400. 400. Em Beter com Joana de Cusa, que fala do dano provocado por Judas Iscariotes junto a Cláudia.
11 de março de 1946.
400.1 Jesus, acompanhado pelo Zelotes, que vai puxando pelo cabresto o burrinho montado pela Elisa, bate à porta do guarda de Beter. Não fizeram o mesmo caminho que da outra vez, e chegaram às propriedades de Joana, passando pela pequena aldeia, que se espalha pelos declives ocidentais do monte sobre o qual se ergue o castelo.
O guarda, tendo reconhecido o Senhor, apressa-se em abrir bem a cancela, que fica ao lado da sua casinha, e que dá entrada para o jardim, que está à frente da casa, e que é em verdade o começo deste lugar de sonhos, que são os jardins e os roseirais da Joana. Um penetrante odor de rosas frescas e de essência de rosas está pairando neste ar quente do crepúsculo, e, quando o primeiro vento da tarde, que vem do oriente, começa a soprar, fazendo moverem-se em ondulações as roseiras floridas, mais penetrante ainda se torna o perfume, mais fresco, mais genuíno, pois vem das colinas, onde estão as roseiras, que vencem o perfume pesado da essência, que vem de um baixo e largo telheiro, construído ao lado do grande muro ocidental da propriedade.
O guarda explica:
– Minha patroa está lá. Todas as tardes vai para lá, pois a esta hora lá se reúnem os colhedores e os fabricantes da essência, e ela fala com eles e lhes faz perguntas, aplica-lhes pequenos curativos, e os conforta. Oh! É muito boa a nossa patroa. Sempre ela foi assim. Mas, depois que ela se fez tua discípula!… Agora eu vou chamá-la… Estes agora são tempos de trabalho, e os colhedores de costume já não bastam, ainda que tenha sido aumentado o número deles depois da Páscoa com novos servos e servas que ela arranjou. Escuta-me, ó Senhor…
– Não, eu vou a ela. Deus te abençoe e te dê paz –diz Jesus, levantando a mão para abençoar o velho guarda a quem, até este momento ficou pacientemente ouvindo falar. E, tendo-o deixado, lá se vai para o telheiro baixo e largo.
400.2 O rumor dos passos, porém, pelo bater dos pés na terra dura do caminho, faz que Matias erga a cabeça, um tanto curioso, e, com um grito, o menino, precipita-se para fora, com os braços já abertos e levantados, num convite e no desejo de um abraço.
– É Jesus! É Jesus! –grita ele correndo.
E, quando já está entre os braços do Senhor, que o beija, aparece Joana, no meio dos seus servos.
– O Senhor! –grita ela por sua vez, e cai de joelhos para venerá-lo logo, no mesmo lugar em que se encontra.
Ela se prostra, e depois se ergue, com um rosto que a emoção tinge com uma purpurina semelhante a uma pétala de rosa viva. Depois é que ela vai até Jesus. E se prostra de novo, para beijar-lhe os pés.
– A paz esteja contigo, Joana. Me querias! Eu vim.
– Eu estava te esperando… Sim, Senhor…
Joana fica pálida e séria. Jesus o percebe:
– Levanta-te, Joana. Cusa vai bem?
– Sim, meu Senhor.
– E, que é da pequena Maria, que não estou vendo aqui?
– Também ela está bem… Ela foi com Ester levar remédios para um servo doente.
– Foi por causa dele que me mandaste chamar?
– Não, Senhor… Foi… por causa de Ti.
Joana, vê-se bem que ela não quer falar diante de todos os que se ajuntaram ao redor dela. Jesus o compreende, e diz:
– Está bem. Vamos ver os teus roseirais…
– Deves estar cansado, Senhor. Precisas comer… Certamente estarás com sede…
– Não. Nós fizemos uma parada nas horas do calor, em uma casa de discípulos pastores. Eu não estou cansado…
– Então vamos… Jônatas, prepara tudo para o Senhor e para os que estão com Ele… Desce, Matias… –ordena ela ao intendente, que está perto dela, todo cheio de respeito, e ao pequeno que fez para si um ninho entre os braços de Jesus, como um pombinho por baixo da asa do pai.
O menino dá um grande suspiro de tristeza, mas se apressa em obedecer. Mas Jesus diz:
– Não. Ele irá conosco, e não nos aborrecerá. Será o pequeno anjo, diante do qual não pode ser feito nenhum fato, ou dita palavra escandalosa, e que impedirá que surja nos corações até a mais leve suspeita. Vamos …
– Mestre, eu e Elisa vamos para casa, ou queres que fiquemos perto de Ti? –pergunta o Zelotes.
– Ide, vós também.
400.3 Joana vai levando Jesus pela longa avenida que atravessa o jardim, e se dirige para os roseirais que descem e sobem pelos declives e aclives, que formam as propriedades floridas da discípula. E Joana prossegue. Como se quisesse mesmo isolar-se num lugar só com os roseirais e plantas e os passarinhos nos ramos, em sua última disputa para encontrarem um lugar para o seu sono, ou dando os últimos retoques em seus ninhos. As roseiras, nesta tarde ainda estão com os seus botões semiabertos, mas amanhã, já desabrochados, cairão sob as tesouras, e já estão exalando um forte perfume, antes de irem repousar por baixo das orvalhadas. Param em uma valeta, entre duas saliências do terreno, sobre as quais, em festões, estão rindo, de um lado, rosas cor de carne, e do outro, rosas vermelhas como manchas de sangue quando está se coagulando. Naquele lugar há uma pedra, que serve de cadeira ou apoio para os cestos dos colhedores. Rosas e pétalas machucadas estão por entre a grama e sobre a pedra, como um testemunho do trabalho do dia.
Joana, em cujas mãos podem ver-se os seus anéis, limpa com elas aqueles restos sobre a cadeira, e diz:
– Senta-te, Mestre. Eu preciso falar-te… por muito tempo.
Jesus se assenta, e Matias se põe a correr para cá e para lá sobre a grama miúda, para tomar a fresca da tarde, e vai-se afastando, com gritos e pulos de alegria, indo e voltando, atrás de um sapo, até que o distrai a cova de um grilo, dentro da qual ele se põe a cutucar o chão com um pequeno graveto.
– Joana, Eu estou aqui para ouvir-te… Não dizes nada? –pergunta Jesus, depois de algum tempo de silêncio, e deixa de ficar observando o menino, a fim de olhar para a discípula, que está de pé diante dele, séria e silenciosa.
– Sim, Mestre… Mas… é muito difícil… e acho que só ouvir já faz sofrer…
– Fala com simplicidade e confiança.
400.4 Joana se deixa escorregar um pouco sobre a grama, e, meio sentada sobre os calcanhares, ficando mais abaixo em relação a Jesus, que está sentado em sua cadeira, em uma postura séria e rígida, distante dali, como um homem que estivesse a muitos metros de distância e diante de muitas obstáculos, mas perto como Deus e como Amigo, pela bondade do seu olhar e do seu sorriso. E olha, fica olhando para Ele Joana, neste crepúsculo suave de uma tarde de maio. Por fim, ela fala:
– Meu Senhor… antes de falar… eu preciso fazer-te uma pergunta, saber o que pensas… e compreender se eu sempre me enganei no modo de compreender as tuas palavras… Eu sou mulher, uma mulher tola… talvez eu estivesse sonhando… e só agora é que estou sabendo realmente das coisas… as coisas como Tu as disseste, como as preparaste, como as queres em teu Reino… Talvez Cusa tenha razão, e eu não.
– Cusa te censurou?
– Sim e não, meu Senhor. Somente ele me disse, com direito de marido, que, se for como os últimos fatos o fazem pensar, eu devo deixar-te, porque ele, alto dignitário de Herodes, não pode permitir que sua mulher conspire contra Herodes.
– E, quando foi que foste conspiradora? Quem é que está pensando em fazer mal a Herodes? O seu pobre trono, tão sujo, é menos do que esta cadeira entre os roseirais. Eu aqui me assento, mas lá não me sentaria. Que Herodes procure ficar tranquilo a respeito disso. Nem o trono de Herodes, nem mesmo o de César, despertam o meu desejo. Não são esses os meus tronos, nem esses os meus reinos.
– Oh! Sim, Senhor! Bendito sejas Tu. Quanta paz Tu me estás dando. Há dias que venho sofrendo por causa disso! Mestre meu, santo e divino, o meu caro Mestre, o meu Mestre de sempre, como eu te entendi, como te vi, te amei, como eu cri em Ti, tão alto, tão acima da Terra, tão… tão divino, ó meu Senhor e Rei celeste!
E Joana, tendo segurado a mão de Jesus, beija respeitosamente as costas dela, e fica de joelhos, em adoração.
– Mas, afinal, que foi que aconteceu? Alguma coisa que Eu não sei, capaz de perturbar-te assim, capaz de ofuscar em ti a limpidez da minha figura moral e espiritual? Fala!
– O quê? Mestre, as fumaças do erro, da soberba, da avidez, da obstinação, levantaram-se, como que de umas crateras fedorentas, e te ofuscaram no conceito de alguns, de algumas… E estavam já tentando fazer o mesmo comigo. Mas eu sou a tua Joana, a tua graça, ó Deus. E não me teria perdido, pelo menos eu assim espero, sabendo quanto Deus é bom. Mas quem não é mais do que um embrião de alma, que luta para formar-se, pode até morrer por uma decepção. Mas quem não é mais do que alguém que, de um mar de lama, perturbado por correntes violentas, tenta chegar até à praia, ao porto, purificar-se, conhecer outros lugares de paz, de justiça, bem pode ser dominado pelo cansaço, ao perder a confiança naquela praia, nestes lugares, e deixar-se levar pelas correntes, pela lama. E eu, por causa dessa ruína das almas, para as quais peço a tua Luz, me condoía, me torturava. As almas que nós formamos para a Luz eterna, nos são ainda mais queridas do que os corpos que nós damos à luz terrena. Agora eu o compreendo a diferença entre ser mães de uma carne e ser mães de uma alma. Chora-se por um filhinho nosso que morre. Mas é apenas nossa a dor. Por um espírito que procuramos criar na tua Luz, e que morre, sofremos, mas não por nós somente. Mas por Ti, com Deus… porque a nossa dor pela morte espiritual de uma alma é também uma dor para ti, uma dor infinita de Deus… Não sei se eu me explico bem…
– Oh! muito bem. 400.5Mas, conta com ordem, se queres que eu te console.
– Sim, Mestre. Tu mandaste Simão, o Zelotes e Judas de Keriot a Betânia, não é verdade? Por causa daquela menina hebreia que as romanas te deram, e que Tu mandaste para Nique…
– Sim. E, então?
– Então, ela quis ir saudar suas boas patroas, e Simão e Judas a acompanharam até a Fortaleza Antônia. Estás sabendo disso?
– Sim. E, então?
– Mestre… eu te devo dar um desgosto… Tu próprio não és mais do que um Rei do espírito? Não pensas em reinos terrestres?
– Certo que não, Joana. Como podes ainda ficar pensando nisso?
– Mestre, para recuperar a alegria de ver-te divino, só divino. Mas a Ti, justamente porque és assim, eu devo dar um desgosto… Mestre, o homem de Keriot não te entende, nem entende a quem te respeita como a um sábio, como um grande filósofo, como a Virtude sobre a Terra, mas que só por isso te admira e se diz tua protetora. É estranho que algumas das pagãs compreendam o que um apóstolo não compreende, depois de estar contigo há tanto tempo…
– É que o amor humano cega a humanidade.
– Tu o desculpas… Mas ele te prejudica, Mestre. Enquanto Simão estava falando com Plautina, Lídia e Valéria, Judas ficou falando com Cláudia, em teu nome, como teu embaixador. Queria arrancar dela promessas para uma restauração do Reino de Israel. Cláudia lhe fez muitas perguntas… E ele falou muitas coisas. Certamente ele está pensando que já está nos limiares da realização do seu louco sonho, quase naquele ponto em um sonho vai-se tornando realidade. Mestre, Cláudia desprezou aquela ideia. Ela é filha de Roma… Tem o império no sangue… Queres que ela, logo ela, filha dos Cláudios, vá contra Roma? Ela recebeu um choque tão grande, que chegou a duvidar de Ti e da santidade da tua doutrina. Ela ainda não pode ter uma ideia, nem compreender a santidade da tua Origem… Mas ela chegará a persuadir-se, porque nela há boa vontade. Lá chegará, quando tiver certeza a respeito de Ti. Por enquanto, Tu lhe pareces com um rebelde, usurpador, ambicioso, falso… Plautina e as outras têm procurado dar-lhe firmeza… Mas ela quer uma resposta dada diretamente por Ti.
400.6 – Dize-lhe que não tema. Eu sou o Rei dos reis, sou quem os cria e os julga, mas não terei um trono, a não ser o de Cordeiro, imolado antes, e depois triunfante no Céu. Faze-a saber disso logo.
– Sim, Mestre. Irei fazê-lo pessoalmente. Antes que deixem Jerusalém, porque Cláudia está tão indignada, que não vai ficar mais na Fortaleza Antônia… para não… ver mais os inimigos de Roma, diz ela.
– Quem foi que te disse isso?
– Plautina e Lídia. Elas vieram… E Cusa estava presente… e depois… ela me apresentou este dilema: “Ou Tu és o Messias, ou ela te abandona para sempre.
Jesus tem no rosto um sorriso cansado, e empalidece de tristeza, diante do que lhe conta Joana, e diz:
– Cusa não vem aqui?
– Amanhã é sábado, e ele estará aqui.
– E Eu lhe darei a certeza. Não tenhas medo. Ninguém tenha medo, nem Cusa, por causa do seu posto na Corte, nem Herodes, por causa de eventuais usurpações, nem Cláudia, por seu amor a Roma, nem tu, pelo medo de te teres enganado, ou de poderes ser separada… Ninguém tema nada… Só Eu devo temer… e sofrer…
– Mestre, eu não teria querido te dar este desgosto. Mas calar-me, teria sido engano… Mestre, como irás agir com Judas?… Eu tenho medo das reações dele… Tenho medo por causa de Ti, sempre por causa de Ti…
– Com a verdade. Fazendo-o compreender que Eu sei, e que Eu desaprovo o seu ato e a sua teimosia.
– Ele vai odiar-me, pois compreenderá que Tu o estás sabendo por meio de Mim…
– Tu sofres com isso?
– O teu ódio me faria sofrer. Mas o dele, não. Eu sou mulher. Mas sou mais viril do que ele, a teu serviço. Eu te sirvo, porque te amo, e não para receber honrarias de Ti. Se amanhã eu, por causa de Ti, perdesse riquezas, o amor do esposo, e até a liberdade e a vida, eu te amaria ainda mais. Porque, nesse caso, eu não teria senão a Ti para amar e para amar-me –diz Joana, em um ímpeto e pondo-se de pé.
400.7Jesus também se levanta, e diz:
– Que sejas bendita, Joana, por esta tua palavra. E fica em paz. Nem o ódio, nem o amor do Judas podem alterar o que está escrito no Céu. Minha missão será cumprida, como foi decidido. Não tenhas remorso nunca. Que sejas tranquila como o pequeno Matias que, depois de ter trabalhado para fazer uma casa, que segundo ele era muito bela, conforme a sua fantasia, adormeceu com a fronte sob pétalas de rosas, e, sorrindo, pensa que está sobre rosas. Pois bela é a vida, quando somos inocentes. Também Eu sorrio, mesmo quando minha vida humana não tem flores, mas só umas pétalas soltas, já murchas. Contudo, no Céu terei todas as rosas dos que se salvam… Vem. A noite está chegando. Daqui a pouco não poderemos mais ver o caminho.
Joana procura tomar o menino em seus braços.
– Deixa… Eu o levarei. Olha como ele está sorrindo! Certamente está sonhando com o Céu. Com a mamãe. E contigo. Eu também, nos meus sofrimentos de todas as horas, sonho com o Céu, com minha Mãe e com as boas discípulas.
E lentamente lá se vão, caminhando para casa.