410. 410. Provocações de Judas Iscariotesno grupo apostólico.
5 de abril de 1946.
410.1 – Não vejo a hora de estar nos montes! –exclama Pedro, ofegante, e enxugando o suor que lhe escorre pelas faces e pelo pescoço.
– Como? Tu que tinhas raiva dos montes, agora queres estar neles? –pergunta, sarcástico, Judas Iscariotes, que, tendo visto que terminou em nada o seu medo de ser descoberto, voltou a ser atrevido e arrogante.
– Sim, é verdade. Agora eu os desejo. Eles são desejáveis num tempo destes. Nunca serão tão bons como o meu mar… Ele, sim! Eu não sei por que os campos ficam mais quentes, depois da colheita. O sol é sempre o mesmo, e no entanto…
– Não é que eles estejam mais quentes. É que eles estão mais tristes, e ficamos cansados de os ficar vendo assim, mais do que quando estavam cobertos de trigo –responde o Mateus, com seu bom senso.
– Não. Simão tem razão. Eles estão quentes de uma maneira insuportável, depois da ceifa. Nunca senti um calor assim –diz Tiago de Zebedeu.
– Nunca? Nem aquele pelo qual nós passamos, quando íamos para Nique –replica Judas de Keriot.
– Como este, nunca –responde-lhe André.
– É natural, o verão se adiantou em quarenta dias, e o sol esquenta, como faz nessa estação –insiste Judas.
– É um fato que o restolho solta mais o calor dos campos do que as espigas, e isso também se explica. O sol, que antes pairava lá no alto, por cima das espigas, agora esquenta diretamente o chão nu e seco, e faz que o calor deste reverbere para cima, em resposta ao sol que vai descendo, e o homem fica entre dois fogos –sentencia Bartolomeu.
Iscariotes ri, irônico, e faz uma grande saudação ao companheiro, dizendo:
– Rabi Natanael, eu te saúdo, e te agradeço pela douta lição.
Ele está mais atrevido do que nunca. Bartolomeu olha para ele… e fica calado. Mas Filipe o defende:
– É pouca coisa para se fazer ironia! Ele falou certo! Não irás querer, com certeza, negar uma verdade que milhões de cérebros de bom senso julgaram verdadeira, lógica e que se pode averiguar.
– Mas, sim, é certo. Eu sei disso, eu sei que vós sois doutos, experientes, sensatos, bons, perfeitos… Sois tudo! Tudo! Somente eu é que sou a ovelha negra do rebanho branco!… Só eu é que sou o cordeirinho bastardo, o opróbrio que se revela, e aparece com chifres de carneiro… Só eu é que sou o pecador, o imperfeito, a causa de todo mal entre nós em Israel, no mundo… talvez até nas estrelas… Não posso mais com isso. Isso de ficar vendo que sou o último, ficar vendo que umas nulidades, como aqueles dois estultos, que estão conversando com o Mestre, e que são admirados como dois oráculos santos... eu estou cansado de…
– Escuta, rapaz… –começa a dizer Pedro, que está vermelho, mais pelo esforço que faz para conter-se do que pelo calor.
Mas Judas Tadeu o interrompe:
– Tu medes os outros pela tua medida? Procura ser uma nulidade, como são Tiago, meu irmão, e João de Zebedeu, e já não haverá imperfeições no grupo apostólico.
– Ora, vede se eu não tenho razão. A imperfeição sou eu! Ah! Mas é demais! Mas é...
– Sim, eu creio que de fato foi demais o vinho que o José nos fez beber… e, com este calor, ele te fez mal… São travessuras do sangue… –diz, muito calmo, Tomé, para ver se transforma em brincadeira a discussão que começa a esquentar.
410.2 Mas Pedro chegou ao limite de sua tolerância e, com os dentes apertados e os punhos cerrados, para dominar-se ainda, ele diz:
– Escuta, rapaz. Para ti uma coisa é aconselhável. Separa-te um pouco…
– Eu? Separar-me? Por tua ordem? Só o Mestre pode dar-me uma ordem e só a ele eu obedeço. Quem és tu? Um pobre…
– Pescador, ignorante, rústico, bom para nada. Tens razão… mas, eu o digo antes de ti. E, diante de nosso Javé, que está presente em toda parte, e que tudo vê, eu dou testemunho de que preferiria ser o último a ser o primeiro, dou testemunho de que quereria ver-te, qualquer outro estando em meu posto, mas a ti mais do que a todos, a fim de que ficasses livre do monstro do ciúme que te faz ser injusto, e não ter senão que obedecer, obedecer a ti mesmo, rapaz… E podes crer que isso me custaria menos trabalho, do que este de ter que falar-te, como “primeiro”. Mas foi o Mestre que me fez “primeiro” entre vós… E a ele devo obedecer em primeiro lugar, a Ele mais do que a qualquer outro. E, com o meu bom senso de pescador, eu te digo, não que te separes, como tu, vendo fogo até nas palavras mais frescas, — como tu entendeste — , mas que te afastes um pouco, que fiques sozinho, que reflitas… Não estavas atrás de todos, desde Beter até o vale? Faze o mesmo também agora… O Mestre lá na frente… Tu lá atrás… E no meio, nós, as nulidades. Não há como ficar sozinhos para compreender e para acalmar-se… Presta atenção… É melhor para todos, para ti em primeiro lugar…
E o pega por um braço, e o leva para fora do grupo, dizendo:
– Fica ali, enquanto nós vamos ao encontro do Mestre. E depois… vem para cá devagar, devagar… e verás que para ti… o temporal passou –e o deixa no ar, indo unir-se aos companheiros, que já lá se vão, alguns metros à frente.
410.3 – Ufa! Suei mais falando-lhe, do que caminhando… Que temperamento! Será que algum dia se poderá conseguir alguma coisa com ele?
– Nunca, Simão. O meu irmão teima em segurá-lo. Mas ele nunca fará nada de bom –responde-lhe Judas Tadeu.
– É um bom castigo que temos entre nós –murmura André.
E termina:
– Eu e João quase temos medo dele, e nos calamos sempre por temor de outras discussões.
– De fato, é a melhor medida a tomar –diz Bartolomeu.
– Eu não consigo me calar –confessa Tadeu.
– Nisso eu também me saio mal… mas descobri o segredo de o fazer –diz Pedro.
– Qual é? Qual é? Ensina-o a nós… –dizem todos.
– Trabalhando como um boi jungido ao arado. Um trabalho talvez inútil… Mas que sirva para fazer-me derramar o que me fica fervendo aqui dentro… sobre qualquer outra coisa que não seja Judas.
– Ah! Compreendi! Foi por isso que fizeste todo aquele estrago nas árvores, quando íamos descendo pelo vale! Foi por isso, não foi?
–pergunta-lhe Tiago do Zebedeu.
– Sim, foi por isso… mas hoje… aqui… eu não tinha nada para despedaçar, sem dar prejuízo. Por aqui só há árvores frutíferas, e seria pecado estragá-las. Fiquei três vezes mais cansado, ao despedaçar-me a mim mesmo… para não ficar sendo o velho Simão de Cafarnaum. Por isso, ainda estou com os ossos doloridos…
Bartolomeu e Zelotes fazem os mesmos movimentos, e dizem as mesmas palavras. Eles abraçam o Pedro, exclamando:
– E ficas espantado por Ele te ter feito o primeiro entre nós? Para nós tu és mestre…
– Eu? Por causa disso?… Inépcias!… Eu sou um pobre homem… Mas eu vos peço somente que me queirais bem, dando-me doutos conselhos, amorosos e simples conselhos. Amor e simplicidade, para que eu me torne como vós… E unicamente por amor dele, que já sofre tanto…
– Tens razão. Pelo menos, pelo menos, não sejamos nós que lhe demos tais sofrimentos –exclama Mateus.
– Eu fiquei com um grande medo, por causa do chamado de Joana. Vós não ficastes sabendo de nada, vós dois que fostes na frente?
–interroga Tomé.
– Não. De certo, nada. Mas em nosso interior ficamos pensando que tenha sido aquele lá atrás que… andou tramando alguma…
–responde Pedro.
– Cala-te! Eu também tive o mesmo pensamento, ao ouvir o Mestre, quando falou no sábado –confessa Judas Tadeu.
– Eu também –acrescenta Tiago do Zebedeu.
– Olha só… Eu nem havia pensado nisso… nem mesmo vendo Judas tão sombrio aquela tarde, e tão vilão, é preciso que se diga –diz Tomé.
– Bem. Não falemos mais nisso. E procuremos… torná-lo melhor, com muito amor, muito sacrifício. Como nos ensinou Marziam…
–diz Pedro.
410.4 – Que é que estará fazendo Marziam? –pergunta, sorrindo, André.
– Ora, logo nós estaremos com ele. E não vejo essa hora. São-me muito dolorosas essas separações.
– Quem sabe por que é que o Mestre as quer? Já… Poderia estar conosco também Marziam. Já não é mais um menino, nem aquele magrinho –observa Tiago de Zebedeu.
– E, além disso, se ele fez tantas viagens no ano passado, quando estava fraco daquele modo, quanto mais não poderia caminhar agora –diz Filipe.
– Eu acho que seja para não ser visto tomando parte em alguma doideira… –diz Mateus.
– Ou com certos contatos… –resmunga Tadeu, que não suporta mesmo Iscariotes.
– Talvez, vós dois tenhais razão –diz Pedro.
– Mas, não. Ele o fará, para conseguir ficar mais forte! Vereis como no próximo ano ele estará conosco! –afirma Tomé.
– No próximo ano! E estará conosco o Mestre no próximo ano?
–pergunta pensativo Bartolomeu–. A mim os seus discursos parecem referir-se a isso.
– Não digas isso –explicam os outros.
– Eu não o quereria dizer. Mas deixar de dizer não serve para afastar o que está marcado.
– Pois bem. Isto é uma razão a mais para que procuremos melhorar-nos nestes meses… Para não dar-lhe sofrimentos, e estarmos prontos. Quero dizer que agora, quando estivermos descansando na Galileia, Ele nos instrua muito, muito, especialmente a nós doze… Daqui a pouco estaremos lá…
– Sim. E não vejo essa hora. Sou ancião, e estas marchas com este calor me causam muitos incômodos secretos –confessa Bartolomeu.
– A mim também. Eu fui um viciado, e sou mais velho do que se pensa, se contarmos os anos. As devassidões… Agora as sinto todas nos ossos… Além disso, nós, filhos de Levi, sofremos de dores já por natureza…
410.5 – E eu? Estive doente durante anos… e aquela vida nas cavernas, com pouco alimento e muita miséria. Estas duas coisas se encontram uma junto com a outra… –diz Zelotes.
– Mas, se sempre disseste que, desde que foste curado, te sentes sempre forte? –pergunta atrás dele Judas, que já os alcançou–. Será que em ti já cessou o efeito do milagre?
Zelotes tem um movimento típico em seu rosto feio e expressivo, que parece querer dizer: “Está aqui, Senhor, dá-me paciência.” Mas ele responde com muita delicadeza:
– Não. Não cessou o efeito do milagre. E isto se está vendo. Eu não fiquei mais doente. Estou forte. Tenho resistência. Mas os anos são os anos. E as fadigas são as fadigas. E estes calores que nos fazem suar, como se tivéssemos caído em uma cova, e depois estas noites que eu diria geladas, em comparação com o calor dos dias, e que nos gelam o suor nas costas, enquanto o orvalho acaba de umedecer as vestes ensopadas de suor, certamente não me fazem bem. E não vejo a hora de tomar um repouso, para recobrar um pouco a saúde. Pela manhã, especialmente quando se dorme ao sereno, fico todo enrijecido. E, se eu ficar totalmente enfermo, para que irei servir?
– Para sofrer. Ele diz que o sofrimento vale trabalho e oração
–responde-lhe André.
– Está bem; mas eu preferiria servi-lo como apóstolo e…
– E estás cansado, tu também. Confessa-o. Estás cansado de continuar nesta vida, sem perspectivas de horas boas, mas, ao contrario, perspectivas de perseguições e… derrotas. Começa a refletir que riscos corres de tornares a ser o proscrito –lhe diz Judas de Keriot.
– Eu não vou refletir em nada. Somente digo estar percebendo que me adoento.
– Oh! Como Ele te curou aquela vez! –diz, ironicamente, Judas.
410.6 Bartolomeu pressente o começo de outro bate-boca, e o desvia, chamando Jesus:
– Mestre. Para nós não há nada? Estás sempre na frente!
– Tens razão, filho de Tolmai. Mas agora vamos parar. Estás vendo aquela casinha? Vamos para lá, pois o sol está muito quente. A tarde, tornaremos a andar. É preciso apressar-se na volta para Jerusalém, porque Pentecostes está às portas.
– De que é que estáveis falando entre vós? –pergunta Judas Tadeu ao irmão.
– Ora, faze uma ideia! Tínhamos começado a falar de José de Arimateia, e acabamos falando da antiga propriedade de Joaquim em Nazaré e do seu costume de, enquanto pôde fazê-lo, de ficar com a metade das colheitas e dar o resto aos pobres, coisa esta da qual os velhos de Israel se recordam muito bem. Quantas abstinências não fizeram aqueles dois justos, que foram Ana e Joaquim! Era forçoso que conseguissem o milagre de terem sua Filha, e que Filha!… E com Jesus eu me estava relembrando de quando éramos meninos pequenos…
A narração prossegue enquanto eles vão-se dirigindo para a casa, pelo meio dos campos ensolarados.
410.7Diz Jesus:
– Aqui colocareis a visão do milagre da respigadura pela velhinha (na planície entre Emaús-da-Planície e os montes pelos quais se vai a Jerusalém), recebida a 27 de setembro de 1944.