451. 451. Discurso, na vila perto de Hipo,sobre deveres dos cônjuges e dos filhos.
27 de junho de 1946.
451.1 Está até mesmo fresca a manhã em que todos estão esperando que Jesus saia de uma das casas do arrabalde, à margem do lago, para começar a sua pregação.
Creio que muito pouco terão dormido os moradores naquela noite, emocionados como estavam pelos milagres realizados, pela alegria de terem o Messias no meio deles e pela vontade de não perder nem um só minuto de sua presença. O sono tardou em chegar, porque, antes dele, ficaram o tempo todo conversando no interior das casas, ou para recapitular os acontecimentos, ou para examinar se o espírito de cada um deles estava mesmo com aquela fé, aquela esperança e caridade, que resistem a qualquer acontecimento penoso, que o Mestre louvou e ensinou e que são os meios seguros para obtermos de Deus a graça nesta vida e na outra. Já perto da hora de ir-se embora, o povo está preocupado com o temor de que o Mestre possa sair pelos caminhos e afastar-se bem cedo, sem que eles possam estar presentes a sua partida. Por esse motivo, as casas se abriram bem cedo, para porem nas ruas os seus moradores que, espantados ao verem o seu grande número, todos movidos pelos mesmos pensamentos, disseram: “Verdadeiramente, esta é a primeira vez que um só pensamento põe em movimento os nossos corações e os une,” e, com uma amizade nova, boa, fraterna, dirigiram-se, com os mesmos propósitos, à casa onde Jesus está hospedado, e a rodearam sem fazer barulho, sem impaciência, mas também sem cansaço, bem decididos a acompanhar o Mestre, logo que Ele sair para pôr-se a caminho.
Muitos hortelãos já colheram os frutos, ainda cobertos de orvalho, dos seus pomares, e os estão conservando bem protegidos do sol que vem nascendo, da poeira, das moscas, por baixo de uma cobertura feita com folhas frescas de videiras e com grandes folhas de figueira, por entre cujos recortes eles estão olhando as maçãs de um lindo rosado, como se algum miniaturista as houvesse pintado, e os âmbares ou o ônix dos bagos de uva ou as macias saliências dos figos de todas as espécies, uns bem fechados no invólucro levemente emurchecido por baixo da polpa melosa, outros bem túrgidos e lisos, como se fossem de uma seda bem esticada, e reluzentes por causa de uma gota d’água que brilha em seu fundo; outros abertos, como um sorriso, com suas fibras louras, róseas, vermelho-escuras, conforme sua qualidade. Alguns pescadores trouxeram uns peixes em pequenos cabazes, certamente peixes pescados de noite, com sacrifício de seu sono, porque alguns deles ainda estão vivos e de bocas abertas, arquejando em suas últimas e penosas aspirações, nas convulsões da agonia, acelerando as palpitações ao respirarem e, nos fracos saltos que dão, fazem brilhar o prateado ou o levemente azulado de barrigas e de dorsos, estendidos sobre uma camada de folhas cinzento-esverdeadas de salgueiro e de choupo.
451.2 O lago, enquanto isso, deixou aquela cor de leite, que a aurora comunica às águas, quando estão saindo da noite. É uma cor tão pura, que eu diria tão angelical, tão alheada a tudo, pois tão lentamente é que o fluxo vai repousar sobre a praia, fazendo apenas um sussurro delicado, ao ir-se insinuando pelo meio dos cascalhos. Ela passou para a cor risonha, mais humana, eu diria mais carnal, da aurora, que acende a água com uns reflexos vermelhos, com as nuvens rosadas que se espelham sobre o lago, e que o fazem ficar azulado, com a luz agora já firme da aurora, com as suas pequenas ondas que se movem e que escorrem rindo por sobre a praia, todas com franjas de espuma, e fugindo depois para longe, enfeitando todo o espelho do lago com um rendilhado tênue, cândido, jogado sobre a seda celeste da água, que já escorreu movida pela brisa matinal. Depois é o primeiro raio de sol que vai atingir, lá para o lado de Tariqueia, lá onde ela era de uma tonalidade verde-azulada, por causa dos bosques que estava refletindo, e que agora fica dourada, brilha como um espelho quebrado, tocado pelo Sol. Esse espelho vai aumentando de tamanho, sempre mais, transformando em ouro e topázio as novas águas, ainda azuladas, anulando as tintas róseas das nuvens refletidas sobre as ondas, revestindo as quilhas das últimas barcas, que estão voltando depois da pesca, as primeiras que saíram, enquanto as velas, à luz triunfal do sol que já surgiu, tornam-se brancas como as asas de um anjo, frente ao azul e ao verde do céu e das colinas. Muito bonito é o lago da Galileia que, pela fecundidade de suas margens, faz-me lembrar o nosso Garda e, pela paz mística, o Trasimeno, gema da Palestina, digna moldura para a maior parte da vida pública de Jesus.
451.3 Eis que Jesus aparece na soleira da casa que o hospeda e sorri, levantando os braços para abençoar os pacientes moradores que o estão esperando…
– A paz esteja com todos vós. Estáveis me esperando? Estáveis com medo de que Eu escapasse, sem saudar-vos? Eu nunca falto com minhas promessas. Hoje Eu estou convosco para evangelizar-vos e ficar convosco, conforme prometi, para abençoar as vossas casas, as hortas e as barcas, para que sejam santificadas todas as famílias, e o trabalho seja também santificado. Mas lembrai-vos de que a minha bênção, para produzir frutos, deve ser ajudada pela vossa boa vontade. E vós sabeis qual é a boa vontade que deve animar uma família, para que seja santa a casa que a hospeda. Nela o homem deve ser chefe, mas não déspota, nem da esposa nem dos filhos, nem dos servos e, ao mesmo tempo, deve ser o rei, verdadeiramente o rei, no sentido bíblico da palavra. Estais lembrados do capítulo oitavo do primeiro livro dos Reis1? Os anciãos de Israel se reuniram e foram para Rámata, onde morava Samuel, e lhe disseram: “Eis que ficaste velho e os teus filhos não estão andando pelos teus caminhos. Para julgar-nos, estabelece sobre nós um rei, como o têm todas as nações.”
Portanto, rei quer dizer “juiz”, e deveria ser juiz justo, para não fazer de seus súditos uns infelizes no tempo de guerras, de abusos, de impostos injustos, nem na eternidade, exercendo uma realeza completamente cheia de molezas e de vícios. Ai daqueles que faltam com o seu ministério, que fecham seus ouvidos às vozes dos súditos, que fecham os olhos diante das chagas da nação, que se tornam cúmplices da dor do povo com alianças injustas, além de reforçarem o seu poder com a ajuda de aliados!
Ai também daqueles pais que faltam com sua obrigação, que são cegos e surdos às necessidades e aos defeitos, que são causa de escândalo e dor para ela, que descem a compromissos dos membros da família, compromissos de núpcias indignas, contanto que possam aliar-se com famílias ricas e poderosas, sem refletirem que o matrimônio é uma união querida para elevação e conforto do homem e da mulher, além de o seu para a procriação. É um dever, é um ministério. Não é um mercado, uma dor, não é aviltamento de um dos conjuges, nem do outro. É amor, e não ódio. Portanto, que o chefe seja justo, sem excessivas durezas ou pretensões, sem excessivas condescendências e fraquezas. Mas, se tivésseis que, escolher entre o excesso de uma coisa ou de outra, escolhei a segunda, porque pelos menos desta Deus vos poderá dizer: “Por que foste tão bom assim?”, e não condenar-vos, uma vez que o excesso de bondade pune o homem, com as prepotências que os outros se permitem contra os bons, enquanto que a dureza sempre vos reprovaria, porque é uma falta de amor para com o próximo mais próximo.
451.4 E justa seja a mulher em sua casa para com o esposo, os filhos e os servos. A seu esposo dê obediência e respeito, conforto e ajuda. Obediência, enquanto esta não assumir substancialmente um consentimento para o pecado. A mulher deve ser submissa, mas não degradada. Olhai, ó esposas, que o primeiro que vos julga, depois de Deus, por certas condescendências culpáveis, é o vosso próprio marido, que vos leva a elas. Nem sempre são desejos de amor, mas também são uma prova de vossa virtude. Mesmo que no momento não se reflita, pode chegar o dia em que o esposo diga a si mesmo: “Minha mulher é muito sensual”, e por isso fique com suspeitas contra a vossa fidelidade conjugal.
Sede castas no casamento. Fazei que vossa castidade imponha ao esposo aquela cautela que se toma diante das coisas puras, e vos olhe como suas semelhantes, e não como escravas ou concubinas, mantidas somente para serem “prazer”, e rejeitadas quando não agradam mais. A mulher virtuosa, eu diria, a mulher que, mesmo depois da união conjugal, conserva ainda aquele “quê” de virginal em seus atos, nas palavras, nos abandonos de amor, pode levar o marido a uma elevação da sensualidade para o sentimento, pelo qual o esposo se despoja da luxúria e se torna verdadeiramente um único “quê” com sua esposa, que ele passa a tratar com o cuidado com que cada pessoa, trata uma parte de si mesma, e justo é que assim seja, porque a mulher é “osso de seus ossos e carne de sua carne!”, e ninguém maltrata os seus ossos nem a sua carne, mas, ao contrário, os ama, para que o esposo e a esposa, como os dois primeiros esposos, olhem um para o outro, e não se vejam em sua nudez sensual, mas se amem pelo espírito, sem vergonhas aviltantes.
Que a mulher seja paciente, maternal com o marido. Que ela o considere como o primeiro de seus filhos, porque a mulher é sempre mãe, e o homem está sempre necessitado de uma mãe, que seja paciente, prudente, afetuosa, confortadora. Feliz aquela mulher que de seu próprio cônjuge sabe ser a companheira e, ao mesmo tempo, a mãe, para ampará-lo, e a filha, para ser guiada. Que a mulher seja trabalhadeira. O trabalho, impedindo os devaneios, faz bem à honestidade, além de fazê-lo à bolsa. Que ela não fique atormentando o marido com tolos ciúmes que para nada servem. O marido é honesto? O ciúme torna-o estulto, obrigando-o a sair de casa, o coloca no perigo de cair nas malhas de alguma meretriz. Ele não é honesto e fiel? Não serão as iras da ciumenta que irão corrigi-lo, mas, sim, o procedimento, sem mau humor e grosserias, com dignidade e amor com amor digno, e isso é o que faz refletir e recuperar o juízo. Procurai saber reconquistar o marido, quando uma paixão o afastou de vós, com a vossa virtude, assim como em vossa juventude o conquistastes pela vossa beleza. E, para terdes força no cumprimento desse dever, e resistir à dor que poderia tornar-vos injustas, amai os filhos, pensai neles, no bem deles.
451.5 Tudo uma mulher tem em seus filhos: a alegria, a coroa real nas horas alegres em que ela é realmente uma rainha da casa e do marido e o bálsamo nas horas dolorosas em que uma traição, ou outras penosas experiências da vida conjugal flagelavam sua fronte e sobretudo o coração com os espinhos de sua triste realeza como esposa e mártir. Julgai-vos tão espezinhadas, que quereis voltar para a casa de vossos pais, ou procurar compensação e, algum amigo fingido, que tem desejo de mulher, mas finge ter piedade do coração da que foi traída? Não, mulheres, não! Aqueles filhos, aqueles filhos inocentes, já perturbados, já precocemente entristecidos pelo ambiente doméstico, que não é mais sereno, não é mais justo, têm os seus direitos sobre a mãe, sobre o pai, sobre o conforto em uma casa onde se pereceu um amor, o outro ainda continua a velar por eles. Aqueles olhares inocentes deles olham para vós, vos estudam e compreendem mais do que vós pensais e formam os seus espíritos pela medida daquilo que veem e compreendem. Não sirvais nunca de escândalo para os vossos inocentes, mas refugiai-vos neles, como em um baluarte de lírios adamantinos entre as fraquezas da carne e as insídias das serpentes.
Que a mulher seja mãe. A mãe justa, que é irmã, ao mesmo tempo, que é mãe sobretudo e acima de tudo. Velar sobre os filhos e as filhas, corrigir amorosamente, ajudar, fazer meditar, e tudo sem preferências, pois os filhos são todos nascidos de uma semente e de um seio, e, se é natural que eles sejam bem queridos, pela alegria que dão os filhos bons, é também um dever que sejam amados, ainda que com um amor doloroso. Os filhos não bons fazem lembrar que o homem não deve ser mais severo do que Deus, o qual ama não somente os bons, mas também os não bons, e os ama para ver se os faz bons, para dar-lhes o modo e o tempo de o serem, e suporta até à morte do homem, reservando-se o direito de ser justo, quando o homem não pode mais reparar.
451.6 E aqui deixai que Eu vos diga uma coisa que não tem ligação com este assunto, mas que é útil que a tenhais presente em vossos pensamentos. Muitas vezes, e até vezes demais, se ouve dizer que os maus têm mais alegrias do que os bons, e que isso não é justo. Antes de tudo, Eu vos digo: “Não julgueis as aparências nem aquilo que não conheceis.” As aparências são muitas vezes enganosas e o julgamento de Deus está escondido nesta terra. Conhecereis do outro lado, e vereis que o bem-estar do malvado foi-lhe concedido como meio para atraí-lo ao Bem, como um desconto pelo pouco bem que até o mais malvado pode fazer. Mas, quando virdes as coisas à luz justa da outra vida, vereis que mais breve do que a vida de um fio de erva, que nasceu pela primavera no vão de uma torrente, e que o verão secou, assim é o tempo de alegria do pecador, ao passo que um só momento de glória no céu é, pela alegria que ele comunica ao espírito que o recebe, mais vasto do que toda uma vida triunfal do homem, pois jamais terá existido tal vida. Portanto, não desejeis a prosperidade do mau, mas procurai com boa vontade chegar a possuir o tesouro eterno do justo.
451.7 E, voltando ao assunto de como devem ser os componentes de uma família, os habitantes de uma casa, para que nela se mantenha frutuosamente a minha bênção, Eu vos digo, ó filhos, que vós sejais submissos aos vossos pais, respeitosos, obedientes, para poderdes sê-lo também para com o Senhor vosso Deus. Porque, se não aprenderdes a obedecer às pequenas ordens do pai e da mãe que vós estais vendo, como podereis obedecer às ordens de Deus, que vos são ensinadas em seu Nome, mas que vós não estais vendo, nem ouvindo? E, se não aprendeis a crer que quem ama, como um pai e uma mãe amam, e não podem mandar senão coisas boas, como podereis crer que sejam boas as coisas que vos foram ditas como ordens de Deus? Deus ama, é Pai, sabeis disso? Mas, justamente porque vos ama e vos quer consigo, ó caros meninos, Ele vos quer bons. E a primeira escola em que aprendeis a sê-lo é a família. Nela aprendeis a amar e a obedecer, nela é que começa para vós o caminho que leva para o Céu.
Portanto sede bons, respeitosos, dóceis. Amai vosso pai, mesmo quando ele vos corrige, pois ele faz assim para o vosso bem, e à mãe, se ela vos afasta de ações que sua experiência julga não boas. Honrai-os, não os fazendo passar vergonha por vossas más ações. O orgulho não é coisa boa, mas existe um santo orgulho, que é o de se poder dizer: “Não fiz sofrer nem a meu pai nem à minha mãe.” E isso, que nos faz gozar da convivência com eles, enquanto estão vivos, é para vós uma paz sobre a ferida que a morte deles vos causa, enquanto que as lágrimas que um filho fez seu pai derramar, hão de marcar com sulcos, como chumbo derretido, o coração do filho mau, e, apesar de todo o trabalho para anestesiar aquela ferida que continua a doer, a doer, e sempre dói mais, quando a morte do pai impediu ao filho de fazer uma reparação… Oh! filhos, sede bons, sempre, se quereis que Deus vos ame.
451.8 Enfim, santa é aquela casa onde, pela justiça dos donos, tornam-se justos até os servos e os empregados. Lembrem-se os patrões que um mau comportamento irrita e desgasta o servo, e o servo que o seu mau comportamento desgosta ao patrão. Esteja cada um em seu lugar, mas com um liame de amor ao próximo, a preencher a separação que há entre os servos e os patrões. Então, a casa abençoada por Mim conservará a sua bênção, e Deus morará nela. Assim também conservarão sua bênção, portanto a proteção, as barcas, as hortas e as ferramentas de trabalho e de pesca, quando santamente forem usadas, nos dias permitidos, e santamente dedicados ao culto de Deus no sábado sagrado, e vós vivereis a vossa vida de pescadores e hortelãos, não cometereis fraude no vender e no pesar, não amaldiçoareis o trabalho, nem fareis tanto dele o rei da vossa vida, a ponto de dardes mais valor a ele do que a Deus. Porque, se o trabalho vos leva a obter um ganho, Deus vos dá o Céu.
451.9Agora vamos abençoar também as casas, as barcas, os remos, as hortas, as enxadas, e depois iremos falar perto do lugar do João, antes que ele vá aoss sacerdotes. Porque Eu não voltarei mais, e é justo que ele me ouça, pelo menos uma vez. Apanhai o pão, o peixe e as frutas, levaremos tudo para lá e o comeremos na presença do leproso curado, dando-lhe os melhores bocados, para que faça festa também a sua carne, e se sinta já irmão entre os que creem no Senhor.
E Jesus se põe a caminho, acompanhado pelas pessoas do povoado e de outras pessoas que vieram das cidades vizinhas, pois, talvez de noite, tenham ido alguns dos moradores deste povoado, levando a notícia de que o Salvador está deste lado.
1 capítulo oitavo do primeiro livro dos Reis, citação que na neo-vulgata corresponde a 1 Samuel 8,4-5.
1
2