523. 523. Em Jericó. O pedido a Jesus de julgaruma mulher. A parábola do fariseu e do publicanodepois de uma comparação entre pecadores e doentes.


2 de novembro de 1946.

523.1Jesus sai da casa de Zaqueu. A manhã já vai bem adiantada. Ele está com Zaqueu, Pedro e Tiago de Alfeu. Os outros apóstolos talvez já estejam espalhados pelo campo, anunciando que o mestre está na cidade.

Atrás do grupo de Jesus com Zaqueu e os apóstolos, há outro, muito… variado pelas fisionomias, pela idade e pelas vestes. Pode-se declarar com segurança que estes homens pertencem a diversas raças, talvez até antagônicas entre si. Mas os acontecimentos da vida os levaram a esta cidade da Palestina e os reuniram, a fim de que, das profundezas em que estavam, subissem de novo para a luz. Em sua maior parte são rostos emurchecidos, de quem usou e abusou da vida de vários modos e com olhos cansados, quase todos. Em outros, os olhares compridos, pelos longos hábitos a que se entregaram, ocupando-se com a rapina fiscal, ou que um comando brutal tornou rapaces e duros; e, de vez em quando, esse antigo modo de olhar aflora de debaixo de um véu de temperança e prudência, que uma nova vida exigiu deles. E isso acontece especialmente quando algum dos de Jericó fica olhando para eles com desprezo ou resmunga alguma insolência dirigida a eles. Depois, o olhar deles se cansa, recolhe-se e suas cabeças se abaixam, envilecidas.

Jesus se vira duas vezes para observá-los e, vendo-os atrás dele, que com um passo bem vagaroso vão-se aproximando do lugar que Ele escolheu para falar, já cheio de gente, põe-se a andar também devagar, a fim de esperá-los, e, por fim, lhes diz:

– Passai para frente de Mim e não temais. Vós desafiastes o mundo, quando fazíeis o mal. E não deveis temê-lo agora que vos despojastes do mal. Aquilo de que usastes naquele tempo para domá-lo, isto é, a indiferença diante do juízo do mundo, que é a única arma para fazê-lo ficar cansado de julgar, usai agora, e ele se cansará de preocupar-se convosco, e vos absorverá, ainda que lentamente, fazendo-vos desaparecer no meio da grande massa anônima, que é este mundo miserável, ao qual, em verdade, se dá importância demais.

Os homens, que são quinze, obedecem e passam para frente.

523.2– Mestre, lá estão os doentes do campo –diz Tiago de Zebedeu, indo ao encontro de Jesus, e mostrando um canto mais quente, onde o sol está batendo.

– Eu já vou. E os outros, onde estão?

– Pelo meio do povo. Mas eles já te viram e estão vindo. Com eles estão também Salomão, José de Emaús, João de Éfeso e Filipe de Arbela. Eles se dirigiram à casa deste último e estão vindo de Jope, de Lida e de Modin. E têm consigo seus homens da costa do mar e mulheres. Eles te estavam procurando antes, porque há uma discórdia entre eles sobre como julgar uma mulher. Mas eles virão falar contigo.

De fato, Jesus logo é rodeado pelos outros apóstolos e saudado com veneração. Atrás deles estão os novos atraídos pela doutrina de Jesus. Mas não está João de Éfeso e Jesus pergunta o por que.

– Ele parou com uma mulher e com os parentes dela em uma casa longe do povo. Não se sabe se a mulher está endemoninhada ou se é uma profetisa. Diz coisas maravilhosas, segundo dizem os da terra dela. Mas os escribas, que a ouviram, julgaram-na possessa. Os parentes chamaram os exorcistas1 muitas vezes, mas eles não puderam expulsar o demônio que a possui e que fala. Mas um deles disse ao pai da mulher (ela é uma viúva virgem que ficou na família): “Para tua filha é necessário o Messias Jesus. Ele compreenderá as palavras dela e saberá de onde elas vêm. Eu experimentei impor ao espírito que fala nela que saísse em nome de Jesus, chamado o Cristo. Sempre os espíritos das trevas fugiram quando eu falei neste Nome. Mas desta vez, não. Por isso, eu digo que é o próprio Belzebu que fala e consegue resistir até àquele nome dito por mim, ou é o próprio Espírito de Deus e por isso não tem medo, pois ele é uma só coisa com o Cristo. Eu estou convencido mais disso do que da outra opinião. Mas para termos certeza do que se trata, somente o Cristo pode julgar. Ele entenderá as palavras e saberá de onde elas vêm.” E foi maltratado pelos escribas lá presentes, que disseram também ele estava possesso, como a mulher e como Tu. Perdoa, se devemos dizer isso… E alguns escribas não nos deixaram mais e estão de guarda junto à mulher, porque querem resolver se ela pode ser avisada da tua chegada. Pois ela diz que conhece o teu rosto e a tua voz, e que entre milhares te reconheceria, embora esteja provado que ela nunca saiu de sua terra, ou melhor, da sua casa, desde quando, há quinze anos, seu esposo morreu na vigília da festa nupcial. E também está provado que Tu nunca passaste por aquela terra, que é Betleque. E os escribas estão esperando esta última prova para dizerem que ela está endemoninhada. 523.3Queres vê-la logo?

– Não. Eu devo falar ao povo. E seria um barulho muito grande o encontro com ela aqui, entre as pessoas da multidão. Vai dizer ao João de Éfeso e aos parentes da mulher, e também aos escribas, que Eu os espero, todos, no começo do pôr do sol, nos bosques ao longo do rio, na estrada que vai para o vau. Vai.

E Jesus, tendo-se despedido de Salomão, que falou por todos, vai atender os doentes que estão pedindo a cura, e os cura. São eles uma mulher já idosa anquilosada pela artrite; um paralítico, um jovenzinho parvo, uma menina, que eu diria estar tuberculosa, e dois doentes dos olhos. O povo solta seus vibrantes gritos de alegria.

Mas não terminou ainda a cura dos doentes. Uma vem para frente, desfigurada pela dor, ajudada por duas amigas ou parentas, e se ajoelha, dizendo:

– Estou com meu filho à morte. Ele não pode ser trazido até aqui. Tem piedade de mim!

– Podes tu crer sem medida?

– Tudo, ó meu Senhor.

– Então, volta para tua casa.

– Para minha casa?… Sem Ti?…

A mulher olha por um momento com aflição para Ele. Por um momento, mas logo compreende. Seu pobre rosto se transfigura. E ela grita:

– Eu vou, Senhor. E bendito sejas Tu e o Altíssimo que te enviou.

E sai correndo, mais ágil do que as suas próprias companheiras.

Jesus se volta para alguém de Jerico, que é um respeitável cidadão:

– Aquela mulher é hebreia?

– Não. Pelo menos de nascimento, não. Ela vem de Mileto. É esposa, porém, de um de nós e, desde então, professa a nossa fé.

– Ela soube crer melhor do que muitos hebreus, observa Jesus.

523.4Depois, subindo para o alto da escadaria de uma casa, faz o seu gesto habitual de abrir os braços, gesto de que ele faz uso antes de começar a falar e para impor silêncio. E, tendo-o conseguido, recolhe as dobras do seu manto que, com aquele gesto abriu-se, sobre o peito, conserva-o firme com a esquerda, enquanto abaixa a direita, como no gesto de quem faz um juramento, e diz:

– Escutai, ó cidadãos de Jericó, as parábolas do Senhor, e cada um depois as medite em seu coração e delas tire uma lição com que nutrir o seu espírito. E o podeis fazer, porque não é de ontem nem do mês passado nem mesmo desde o outro inverno que vós conheceis a palavra de Deus. Antes que Eu fosse o Mestre, João, meu Precursor, vos havia preparado para a minha vinda. E depois que Eu vim, os meus discípulos araram sete e mais sete vezes este chão, para semear nele toda a semente que Eu lhes havia dado. Portanto, vós podeis compreender a palavra e a parábola.

523.5A que Eu compararei aqueles que, depois de terem sido pecadores, se convertem? Eu os compararei a doentes que ficam sãos. E a que compararei os outros, que publicamente não pecaram ou, então, raros como pérolas negras, nunca cometeram, nem mesmo ocultamente, culpas graves? Eu os compararei a pessoas sãs. O mundo é composto dessas duas categorias. Tanto em seu espírito como na carne e no sangue. Mas se iguais são as comparações, diferente é o modo que o mundo usa com os doentes curados que estavam doentes em sua carne, do modo que ele usa para com os pecadores convertidos, isto é, com os doentes em seu espírito e que voltam a ter saúde.

Nós vemos que quando, por exemplo, um leproso, que é o doente mais perigoso e o mais isolado por ser perigoso, obtém a graça da cura, depois de ter sido examinado pelo sacerdote e purificado é readmitido no convívio das pessoas, até os da sua cidade se congratulam com ele, porque ficou são, porque ressuscitou para a vida, para a família, para os negócios. Grande festa se faz na família e na cidade quando alguém que era leproso consegue obter graça e sarar! É uma competição o que se faz entre os parentes e os concidadãos para levar-lhe isto ou aquilo, e procuram saber se ele está só, ou sem casa, ou sem móveis, e lhe oferecem cama ou mobília, e todos dizem: “Ele é um predileto de Deus. O dedo de Deus o curou. Prestemos-lhe, pois, uma homenagem, honremos Aquele que o criou e recriou.” É justo fazer assim. Mas quando, desventuradamente, alguém tem os primeiros sinais da lepra, com que amor angustiado os parentes e os amigos o cumulam de ternuras, enquanto ainda é possível fazê-lo, como que para dar-lhe tudo de uma vez o tesouro dos afetos que lhe teriam dado durante muitos anos, para que ele o leve consigo para o seu sepulcro de vivo.

Mas por que, então, não se faz assim com os outros doentes? Um homem começa a pecar e seus familiares, sobretudo os concidadãos, não o estarão vendo? Por que, então, não procuram, com amor, arrancá-lo do perigo do pecado? Uma mãe, um pai, uma esposa, uma irmã, ainda o fazem, mas é mais difícil que o façam os irmãos, e não digo que o façam os filhos do irmão do pai ou da mãe. Os concidadãos, afinal, só sabem criticar, escarnecer, xingar, ficar escandalizados, exagerar os pecados do pecador, mostrá-lo com o dedo e conservá-lo afastado como um leproso, aqueles que são mais justos; ou, então, ser seus cúmplices, para zombar dele por trás, aqueles que não são justos. Mas não há, a não ser raramente, nenhuma boca e muito menos um coração que vá ao infeliz com piedade e firmeza, com paciência e amor sobrenatural, e se empenhe em frear a queda dele no pecado. E como? Por acaso não é mais grave, verdadeiramente grave e mortal, a doença do espírito? Não nos priva ela, e para sempre, do Reino de Deus? A primeira das caridades para com Deus e para com o próximo não deve ser esse trabalho de curar um pecador para o bem de sua alma e para a glória de Deus?

E quando um pecador se converte, para que aquela obstinação de julgá-lo, aquele quase amargurar-se por ter ele voltado à saúde espiritual? Será porque vedes desmentidos os vossos prognósticos certos da condenação de um vosso concidadão? Mas vós deveríeis sentir-vos felizes com isso, porque Quem vos está desmentindo é o Deus misericordioso, que vos dá a medida de sua bondade para dar-vos coragem em vossas culpas mais ou menos graves. E por que ficar persistindo em querer ver que está sujo, desprezível, digno de ficar num isolamento aquilo que Deus e a boa vontade de um coração fazem puro, admirável, digno da estima dos irmãos, antes, de sua admiração? Bem que vos rejubilais se um boi vosso, um asno ou camelo, ou uma ovelha da grei, ou o pombo preferido se curam de uma doença! Bem que vos alegrais se um estranho, de cujo nome mal vos lembrais porque o ouvistes falar no tempo em que ele ficou isolado como leproso, volta curado. E por que, então, não vos alegrais com essas curas do espírito, com essas vitórias de Deus? O Céu se alegra quando um pecador se converte. O Céu: Deus, os anjos puríssimos, aqueles que não sabem o que é pecar. E vós, vós homens, quereis ser mais intransigentes do que Deus?

523.6Tornai, tornai justo o vosso coração e reconhecei o Senhor, não somente como estando presente por entre as nuvens de incenso e os cânticos do Templo, no lugar onde somente a Santidade do Senhor, o Sumo Sacerdote, é que deve entrar, e deveria ser santo como o seu nome o indica. Mas também no prodígio desses espíritos ressuscitados, desses altares reconsagrados, sobre os quais o amor de Deus desce com os seus fogos para acender o fogo do sacrifício.

Jesus é interrompido por aquela mãe de antes, que, com gritos de bênção, o quer adorar. Jesus a escuta e abençoa, e a torna a mandar para casa, retomando o assunto interrompido:

– E se de um pecador que, há tempo, vos fez ver um espetáculo escandaloso, recebeis agora espetáculos edificantes, não queirais zombar dele, mas imitá-lo, porque nunca ninguém foi tão perfeito que fosse impossível a um outro poder ensiná-lo. E o Bem é sempre uma lição que se acolhe, mesmo quando aquele que o está praticando era objeto de reprovação em tempos passados. Imitai e ajudai. Porque assim fazendo dais glória ao Senhor e demonstrareis que entendestes o seu Verbo. Não queirais ser como aqueles que em vossos corações vós criticais, porque as ações deles não correspondem às suas palavras. Mas fazei que toda vossa boa ação seja o coroamento de toda vossa boa palavra. E, então, verdadeiramente sereis olhados e ouvidos benevolamente pelo Eterno.

523.7Ouvi esta outra parábola, para compreenderdes quais são as coisas que têm valor aos olhos de Deus. Ela vos ensinará a corrigir-vos de algum pensamento não bom que existe em muitos corações. A maior parte dos homens se julga por si mesma e, visto que só um homem entre mil é verdadeiramente humilde, assim acontece que o homem… se julga perfeito, enquanto que no próximo nota centenas de pecados.

Um dia, dois homens foram a Jerusalém para negócios, subiram ao Templo, como convém que faça todo bom israelita todas as vezes que põe o pé na Cidade Santa. Um deles era fariseu. O outro era publicano. O primeiro tinha ido para receber o aluguel de alguns empórios e para acertar as contas com os seus feitores, que moravam nas cercanias da cidade. O outro, para pagar os impostos cobrados e para pedir piedade em nome de uma viúva que não podia pagar a taxa da barca e das redes, porque a pesca, feita pelo filho mais velho, mal bastava para dar de comer a muitos outros filhos.

O fariseu, antes de subir para o Templo, havia passado pelos administradores dos empórios, viu que eles estavam cheios de mercadorias e de compradores, ficou muito contente consigo mesmo, depois chamou o administrador do lugar e lhe disse:

“Vejo que os teus negócios vão bem.”

“Sim. Graças a Deus. Estou contente com o meu trabalho. Pude aumentar as mercadorias e espero poder fazer isso ainda mais. Melhorei o meu ponto, e no ano que vem não terei mais as despesas com as barcas e prateleiras, assim ganharei mais.”

“Bom! Está bem! Fico feliz com isso. Quanto é que tu pagas por este ponto?”

“Cem didracmas por mês. É caro, mas o ponto é bom.”

“Tu o disseste. O ponto é bom. Por isso eu vou dobrar o teu aluguel.”

“Mas, Senhor!” exclamou o comerciante. “Desse modo tu me tiras todas as vantagens!”

“Mas é justo! Será minha obrigação enriquecer-te? E com o que é meu? Vamos logo. Ou tu me dás duas mil e quatrocentas didracmas, e já, ou eu te expulso e fico com a mercadoria. O ponto é meu e eu faço dele o que quero.”

Assim ele fez com o primeiro, com o segundo e com o terceiro dos seus arrendatários, dobrando o preço de cada um, surdo a todos os pedidos.

E como o terceiro, carregado de filhos, resolveu oferecer resistência, ele chamou os guardas e mandou pôr os sinetes de apreensão, levando para fora o infeliz.

Depois, em seu palácio, examinou os registros de seus feitores, achando motivos para puni-los como preguiçosos e apreendendo deles a parte que eles retinham como de direito. Um deles estava com o filho à morte e, por causa das muitas despesas, tinha vendido uma parte do seu azeite para pagar os remédios. Por isso não tinha mais o que dar ao avarento patrão.

“Tem piedade de mim, patrão. O meu pobre filho está para morrer. Depois eu farei trabalhos extraordinários para te ressarcir com o que te parecer justo. Mas agora, tu o compreendes, não me é possível.”

“Não podes? Eu vou te fazer ver se podes ou não podes.”

E tendo ido com o pobre feitor ao lagar do azeite, o privou até do resto do azeite que o homem havia reservado para um miserável alimento e para a lamparina que o ajudava a cuidar do filho durante a noite.

O publicano, por sua vez, foi ao seu superior e, tendo entregado os impostos cobrados, ouviu o que lhe dissera:

“Mas aqui estão faltando trezentos e sessenta asses. Como é isto?”

“Já te direi: Na cidade há uma viúva com sete filhos. Somente o primeiro é que já está na idade de poder trabalhar. Mas ele não pode ir para longe da margem com a barca porque seus braços ainda são fracos para trabalhar com o remo e a vela. Estando perto da margem, pesca pouco, e o que pesca mal dá para matar a fome daqueles oito infelizes. Eu não tive coração para exigir a taxa.”

“Eu compreendo. Mas, lei é lei. Que aconteceria se a lei fosse piedosa? Todos teriam uma razão para não pagar. Que o jovenzinho mude de oficio e venda a barca, se não podem pagar.”

“Ela é para eles o pão no dia de amanhã… e é uma lembrança do pai.”

“Eu compreendo. Mas não se pode transigir.”

“Está bem. Mas eu não posso ficar pensando naqueles oito infelizes, privados do seu único bem. Eu pagarei trezentos e setenta asses.”

523.8Tendo combinado assim, os dois subiram para o Templo e, passando por perto do gazofilácio, o fariseu, com ostentação, tirou uma grande bolsa do seu seio e a sacudiu até cair a última moeda no Tesouro. Naquela bolsa estavam as moedas recebidas de quase todos os negociantes e do azeite arrecadado do feitor e logo vendido a um mercador. O publicano, porém, só lançou um punhadinho de pequenos trocados, depois de ter tirado o tanto que era necessário para voltar para seu lugar. Um e outro deram, pois, o que tinham. O fariseu, na aparência, foi o mais generoso, porque deu até a última moedinha que tinha consigo. Mas é preciso refletir que, em seu palácio, ele tinha outras moedas, e tinha crédito aberto junto a ricos cambistas.

De lá eles foram para diante do Senhor. O fariseu foi justamente até a frente, para perto do limite do átrio dos hebreus, rumo ao Santo, enquanto que o publicano ficou lá no fundo do Templo, quase por debaixo da abóbada, perto do Pátio das Mulheres, e estava encurvado, esmagado, só por pensar em sua miséria, em comparação com a Perfeição divina. E rezavam, tanto um, como o outro.

O fariseu, bem aprumado, cheio de insolência, como se fosse o dono do lugar e como se estivesse prestando homenagem a algum visitante, dizia:

“Eis que eu vim venerar-te na Casa que é a nossa glória. Eu vim, ainda que perceba que Tu estás em mim, pois eu sou um justo. E eu sei que o sou. Mas por mais que eu saiba que somente por meu merecimento é que sou assim, eu te agradeço, como é de lei, pelo que sou. Eu não sou ladrão, injusto, adúltero, pecador como aquele publicano que jogou, ao mesmo tempo que eu, um punhadinho de moedas no Tesouro. Eu, como Tu viste, te dei tudo o que eu tinha comigo. Aquele avarento, porém, repartiu em duas partes e a Ti deu a menor. A outra parte, com certeza ele guardou para as patuscadas e as mulheres. Mas eu sou puro. Eu não me contamino. Eu sou puro e justo, jejuo duas vezes na semana, pago os dízimos de tudo o que possuo. Sim! Eu sou puro, justo e bendito, porque eu sou santo. Recordai-vos disso, ó Senhor!”

O publicano, de longe, lá do seu canto, sem nem ousar levantar o olhar para as portas preciosas do Templo, batendo no peito, assim rezava: “Senhor, eu não sou digno de estar neste lugar. Mas Tu és justo e santo, e ainda me concedes isso, porque sabes que o homem é pecador e, se não vem a Ti, torna-se um demônio. Oh! Meu Senhor! Eu quereria honrar-te noite e dia, mas tenho que obedecer aos meus superiores, porque aquele trabalho é o meu pão. Faze, ó meu Deus, que eu saiba temperar o meu dever para com os meus superiores com a caridade para com os meus pobres irmãos, a fim de que no meu trabalho não venha a achar a minha condenação. Todo trabalho é santo se for feito com caridade. Conserva a tua caridade sempre presente no meu coração, para que eu, miserável como sou, saiba compadecer-me dos que estão sujeitos a mim, como Tu te compadeces de mim, grande pecador. Eu teria querido honrar-te mais, Ó Senhor. Tu sabes disso, mas eu pensei que tirar o dinheiro destinado ao Templo para ajudar oito corações infelizes, fosse coisa melhor do que colocá-lo no gazofilácio para ir, depois, derramar lágrimas de desolação por oito inocentes infelizes. Mas se eu errei, faze que eu o compreenda, Ó Senhor, e eu te darei até a última moedinha, e voltarei ao povoado a pé, pedindo a esmola de um pão. Faze-me compreender a tua Justiça. Tem piedade de mim, Ó Senhor, pois eu sou um grande pecador.”

523.9Esta é a parábola.

Em verdade, em verdade Eu vos digo que, enquanto o fariseu saiu do Templo com mais um pecado acrescentado àqueles que ele já havia feito antes de subir ao Mória, o publicano saiu de lá justificado, e a bênção de Deus o acompanhou até sua casa e lá ficou. Porque ele foi humilde e misericordioso, e suas ações tinham sido ainda mais santas do que suas palavras. Enquanto o fariseu, somente por palavras e externamente bom, no seu interior fazia as obras de Satanás, por sua soberba e dureza de coração, e Deus o odiava por isso.

Quem se exalta será sempre, antes ou depois, humilhado. Se não aqui, na outra vida. E quem se humilha será exaltado, especialmente lá em cima no Céu, onde se veem as ações dos homens em sua verdadeira verdade.

Vem, Zaqueu. Vinde vós, que estais com ele. E vós, meus apóstolos e discípulos. Eu vos falarei ainda em particular.

E envolvendo-se no manto, volta para a casa do Zaqueu.

1 os exorcistas tinham a função de expulsar demônios e a exercitavam “segundo Israel”, como é mencionado em 352.15. Alguns escribas (em 349.10) declaram de não serem exorcistas, enquanto um escriba (em 387.7) diz: “nós, ornados dos sinais do exorcismo.” A presença e a ação de exorcistas em Israel são afirmadas por Jesus em 137.5 e confirmadas em uma famosa disputa com os escribas e fariseus, assinaladas em 269.7. De escribas que fazem exorcismo usando fórmulas, fala-se no breve capítulo 350, onde Jesus adverte que precisa distinguir o possuidor do doente, por não ser o demônio estranho/desconhecido à doença, e assegura que os demônios se vencem com a oração e o jejum.


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