560. 560. Colóquio na noite com José de Arimatéia,Nicodemos e Manaém, perto de Gofená.
23 de janeiro de 1947.
560.1É uma estrada bem difícil a que Manaém tomou para levar Jesus ao lugar onde ele é esperado. Ela vai diretamente para a montanha, é estreita e pedregosa, e vai atravessando matagais e bosques. A luz de uma lua é até muito clara em sua primeira fase, mas assim mesmo mal se pode passar por entre o emaranhamento dos ramos; e, às vezes, a estrada até desaparece totalmente. Manaém procura resolver o problema com tochas que traz consigo, já preparadas e a tiracolo, como se fossem armas por baixo do manto. Ele vai adiante e Jesus atrás, e vão em silêncio dentro do grande silêncio da noite. Por duas outras vezes algum animal selvagem, que vai correndo pelo meio dos bosques, parece fazer o barulho de uns passos, o que faz que Manaém pare meio desconfiado. Mas, fora isso, nada mais dificulta o caminho, que já é bem cansativo.
– Ei-la ali, Mestre. Aquela é Gofená. Agora, daqui tomaremos outro rumo. Eu vou contar trezentos passos e chegarei às grutas, onde nos estão esperando desde o pôr do sol. Pareceu-te longo o caminho? Contudo, nós viemos por atalhos que, eu creio, mantêm a distância legal.
Jesus faz um gesto, como se dissesse:
– Não se podia fazer de outro modo.
Manaém nada fala, atento na contagem de seus passos. Agora estão em um corredor rochoso e nu, que parece uma caverna em subida por entre as paredes do monte, e que quase se tocam. Dir-se-ia que foi uma fratura produzida por algum cataclisma, de tão estranha que ela é. É como se uma facada bem forte tivesse sido dada no penhasco do morro, e o tivesse cortado a um terço do cume. Do lado de cima, lá bem no alto, além das paredes perpendiculares, apesar da barulheira produzida pelas ramagens das árvores que nasceram à beira do enorme corte, brilham as estrelas, mas o luar não chega até aqui, neste abismo. A luz enfumaçada da tocha desperta os pássaros predadores, que dão os seus pios, agitando as asas à beira de seus ninhos, por dentro das tocas.
560.2Manaém diz:
– Eis! –e lança para dentro da parede rochosa, um grito semelhante ao lamento de um mocho dos grandes.
Vindo do fundo, uma luz avermelhada avança através de outro corredor rochoso, que no entanto é fechado no topo como em um ambiente de entrada. José aparece:
– O mestre? –pergunta não vendo Jesus que está um pouco atrás.
– Estou aqui, José. A paz esteja contigo.
– A Ti a paz. Vem! Vinde. Vamos acender o fogo, para podermos ver as cobras e escorpiões, e para espantar o frio. Eu vou à vossa frente.
Ele volta atrás, pelas ondulações do caminho, pelo meio das vísceras do morro, e os vai guiando para um lugar iluminado pelas labaredas. E lá, ao lado do fogo, está Nicodemos, jogando gravetos e ramos de zimbro no fogo.
– A paz também a ti, Nicodemos. Eis-me entre vós. 560.3Falai.
– Mestre, ninguém percebeu a tua vinda?
– E quem o poderia, Nicodemos?
– Mas os teus discípulos não estão contigo?
– Comigo estão João e Judas de Simão. Os outros estão evangelizando, desde o dia depois do sábado, até o pôr do sol de sexta-feira. Mas Eu deixei a casa antes da hora sexta, dizendo que não me ficassem esperando antes da aurora do dia depois do sábado. E até já é habitual demais em Mim ausentar-me por mais horas, para que isso desperte suspeitas em alguém. Mas, ficai tranquilos. Temos todo o tempo para falarmos, sem ansiedade alguma, sem pensar que possamos ser surpreendidos. E aqui… o lugar é propício.
– Sim. Uma cova de serpentes e abutres… e de ladrões, na estação boa quando estes montes estão cheios de rebanhos. Mas agora os ladrões preferem outros lugares, onde possam cair mais rapidamente sobre os ovis e sobre os caravaneiros. Desagrada-nos o ter-te trazido até aqui. Mas daqui poderemos tomar diversos caminhos. Sem sermos vistos por ninguém. Porque, Mestre, onde há uma suspeita de amor por Ti, para lá se dirige a atenção do Sinédrio.
– Eis. Neste ponto, eu discordo de José. A mim parece que agora somos nós que estamos vendo sombras onde não existem. Parece-me ainda que, de uns dias para cá, a coisa se acalmou… –diz Nicodemos.
– Estás enganado, meu amigo. Eu te digo. Acalmou-se, enquanto não houver mais estímulos para que se procure o Mestre, porque eles sabem onde Ele está. Por isso é Ele que é vigiado e não nós. Por isso eu lhe recomendei que não dissesse a ninguém que aqui poderíamos ser encontrados. A fim de que não houvesse aqui alguém pronto… para alguma coisa –diz José.
560.4– Mas eu não creio que os de Efraim… –objeta Manaém.
– Não. Os de Efraim, não, nem da Samaria. É somente para agirmos de modo diferente daquele que agimos em outro lugar…
– Não, José. Não é para isso. Mas é para que eles não tenham no coração aquela serpente maligna que vós tendes. Eles não têm medo de serem despojados de nenhuma prerrogativa. Eles não precisam defender interesses sectários nem de casta. Eles não têm nada, a não ser uma instintiva necessidade de se sentirem perdoados e amados por aquele que eles ofenderam, e os antepassados deles também, e que eles continuam a ofender ao permanecerem fora da Religião perfeita. Estão fora porque, orgulhosos como são, e orgulhosos também vós, não sabeis, de ambas as partes depor o ódio que vos separa e dar-vos as mãos em nome do único Pai. Mas ainda que houvesse neles tão boa vontade, vós a destruiríeis. Porque vós não sabeis perdoar. Não sabeis dizer, pondo debaixo dos pés toda estupidez: “O pecado morreu, porque surge o Príncipe do século futuro, que a todos nos recolhe sob o seu sinal.” Eu, de fato, vim e os aceito. Mas vós! Oh! Por vós é sempre amaldiçoado até o que Eu aceitei como digno de ser aceito.
– Estás sendo severo conosco, Mestre.
– Estou sendo justo. 560.5Por acaso, podeis dizer que não me reprovais, em vossos corações, por causa de algumas coisas que Eu faço? Podeis dizer que aprovais a minha misericórdia igual para com os judeus e os galileus, como para com os samaritanos e os gentios, e até mais ampla para com estes e para com os grandes pecadores, justamente porque eles têm disso uma necessidade maior? Podeis dizer que não pretenderíeis de Mim gestos de uma violenta majestade, para manifestar a minha origem sobrenatural, e sobretudo, olhai bem, e sobretudo a minha missão de Messias, segundo o conceito que fazeis do Messias? Dizei mesmo a verdade: pondo de lado a alegria de vosso coração pela ressurreição do amigo, não teríeis preferido que Eu chegasse lá em Betânia belo e cruel, como1 os nossos antigos foram com os amorreus e os basanitas, e como Josué? Foi com os de Ai e de Jericó, ou melhor ainda, fazendo desmoronar, com a minha voz, as pedras e os muros sobre os inimigos, como as trompas de Josué fizeram com os muros de Jericó, ou, então, atirando sobre os inimigos grandes pedras vindas do céu, como aconteceu na descida de Beteron, ainda nos tempos de Josué ou, em tempos mais recentes, convocando os cavaleiros celestes, que desceram dos ares cobertos de ouro, armados com lanças como as coortes, e com seus cavalos enfileirados em esquadrões, fazendo correrias e assaltos para um lado e para outro, agitando seus escudos em suas formações, com capacetes e espadas desembainhadas, e um lançar contínuo de dardos para aterrorizar os meus inimigos? Sim, isto seria o que teríeis preferido, porque, ainda que me ameis muito, o vosso amor é ainda impuro, e ainda fomentais isso, ao desejardes o que não é santo, pois esse é o vosso pensamento de israelitas, vosso velho pensamento. Esse pensamento é que está também em Gamaliel, como no último de Israel, o que está no Sumo Sacerdote, no Tetrarca, no camponês, no pastor, no nômade, no homem da Diáspora. É o pensamento fixo no Messias conquistador. É o íncubo para quem tem medo de ser reduzido a nada por Ele. É a esperança de quem ama a Pátria com a violência de um amor humano. É a aspiração de quem está oprimido sob o domínio de grandes potências, ou em outras terras. A culpa não é vossa. O pensamento puro, tal como foi dado por Deus sobre o que é que Eu sou, foi-se estratificando com o correr dos séculos e se enchendo de escórias inúteis. E poucos são os que sabem, ainda que sofrendo, voltar a entender e ter em sua pureza inicial a ideia messiânica. Por isso, agora, estando perto os tempos nos quais vai ser dado o sinal que Gamaliel está esperando, e que com ele todo Israel espera, agora, então, chegando os tempos da minha perfeita manifestação, a fim de tornar mais imperfeito o vosso amor e mais alterado o vosso pensamento é que Satanás está trabalhando. Vai chegando a hora dele. Eu vo-lo digo. E naquela hora das trevas, até aqueles que agora estão vendo bem e os que agora estão vendo com dificuldade ficarão totalmente cegos. Poucos, muito poucos serão os que naquele homem abatido irão reconhecer o verdadeiro Messias. Poucos o reconhecerão como o verdadeiro Messias, justamente porque Ele estará abatido, como o viram os profetas. Eu quereria, para o bem dos meus amigos, que, enquanto ainda é dia, eles soubessem ver-me e conhecer-me, para que pudessem reconhecer o todo desfigurado no meio das trevas daquela hora do mundo… 560.6Mas dizei-me agora aquilo que me queríeis dizer. A hora vem chegando depressa e já vem aí a aurora. Eu falo por causa de vós, porque, quanto a Mim, Eu não tenho medo de encontros perigosos.
– Está bem. Então, nós queríamos dizer que alguém deve ter dito onde tu estás, e que esse alguém não é certamente nem eu, nem Nicodemos, nem Manaém, nem Lázaro ou suas irmãs, nem Nique. Com quem mais foi que Tu falaste sobre qual é o lugar por Ti escolhido para o teu refúgio?
– Com ninguém, José.
– Tens certeza disso?
– Toda.
– E deste ordens aos teus discípulos que não falassem nisso?
– Antes de partir, Eu não lhes falei sobre o lugar. Tendo chegado a Efraim, dei-lhes ordem que fossem evangelizar e agir em meu Nome. E tenho certeza da obediência deles.
– E… Tu ficas sozinho em Efraim?
– Não. Estou com João e Judas de Simão. Eu já o disse. Ele, Judas — pois Eu estou lendo o teu pensamento — não pode ter-me prejudicado com sua falta de reflexão, porque nunca se afastou da cidade, nem nestes tempos passam por ela peregrinos de outros lugares.
– Então… é mesmo Belzebu que falou. Porque no Sinédrio já se sabe que Tu estás lá.
– E então? Como foi que reagiu, quando ficou sabendo?
– De diversos modos, Mestre. Muito diferentes entre eles. Há quem diga que isto é lógico. Visto que colocaram o teu nome no edital afixado nos lugares santos, a ti não restava outro recurso senão refugiar-te na Samaria. Outros, por sua vez, dizem que isto mostra o que Tu és: um samaritano de alma, mais ainda do que de raça, e que isto basta para te condenar. Todos, pois, estão jubilosos por terem podido fazer que te calasses, e por poderem mostrar-te às turbas como amigo dos samaritanos. Dizem eles: “Já vencemos a batalha. O resto será um jogo de crianças.” Mas nós te pedimos: faze que isso não seja verdade.
– Não será verdade. Deixai que eles falem. Os que me amam não se perturbarão. Deixai que a ventania cesse completamente. Esse é um vento da Terra. Depois virá o vento do Céu, e se abrirá o velarium e aparecerá a glória de Deus. 560.7Tendes alguma outra coisa a dizer-me?
– Não. Mas só para tua precaução. Vigia, toma cuidado, não saias de onde estás. E quero dizer-te ainda que nós sempre te faremos saber…
– Não. Não é preciso. Ficai onde estais. Logo Eu terei comigo as discípulas, e, isto sim, dizei a Elisa e a Nique que vão ficar com as outras, se quiserem. Dizei-o também às duas irmãs. Conhecido como já está o lugar em que estou, aqueles que não têm medo do Sinédrio podem já vir, para terem com isso um recíproco conforto.
– Não podem vir as duas irmãs, enquanto Lázaro não volta. Ele partiu com grande pompa e toda Jerusalém ficou sabendo que ele tinha ido às suas propriedades distantes, e não se sabe quando vai voltar. Mas seu servo já voltou de Nazaré e disse, e isto também nós precisamos te dizer, que tua Mãe estará aqui com as outras lá pelo fim deste mês. Ela está bem, e igualmente Maria de Alfeu. O servo as viu. Mas elas precisam esperar um pouco, porque Joana quer vir com elas, e só o pode fazer no fim deste mês. 560.8Depois, se no-lo permites, gostaríamos de prestar-te alguma ajuda… como amigos fiéis, ainda que sejamos… imperfeitos, como Tu dizes.
– Não. Os discípulos que estão evangelizando, trazem em todas as vigílias dos sábados tudo o que é necessário para eles e para nós, que estamos em Efraim. De outras coisas não precisamos. O operário vive do seu salário. Isto é justo. Mais do que isto seria supérfluo. Dai o que passar disso a algum infeliz. Foi assim que Eu mandei fazer aos de Efraim e aos meus próprios apóstolos. Eu exijo que na volta deles não tenham nem uma moeda de reserva e que cada óbolo tenha sido dado pelo caminho, reservando para nós apenas o tanto que basta para as refeições bem frugais de uma semana.
– Mas por que assim, Mestre?
– Para ensinar-lhes o desapego das riquezas e a superioridade do espírito sobre as preocupações com o dia de amanhã. E por isso, e por outras minhas boas razões de Mestre, Eu vos peço que não insistais.
– Como quiseres. Mas não me agrada deixar de servir-te.
– Chegará a hora em que fareis isso… 560.9Aquelas não são as primeiras luzes do alvorecer?, diz Jesus, voltando-se para o oriente, que fica do lado oposto àquele pelo qual Ele veio, e mostrando uma fraca luminosidade que aparece sobre uns fundos muito distantes.
– Está bem. Devemos separar-nos. Eu volto para Gofená, onde deixei minha cavalgadura, e Nicodemos, por outro lado, irá descendo para Berot, e de lá para Ramá quando terminar o sábado.
– E tu, Manaém?
– Oh! Eu irei livremente pelas estradas descobertas que vão para Jericó, onde agora está Herodes. Meu cavalo ficou em uma casa de gente pobre, que por um óbolo não tem nojo de coisa alguma, nem que ela provenha de um samaritano, como eles acham que eu sou. Mas, por enquanto, fico contigo. Na bolsa eu tenho provisão para dois.
– Então, saudemo-nos. 560.10Pela Páscoa nos reencontraremos.
– Não. Tu não irás logo assim para meter-te no meio daquele perigo –dizem José e Nicodemos–. Não faças isso, Mestre!
– Em verdade, sois uns maus amigos, porque me aconselhais o pecado e a covardia. Poderíeis depois amar-me, ao refletirdes sobre o meu ato? Dizei-me. Sede sinceros. Aonde eu deveria ir para adorar o Senhor na Páscoa dos Ázimos? Talvez sobre o Monte Garizim2? Ou Eu não deveria comparecer diante do Senhor no Templo de Jerusalém, como devem fazer todos os filhos homens de Israel nas três grandes festas anuais? Não vos lembrais de que já me acusam de não respeitar o sábado e, não obstante — neste ponto Manaém bem que o pode testemunhar — ainda hoje, para atender a um vosso desejo, Eu me tenha posto em movimento de tarde, de um lugar do qual Eu pudesse conciliar o vosso desejo com a lei sabática?
– Nós também paramos em Gofená por causa disso… E faremos um sacrifício para expiar uma involuntária transgressão por um motivo justificável. Mas Tu, Mestre!… Eles te verão logo…
– Mesmo que não me vejam, Eu agirei de tal modo que me vejam.
– É assim que queres arruinar-te. É como se te matasses…
– Não. A vossa mente está muito enfaixada pelas trevas. Não é como se Eu quisesse matar-me, mas é unicamente obedecer à voz do Pai, que me diz: “Vai, que é a hora!” Eu sempre procurei conciliar a Lei com as necessidades, até no dia em que Eu tive que fugir de Betânia para ir refugiar-me em Efraim, porque ainda não era a hora de ser preso. O Cordeiro da Salvação não pode ser imolado senão pela Páscoa dos Ázimos. E quereríeis que, se Eu que assim fiz por causa da Lei, não o faça por ordem do meu Pai? Ide! Ide! Não fiqueis aflitos assim. E para que Eu vim senão para ser proclamado Rei de todos os povos? Pois isso é o que quer dizer “Messias”, não é verdade? Sim. É isto. E também isto é o que quer dizer “Redentor.” Mas a verdade que estes dois nomes dizem não corresponde ao conceito que deles vós fazeis. 560.11Contudo, Eu vos abençoo, implorando que um raio desça do céu sobre vós, junto com minha bênção. Porque Eu vos amo e vós me amais. Por isso Eu quereria que vossa justiça fosse toda cheia de luz. Porque vós não sois malvados, mas sois, sim, o “velho Israel”, e não tendes a heroica vontade de despojar-vos do passado e tornar-vos novos. Adeus, José. Sê justo. Justo como aquele que foi meu tutor por tantos anos e foi capaz de toda renovação para servir ao Senhor seu Deus. Se ele estivesse aqui entre nós, oh! como ele vos ensinaria para saberdes servir a Deus perfeitamente e a ser justos, bem justos, de verdade. Mas é bom que ele já esteja no seio disse Abraão!… Para não ver a injustiça de Israel. Santo servo de Deus!… Ele é um novo Abraão com o coração transpassado, mas com uma vontade perfeita, e não me teria aconselhado a praticar a vileza, mas me teria dito a palavra que ele usava quando alguma coisa difícil se contrapunha a nós: “Levantemos nossos espíritos. Encontraremos o olhar de Deus e nos esqueceremos de que somos os homens causadores da dor. E façamos tudo o que para nós é difícil como se fosse o Altíssimo que no-lo apresentasse. Desse modo santificaremos até as pequenas coisas e Deus nos amará.” Oh! Assim ele teria dito também para confortar-me e ajudar-me a passar pelas maiores dores… Ele nos teria confortado… Oh! Minha Mãe!…
Jesus deixa José, com o qual estava abraçado, e inclina a cabeça em silêncio, certamente na contemplação do seu próximo martírio e do de sua pobre Mãe…
Depois, Ele levanta a cabeça e abraça Nicodemos, dizendo:
– A primeira vez que tu vieste3 a Mim, como discípulo secreto, Eu te disse que, para entrar no Reino de Deus e para terdes o Reino de Deus em vós, é necessário que renasçais pelo espírito e ameis a luz mais do que o mundo, que não a ama. Hoje, e talvez seja esta a última vez que nos encontramos em segredo, Eu te repito as mesmas palavras. Renasce em teu espírito, Nicodemos, para poderes amar a Luz, que sou Eu, e para que Eu more em ti como Rei e Salvador. Ide. E Deus esteja convosco.
560.12Os dois sinedritas se vão para o lado oposto àquele pelo qual veio Jesus.
Depois que o barulho dos passos deles cessou, Manaém, que tinha ido ficar na entrada da gruta até ver que eles já estavam longe, volta atrás para dizer com um rosto muito preocupado:
– E pelo menos uma vez, os que irão violar a lei do sábado serão eles! E não terão paz enquanto não tiverem pago sua dívida com o Eterno por meio do sacrifício de um animal! Não seria melhor para eles que sacrificassem a própria tranquilidade, dizendo-se “teus” abertamente? Não seria isso mais agradável a Deus?
– Certamente o seria. Mas não os julgues. São massas que se vão fermentando devagar. Mas, no momento justo, quando muitos que se julgavam melhores do que eles desmoronarem, eles se levantarão contra todo o mundo.
– Tu dizes isso referindo-te a mim, Senhor? Tira-me a vida, mas não deixes que eu te renegue.
– Tu não me renegarás. Mas em ti já há elementos diferentes dos deles e que te ajudarão a seres fiel.
560.13– Sim. Eu sou… o herodiano. Quer dizer: era o herodiano. Porque assim como eu me afastei do Conselho, assim também me afastei do partido, desde que vejo vileza e injustiça nele, como a dos outros para contigo. Ser herodiano!… Para as outras castas, isto é ser menos do que um pagão. Não digo que nós sejamos uns santos. É verdade. Por um fim impuro é que temos cometido a impureza. Eu falo como se ainda fosse o herodiano que eu era, antes de ser teu. Portanto, nós somos duplamente impuros: segundo o juízo humano e porque nos aliamos aos romanos, e o fizemos procurando vantagens para nós. Mas, dize-me, Mestre, Tu, que sempre dizes a verdade sem te absteres de fazê-lo por medo de perder um amigo. Entre nós, que nos aliamos com Roma para… termos ainda efêmeros triunfos pessoais, e os fariseus, os chefes dos sacerdotes, os escribas, os saduceus, que se aliam a Satanás para te vencerem, quais são os mais impuros? Eu, estás vendo? Agora que eu vi que o partido dos herodianos cerra as fileiras contra Ti, eu os abandonei. Não o digo a fim de receber por isso o teu louvor, mas para dizer-te o meu pensamento. E eles, falo dos fariseus e dos sacerdotes, dos escribas e dos saduceus, que creem terem alcançado uma vantagem por esta imprevista aliança dos herodianos com eles! Infelizes deles! Não sabem que os herodianos fazem assim a fim de terem mais merecimentos e, portanto, mais proteções dos romanos, e depois… quando estiver definida e terminada a causa, que é o que os move e une agora, passarão a trabalhar para abater aqueles que agora têm como aliados. Tanto de um lado como do outro eles fazem esse jogo. Tudo é baseado na arte de enganar. E tudo isso me repugna, pois me tornei independente de tudo. Tu… és um grande fantasma, que causa medo. A todos. E és também o pretexto para o jogo sujo dos interesses dos diversos partidos. Há uma causa religiosa? A santa indignação pelo “blasfemador”, como eles te chamam? Tudo mentira! A única causa é, não a defesa da Religião, não o zelo sagrado em honra do Altíssimo, mas são os interesses ávidos e insaciáveis deles. Eles me causam nojo, como coisas imundas. E eu quereria… Sim. Eu quereria gente mais audaz e menos numerosa, mas não a serviço da imundície. Ah! Já me é intolerável levar uma vida dúpla. Queria seguir somente a Ti. Mas te sirvo assim mais que se te seguisse. Me pesa… Mas Tu dizes que será logo… Como… 560.14Mas Tu realmente vais ser imolado como um Cordeiro? Não é uma linguagem figurada? Pois a vida de Israel é toda tecida com símbolos e figuras…
– E tu quererias que assim fosse comigo. Mas a minha não é uma figura.
– Não é? Tens certeza disso? Eu poderia… Muitos de nós poderíamos repetir gestos antigos e fazer de Ti o Messias ungido, e defender-te. Bastaria uma palavra e aos milhares e dezenas de milhares surgiriam logo os defensores do verdadeiro Pontífice santo e sábio. Não estou falando de um rei terreno, visto que agora eu sei que o teu reino é todo espiritual. Mas, já que humanamente fortes e livres não seremos nunca mais, pelo menos que seja a tua santidade a suster e restituir a saúde ao corrompido Israel. Ninguém, e Tu sabes disso, ninguém ama o atual sacerdócio, nem os que o sustentam. Não o queres, Senhor? Dá tuas ordens e eu as cumprirei.
– Já muito te tens adiantado em teu pensamento, ó Manaém. Mas ainda estás tão longe da meta como a terra está do sol. Eu serei Sacerdote, e para sempre, Pontífice imortal em um organismo que Eu vivificarei até o fim dos séculos. Mas não será com óleo de alegria que Eu serei ungido, nem proclamado e defendido com a violência de atos desejados por um punhado de fiéis, para lançar a Pátria no mais feroz dos cismas, e torná-la escrava como nunca foi. A verdadeira Autoridade que me ungirá Pontífice e Messias é a daquele que me mandou. Nenhum outro, a não ser Deus, poderia ungir a Deus como Rei dos reis e Senhor dos senhores para sempre.
– Então, nada?! Nada que fazer!? Oh! Que dor!
– Tudo. Amar-me. Nisto está tudo. Amar, não a criatura que se chama Jesus, mas o que é Jesus. Amar-me com a humanidade e com o espírito, assim como Eu, com o Espírito e a Humanidade vos amo, para estardes comigo acima da Humanidade. 560.15Olha que bela aurora. A luz pacífica das estrelas não chegava até aqui dentro. Mas a luz triunfante do sol, sim. Assim acontecerá com os corações daqueles que chegarem a amar-me com justiça. Vem aqui fora. No silêncio do monte, livre de vozes humanas, já roucas devido aos seus interesses. Olha lá aquelas águias como, em longos voos, se afastam indo em busca de presas. Estamos vendo aquela presa? Não. Mas elas, sim. Porque o olho da águia é mais poderoso do que o nosso e, lá do alto onde ela se move livremente, ela vê um grande horizonte e sabe escolher o que quer. Eu também. Eu vejo o que vós não vedes e, do alto onde paira o meu espírito, Eu sei escolher as minhas agradáveis presas. Não para dilacerá-las, como fazem os abutres e as águias, mas para levá-las comigo. E seremos muito felizes lá no Rei no de meu Pai, nós que nos amamos!…
E Jesus que, falando, foi saindo para ir assentar-se ao sol, na entrada da caverna, tendo a seu lado Manaém, puxa-o para Si, em silêncio, sorrindo, talvez por alguma visão que está tendo…
1 como nas epopéias narradas em: Números 21,21-35; Deuteronômio 2,26-37; Josué 6-8; 10; 2 Macabeus 5,1-4.
2 sobre o Monte Garizim, onde ficava o Templo dos samaritanos (já mencionado em 558.6) em oposição ao de Jerusalém: Deuteronômio 11,26-32; 27,11-13; Josué 8,30-35; 2 Macabeus 6,1-2.
3 vieste, em 116.4/11.
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