86. 86. O encontro com o soldado Alexandrena porta dos Peixes.


24 de janeiro de 1945.

86.1 Mais uma aurora. Novamente as filas de burrinhos que se aglomeram junto à porta ainda fechada. Jesus continua com Simão e João. Alguns vendedores o reconhecem e se ajuntam ao seu redor.

Também um soldado da guarda corre até Ele, logo que a porta foi aberta e o vê. Saúda-o:

– Salve, ó Galileu! Diz à estes irrequietos que sejam menos rebeldes. Eles se queixam de nós. Mas não fazem senão maldizer-nos e desobedecer. E dizem que isto é culto para eles. Que religião é esta se é fundada na desobediência?

– Compadece-te deles, soldado. São como aqueles que têm em sua casa um hóspede não desejado e mais forte do que eles. E não podem vingar-se, a não ser com a língua e com a birra.

– Sim. Mas nós temos que cumprir nosso dever. Então temos que puni-los. Tornando-nos cada vez mais hóspedes indesejados.

– Tens razão. Tu deves cumprir o teu dever. Mas faz isto sempre com humanidade. Pensa sempre: “Se eu estivesse no lugar deles, que faria?” Verás então, como sentirás piedade dos indivíduos.

– Agrada-me ouvir-te falar. Tu falas sem desprezo e sem arrogância. Os outros palestinos nos cospem por trás, nos insultam, mostram nojo por nós… a não ser quando tem que esfolar-nos em regra, pelo favor de alguma mulher, ou alguma compra. Então o ouro de Roma não lhes causa mais nojo.

– O homem é o homem, soldado.

– Sim. E é mais mentiroso do que o macaco. Não é agradável, porém, estar entre pessoas que são como uma serpente na emboscada… Nós também temos casas e mães e esposas e filhos, e a vida nos é preciosa.

– Se cada um se lembrasse disto, não haveria mais ódio. Tu disseste: “Que religião eles tem?” Eu te respondo: uma religião santa, cujo primeiro mandamento é o amor para com Deus e para com o próximo. Uma religião que ensina a obediência às leis. Mesmo às leis de Estados inimigos.

86.2 Porque, ouvi, ó meus irmãos de Israel, nada acontece sem que Deus o permita. Até as dominações: desventuras incomparáveis, para um povo. Mas quase sempre, se este povo se examinar bem, poderá dizer que tais desventuras foram procuradas por ele mesmo, pelos seus modos de viver, contrários a Deus. Lembrai-vos dos Profetas. Quantas vezes eles falaram sobre isto! Quantas vezes mostraram com os fatos passados, presentes e futuros que o dominador é o castigo, a vara do castigo nas costas do filho ingrato. E quantas vezes os fatos ensinaram o modo de não ser corrigidos mais: voltar ao Senhor. Não é a rebelião nem a guerra que cura feridas e lágrimas, soltando correntes. Mas, sim, o viver como justos. Então, Deus intervém. O que podem armas e tropas de soldados contra os fulgores das cortes angélicas, que lutam em favor dos bons? Estamos sendo golpeados? Procuremos merecer não sê-lo mais, vivendo como filhos de Deus. Não reforceis as vossas correntes com pecados sempre novos. Não permitais que os pagãos creiam que sois sem religião, ou mais pagãos do que eles, por causa do vosso modo de viver. Sois o povo que recebeu a Lei do próprio Deus. Observai-a. Fazei que os dominadores também se inclinem diante de vossas correntes, dizendo: “São subjugados, mas são maiores do que nós, de uma grandeza que não está no número, nem no dinheiro, nem nas armas, nem no poder, mas vem de Deus. Aqui brilha a divina paternidade de um Deus perfeito, santo, poderoso. Aqui está o sinal de uma verdadeira Divindade. Transparece em seus filhos”. Meditem sobre isto, e venham para a verdade do verdadeiro Deus, deixando o erro. Cada um, até o mais pobre, até o mais ignorante do povo de Deus, pode ser mestre para um pagão, mestre com a sua maneira de viver e de falar sobre Deus com uma vida santa.

Ide. A paz esteja convosco.

86.3 – Judas está atrasado, e os pastores também –observa Simão.

– Esperas alguém, Galileu? –pergunta o soldado, que ficou escutando tudo atentamente.

– Sim. Uns amigos.

– Entra no corredor que está fresco. O sol está muito quente, desde as primeiras horas da manhã. Vais para a cidade?

– Não. Volto para a Galileia.

– Vais a pé?

– Sou pobre: a pé.

– Tens mulher?

– Tenho Mãe.

– Eu também. Vem… se não tens nojo de nós, como os outros.

– Só a culpa é que me causa aversão.

O soldado o olha, admirado e pensativo:

– Contigo, não precisaríamos intervir nunca. A espada nunca se levantará contra Ti. És bom. Mas os outros!…

Jesus está na penumbra do corredor. João está do lado que dá para a cidade. Simão sentou-se sobre uma pedra que serve de banco.

– Como te chamas?

– Jesus.

– Ah! És aquele que faz milagres até sobre os doentes? Eu pensava que fosses apenas um mago… Desses nós também temos. Um mago bom, porém. Porque há alguns… Mas os nossos não sabem curar os doentes. Como é que Tu fazes?

Jesus sorri e fica calado.

– Usas fórmulas mágicas? Tens também unguentos de miolos de mortos, cobras secas e reduzidas a pó, pedras mágicas apanhadas nas cavernas dos pitões?

– Nada disso. Tenho só o meu poder.

– Então és mesmo santo. Nós temos os arúspices e as vestais… alguns deles fazem prodígios… dizem que são os mais santos. Mas, crês Tu neles? São piores que os outros.

– E, então, por que o venerais?

– Por que… é a religião de Roma! E, se um súdito não respeita a religião do seu Estado, como poderá respeitar César, a pátria, e assim por diante, tantas outras coisas?

Jesus olha fixamente para o soldado:

– Em verdade, tu já estás adiantado no caminho da justiça. Prossegue, soldado, e chegarás a conhecer o que a tua alma percebe ter em si, sem saber dar um nome a essa coisa que sente.

– A alma? O que é a alma?

– Quando morreres, para onde irás?

– Ora… eu não sei! Se eu morrer como herói, irei ficar sobre a pira dos heróis… se eu me tornar um pobre velho, um nada, talvez vá apodrecer em minha choça, ou à beira de alguma estrada.

– Isto é quanto ao teu corpo. Mas, tua alma, aonde irá?

– Não sei se todos os homens têm alma, ou se a têm somente aqueles que Júpiter destina aos Campos Elíseos, depois de uma vida prodigiosa, ainda que não os leve para o Olimpo, como aconteceu com Rômulo.

– Todos os homens têm uma alma. E a alma é o que distingue o homem do animal. Gostarias de ser semelhante a um cavalo? A um pássaro? A um peixe? Carne que, morrendo, é apenas podridão?

– Oh! Não. Eu sou homem, e gosto de ser o que sou.

– Pois bem, o que faz de ti um homem é a tua alma. Sem ela não serias nada mais do que um animal falante.

– E onde ela está? Como ela é?

– Ela não tem corpo, mas existe. Está em ti. Provém Daquele que criou o mundo, e a Ele retorna, depois da morte do corpo.

– Ela vem do Deus de Israel, segundo vós.

– Do Deus único, uno, eterno, supremo Senhor e Criador do universo.

– Também um pobre soldado como eu, tem uma alma, ela volta para Deus?

– Sim. Também um pobre soldado. E a sua alma terá Deus como Amigo, se ela tiver sido sempre boa, ou terá a Deus como Juiz, se tiver sido má.

86.4 – Mestre, eis Judas com os pastores e algumas mulheres. Se vejo bem, aquela é a menina de ontem –diz João.

– Eu vou indo, soldado. Procura ser bom.

– Eu não te verei mais? Queria saber ainda….

– Eu fico na Galileia até setembro. Se puderes, vai até lá. Em Cafarnaum ou em Nazaré, te darão notícias de Mim. Em Cafarnaum, pergunta pelo Simão Pedro. Em Nazaré, pela Maria do José. É minha Mãe. Vai lá. Eu te falarei do Deus verdadeiro.

– Simão Pedro… Maria do José. Eu irei, logo que puder. E, se voltares, lembra-te do Alexandre. Eu faço parte da centúria de Jerusalém.

Judas e os pastores já estão no corredor.

– Paz a todos vós –diz Jesus.

E quereria falar outras palavras, porém uma mocinha franzina, mas sorridente, passa pelo meio do grupo e vai lançar-se aos seus pés:

– A tua bênção de novo sobre mim, Mestre e Salvador, e o meu beijo de novo para Ti.

E lhe beija as mãos.

– Vai. Sê alegre, boa. Boa filha, depois boa esposa, e depois, boa mãe. Ensina aos teus pequenos, que de ti irão nascer, o meu Nome e a minha doutrina. Paz a ti e à tua mãe. Paz e bênção a todos os que são amigos de Deus. Paz a ti também, Alexandre.

E Jesus se afasta dali.

86.5 – Nós nos atrasamos. Mas aquelas mulheres nos assediaram, explica Judas. Elas estavam no Getsêmani, e queriam ver-te. Nós tínhamos ido lá, sem saber um do outro, para viajarmos junto Contigo. Mas Tu já tinhas ido embora, e ao invés disso, elas estavam lá. Nós queríamos deixá-las… Mas eram mais insistentes do que moscas. Queriam saber tantas coisas… Curaste a menina?

– Sim.

– Falaste ao romano?

– Sim. É um coração honesto. E procura a Verdade.

Judas suspira.

– Por que suspiras, Judas? –pergunta Jesus.

– Suspiro porque… eu gostaria que tivessem sido os nossos que procurassem a Verdade. Mas, ao contrário, eles a evitam, a escarnecem, ou ficam indiferentes. Estou desanimado. Tenho vontade de não voltar a pôr os pés aqui e de não fazer outra coisa, a não ser escutar-te. Tanto mais que, como discípulo, não consigo fazer nada.

– E tu achas que Eu consiga muito? Não desanimes, Judas. São as lutas do apostolado. Mais derrotas que vitórias. Derrotas aqui. Lá em cima são sempre vitórias. O Pai vê a tua boa vontade e, mesmo que não consigas, te abençoa do mesmo modo.

– Oh! Tu és bom!

Judas beija-lhe a mão.

– Será que me tornarei bom algum dia?

– Sim, se o quiseres.

– Penso ter sido nestes dias… sofri para procurar sê-lo… porque eu tenho muitos desejos… mas tenho ficado sempre pensando em Ti.

– Persevera, então. Tu me estás dando muita alegria. E vós, que notícias me dais? –pergunta aos pastores.

– Elias te manda saudações e um pouco de alimento. E manda dizer-te para não esquecê-lo.

– Oh! Eu tenho no coração os meus amigos! Vamos até aquela pequena vila cercada de verde. Depois à tarde continuaremos a viagem. Sinto-me feliz por estar convosco, por estar indo ver minha Mãe e por ter transmitido a Verdade a um honesto. Sim, Eu me sinto feliz. Se soubésseis o que é para Mim realizar a missão, e ver que os corações acorrem a ela (ou seja, ao Pai) como haveríeis de seguir-me sempre mais com o espírito!…

Não vi mais nada.