344. 344. Encontro com os discípulos em Cesaréia de Filipee explicação do sinal de Jonas.
28 de novembro de 1945.
344.1 A cidade deve ser de recente construção, como o são as de Tiberíades e de Ascalon. Construída num plano inclinado, ela culmina numa fortaleza maciça, toda eriçada com torres, rodeada por muralhas ciclópicas, defendida por valos profundos, para os quais desce uma parte da água de dois rios que, quase se tocando em ângulo pouco antes, depois se afastam um do outro, correndo um para fora da cidade e o outro para dentro. Têm bonitas ruas, praças, fontes, construções dispostas à moda de Roma, e dizem que também aqui o obséquio servil dos tetrarcas se fez ver, em detrimento de todo respeito devido aos costumes da Pátria.
A cidade é populosa e movimentada, talvez por ser o ponto de convergência de importantes estradas mestras e de rotas caravaneiras, que vão para Damasco, para Tiro, Sefet e Tiberíades, como se lê ao lado de todas as portas, nos marcos indicadores. Pedestres, cavaleiros, longas caravanas de asnos e de camelos se cruzam pelas estradas amplas e bem conservadas. Grupos de negociantes ou de desocupados estão parados pelas praças, por baixo dos pórticos, ao lado de moradias luxuosas. Também talvez aí haja termas, onde se fazem negócios, ou se mata o tempo, em bate-papos sem nenhum proveito.
344.2 – Sabes onde poderemos encontrá-los? –pergunta Jesus a Pedro.
– Sim. Disseram-me aqueles a quem eu perguntei que os discípulos do Rabi costumam reunir-se para as refeições em uma casa de fiéis israelitas, perto da cidadela. E eles a descreveram para mim. Não posso errar: é uma casa como as de Israel até por seu aspecto externo, com uma fachada sem janelas para fora, e com um alto portão munido de sua grade, com uma fonte ao lado do muro e as altas muralhas do jardim, que se prolongam para dois lados, formando umas vielas e um terraço alto e cheio de pombas, acima do teto.
– Está bem. Então vamos…
Atravessam toda a cidade, até chegarem à cidadela. Chegam a casa que estão procurando, e batem. A grade se mostra o rosto rugoso de uma velha.
Jesus vai para frente e a saúda:
– A paz esteja contigo, mulher. Já voltaram os discípulos do Rabi?
– Não, homem. Eles estão para os lados da “Grande Nascente”, como outros que vieram de muitos lugares da outra margem, justamente para procurarem o Rabi. Todos estão à espera dele. Tu és um deles?
– Não. Eu estava procurando os discípulos.
– Então olha: estás vendo aquela estrada, quase na frente da pequena fonte? Vai por ela acima, até que te encontres diante de um paredão rochoso, do qual sai alguma água para uma espécie de tanque, e que depois se muda em um riozinho. Ali perto os encontrarás. Mas, Tu estás vindo de longe? Queres tomar alguma coisa fresca, e entrar para cá, a fim de os esperar aqui? Se queres, vou chamar os meus patrões. São bons israelitas, sabes? Eles crêem no Messias. São discípulos, somente por tê-lo visto uma vez no Templo. Mas agora os discípulos do Messias os instruíram a respeito dele, e fizeram milagres aqui, porque…
– Está bem, boa mulher. Eu voltarei mais tarde com os discípulos. A paz esteja contigo. Volta, então, para os teus trabalhos –diz Jesus com bondade, mas também com autoridade, para fazer parar aquela avalancha de palavras.
344.3 Eles põem-se de novo a caminho, e os mais jovens dos apóstolos riem-se bastante pela cena da mulher, e fazem até Jesus sorrir.
– Mestre –diz João–, ela estava parecendo ser a “Grande Nascente”. Não te parece? Ela lançava uma onda contínua de palavras, e fez de nós outros tantos tanques, que se transformam em riozinhos, porque estão cheios de palavras…
– Sim. Eu espero que os discípulos não tenham feito milagre na língua dela… Porque seria o caso de se dizer fizestes milagres demais –diz Tadeu que, por mais que não seja seu costume, está rindo muito.
– Bonito vai ser, quando ela nos vir voltar, e conhecer o Mestre quem é! Aí, quem será capaz de fazê-la calar-se? –pergunta Tiago de Zebedeu.
– Não, ao contrário, ela ficará muda pelo assombro –diz Mateus, tomando parte nos comentários juvenis.
– Eu darei graças ao Altíssimo, se o assombro lhe paralisar a língua. Talvez seja por estar eu em jejum, mas é certo que as palavras dela pareciam um redemoinho, e me fizeram ficar tonto –diz Pedro.
– E como gritava! Seria surda? –pergunta Tomé.
– Não, ela é que nos achava surdos –responde Iscariotes.
– Deixai a pobre velhinha. Ela é boa, e tem fé. Seu coração é generoso como a sua língua –diz, meio sério, Jesus.
– Oh! Então! Mestre meu, aquela velha é tão heróica como é generosa! –diz, rindo-se bastante, João.
344.4 O paredão rochoso e calcáreo já está visível, e já se ouve o murmúrio das águas, que caem na cavidade.
– Ali está o riozinho. Acompanhemo-lo… Lá está a fonte… e, lá adiante… Benjamim! Daniel! Filipe! Hermasteu! Nós estamos aqui. O Mestre está aqui –grita João a um grupo de muitos homens, que estão reunidos ao redor de um outro, que não se pode ver quem é.
– Cala-te, rapaz, ou vais ficar também como aquela galinha velha –aconselha Pedro.
Os discípulos se viraram. E já viram. Viram e se precipitaram, pulando do degrau no mesmo instante. Eu vejo que agora eles estão desfazendo o grande grupo, e que, aos muitos discípulos já de muita idade, se haviam misturado alguns moradores de Quedes, e até da terra do surdo-mudo. Eles devem ter vindo por caminhos mais curtos, porque chegaram antes do Mestre. A alegria é grande. Também muitas são as perguntas e as respostas. Jesus, cheio de paciência, fica ouvindo e respondendo, até que, com outros dois, aponta o magro e sorridente Isaque, carregado de mantimentos.
– Vamos à casa hospitaleira, meu Senhor. E lá Tu nos dirás o que nós não pudemos dizer, até mesmo porque nem o sabemos. Estes, os últimos que vieram — e faz poucas horas que estão conosco — querem saber o que para Ti significa o sinal de Jonas, que Tu prometeste dar à geração má, que vive te perseguindo –diz Isaque.
– Quando formos andando, Eu o explicarei.
Ir andando, é um modo de dizer. Como se o odor das flores se tivesse espalhado pelo ar e um grande número de abelhas tivesse voado à procura delas, assim de toda parte as pessoas estão chegando para se reunirem com os que estão ao redor de Jesus.
– São os nossos amigos –explica Isaque–, são pessoas que creram e que nos estavam esperando…
– São pessoas que deles, e especialmente deste, receberam graças –grita um da multidão, acenando para Isaque.
Isaque fica muito corado e, como para desculpar-se, diz:
– Mas eu sou o servo. Este é que é o patrão. Ó vós, que estais esperando, aqui está Jesus, o Mestre!
Agora, sim! Aquele rincão silencioso da Cesaréia, um pouco fora de mão, confinado na periferia como está, torna-se mais movimentado do que um mercado. E mais barulhento. Hosana! Aclamações! Súplicas! Há de tudo. Jesus vai para frente bem devagar, apertado por aquela tenaz de amor. Mas Ele sorri e abençoa. E vai tão devagar, que alguns acham tempo para saírem correndo e espalhando a notícia, e voltarem com amigos e parentes, segurando ao alto os meninos, a fim de que possam, sem se machucarem, chegar até perto de Jesus, que os vai acariciando e abençoando.
344.5 Chegam, então, a casa de antes, e batem à porta. A velha serva de antes, ouvindo as vozes, vai abrir sem demora. Mas… ela vê Jesus, no meio da multidão que o aclama, e compreende. Cai pesadamente no chão, gemendo:
– Tem piedade, meu Senhor. A tua serva não te tinha conhecido, e não te venerou.
– Não houve nada de mal, mulher. Tu não conhecias o homem, mas crias nele. Isto é o que se requer para sermos amados por Deus. Levanta-te, e guia-me até os teus patrões.
A velha obedece, tremendo de respeito. Mas ela vê os seus patrões, tremendo também eles de respeito, encostados à parede do fundo de um corredor um tanto escuro. Ela os mostra:
– Ali estão eles.
– Paz a vós e a esta casa. Abençoe-vos o Senhor pela vossa fé no Cristo e pela vossa caridade para com os discípulos dele –diz Jesus, indo ao encontro dos dois velhos cônjuges, que são como um irmão e uma irmã.
Eles o veneram e o acompanham, através da ampla varanda, onde estão preparadas muitas mesas, por baixo de um pesado toldo. Daqui nossa vista pode passear por sobre a Cesaréia e pelos montes, que estão atrás e aos lados dela. Os pombos cruzam seus vôos do terraço para o jardim todo florido.
Enquanto um velho servo vai pondo mais cadeiras, Isaque explica:
– Benjamim e Ana não acolhem somente a nós, mas a todos os que aqui vêm à tua procura. E assim eles fazem em teu Nome.
– Que os abençoe o Céu, cada vez que o fizerem.
– Oh! Nós temos meios, e não temos herdeiros. No fim da vida estamos adotando como filhos os pobres do Senhor –diz simplesmente a velha.
E Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça branca, dizendo:
– E isso faz que sejas mãe, mais do que se tivesses concebido muitas e muitas vezes. 344.6Mas agora permiti que Eu explique a estes uma coisa que eles desejavam saber, para depois poder despedir os da cidade, e sentar-nos à mesa.
O terraço está sendo invadido pelo povo, e as pessoas estão sempre entrando e enchendo os espaços vazios. Jesus está sentado no meio de uma coroa de meninos, que estão olhando para Ele, com seus olhos grandes e inocentes. Ele está de costas para a mesa e sorrindo para os meninos, mesmo quando fala de assunto sério. Parece até estar lendo naqueles rostinhos inocentes as palavras para falar da verdade sobre o que lhe perguntaram.
– Escutai. O sinal de Jonas, que Eu prometi1 dar àqueles malvados, e que Eu prometo também a vós, não porque sejais malvados, mas sim, para que possais chegar à perfeição da fé, quando virdes que ele já se mostrou, é este. Como o Jonas ficou três dias no ventre do monstro marinho, e depois foi restituído à terra, para ir converter e salvar a cidade de Nínive, do mesmo modo acontecerá com o Filho do homem. Para acalmar os vagalhões de uma grande tempestade levantada pelo diabo, os grandes de Israel julgarão necessário sacrificar o Inocente. E não estarão fazendo outra coisa, a não ser aumentar para eles o perigo, porque, além de Satanás, que os conturbou, terão a Deus como seu punidor, depois que tiverem cometido o seu delito. Eles poderiam vencer a tempestade de Satanás, se cressem em Mim. Mas eles assim não fazem, porque vêem em Mim a razão de suas conturbações, medos, perigos, e desmentidos à sua santidade não sincera. Mas, quando chegar a hora, o monstro insaciável, que é o ventre da terra, que engole cada homem que morre, se abrirá de novo, para restituir a Luz ao mundo que a renegou.
Aí está, pois, como tendo sido Jonas para os ninivitas um sinal do poder e da misericórdia do Senhor, assim o Filho do homem o será para esta geração. Com a diferença de Nínive ter-se convertido, enquanto que Jerusalém não se converterá, porque está cheia desta geração má de que Eu falei. Por isso, a Rainha do Meio-dia se levantará no dia do Juízo contra os homens desta geração e os condenará. Porque ela veio, em seus dias, dos confins da terra para ouvir a Sabedoria de Salomão, enquanto que esta geração, que me tem em seu meio, não me quer ouvir e Me persegue, e me expulsa como um leproso e um pecador, a Mim que sou muito mais do que Salomão.Também os ninivitas se levantarão no dia do Juízo, contra a geração má, que não se converte ao Senhor seu Deus, pois eles se converteram, diante da pregação de um homem. Eu sou mais do que um homem, ainda que ele fosse um Jonas, ou qualquer um dos Profetas.
Por isso, darei o sinal de Jonas a quem estiver pedindo um sinal, sem possíveis enganos. Darei um e único sinal a quem não inclinar a fronte arrogante, diante das provas já dadas, de vidas que voltam pelo meu poder. Darei todos os sinais, inclusive o de um corpo já decomposto, que volta vivo e inteiro, e de um Corpo que por Si se ressuscita, porque ao seu Espírito é dado todo poder. Mas estas não serão graças. Não serão alívio para a situação. Nem aqui, nem nos livros eternos. O que está escrito, escrito está. E, como as pedras para uma próxima lapidação, assim se acumularão as provas. Contra Mim, para prejudicar-me, mas nada conseguirão. É contra eles, para arrastá-los e-ternamente, sob a condenação de Deus, reservada para os incrédulos malvados. Este é o sinal de Jonas, de que Eu falei. Tendes alguma outra coisa a perguntar?
– Não, Mestre. Nós o iremos contar ao nosso sinagogo, que estava bem perto da verdade, ao dizer o que achava que era o sinal prometido.
344.7– Matias é um justo. A verdade se revela aos justos, como se revela a estes inocentes que, melhor do que todos os outros, sabem quem Eu sou. Deixai-me, antes de despedir-me de vós, que Eu ouça o louvor à misericórdia de Deus proferido pelos anjos da terra. Vinde cá, pequenos.
Os meninos, que tinham ficado quietos com dificuldade até aquele momento, vão correndo para Ele.
– Dizei-me, ó criaturas sem malícia, para vós, qual é o meu sinal?
– Que Tu és bom.
– Que fazes ficar sã a mamãe com o teu Nome.
– Que queres bem a todos.
– Que és belo, mas não como um homem pode ser.
– Que tornas bom também quem era ruim como meu pai.
Cada uma daquelas boquinhas infantis proclama uma das qualidades de Jesus, e fala dos sofrimentos que Ele transformou em sorrisos.
Mas o mais querido de todos é o pequeno buliçoso, de uns quatro anos, que sobe para o colo de Jesus, e se agarra ao pescoço dele, dizendo:
– O teu sinal é que queres a todos os meninos, e que os meninos te querem bem. Um bem deste tamanho…
E abre os bracinhos gorduchos, rindo muito, para depois apertar com eles o pescoço de Jesus, esfregando de novo sua face infantil na face de Jesus, que o beija, dizendo:
– Mas, por que me quereis bem, se antes nunca me havíeis visto?
– Porque te pareces com o anjo do Senhor.
– Mas, tu não o viste, pequenino… –diz-lhe Jesus, sorrindo.
O menino fica, por um instante, indeciso. Depois se ri, mostrando todos os dentes, e diz:
– Mas a minha alma o viu muito bem! A minha mãe diz que eu o tenho e que está aqui, e Deus a vê, e a alma já viu a Deus e aos anjos, e os está vendo. E a minha alma te conhece, porque és o Senhor.
Jesus o beija na fronte, e diz:
– Que aumente para ti, com este beijo, a luz da inteligência, e o põe no chão.
E o menino sai correndo e pulando em direção de seu pai, conservando a mão apertada na fronte, no ponto em que foi beijado, e gritando:
– Vou à mamãe, à minha mãe. Para que ela beije aqui onde o Senhor beijou, a fim de que ela recupere a voz, e não fique mais chorando.
Explicam a Jesus que ela é uma esposa que sofre da garganta, desejosa de um milagre, mas que não foi curada pelos discípulos, que não puderam sanar aquele mal, não tendo podido tocar nele, porque estava muito profundo.
– Vai curá-lo o menor dos meus discípulos, o filhinho dela. Vai em paz, homem, e tem fé, como o teu filho –diz Jesus, despedindo-se do pai do menino.
Ele beija os outros pequeninos, que ficaram querendo também um beijo na fronte, e se despede dos moradores do lugar. Ficam com ele os discípulos, os de Quedes e do outro lugar.
344.8 Enquanto ficam esperando a comida, Jesus ordena a partida, no dia seguinte, de todos os discípulos que o precederam em Cafarnaum, para que se unam aos outros, que chegaram de outros lugares.
– Tomareis depois convosco Salomé e as mulheres, as filhas de Natanael e de Filipe, Joana e Susana, à medida que fordes descendo para Nazaré. Lá vós tomareis convosco a minha Mãe e a mãe dos meus irmãos, e as acompanhareis até Betânia, à casa onde está José, nas terras de Lázaro. Nós iremos da Decápole.
– E Marziam? –pergunta Pedro.
– Eu disse: “Esperai-me em Cafarnaum.” Não disse: “Ide para a frente.” Mas de Cafarnaum poderão avisar às mulheres de nossa chegada, de modo que elas estejam prontas, quando estivermos indo para Jerusalém, passando pela Decápode. Marziam, que já virou um mocinho, irá com os discípulos, escoltando as mulheres…
– É que… eu queria levar também a mulher a Jerusalém, pobrezinha! Ela sempre desejou isso e… ela nunca tinha ido, porque eu não queria aborrecimentos. Mas gostaria de contentá-la este ano. Ela é tão boa!
– Mas, sim, Simão. É uma razão a mais para que Marziam vá com ela. Faremos uma viagem devagar, e lá nos reencontraremos todos…
O velho dono da casa diz:
– Tão pouco tempo em minha casa?
– Pai, tenho muitas coisas que fazer, e quero estar em Jerusalém, pelo menos oito dias antes da Páscoa. Considera que a primeira fase da Lua de Adar já passou…
– É verdade. Mas, tanto que eu te desejei!… Ao ter-te em minha casa, parece-me já estar na Luz do Céu… e, como estás querendo partir, a luz parece querer apagar-se.
– Não, pai. Eu a deixarei no teu coração. E no de tua mulher. E a toda esta casa hospitaleira.
Assentam-se às mesas, e Jesus oferece e abençoa os alimentos, que depois o servo vai distribuindo pelas diversas mesas.
1 que Eu prometi, em 269.10 e 342.7.
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