85. 85. Antes de ir para o Getsêmani Jesus e o Zelotesobem ao Templo, onde Iscariotes está falando.
22 de janeiro de 1945.
85.1 Jesus está com Simão em Jerusalém. Passam pelo meio da multidão dos vendedores e dos burrinhos, que parece uma procissão pela rua, e Jesus diz:
– Subamos ao Templo, antes de irmos ao Getsêmani. Rezaremos ao Pai em sua Casa.
– Só isto, Mestre?
– Só isto. Não posso me deter. Amanhã bem cedo haverá o encontro à porta dos Peixes e, se a multidão insistir, como poderei Eu deixar de ir até lá? Quero ver os outros pastores. Eu os espalho, como verdadeiros pastores, pela Palestina, para que reúnam as ovelhas e façam o Dono do rebanho ficar conhecido, ao menos de nome. Assim, quando Eu disser esse nome, elas reconheçam que sou Eu o Dono do rebanho, vindo a Mim para receber carícias.
– É doce ter um Dono como Tu! As ovelhas haverão de te amar.
– As ovelhas… mas não os bodes… Depois de termos visto Jonas, iremos a Nazaré e a Cafarnaum. Simão Pedro e os outros estão sofrendo muito nossa ausência… Iremos torná-los felizes e seremosfelizes. Até o verão nos indica isto. A noite foi feita para o repouso, e são muito poucos os que adiam o repouso pelo conhecimento da Verdade. O homem… oh! o homem! Ele se esquece demais de que tem uma alma, preocupa-se somente com a carne. O sol é inclemente, não nos deixa caminhar, impedindo ensinar nas praças e nas ruas. O que torna os espíritos sonolentos como os corpos, pelo cansaço. Assim então… vamos ensinar os meus discípulos lá na doce Galileia, de colinas verdes e de águas frescas. 85.2Já estiveste lá?
– Estive uma vez de passagem, em tempo de inverno, em uma das minhas peregrinações penosas de um médico a outro. Gostei de lá.
– Oh! É sempre bonita! No inverno, e mais ainda nas outras estações. Agora, que é verão, tem noites tão angelicais… Sim, parece mesmo que essas tenham sido feitas para o voo dos anjos, de tão puras que são… O lago… O lago, dentro do seu círculo de montes mais ou menos próximos, parece mesmo ter sido feito para falar de Deus às almas que O procuram. É um pedaço do céu caído entre o verde. O firmamento não o abandona, mas nele vem espelhar-se com os seus astros, multiplicando-os assim … como que para apresentá-los ao Criador, astros espalhados sobre uma placa de safira. As oliveiras abaixam os seus ramos quase até às ondas, cheias de rouxinóis. Eles também cantam o seu louvor ao Criador, que lhes dá de viver num lugar tão doce e plácido.
E a minha Nazaré! Toda estendida ao beijo do sol, toda branca e verde, sorridente entre os dois gigantes, que são o grande e o pequeno Monte Hermon, pedestal dos montes que sustentam o Tabor, pedestal de doces declives, todos verdes, que erguem para o sol,seu senhor. Muitas vezes está coberto de neve, mas tão belo quando o sol ilumina o seu cume, que se torna, então, de um alabastro rosado, enquanto, do lado oposto, o Carmelo se torna lápis-lazuli, quando o sol brilha muito e os veios dos mármores e das águas, dos bosques e dos prados, se mostram em suas diversas cores. É uma delicada ametista, ao raiar do sol, ou um berilo azul celeste pela tarde, tornando-se um bloco monolítico de sardônica, quando a lua o mostra todo escuro, por sobre o lácteo-prateado de sua luz. Depois, lá em baixo, ao sul, o tapete fértil e florido da planície de Esdrelon.
E depois… oh! Simão! Lá está uma flor! Uma flor que vive solitária, recendendo pureza e amor pelo seu Deus e pelo seu Filho! Lá está minha Mãe. Tu a conhecerás, Simão, e me dirás se sobre esta terra há alguma outra criatura semelhante, mesmo em toda graça humana. Ela é bonita, mas toda essa beleza é superada por aquilo que emana do seu interior. Se um bruto a despojasse de todas as suas vestes, a desfigurasse e a fizesse sair errante pelo mundo, ainda Ela apareceria uma rainha, e em vestes reais, porque sua santidade lhe serviria de manto e esplendor. O mundo pode fazer-me todo o mal, mas tudo Eu perdoarei, porque, para poder vir ao mundo e remi-lo, Eu tive, a humilde e grande Rainha do mundo, que o mesmo ignora, mas foi por seu intermédio que ele recebeu o Bem, e o receberá, através dos séculos.
Eis-nos no Templo. Vamos observar a forma judaica do culto. Mas, em verdade, Eu te digo que a verdadeira Casa de Deus, a Arca Santa é o coração dela, que tem como véu a carne puríssima, sobre a qual, como um bordado, estão as suas virtudes.
85.3 Entraram, e vão caminhando para o primeiro patamar. Passam por um pórtico e se dirigem para um segundo patamar.
– Mestre, olha lá Judas, no meio daquele aglomerado de gente. Lá estão também os fariseus e os sinedritas. Eu vou escutar o que ele está dizendo. Tu me deixas?
– Vai. Eu te esperarei junto ao Grande Pórtico.
Simão vai depressa, e coloca-se de modo a poder ouvir, mas sem ser visto.
Judas fala com grande convicção:
– … aqui há pessoas que todos vós conheceis e respeitais, que podem dizer quem eu era. Pois bem, eu vos digo que Ele me mudou. O primeiro redimido sou eu. Muitos entre nós veneram o Batista. Ele também o venera, chamando-o de “o santo igual a Elias pela missão, mas ainda maior do que Elias.” Ora, se o Batista é assim, Este que o Batista chama “o Cordeiro de Deus”, de cuja santidade jura ter visto cingir a coroa de Fogo do Espírito de Deus, enquanto uma voz dos céus o proclamava “Filho dileto de Deus, que deve ser ouvido”, Esse não pode ser senão o Messias. E Ele o é o Messias. Eu vos juro. Não sou um rústico, nem um tolo. Eu pude ver isso em suas obras e pude ouvi-lo em suas palavras. E vos digo: é Ele o Messias. O milagre está à sua disposição como um servo à disposição do seu patrão. Doenças e desventuras, caem como coisas mortas e, surge a alegria e a saúde. E os corações mudam, ainda mais do que os corpos. Vós podeis ver isto por mim. Não tendes doentes, nem sofrimentos que pedem alívio? Se os tendes, vinde amanhã cedo até à porta dos Peixes. Ele lá estará para fazer-vos felizes. No entanto, eis, em seu nome, vou dar esta ajuda aos pobres.
E Judas distribui moedas a dois aleijados e a três cegos e, por último, obriga uma velhinha a aceitar as últimas moedas.
85.4 Depois, despede a multidão, e fica com José de Arimateia, Nicodemos e outros três que eu não conheço.
– Ah! Agora me sinto bem –exclama Judas–. Não tenho mais nada. E estou como Ele quer.
– Na verdade, não te reconheço mais. Pensava que fôsse uma brincadeira. Mas vejo que estás tomando as coisas a sério –exclama José.
– A sério, sim. Oh! Eu sou o primeiro a não me reconhecer. Sou ainda um animal selvagem e imundo em relação a Ele. Mas já estou muito mudado.
– E não pertencerás mais ao Templo? –pergunta um dos que desconheço.
– Oh! Não. Eu sou do Cristo. Quem Dele se aproxima, a menos que seja uma víbora, não pode não amá-lo. E nada mais deseja, senão a Ele.
– Ele não virá mais aqui? –pergunta Nicodemos.
– Certamente virá. Mas não agora.
– Eu gostaria de ouvi-lo.
– Ele já falou neste lugar, Nicodemos.
– Eu sei. Mas eu estava com Gamaliel… O vi… mas não me detive a escutá-lo.
– Que disse Gamaliel, Nicodemos?
– Disse: “É algum novo profeta.” Não disse nada mais.
– E tu não lhe disseste aquilo que eu te disse, José? Tu és amigo dele…
– Eu disse. Mas ele me respondeu: “Nós já temos o Batista e, segundo as doutrinas dos escribas, devem-se passar pelo menos cem anos entre um e outro, a fim de se fazer a preparação do povo para a vinda do Rei. Eu acho que é necessário menos tempo.” Ele acrescentou: “porque o tempo já se completou.” E terminou dizendo: “Eu, porém, não posso admitir que o Messias se manifeste assim… Um dia pensei que começasse a manifestação messiânica, porque o seu primeiro esplendor era verdadeiramente um relâmpago no céu, mas depois… fez-se um grande silêncio, e eu acho que me enganei.”
– Experimenta falar disso outra vez. Se Gamaliel estivesse conosco e vós com ele…
– Eu não vo-lo aconselho –objeta um dos três desconhecidos–. “O Sinédrio é poderoso, e Anás o dirige com astúcia e avidez. Se o teu Messias tiver amor à vida, eu o aconselho a permanecer obscuro. A não ser que ele se imponha pela força. Mas aí, nesse caso, aí estará Roma…”
– Se o Sinédrio o ouvisse, se converteria ao Cristo.
– Ah! Ah! Ah! –riem os três desconhecidos dizendo–: Judas, pensávamos que estivesses mudado, mas que ainda fosses inteligente. Se for verdade o que dizes Dele, como podes pensar que o Sinédrio o siga? Vem, vem José. É melhor para todos. Deus te proteja, Judas. Estás precisando disso.
E lá se vão. Judas fica sozinho com Nicodemos.
85.5Simão se afasta dali sem fazer barulho, e vai ao encontro de Jesus.
– Mestre, eu me acuso por haver cometido o pecado de calúnia com a palavra e com o coração. Aquele homem me desorienta. Eu pensava que ele fôsse quase um inimigo teu, mas eu o ouvi falar de Ti de tal modo, que poucos dentre nós o fazem, especialmente neste lugar, onde o ódio poderia suprimir primeiro o discípulo, e depois o Mestre. E o vi dar dinheiro aos pobres, e tentar convencer os sinedritas…
– Estás vendo, Simão? Eu estou contente que tu o tenhas visto num momento assim. Dirás isto também aos outros, quando o acusarem. Bendigamos ao Senhor por esta alegria que me estás dando, pela tua honestidade em dizeres que pecaste, e pelo trabalho do discípulo, que pensavas ser mau, e não é.
Rezam por muito tempo, e depois saem.
– Ele não te viu?
– Não. Tenho certeza disso.
– Não lhe digas nada. É uma alma muito doente. Um elogio seria como um alimento dado a alguém que está convalescendo de uma febre alta e com o estômago ainda enfraquecido. Faria com que ele piorasse, porque se enalteceria ao ver-se notado. E onde entra o orgulho…
– Eu ficarei calado. 85.6Para onde vamos?
– Vamos procurar João. Numa hora de calor como esta, ele deve estar na casa do Olival.
Vão apressados, procurando alguma sombra, pelas estradas que parecem incendiadas pelo calor do sol. Passam pelo subúrbio poeirento, pela porta do grande muro, saem no campo cheio de luz ofuscante, chegam das oliveiras, chegam à casa.
Na cozinha, fresca e escura pela cortina colocada à porta, está João, que cochila. Jesus o chama:
– João!
– És Tu, Mestre? Eu estava te esperando hoje à tarde…
– Eu vim antes. Como tens passado, João?
– Como uma ovelha que perdeu seu pastor. Estive falando a todos de Ti, porque falar de Ti era para mim, de certo modo, ter-te comigo. Falei a alguns parentes, a conhecidos e a estranhos. Também a Anás… E a um aleijado do qual, me tornei amigo, com três denários, que eu havia ganho, e doei a ele. Também falei de Ti a uma pobre mulher, da idade de minha mãe, que chorava numa roda de mulheres, à frente de uma porta. Eu lhe perguntei: “Por que choras?” E ela falou: “O médico disse: ‘Tua filha está tuberculosa. Conforma-te. Nas primeiras chuvas de outubro, ela morrerá’. Ela é a única que tenho: bonita, boa tem quinze anos. Devia ficar noiva na primavera, mas, ao invés do baú para o enxoval, vou ter que lhe preparar um sepulcro.” Eu disse a ela: “Eu conheço um Médico que a pode curar, se tiveres fé.” “Ninguém mais a pode curar. Três médicos a examinaram. Cospe já sangue.” “Mas o meu”, disse, “não é um médico como os teus. Ele não cura com remédios, mas com o seu poder. É o Messias…” Então, uma velhinha disse: “Oh! Acredita Elisa! Eu conheço um cego que recebeu a vista, por meio Dele!” E a mãe então passou da desconfiança à esperança, e te está esperando… Fiz bem? Não fiz mais do que isto.
– Fizeste bem. À tarde iremos às casas dos teus amigos. Não viste mais Judas?
– Não vi, Mestre. Mas ele me manda alimentos e denários que dei aos pobres. Ele me mandou dizer que fizesse uso deles, porque eram seus.
– É verdade. João, amanhã vamos para a Galileia…
– Fico alegre com isto, Mestre. Penso em Simão Pedro. Quem sabe como ele te espera! Iremos passar também por Nazaré?
– Iremos. Lá faremos uma parada à espera de Pedro, André e de teu irmão Tiago.
– Oh! Ficaremos na Galileia?
– Ficaremos lá por algum tempo.
João se sente feliz. E com essa sua felicidade, tudo termina.