304. 304. Com João de Endor, Síntiquee Marziam. Maria é mãe e mestra.
16 de outubro de 1945.
304.1 – Mestre! Mestre! Mestre –são os três gritos do João de Endor que, saindo do seu quartinho, para ir ao tanque lavar-se, encontra-se de frente com Jesus, que está vindo. Aqueles gritos despertaram Marziam, que sai correndo do quarto de Maria, unicamente com a sua pequena túnica sem mangas, e curta, ainda descalço, todo olhos e boca para ver e gritar: “Jesus está aí”, e todo pernas para correr, e ir parar nos braços dele. Eles despertam também Síntique, que estava dormindo onde foi a oficina de José, e que de lá sai, alguns momentos depois, já vestida, com suas tranças cor de amora, trançadas pela metade, e uns pingentes sobre os ombros.
Jesus, com o menino ainda nos braços, saúda João e Síntique, e os convida a entrar na casa, porque o vento do norte está muito forte. E Ele entra por primeiro, levando seminu Marziam, que está batendo os dentes, não obstante o seu entusiasmo, ao lado da lareira já acesa, onde Maria está procurando fazer esquentar o leite, e também as vestes do menino, para que ele não pegue nenhum resfriado.
Os outros dois estão em silêncio, e parecem a personificação da alegria extática. Jesus, que está sentado com o menino no colo, enquanto a Virgem com agilidade o vai vestindo com suas roupas esquentadas, levanta o rosto, e sorri, dizendo:
– Eu vos havia prometido que haveria de vir. E hoje ou amanhã, virá também Simão Zelotes. Ele foi encarregado por Mim de ir a outro lugar.Mas logo ele virá, estaremos juntos muitos dias.
304.2 Maria já acabou de mudar a roupa do Marziam, e a cor volta àquele rostinho meio arroxeado pelo frio. Jesus faz que ele desça dos seus joelhos e se põe de pé, indo para o quartinho do lado, acompanhado por todos. Por último vem Maria, segurando o menino pela mão. E o censura docemente dizendo:
– Que deveria eu te fazer agora? Tu desobedeceste. Eu te havia dito: “Fica na cama até eu voltar”, e tu vieste para cá antes da hora…
– Eu acordei com os gritos de João… –desculpa-se Marziam.
– Pois devias saber obedecer justamente naquele momento. Ficar na cama enquanto se está dormindo não é obedecer, e fazer isso não tem merecimento algum. Deverias saber fazer isso de modo que houvesse merecimento, porque dependia da tua vontade. Eu te teria trazido Jesus. Tu o terias tido todo para ti, e sem te arriscares a pegar um resfriado.
– Eu não sabia que estava fazendo tanto frio.
– Mas eu sabia. Fico triste por te ver tão desobediente.
– Não, minha Mãe. Eu é que fico mais triste por te ver assim… Se não fosse por Jesus, eu não me levantaria, nem mesmo se me esquecessem na cama sem comer. Minha Mãe bela, minha Mãe!… Dá-me um beijo, minha Mãe. Tu sabes que eu sou um pobre menino!…
Maria o toma nos braços, e o beija, fazendo assim que cessem de correr as lágrimas pelo rostinho, e fazendo voltar a ele o sorriso, com esta promessa:
– Não te desobedecerei mais, nunca, nunca mais!
304.3 Enquanto isso, Jesus está falando com os dois discípulos. Ele está se informando sobre os progressos deles na Sabedoria e, visto que eles dizem que tudo se esclarece neles pela palavra de Maria, Jesus lhes diz:
– Eu sei. A Sabedoria de Deus, sobrenaturalmente luminosa, se torna uma luz compreensível até para os corações mais duros, quando Ela explica. Mas vós não sois uns duros de coração, e, por isso, vos aproveitais bem do seu ensinamento.
– Agora, Tu estás aqui, meu Filho. A mestra se torna aluna.
– Oh! Não. Tu continuas a ser Mestra. Eu te ouvirei como eles. Eu sou apenas “o Filho” nestes dias. Nada mais. Tu serás a Mãe e Mestra dos cristãos. E o és, desde agora: Eu, o teu primogênito e primeiro aluno, e estes, e com eles Simão, quando ele vier, e os outros… Estás vendo, Mãe? O mundo está aqui. O mundo de amanhã, no pequeno israelita puro, que nem se dará conta de que se tornará “o cristão.” E o mundo, o velho mundo de Israel, representado pelo Zelotes. A humanidade, representada por João, e os pagãos por Síntique. E todos virão a ti, Santa Nutriz, que dás o leite da Sabedoria e da Vida ao mundo e aos séculos. Quantas bocas desejaram sugar em teu peito! E quantas o farão no futuro! Por ti suspiraram os Patriarcas e os Profetas, porque do teu seio fecundo é que haveria de provir a Nutrição do homem. E te procurarão os “meus”, a fim de serem perdoados, instruídos, defendidos, amados, como outros tantos Marziam. E, felizes dos que o fizerem! Porque não será possível perseverar em Cristo, se não se tornarem fortes, por meio da graça, com a tua ajuda, ó Mãe cheia de Graça.
Maria fica parecendo uma rosa, em sua veste escura, pelo tanto que se lhe enrubesce o rosto, ao ouvir ela o elogio feito por seu Filho. E uma rosa fulgente, vestida de modo tão modesto, com uma lã grosseira de cor marrom escuro…
304.4 Batem à porta, e vão entrando todos juntos Maria de Alfeu, Tiago e Judas, estes últimos trazendo vasilhas com água e uns feixes. A alegria de verem-se juntos uns com os outros é grande. E ela aumenta, quando eles ficam sabendo que logo virá também o Zelotes. O afeto dos filhos do Alfeu para com ele é evidente, desde mesmo antes que Judas dissesse em resposta àquela observação de sua mãe, que havia notado aquela alegria deles:
– Minha mãe, justamente nesta casa, em uma tarde bem triste para nós, ele nos tratou com um afeto de pai, e ainda o conserva para conosco. Não podemos esquecer-nos disso. Para nós, ele é “o pai.” E nós para ele somos “os filhos.” Que filhos há que não se alegrem muito, quando tornam a ver um bom pai?
Maria de Alfeu fica pensando, e suspira… Depois, muito experiente até em seus sofrimentos, ela pergunta:
– Não tendes lugar. Mandai-o vir a mim.
– Não, Maria, diz Jesus. Ele virá ficar em minha casa. Isto se faz logo. Síntique irá ficar com minha Mãe. Eu, com Marziam, Simão na oficina, e até será melhor preparar tudo isso logo. Vamos.
E os homens saem para a horta com Síntique, enquanto as duas Marias vão para a cozinha, tratar de seus afazeres domésticos.