279. 279. Encontro com Lázaro no campo dos Galileus.
18 de setembro de 1945.
279.1O famoso Campo dos Galileus — isto acredito que queira dizer a palavra usada por Jesus para designar o lugar do reencontro com os setenta e dois discípulos mandados à frente — não é outra coisa senão uma parte do Monte das Oliveiras, mais afastada para o lado da estrada de Betânia, pois ela passa por perto dali. E é também justamente o lugar onde, em uma visão distante, eu vi1 que acamparam Joaquim e Ana, com o então pequeno Alfeu, ao lado de outras pequenas cabanas de ramagens, na festa do Tabernáculo que veio antes da concepção da Virgem.
O Monte das Oliveiras tem um cume em curva suave:
Tudo é suave naquele monte: as subidas, os panoramas e o cume. Emana realmente paz, vestido como é de oliveiras e de silêncio. Mas, neste momento, não. Porque neste momento está fervilhando de gente ocupada em fazer as cabanas. Mas geralmente é mesmo um lugar de sossego, de meditação. À sua esquerda, em relação a quem olha com o rosto dirigido ao norte, há uma leve depressão, e depois um novo cume, ainda menos curvo que o do Monte das Oliveiras:
E aqui, sobre este planalto, se acampam os galileus. Não sei se por um costume religioso e então secular, ou se por ordem dos romanos, a fim de evitar altercações com os judeus de outras regiões, pouco corteses para com os galileus. Isto não sei. O que sei é que já estou vendo muitos galileus, entre os quais está Alfeu de Sara, de Nazaré, Judas, velho rico perto de Meron, o sinagogo Jairo e outros que são de Betsaida, de Cafarnaum e de outras cidades da Galileia, mas cujos nomes eu não sei.
Jesus lhes mostra o lugar que devem ocupar com suas pequenas cabanas, bem perto dos limites orientais do Campo dos Galileus. E os apóstolos, juntos com alguns discípulos, entre os quais está o sacerdote João e o escriba João, o sinagogo Timoneu, mais Estêvão, Hermasteu, José de Emaús, Abel de Belém da Galileia, que se põem a construir as pequenas cabanas.
279.2Eles as estão fazendo e Jesus está falando com crianças de Cafarnaum, que estão todas juntas ao redor dele, perguntando-lhe cem coisas e confidenciando-lhe outras cem, quando, da estrada que vem de Betânia, chega inesperadamente Lázaro junto com o inseparável Maximino. Jesus está de costas e não o vê vir. Mas, em troca o vê Iscariotes e avisa o Mestre, o qual deixa no ar as crianças e vai, sorridente, em direção ao seu amigo. Maximino para, a fim de deixar em plena liberdade os dois em seu primeiro encontro. E Lázaro anda os últimos metros, o mais ligeiro que pode, caminhando com mais dificuldade do que nunca, com um sorriso no qual aparecem sofrimento e lágrimas, tanto em sua boca, como em seu olhos. Jesus lhe abre os braços, e Lázaro cai sobre os seu coração, com uma grande explosão de pranto.
– Que é isso, meu amigo? Ainda estás chorando?… –pergunta Jesus, beijando-o sobre as têmporas. Sendo Jesus mais alto do que Lázaro, passa acima de sua cabeça, e fica parecendo ainda mais alto, porque Lázaro está inclinado, naquele seu abraço de amor e respeito.
Enfim, Lázaro levanta a cabeça, e diz:
– Estou chorando, sim. Eu te dei, no ano passado as pérolas do meu pranto de alegria. Oh! Mestre, Mestre meu! Creio que não existe coisa mais humilde e santa do que um bom pranto… E te ofereço, para dizer-te: “Obrigado” pela minha querida Maria, que agora não é mais do que uma meiga menina, feliz, serena, pura e boa…Oh! Muito melhor ainda do que quando era menina. E eu, eu que me julgava muito mais que ela, no meu orgulho de israelita fiel à Lei, agora me sinto tão pequenino, tão nada, em comparação com ela, que já não é mais uma criatura, mas uma chama. Uma chama santificante. Eu… eu não posso entender onde ela encontra a sabedoria, as palavras, os atos que ela pratica, e que edificam a casa toda. Eu olho para ela como se olha para um mistério. Mas, como é que um grande fogo, tantas pedras preciosas podiam estar por baixo de toda aquela podridão, e viver tão despreocupadamente? Nem eu nem Marta subimos até onde ela conseguiu subir. Como pode ser isso, se ela ficou com suas asas despedaçadas pelo vício? Eu não compreendo…
– E nem há necessidade de que tu o compreendas. Basta que eu compreenda. Mas te digo: Maria voltou para o bem as energias poderosas de seu ser. Ela inclinou o seu temperamento para a Perfeição. E, ainda que seja o seu temperamento de um absolutismo forte, ela se atira sem reservas por esse caminho. Ela faz uso de sua experiência no mal para ter força no bem, como o fez para o mal e, usando os seus próprios modos de empenhar-se toda, como fazia para o pecado, agora ela se doa toda a Deus. Ela compreendeu a lei2 que diz: “Ama a teu Deus com todo o teu ser, com o teu corpo e com a tua alma, com todas as tuas forças.” Se Israel fosse feito todo de Marias assim, se o mundo fosse feito de tais Marias, teríamos o Reino de Deus na terra, como ele irá ser no Céu altíssimo.
– Oh! Mestre, Mestre! E é Maria de Magdala a que está merecendo estas palavras…
– É Maria de Lázaro! A grande amiga, irmã do meu grande amigo. 279.3Como foi que ficastes sabendo que Eu estava aqui se minha Mãe ainda não veio para Betânia?
– Mas veio, em marcha forçada, o feitor de Águas Belas, para dizer-me que Tu ias vir. E eu todos os dias tenho mandado para cá um dos meus servos. Há pouco, ele veio a mim, para dizer-me: “Ele já chegou e está no Campo dos Galileus.” Então, eu vim logo…
– Mas tu estás sofrendo…
– Muito, Mestre! Estas pernas…
– E tu vieste. Eu teria ido logo.
– Mas a pressa que eu tinha, para contar-te a minha alegria, me atormentava. Há muitos meses que eu estou com ela aqui dentro: é uma carta. Mas, que é uma carta para se dizer uma coisa assim? Eu já não podia esperar mais… Irás a Betânia?
– Com certeza. Logo depois da Festa.
– Estás sendo muito esperado… Aquela grega… Que inteligência! Eu falo muito com ela, pois é ávida de conhecer a Deus. Mas ela é muito culta… e eu lhe fico devendo, porque não sei bem certas coisas. Precisas estar lá…
– E Eu irei. Agora vamos a Maximino, depois te peço que sejas meu hóspede. Minha Mãe te irá ver com alegria, e tu repousarás. Daqui a pouco, ela virá com o menino.
E Jesus se aproxima de Maximino, que se ajoelha para saudá-lo…
1 vi, em 3.2/4.
2 lei, que está em Deuteronômio 6,5.
1
2
3
4