.” E os ajudantes puseram mãos à obra.

Mas o escultor tinha um grande inimigo. Era seu inimigo pessoal e inimigo dos seus ajudantes, e procurava por todos os meios desfazer-se do escultor e semear mal-entendidos entre ele e os seus ajudantes. Para isso, ele colocou nos trabalhos deles a sua astúcia, primeiro alterando o material que devia escorrer pela fôrma, e depois enfraquecendo o fogo, e, mais adiante até o trabalho dos ajudantes. Então aconteceu que aquele que rege o mundo, para procurar impedir, o mais possível que a obra fosse realizada produzindo cópias imperfeitas, decretou sanções graves contra aqueles modelos que foram fabricados de modo imperfeito. E uma daquelas sanções era que aqueles modelos não pudessem ser expostos na Casa de Deus. Pois nela tudo deve, ou deveria ser sempre perfeito. Eu digo deveria, porque não é assim. Ainda que a aparência deles seja bonita, a realidade não é bonita, os que estão presentes na casa de Deus parecem ser sem defeitos, mas o olho de Deus descobre neles os mais graves defeitos: os que estão no coração.

419.8 Oh! O coração! É com ele que se serve a Deus. Na verdade, é com ele. Não é preciso nem basta ter o olho limpo e o ouvido perfeito, a voz harmoniosa, membros bem feitos, para cantar louvores agradáveis a Deus. Não é preciso, nem basta ter belas vestes, limpas, perfumadas. Límpido e perfeito, harmônico e bem construído deve ser o espírito em seu olhar, seu ouvido, sua voz, suas formas espirituais, e estas devem ser ornadas de pureza. Esta é a veste bonita, limpa e perfumada pela caridade. Este é o óleo saturado da essência que agrada a Deus.

E que caridade seria a de alguém que, sendo feliz e vendo um infeliz, tivesse para com ele só zombaria e ódio? Mas, até pelo contrário, dupla e tripla medida será dada a quem, sem ter culpa, nasceu infeliz. A infelicidade é um sofrimento que traz merecimento para quem passa por ele e para quem, junto com o desventurado, sofre também com aquilo, talvez pelo amor a algum parente, ou talvez ainda batendo no peito e pensando: “A causa deste sofrimento sou eu com os meus vícios.” Mas não deve nunca converter-se em causa de culpa espiritual para quem a vê. Em culpa ele se transformará, se transformar em uma falta de caridade. Por isso Eu digo não vos sejais nunca sem caridade para com o vosso próximo. Nasceu ele infeliz? Amai-o, porque ele leva consigo o seu grande sofrimento. Tornou-se ele infeliz por sua culpa? Amai-o, porque sua culpa já se mudou em castigo. Será ele o pai de um infeliz, que assim nasceu, ou assim ficou? Amai-o, porque não há sofrimento maior do que a dor de um pai ferido em seu filho. É uma mãe que gerou um monstro? Amai-a, porque ela está literalmente esmagada por aquela dor que ela acha a mais desumana das dores. Desumana ela não é.

419.9Pois ainda maior é a dor de uma que é mãe de um monstro em sua alma, pois ela se lembra de ter dado a luz um demônio e um perigo para a terra, para a Pátria, para os amigos. Oh! Esta não ousa mais nem levantar a fronte, essa pobre mãe de um feroz, de um abjeto, de um homicida, de um traidor, de um ladrão, de um corrupto! Pois bem. Eu vos digo: Amai também a essas mães: as mais infelizes. Pois elas, através dos séculos serão chamadas mães de um assassino, de um traidor.

Por toda parte a terra ouviu o pranto das mães dilaceradas por uma morte cruel do seu próprio filho. Desde Eva até hoje, quantas mães sentiram, dilacerarem-se as suas vísceras, mais do que nas dores do parto. Mas, que é que Eu estou dizendo? Elas sentiram que lhes estavam sendo arrancadas as vísceras, e com elas o coração por alguma mão feroz, postas elas diante do filho assassinado, justiçado, torturado pelos homens, e, uivando em seus espasmos, envolveram-se num delírio de um amor espasmódico e doloroso, sobre aqueles despojos que não ouviam mais nada, não se acalentavam mais com o seu calor, nem podiam mais fazer nenhum gesto, quando não acontecia ter que ouvir ainda daquela boca estas palavras: “Mãe, eu te odeio.”

E, no entanto, Eu vos digo que a terra ainda não ouviu o grito, nem recolheu as lágrimas da mais santa e mais infeliz das mulheres. Mais santa e infeliz do que aquelas que serão eternas na lembrança do homem. A Mãe do Redentor morto e a mãe daquele que será o seu traidor. Elas duas, mártires de um modo diferente, se ouvirão, apesar da distância entre elas, se ouvirão gemendo, e será a mãe inocente e santa, a mais inocente, a Inocente Mãe do Inocente, a que dirá à sua irmã distante, mártir de um filho incrivelmente cruel: “Minha irmã, eu te amo.”

Amai para serdes dignos desta, que amará por todos, e amará a todos. O amor somente, que salvará a terra.

419.10 E Jesus desce do seu rústico púlpito, e se inclina para acariciar um menininho seminu, vestido com sua camisolinha, e que está rolando sobre a grama da praia. Depois de tantas e sublimes palavras do Mestre, é agradável vê-lo assim interessado por um pequeno, como se se tratasse de um simples homem, e depois ir partir o pão, oferecê-lo, dá-lo aos vizinhos e ir sentar-se para comer, como os outros homens, enquanto, com certeza, já está ouvindo o uivo de sua Mãe, e vê Judas a seu lado.

A mim me impressionou, a mim que sou tão impulsiva, este domínio dele sobre os sofrimentos, e por diversas outras coisas. É uma lição contínua, a que eu tiro disso. Mas os que estão presentes, ao contrário, parecem ter ficado completamente fascinados. Eles comem, pensativos e silenciosos, olhando com reverência para o doce e amoroso Mestre.

1 Jordão em 361.10/12.
2 dança de S. Vitor é o nome que se dá a uma doença do sistema nervoso, caracterizada de contrações musculares e de movimentos involuntários.
3 grita o miraculado, o qual fala por ter sido surdo e mudo de nascença: um milagre do milagre, como em 341.6.
4 proíbe, em Levítico 21,16-24.


1
2
3
4
5
6
7
8