542. 542. Os Judeus na casa de Lázaro.
19 de dezembro de 1946.
542.1Por mais que esteja prostrada pela dor e pelo cansaço, Marta sempre continua a ser a senhora que sabe acolher e hospedar, saudando as pessoas com aquele seu ar senhoril e perfeito de uma verdadeira senhora. Assim é que agora mesmo, depois de ter conduzido a comitiva para uma sala, dá as necessárias ordens para que sirvam os refrigerantes de costume e que os hóspedes recebam tudo o que lhes pode dar algum conforto.
Os criados estão circulando para servir bebidas quentes ou vinhos finos, oferecendo também as mais belas frutas, tâmaras louras como topázios, uva passa e uma coisa parecida com o nosso gengibre, uns cachos maravilhosos, mel coado; tudo isso em ânforas, cálices, pratos e bandejas preciosos. Marta está atenta, a fim de que ninguém fique sem ser atendido. Pelo contrário, conforme a idade, e às vezes conforme a pessoa, cujos gostos já sejam bem conhecidos, ela vai instruindo os criados, para que vão oferecendo, e lhes diz:
– Tobias, para este não leves vinho, mas água com mel e suco de tâmaras.
E a um outro diz:
– Certamente João prefere o vinho. Oferece-lhe do branco de uvas passas.
E é ela quem vai pessoalmente oferecer ao velho escriba Cananias leite quente, que ela adoça com um louro mel, dizendo:
– Ajudará a curar a tua tosse. Tu tomaste o incômodo de vir até aqui, estando assim e num dia como este. 542.2Eu fico admirada por ver-vos tão atenciosos.
– É nosso dever, Marta. Euquéria era de nossa raça, uma verdadeira judia que honrou a todos nós.
– A honra prestada à venerável memória de minha mãe me toca o coração. Eu vou repetir a Lázaro as tuas palavras.
– Mas nós queremos saudá-lo. É um amigo tão bom! –diz, falso como sempre, Elquias, que se aproximou.
– Saudá-lo? Não é possível. Ele está muito esgotado.
– Oh! Nós não o perturbaremos. Não é mesmo, companheiros? Para nós basta dizer-lhe um adeus, da porta do seu quarto mesmo
–diz Félix.
– Não posso permitir, não posso mesmo. Nicomedes se opõe a tudo que o cansa ou lhe cause emoção.
– Só um olhar ao amigo moribundo não pode matá-lo, Marta –diz Calachebona–. Ficaríamos muito tristes por não tê-lo saudado!
Marta fica agitada e hesitante. Olha para a porta, talvez para ver se Maria lhe vem dar ajuda. Mas Maria está ausente. Os judeus observam a agitação dela, e Sadoque, o escriba, faz esta observação a Marta:
– Iriam dizer que a nossa vinda aqui te agitou, mulher.
– Não. Não mesmo. Tende compaixão da minha dor. Há meses que eu estou ao lado de quem está morrendo… E não sei mais… não sei mais nem mover-me, como antes nas festas…
– Oh! Mas aqui não se trata de festas! Talvez nos estejas querendo esconder alguma coisa, por isso não nos mostras Lázaro e nos proíbes entrar em seu quarto. Ora, ora… Já se sabe! Mas não tenhas medo! O quarto de um doente é um lugar sagrado para qualquer um, podes acreditar… –diz Elquias.
542.3– Não há nada a esconder-se no quarto de nosso irmão. Nada há de oculto. O quarto apenas acolhe um moribundo para com o qual um ato de piedade poupa-lhe qualquer recordação penosa. E tu, Elquias, e todos vós, sois recordações penosas para Lázaro –diz Maria, com aquela sua voz esplêndida, como a de um órgão, ao aparecer à soleira da porta, segurando afastado com sua mão o toldo cor de púrpura.
– Maria –diz Marta suplicante, querendo detê-la.
– Não é nada, irmã. Deixa-me falar…
Depois ela se vira de novo para os outros, dizendo:
– Se é para tirar de vós todas as dúvidas, um de vós — será apenas uma lembrança do passado, que torna a causar dor — venha comigo, se é que a vista de um moribundo não o aborrece e o mau cheiro das carnes que estão apodrecendo não lhe causa náusea.
– E tu, não és uma lembrança que causa dor? –diz com malícia o herodiano, que eu já vi não sei onde, saindo do canto onde estava e indo pôr-se à frente de Maria.
Marta dá um gemido. Maria está com o olhar de uma águia inquieta. Seus olhos relampejam. E ela se endireita, altiva, esquecendo-se do cansaço e da dor que a faziam ficar encurvada. E com uma expressão de rainha ofendida, diz:
– Sim. Eu sou uma lembrança. Mas não de dor, como tu dizes. Sou uma lembrança da misericórdia de Deus. E, vendo-me, Lázaro morre em paz, porque sabe que vai entregar o seu espírito nas mãos da Infinita Misericórdia.
– Ah! Ah! Ah! Não eram estas as tuas palavras, tempos atrás! A tua virtude! A quem não te conhece poderias ostentá-la…
– Mas não a ti, não é verdade? Pois é justamente diante dos teus olhos que eu a exponho, para dizer-te que nos tornamos como aqueles que frequentamos. Naquele tempo, infelizmente, eu me aproximava de ti e era como tu. Agora eu me aproximo do Santo e me torno honesta.
– Coisa destruída não se reconstrói, Maria.
– De fato, o passado tu, vós todos, não podeis mais reconstruí-lo. Não podeis reconstruir o que destruístes. Nem tu, que me causas asco. Nem vós, que ofendestes, naquele tempo de dor, o meu irmão, e agora, para fins equívocos, quereis mostrar que sois seus amigos.
– Oh! Como estás atrevida, mulher! O rabi poderá ter expulsado de ti muitos demônios, mas mansa Ele não te fez –diz um de seus quarenta anos.
– Não, Jônatas Ben Anás. Ele não me fez fraca, mas mais forte, porque me deu o atrevimento de quem é honesto, de quem quer tornar-se honesta, e destruiu em mim toda ligação com o passado para viver uma nova vida. 542.4Adiante! Quem foi que veio à casa do Lázaro?
Ela dá ordens, como uma rainha. E os domina a todos com sua franqueza, sem ter dó nem de si mesma. Marta, ao contrário, está angustiada, com lágrimas nos olhos que fitam Maria, querendo suplicar-lhe que se cale.
– Irei eu! –diz, gritando como uma vítima, Elquias, que é traiçoeiro como uma serpente.
Os dois saem juntos. E os outros se viram para Marta.
– Olha a tua irmã! Sempre arrogante. Não deveria ser assim. Ela tem muitos motivos para pedir perdão –diz Uriel, aquele rabi que estava em Gíscala e que feriu1 Jesus com pedradas.
Marta, tendo recebido essas descomposturas, recupera sua força, e diz:
– Deus a perdoou. Nenhum outro perdão tem mais valor acima do de Deus. E a vida dela agora é um exemplo para o mundo.
Mas a coragem de Marta logo desaparece e se transforma em choro. E, entre lágrimas, ela geme:
– Vós sois cruéis! Para com ela… e para comigo… Não tendes piedade nem das dores passadas nem das atuais. Para que foi que viestes? Terá sido para ofender-nos e fazer-nos sofrer?
– Não, mulher. Não. Mas unicamente para saudar o grande judeu que está à morte. Para nada mais! Nada mais! Não deves levar a mal as nossas retas intenções. Ficamos sabendo do agravamento por José e Nicodemos e então viemos… em companhia deles, os dois grandes amigos do Rabi e de Lázaro. E por que quereis tratar-nos de modo tão diferente, a nós que amamos o Rabi e Lázaro como eles? Vós não sois justas. Por acaso, poderás dizer que eles, com João, Eleazar, Filipe, Josué e Joaquim, não vieram para saber de Lázaro, e que Manaém também não veio?…
– Eu não digo nada. Mas fico admirada de que vós saibais tudo tão bem assim. Eu não pensava que até o interior das casas fosse devassado por vós. Eu não sabia que existia um preceito novo, além dos seiscentos e treze: o de indagar e ficar olhando a intimidade das famílias… 542.5Oh! Desculpai. Eu vos estou ofendendo! A dor me enlouquece e vós a aumentais.
– Ah! Nós te compreendemos, mulher! E justamente porque achamos que vós estais enlouquecidas é que nós viemos para dar-vos um bom conselho. Mandai chamar o Mestre. Ontem mesmo, sete leprosos vieram louvar o Senhor porque o Rabi os curou. Chamai-o para vir curar Lázaro.
– O meu irmão não está leproso –grita, irritada, Marta–. Por isso é que o quisestes vir ver? Para isso é que viestes? Não. Ele não está leproso. Olhai as minhas mãos. Há anos que eu cuido dele e em mim não há lepra. Tenho a pele avermelhada por causa dos aromas. Mas lepra não tenho…
– Calma! Calma, mulher. E quem foi que te disse que Lázaro está leproso? E quem é que vai suspeitar que haja em vós um pecado tão horrendo como o de ficar escondendo um leproso? E crês tu que, sendo vós tão poderosos, não vos teríamos ferido se tivésseis pecado? Até sobre o corpo do pai e da mãe, da esposa e dos filhos nós teríamos coragem de passar, contanto que fizéssemos cumprir os preceitos. Isto eu te digo, eu, Jônatas do Uziel.
– Mas com certeza! Pois assim é que deve ser. E agora te dizemos, pelo bem que te queremos, pelo amor que tínhamos à tua mãe e pelo que temos o Lázaro: chamai o Mestre. Queres dizer que é tarde demais? Como? Então não tens fé nele, tu, Marta, discípula fiel? Isso é grave. Até tu começas a duvidar? –diz Arquelau.
– Tu estás blasfemando, ó escriba. Eu creio no Mestre como no Verdadeiro Deus.
– E, então? Por que não queres experimentar? Ele tem ressuscitado os mortos… Pelo menos, assim dizem… Talvez tu não saibas onde Ele está? Se quiseres, nós o procuraremos, nós te ajudaremos –propõe Félix.
– Isso não. Na casa de Lázaro se sabe onde está o Rabi. Dize-o simplesmente, ó mulher, e nós partiremos para ir procurá-lo, o traremos e estaremos presentes ao milagre para alegrar-nos contigo e com todos vós –diz provocador Sadoque.
Marta fica hesitante, quase disposta a ceder. Os outros apertam o cerco, enquanto ela diz:
– Onde Ele está eu não sei… Não sei mesmo… Ele partiu, já há dias, e se despediu de nós como quem vai para ficar por lá muito tempo… Eu gostaria de saber onde Ele está… Pelo menos, de saber, mas é verdade que eu não sei…
– Pobre mulher! Mas nós te ajudaremos… E o traremos a ti –diz Cornélio.
542.6– Não. Não é preciso. O Mestre… Vós falais dele, não é verdade? O Mestre disse que devemos esperar além do que se pode esperar, e somente em Deus. E nós assim faremos –troveja Maria, que está de volta com Elquias, enquanto este a deixa imediatamente, inclinando-se para falar com três fariseus.
– Mas ele vai morrer, pelo cheiro que eu estou sentindo! –diz um deles, que é Doras.
– E daí? Que morra! Eu não criarei obstáculos ao decreto de Deus e não desobedecerei ao Rabi.
– E que queres esperar depois da morte, ó enlouquecida? –diz, zombando dela, o herodiano.
– O que? A Vida!
E em sua voz há uma fé absoluta.
– A Vida? Ah! Ah! Sê sincera. Tu sabes que diante de uma verdadeira morte o poder dele é nulo, e tu, em teu estulto amor para com Ele não queres que tal fracasso apareça.
– Fora daqui todos! Seria Marta que deveria dizer isso. Mas ela tem medo de vós. Eu só tenho medo de ofender a Deus, que me perdoou. E por isso o digo no lugar de Marta. Saí todos. Nesta casa não há lugar para os que odeiam a Jesus Cristo. Fora! Se não, eu farei que os servos vos expulsem como a uma corja de mendigos imundos.
Em sua ira ela está impressionante. Os judeus se afastam dela, cheios de covardia, diante da mulher. Mas na verdade a mulher está parecendo um arcanjo irado…
A sala vai-se esvaziando e os olhos de Maria, à medida que cada um vai passando pela frente dela para chegarem à soleira, criam uma espécie de “forca caudina”2, sob a qual deve abaixar-se a soberba dos judeus vencidos. E finalmente a sala fica completamente vazia.
542.7Marta se agacha sobre o tapete em um acesso de choro.
– Por que estás chorando, irmã? Não vejo razão para isso…
– Ora! Tu os ofendeste… eles te ofenderam, e nos ofenderam… e agora irão vingar-se… e…
– Ora, cala-te, mulher tola! De quem é que eles irão vingar-se? De Lázaro? Antes eles precisam deliberar, antes de se decidirem… Oh! Uma imundície não se vinga. De nós? E teremos nós necessidade do pão deles para vivermos? Em nossos haveres eles não tocarão. Domina sobre eles a sombra de Roma. E, então, de quê? E mesmo que o pudessem, não somos jovens e fortes, nós duas? Não poderemos trabalhar? E Jesus não é pobre? E o nosso Jesus não foi operário? Não seríamos nós mais semelhantes a Ele, sendo pobres e trabalhadoras? Mas alegra-te por te tornares assim! E espera por isso. Pede-o a Deus!
– Mas e tudo aquilo que te disseram…
– Ah! Ah! Aquilo que me disseram. É a verdade. Eu também o digo a mim mesma. Eu fui uma imunda. Agora sou a cordeira do Pastor. O passado está morto. Eia, vamos até Lázaro.
1 feriu, com Sadoc e outros, em 340.8.
2 Forca caudina: Durante a 2ª guerra sanítica, em 321 a.C., os romanos sofreram uma derrota humilhante. Espiões sanitas, travestidos de pastores, os direcionaram para um desfiladeiro estreito, onde caíram na armadilha do inimigo. No final, os Sanitas deixaram o exército romano ir embora, mas impuseram duras condições, entre as quais a subjugatio, a passagem sob o jugo: duas lanças fincadas na terra e uma colocada horizontalmente sobre estas; cada derrotado devia passar ali embaixo, inclinando-se na presença do exército inimigo.
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