347. 347. Em Betsaida. Profecia sobre o martíriodos apóstolos e cura de um cego.


1º de dezembro de 1945.

347.1 Já não estão mais caminhando, mas correndo, nesta nova manhã, ainda mais risonha e prazenteira do que as que a precederam, brilhando por toda parte, devido à orvalhada que caiu e também pelas pétalas multicores, caídas sobre as cabeças e os prados, semeando cores diferentes de flores despetaladas, ao lado de numerosas flores que estão erguidas sobre as hastes, nas praias e nas glebas, acendendo a luz de novos diamantes, ao som dos cantos dos passarinhos e da brisa leve das águas risonhas, que suspiram ou arpejam, escorrendo por entre os ramos, acariciando o feno e os grãos que crescem cada dia mais, ou então se derramando pelas margens, acamando levemente os caules que tocam nas águas límpidas. Vão correndo, como se estivessem indo a um encontro de amor. Até os anciãos, como Filipe, Bartolomeu, Mateus e o Zelotes, participam da pressa alegre dos jovens. Este é o clima que há entre os discípulos, com os mais velhos e os mais jovens porfiando para ver quem anda mais depressa.

Ainda não se evaporou a orvalhada sobre os prados e eles já estão chegando à região de Betsaida, que fica apertada dentro do pequeno espaço entre o lago, o rio e o monte.

347.2 Do bosque que está no monte, vem descendo por um caminho um jovenzinho todo encurvado por baixo de um feixe de galhos. Ele desce com facilidade, quase correndo e, por causa de sua posição, não chega a ver os apóstolos… Cantando feliz, correndo debaixo do seu feixe de lenha e, tendo chegado à estrada mestra, onde estão as primeiras casas de Betsaida, joga no chão a sua carga, ergue o busto para descansar e joga para trás seus cabelos castanhos. Ele é alto, moreno, forte no corpo e em seus membros ágeis e magros. É um jovenzinho de bela figura.

– É Marziam –diz André.

– Não, estás doido? Aquele já é um homem –responde-lhe Pedro.

André, pondo as mãos em forma de funil levadas à boca, chama-o em voz alta. O jovenzinho, que ia curvar-se para apanhar o feixe, depois de ter apertado a cinta sobre a túnica curta, que lhe chega só até os joelhos e é aberta no peito, porque provavelmente já não esta servindo nem para ele, vira-se para o lado de onde o chamaram e vê a Jesus, Pedro e os outros o olham, parados ao lado de uma moita de salgueiros, que desatam as suas cabeleiras por sobre as águas de um ribeirão largo, que é o último afluente esquerdo do rio Jordão, antes dele entrar no lago da Galiléia, e colocado justamente na linha de limite do povoado. Ele deixa cair o feixe, levanta os braços, e grita:

– É o meu Senhor! E o meu pai! –e se põe a correr.

Mas Pedro também se põe a correr para o vau do ribeirão, mesmo sem ter tirado as sandálias, limitando-se a sungar suas vestes e depois, vai correndo pela estrada empoeirada, deixando os largos rastos de suas sandálias sobre o terreno enxuto.

– Meu pai!

– Querido filho!

Estão já nos braços um do outro e, na verdade, Marziam já está da altura de Pedro, de tal modo que seus cabelos castanhos estão caindo por sobre o rosto de Pedro quando eles se dão o beijo de amor, e ele fica parecendo mais alto, por ser esguio, como é. 347.3Mas Marziam se desliga daquele doce abraço e retoma a corrida, indo para Jesus, que já está do lado de cá do rio, e vem andando lentamente no meio da coroa dos apóstolos.

Marziam lhe cai aos pés, com os braços levantados, e diz:

– Oh! Meu Senhor, abençoa o teu servo!

Mas Jesus se inclina e o faz ficar em pé, toma-o sobre o coração, beija-o nas duas faces, desejando-lhe “uma continua paz, um aumento de sabedoria e de graça nos caminhos do Senhor.”

Também os apóstolos fazem festa ao jovenzinho, especialmente aqueles que não o viam havia muitos meses, e se congratulam com ele pelo seu crescimento.

Mas Pedro! Pedro! Se ele o tivesse gerado, talvez não estivesse tão contente! Pedro anda ao redor dele, toca a mão nele, pergunta-lhe isto e aquilo:

– Mas, não é bonito? Não é bem feito de corpo? Olhai como tem um belo perfil! Como tem um peito alto! Tem as pernas direitas!… É um pouco magro e, por enquanto, tem poucos músculos. Mas promete muito! Muito mesmo! E o rosto? Vede bem se ele ainda se parece com aquele pequeno ser que eu levei nos braços, no ano passado e me parecia estar levando um passarinho mal alimentado, amuado, triste e medroso… Vitória da Porfíria! Ah! Ela saiu mesmo vitoriosa com todo aquele seu mel, manteiga, óleo, ovos e fígado de peixe.

E ela bem merece que eu lhe diga isso, e logo. 347.4Tu me deixas, Mestre, ir à minha esposa?

– Vai, vai, Simão. Eu te alcançarei logo.

Marziam, que está ainda seguro pela mão de Jesus, diz:

– Mestre, certamente meu pai vai agora mandar à minha mãe que faça o almoço. Permite-me que eu te deixe, para ir ajudá-la…

– Vai. E Deus te abençoe, porque honras a quem é teu pai e à tua mãe.

Marziam vai correndo, torna a pegar seu feixe de lenha e o põe às costas, alcança Pedro, e vai caminhando ao lado dele.

– Parecem Abraão e Isaac quando vão subindo o monte –observa Bartolomeu.

– Oh! Pobre Marziam! Só isso é que faltava! –diz Simão Zelotes.

– E pobre do meu irmão! Não sei se ele teria forças para fazer o que fez Abraão –diz André.

Jesus olha para ele, depois olha para a cabeça grisalha de Pedro, que já lá vai longe, perto do seu Marziam, e diz:

– Em verdade, Eu vos digo que dia virá em que Simão Pedro se alegrará, ao saber que está preso e irá ser espancado, flagelado e que está prestes a morrer o seu Marziam, e que ele vai ter a coragem de estendê-lo, com sua própria mão sobre o patíbulo e de vesti-lo com a púrpura dos Céus, fecundando a terra com o sangue do mártir, com inveja e com dor somente por um motivo: o de não estar ele no lugar de seu filho e dependente, porque sua eleição para ser o Chefe Supremo da minha Igreja o obrigará a reservar-se para ela, enquanto Eu não lhe disser: “Vai morrer por ela.” Vós ainda não conheceis Pedro. Eu o conheço.

– Estás prevendo o martírio para Marziam e para meu irmão?

– Tu sentes dor por isso André?

– Não. Eu sinto dor por não o previres para mim.

– Em verdade, em verdade Eu vos digo que sereis todos revestidos de púrpura, menos um.

– Quem é? Quem é?

– Deixemos que perdure o silêncio sobre a dor de Deus –diz triste e majestoso, Jesus.

E todos se calam, atemorizados e pensativos.

347.5 Vão entrando pela primeira rua de Betsaida, por entre os terrenos plantados com hortaliças cheias de folhas verdes e tenras. Pedro, com outros de Betsaida, já vem trazendo um cego a Jesus. Marziam não veio. Certamente ficou para ajudar Porfíria. Com os de Betsaida e com os parentes do cego estão muitos discípulos, que vieram até Betsaida, de Sicaminon e de outras cidades, entre os quais estão Estevão, Hermasteu, o sacerdote João e João, o escriba, além de muitos outros (Conservar seus nomes na memória dá uma confusão. Eles são muitos).

– Eu o trouxe a ti, Senhor. Ele estava aqui esperando há muitos dias –explica Pedro, enquanto o cego e os parentes fazem uma ladainha, dizendo: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de nós!” “Põe tua mão sobre os olhos do meu filho, e ele verá.” “Tem piedade de mim, Senhor, Eu creio em Ti!”

347.6Jesus pega pela mão o cego, e anda alguns metros para trás com ele, a fim de colocá-lo protegido contra o sol, que já inundou de luz a rua. Ele o encosta à parede saliente de uma casa, a primeira da vila, e lhe põe a mão sobre a fronte. Molha os dois dedos indicadores com saliva e, com os dedos úmidos, esfrega as pálpebras do cego, depois aperta suas mãos sobre os olhos dele, pondo a base da mão sobre as cavidades dos olhos e os dedos espalhados por sobre os cabelos do infeliz. E, nessa posição, ele reza. Depois, tira as mãos:

– Que estás vendo? –pergunta ao cego.

– Estou vendo uns homens. Com certeza são homens. Mas eu estava imaginando que eram árvores cobertas de flores. Mas, com certeza são homens, porque eles caminham e se movem, vindo para o meu lado.

Jesus lhe impõe de novo as mãos e depois as torna a tirar, dizendo:

– E agora?

– Oh! Agora eu estou vendo bem a diferença entre as árvores plantadas na terra e estes homens que estão olhando para mim… E Te estou vendo! Como és bonito! Os teus olhos são iguais ao céu e os teus cabelos parecem raios de sol… o teu olhar e o teu sorriso são de Deus. Senhor, eu te adoro!

E se ajoelha para beijar-lhe a orla da veste.

– Levanta-te, e vai à tua mãe que, durante tantos anos, foi a tua luz e o teu conforto e da qual tu conheces só o amor.

E o toma pela mão, levando-o à mãe, que está ajoelhada a alguns passos de distância, em adoração, como antes o estava em súplica.

– Levanta-se, mulher. Aqui está o teu filho. Ele está vendo a luz do dia e que queira o seu coração seguir a Luz eterna. Vai para casa. Sede felizes. E sede santos, em reconhecimento para com Deus. Mas, ao passardes pelos vilarejos, não conteis a ninguém que Eu te curei, para que a multidão não se precipite, vindo para cá, e me impeça de ir para onde é preciso que eu vá, a fim de confirmar na fé, na luz e na alegria a outros filhos do meu Pai.

E, sem demora, Ele dobra uma esquina e vai andando para a casa de Pedro por um pequeno caminho, que passa pelo meio do jardim, e entra na casa, saudando Porfíria com sua suave saudação.