33. 33. A Canção de Ninar da Virgem.
22 de novembro de 1944.
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33.1 Esta manhã tive um despertar suave. Ainda estava entre as névoas do sono, e ouvia, uma voz muito clara, que cantava docemente uma lenta canção de ninar. Parecia uma pastoral de Natal, num ritmo vagaroso e antigo. Eu ia acompanhando aquele motivo e aquela voz, sempre mais me deleitando, e fui acordando, ao som daquelas ondas suaves. Finalmente, despertei completamente, e pude compreender. Então disse: “Eu te saúdo, Maria, cheia de graça!”, pois era a mãe que estava cantando. E ela começou a cantar mais forte, depois de ter dito: “Eu também te saúdo. Vem, e sê feliz!”
Eu a vi. Estava na casa de Belém, no quarto que ela ocupava, atenta em embalar Jesus, para fazê-lo dormir. No quarto estava o tear de Maria e uns trabalhos de costura. Parecia que Maria tivesse parado o trabalho para dar de mamar ao Menino, trocar-lhe as faixas, ou melhor, as fraldas, pois ele já era um bebê de meses. Diria seis ou oito meses, no máximo, e ela estava pensando em voltar ao trabalho, assim que o Menino tivesse adormecido.
Já era fim de tarde. O pôr-do-sol estava quase terminando, espalhando flocos de ouro pelo céu sereno. Os rebanhos voltavam ao cercado, pastando aqui e acolá as últimas folhas de um prado florido, e baliam, levantando o focinho.
O Menino custava a adormecer. Parecia estar um pouco inquieto, como os bebês costumam ficar por causa do nascer dos dentes, ou por algum outro desconforto do nascituro.
33.2 Escrevi, como pude, no escuro daquela hora matinal, num pedaço de papel, e agora o copio aqui:
“As nuvenzinhas douradas – quais rebanhos do Senhor.
Sobre o prado todo em flor – um outro rebanho está a olhar.
Mas se eu tivesse todos os rebanhos – que estão sobre a terra
Meu cordeirinho querido – haverias de ser sempre Tu…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
Mil estrelas reluzentes – estão no céu a olhar.
Tuas serenas pupilas – não as faças mais chorar.
Os teus olhos de safira – são as estrelas do meu coração.
O teu pranto é a minha dor! – Oh! Não chores mais…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
Todos os anjos resplandecentes – que no Paraíso estão,
fazem coroa a Ti inocente – para encantar-se com teu rosto.
Mas Tu choras. Queres a mamãe. – Queres a mamãe, mamãe,
aqui pertinho cantando: – nana nenê, nana nenê…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
Depois o céu se tornará cor-de-rosa – pela aurora que retorna,
e a mamãe ainda não repousa – para não te deixar chorar.
Ao despertar, dirás: “mamãe!” – “Filho!”, eu te direi,
e um beijo de amor e vida – junto ao leite te darei…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
Sem mamãe não podes estar – nem mesmo no Céu sonhando.
Vem ficar sob o meu véu, que eu te farei dormir.
O meu peito será teu travesseiro – os meus braços o teu berço.
Não tenhas medo algum! – Eu estou aqui Contigo…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
Eu Contigo estarei sempre. – És a vida do meu coração…
Ele dorme… Parece uma flor – pousado sobre o meu seio…
Ele dorme… Não perturbem! – seu Pai Santo estará vendo?
Esta vista enxuga o pranto – do meu doce Jesus…
Dorme, dorme, dorme, dorme…
Não chores mais…
33.3 Falar da graça desta cena, é impossível. Não é mais que uma mãe que embala o seu pequenino. Mas é aquela mãe, e Ele é aquele Pequenino! Poderia pensar que graça, que amor, que pureza, que Céu há nesta pequena, grande e suave cena, que só com sua lembrança me alegra. Para confirmá-la fica a melodia, que eu repito para mim. Para fazê-la ouvir também a ela. Mas eu não tenho aquela voz de Maria, de prata, puríssima, a voz virginal!… E, ao cantar, ficarei parecendo um realejo sem sonoridade. Mas, não importa. Farei como puder. Que bela canção não seria, para ser cantada em torno ao Berço de Natal!
A mãe antes balançava o berço. Mas depois, vendo que Jesus não se aquietava, tomou-o no colo, sentou-se perto da janela aberta, ao lado do bercinho e, balançando-o levemente, ao ritmo do canto, repetiu a cantiga duas vezes, até que o pequeno Jesus fechou os olhinhos, inclinou a cabecinha sobre o peito materno, e adormeceu assim, com o rostinho comprimido no calor bom daquele seio, com uma das mãozinhas apoiada sobre o seio da mãe, perto de seu rostinho rosado, e a outra mão abandonada sobre o colo materno. O véu de Maria fazia sombra para o santo Filhinho.
Depois Maria se levantou, com o maior dos cuidados, e colocou o seu Jesus no bercinho, cobrindo-o com os pequenos panos, estendeu por cima um véu para protegê-lo das moscas e do ar, e ficou parada ali, contemplando o seu Tesouro adormecido. Maria tinha uma mão sobre o coração, e a outra ainda apoiada sobre o berço, pronta para balançá-lo, se houvesse algum sinal de que o menino ia despertar, e sorria, feliz, estando um pouco inclinada, enquanto as sombras e o silêncio desciam sobre a terra e invadiam o quartinho da Virgem.
Que paz! Que beleza! Que felicidade!
33.4 Não é uma visão grandiosa, talvez seja julgada inútil no conjunto das outras porque não revela nada de especial. Eu sei. Mas para mim é uma verdadeira graça, e assim a reputo, porque torna plácido o meu espírito, puro e amoroso, como se estivesse sendo recriado pelas mãos da mãe. Penso que também a ela será agradável por este motivo. Somos todos “crianças.” Melhor assim! Desta forma agradamos a Jesus. Os outros, doutos e complicados, pensem o que quiserem, e nos chamem de “pueris.” Nós não nos preocupamos com isso, não é mesmo?