549. 549. Reunião do Sinédrio e audiência de Pilatos.
27 de dezembro de 46.
549.1Se a notícia da morte de Lázaro tinha sacudido e agitado Jerusalém e boa parte da Judéia, a notícia de sua ressurreição acaba de sacudi-los e de penetrar também lá onde a notícia da morte não havia trazido agitação.
Talvez os poucos fariseus e escribas, isto é, os sinedritas presentes à ressurreição, não teriam falado dela ao povo. Mas certamente os judeus falaram, e a notícia se espalhou como um relâmpago, de casa em casa, de terraço a terraço, vozes de mulheres que vão repetindo, enquanto lá embaixo o povinho a vai difundindo com grande júbilo pelo triunfo de Jesus e de Lázaro. As pessoas enchem de novo as estradas, correndo para cá e para lá, pensando em chegar sempre primeiro para dar a notícia, mas ficam desiludidas porque a notícia já chegou até Ofel e até Bezeta, até Sião e Sisto. Já se sabe nas sinagogas e nos empórios, no Templo e no palácio de Herodes. Já se sabe na Fortaleza Antônia, e de Antônia ela se propaga, ou vice-versa, até os postos da guarda, junto às portas. Ela enche os palácios, bem como os casebres: “O Rabi de Nazaré ressuscitou Lázaro de Betânia, que morreu na última sexta-feira e foi colocado no sepulcro antes que chegasse o sábado, e o ressuscitou hoje à hora sexta.”
As aclamações dos hebreus ao Cristo e ao Altíssimo se cruzam com esses variados gritos dos romanos. “Por Júpiter! Por Polux! Por Libitina!” etc. etc.
549.2Os únicos que eu não vejo no meio da multidão que enche as ruas são os do Sinédrio. Deles não vejo nenhum. Mas estou vendo Cusa e Manaém, que saem de um esplêndido palácio, e ouço Cusa dizer:
– Grande! Grande! Mandei logo a notícia a Joana. Ele é realmente Deus!
E Manaem lhe responde:
– Herodes veio de Jericó para prestar homenagens… o patrão, Pôncio Pilatos, lá no Palácio real parece ter ficado doido, enquanto Herodíades está frenética e insiste com ele para que mande prender o Cristo. Ela treme pelo seu poder. Ele, pelo remorso. Bate os dentes, dizendo aos mais fiéis que o defendam… dos espectros. Embriagou-se para criar coragem e o vinho já circula por sua cabeça, enchendo-a de fantasmas. Ele grita, dizendo que o Cristo ressuscitou também João, o qual agora lhe grita de perto as maldições de Deus. Eu fugi daquela Geena. Bastou-me dizer-lhe: “Lázaro foi ressuscitado por obra de Jesus Nazareno. Ai de ti se tocares nele, porque Ele é Deus.” Eu o mantenho naquele medo para que ele não ceda aos desejos homicidas dela.
– Eu preciso ir até lá. Devo ir. Mas antes Eu quis passar por Eliel e Elcana. Eles vivem apartados, mas sempre são grandes vozes em Israel! E Joana fica contente se eu lhes prestar honras. E Eu…
– É uma boa proteção para ti. É verdade. Mas nunca é como o amor do Mestre. Esta é que é a única proteção que tem valor…
Cusa não responde nada. Fica pensando… E eu os perco de vista.
549.3De Bezeta vem vindo José de Arimateia. Vem muito apressado. Fazem-no parar. É um grupo de pessoas que ainda não têm certeza se a notícia é verdadeira. E elas lhe perguntam.
– Verdadeira. É verdadeira. Lázaro ressuscitou e está são. Eu vi com os meus olhos.
– Mas então… Ele é mesmo o Messias!
– As obras dele o dizem. Sua vida é perfeita. Os tempos já são os do Messias. Satanás combate contra Ele. Cada um deve concluir em seu coração quem é que é o Nazareno –diz José com prudência e ao mesmo tempo com justiça.
Ele os saúda e se vai. As pessoas discutem e acabam concluindo:
– Ele é mesmo o Messias.
549.4Alguns legionários estão conversando:
– Se amanhã eu puder, irei a Betânia. Por Vênus e por Marte, que são os meus deuses preferidos! Poderei andar pelos desertos ardentes do mundo e pelas terras geladas da Germânia… Mas encontrar-me em um lugar onde alguém, que morreu há dias, ressuscitou, isso nunca mais me acontecerá. Eu quero ver como é que uma pessoa volta da morte. Deverá estar preto, banhado como foi pelas ondas do além-túmulo…
– Se ele era virtuoso, estará lívido, pois terá bebido das ondas da cor do céu, nos Campos Elísios. Do lado de lá não existe só o rio Estige…
– Ele nos dirá como são os prados de asphodelus do Hades… Eu também irei.
– Se Pôncio quiser…
– Oh! Se quer! Ele logo despachou um mensageiro para Cláudia, para que ela venha. Cláudia gosta dessas coisas. Eu já a ouvi falar mais de uma vez com os outros e com os seus libertos gregos, e discutir sobre a alma e sobre a imortalidade.
– Cláudia crê no Nazareno. Para ela Ele é maior do que qualquer outro homem.
– Sim. Mas para Valéria, ele é mais do que um homem. É Deus. Uma espécie de Júpiter e de Apolo, em poder e beleza, dizem, e é mais sábio do que Minerva. Vós o viste? Eu vim com Ponzio pela primeira vez aqui, e eu não sei…
– Eu acho que chegaste a tempo para veres muitas coisas. Há pouco tempo, Pôncio urrava, como o Estentor, e dizia: “Aqui é preciso mudar tudo. Eles devem compreender que Roma é que manda, e que eles, todos eles, são servos. E que os maiores deles são mais servos ainda, porque são mais perigosos.” Eu creio que era por causa daquela tabuleta que lhe havia sido levada pelo servo de Anás…
– É verdade. Ele não os quer escutar… E vai nos trocando todos, porque… não quer que haja amizade entre nós e eles.
– Entre nós e eles? Ah! Ah! Ah! Com aqueles narigudos que têm um bico? Pôncio digere mal a muita carne de porco que come. Se alguma vez… a amizade for com alguma mulher que não despreza um beijo com as bocas grudadas… –diz, rindo, um malicioso.
– O fato é que, depois das turbulências da festa dos Tabernáculos, ele pediu e obteve a mudança de todas as milícias, e que a nós o que toca fazer é irmos embora…
– Isto é verdade. Em Cesaréia já estava anunciada a chegada da galera que vem trazendo Longino com a sua centúria. Graduados novos, milícias novas! E tudo por causa daqueles crocodilos do Templo. Eu estava tão bem aqui…
– Eu, não. Eu estava melhor em Bríndisi… Mas eu me habituarei
–diz aquele que chegou à Palestina há pouco tempo.
E esses também se afastam.
549.5Alguns guardas do Templo estão passando com tabuletas enceradas. O povo os observa, e diz:
– O Sinédrio vai reunir-se com urgência. Que será que eles irão fazer?
Alguém responde:
– Vamos subir até o Templo e veremos…
E eles tomam o caminho que vai para o Monte Mória.
O sol já está desaparecendo por detrás das casas de Sião e dos montes ocidentais. A tarde vem chegando, e logo livra as estradas dos curiosos. Os que subiram para o Templo, de lá estão descendo inquietos, porque são até expulsos daquelas portas onde eles tinham ficado parados para verem passar os sinedritas.
549.6O interior do Templo está vazio, deserto, envolvido pela luz da lua, e parece imenso. Os sinedritas se reúnem lentamente na sala do Sinédrio. Estão todos, como foi para a condenação de Jesus, mas agora não estão presentes os que naquela ocasião1 serviram como escrivães. Aí estão somente os sinedritas, alguns já em seus postos e outros em rodinhas perto das portas.
Está entrando Caifás, com aquela sua cara e o seu corpanzil, como um sapo obeso e mau, e vai para o seu lugar.
Começam logo a discutir sobre os fatos que aconteceram, e o assunto os apaixona tanto que logo a sessão fica movimentada. Deixam as cadeiras, descem para os espaços vazios, gesticulando e falando alto. Alguns aconselham a calma e a ponderação, antes de tomarem decisões.
Outros replicam:
– Mas não ouvistes os que chegaram aqui depois da nona hora? Se nós perdermos os judeus mais importantes, o que nos adiantará acumular acusações? Quanto mais Ele viver, menos nós seremos acreditados, se o acusarmos.
– Mas há um fato que não se pode negar. Não se pode dizer aos muitos que estavam lá: “Vós vistes mal. Aquilo foi uma simulação, Vós estáveis embriagados.” O morto estava morto. Completamente decomposto. O morto estava colocado no sepulcro fechado, e o sepulcro estava bem emparedado. O morto estava dentro das bandagens e bálsamos, havia muitos dias. Ele estava enfaixado. E, com tudo isso, ele saiu do seu lugar e foi até a entrada, sozinho e sem caminhar. E assim que foi liberado, em seu corpo já não havia mais morte. Ele estava respirando. Não havia mais corrupção. Enquanto que antes, quando vivo, ele estava cheio de chagas, e depois, como morto, chegou a ficar completamente corrompido.
– Vós ouvistes os mais influentes dos judeus, aqueles que tínhamos empurrado para lá a fim de conquistá-los para nós completamente. E eles vieram dizer-nos: “Para nós Ele é o Messias.” Quase todos vieram. Sem falar no povo!…
– E esses malditos romanos com as suas fábulas! De que lado os colocais? Para eles, Ele é o Júpiter Máximo. Se eles caírem nessa ideia! Eles nos fizeram conhecer suas histórias e foi uma maldição. Maldição sobre os que quiseram trazer o helenismo2 para o meio de nós e, adulando-nos, nos profanaram com costumes que não eram os nossos. Mas isso serve também para os conhecermos. E sabemos como o romano age depressa, tanto para abater como para exaltar, com suas conjuras e golpes de estado. Pois bem. Se alguém aqui, desses doidos, se entusiasmar pelo Nazareno, e o proclamar César, e por isso divino, quem é que vai pôr as mãos sobre Ele?
– Nada disso! Mas quem pensas que vá fazer isso? Eles se riem Dele e de nós. Por mais grandioso que seja o que Ele faz, para eles Ele é sempre “um hebreu” e, portanto, um miserável. O medo está te fazendo ficar bobo, ó filho de Anás!
– O medo? Tu ouviste como Pôncio respondeu ao convite de meu pai? Ele está abalado, eu te digo. Está abalado depois desse último fato e tem medo do Nazareno. Ai de nós! Aquele homem veio para a nossa ruína!
549.7– Se pelos menos não tivéssemos ido lá e não tivéssemos quase dado ordens para que fossem para lá os mais poderosos dos judeus! Se Lázaro tivesse ressuscitado sem testemunhas.
– E daí? Que mudança haveria? Certamente não poderíamos fazê-lo desaparecer para levá-los a crer que Ele tivesse morrido para sempre!
–Isso não. Mas podiam dizer que havia sido uma falsa morte. Pois testemunhas pagas para dizerem o que é falso sempre se achariam.
– E, por que estais assim tão agitados? Não vejo razão para isso! Ele talvez tenha feito alguma coisa que irritasse o Sinédrio e os Pontífices? Não. Ele limitou-se a fazer um milagre.
– Limitou-se?! Mas és estulto ou vendido a Ele, Eleazar? Por acaso Ele não fomentou contra o Sinédrio e o Pontificado? Que queres mais? E o povo…
– O povo pode dizer o que quiser, mas as coisas são como Eleazar disse. O Nazareno não fez senão um milagre.
– Eis aí outro que o defende! Não és mais um justo, Nicodemos. Não és mais um justo. Isto é um ato contra nós. É contra nós, entendes? Nada mais poderá persuadir a multidão. Ah! Ai de nós! Eu hoje fui escarnecido por alguns judeus. Eu escarnecido! Eu!
– E tu, cala-te, Doras. Tu não és mais do que um homem. Mas é a ideia que está sendo atacada. São as nossas leis. As nossas prerrogativas!
– Dizes bem, Simão, e é preciso defendê-las.
– Mas, como?
– Ofendendo e destruindo as dele!
– Fácil falar, Sadoque. Mas com que as destruirás, se não sabes, por ti mesmo, nem fazer reviver uma mosquinha? Nesse caso seria necessário um milagre maior do que o dele. Mas nenhum de nós pode fazê-lo, porque…
O que está falando nem sabe dizer o porquê. José de Arimateia responde, com firmeza:
– Porque nós somos homens, somente homens.
Eles se levantam contra ele, dizendo:
– E Ele, quem é, então?
José responde, com firmeza:
– Porque Ele é Deus. Se disso houvesse ainda alguma dúvida…
– Mas tu não tinhas dúvida. Nós sabemos disso, José. Nós o sabemos. Podes dizer abertamente que tu o amas!
549.8– Não há nada de mal se José o ama. Eu mesmo o reconheço como o maior dos Rabis de Israel.
– Tu! Logo tu, Gamaliel? Tu, dizeres isso?
– Eu o digo. E de ser… destronado por Ele, eu me sinto honrado, porque até agora eu vinha conservando a tradição dos velhos rabis, dos quais o último foi Hilel, mas depois de mim eu não saberia dizer quem é que poderia ter herdado a sabedoria dos séculos. Agora eu me vou contente, porque sei que ela não morrerá, mas, pelo contrário, se tornará maior, porque aumentada pela sabedoria dele, na qual, com toda a certeza, está presente o Espírito de Deus.
– Mas o que estás dizendo, Gamaliel?
– A Verdade. Não é fechando os nossos olhos que poderemos deixar de saber o que somos. Nós não somos mais sábios, porque o princípio da sabedoria é o temor de Deus e nós somos uns pecadores sem o temor de Deus. Se tivéssemos esse temor não pisotearíamos o justo, não teríamos essa estulta cobiça das riquezas do mundo. Deus dá e Deus tira. Tudo de acordo com os méritos ou os deméritos. E se Deus agora nos tira aquilo que nos havia dado, para dá-lo a outros, seja Ele bendito, porque Santo é o Senhor e santas são todas as suas ações.
– Mas nós estávamos falando de milagres e queríamos dizer que nenhum de nós os pode fazer, porque Satanás não está conosco.
– Não. É porque Deus não está conosco. Moisés separou as águas e abriu as rochas, Josué fez parar o sol, Elias ressuscitou o menino e fez cair a chuva. Mas com eles estava Deus. Eu vos lembro3 que seis são as coisas que Deus odeia, e a sétima é por Ele execrada: os olhos soberbos, a língua mentirosa, as mãos que derramam sangue inocente, o coração que medita em projetos malvados, os pés que correm diretos para o mal, o falso testemunho que diz mentiras, e aquele que introduz a discórdia entre os seus irmãos. E nós fazemos todas essas coisas. Nós, eu disse. Mas vós só as fazeis. Enquanto que eu me abstenho de gritar “Hosana” e também de gritar “Anátema.” 549.9Eu fico esperando.
– O sinal, não é? Sim, tu esperas o sinal. Mas que sinal tu ficas esperando de um pobre louco, se quisermos mesmo dar a Ele todos os perdões?
Gamaliel levanta as mãos e os braços para frente, fecha os olhos, inclina levemente a cabeça, hierático, quando fala lentamente e com uma voz que parece vir de longe:
– Eu perguntei ansiosamente ao Senhor, pedindo que me mostrasse a verdade, e Ele iluminou-me com as palavras4 de Jesus, o filho de Siraque. São estas: “O Criador de todas as coisas falou comigo e me deu suas ordens, e Aquele que me criou repousou no meu Tabernáculo e me disse: ‘Vai morar em Jacó, tua herança esteja em Israel, lança tuas raízes entre os meus eleitos’”… E ainda me iluminou com mais estas, que eu pude reconhecer: “Vinde a Mim, vós todos que ardentemente Me desejais e saciai-vos com os meus frutos, porque o meu espírito é mais doce do que o mel e a minha herança, mais do que o favo. A lembrança de Mim durará através das gerações e dos séculos. Quem me come, terá fome de Mim, terá sede de Mim, quem Me ouve não terá que envergonhar-se, e quem trabalha para Mim não peca, e quem me tornar conhecido terá a vida eterna.” E a Luz de Deus cresceu sobre o meu espírito, enquanto meus olhos iam lendo estas palavras: “Todas estas coisas estão contidas no livro da Vida, são o Testamento do Altíssimo, a doutrina da Verdade… Deus prometeu a Davi fazer dele o rei poderosíssimo, que deve estar sentado para sempre no trono da glória. Ele transborda de sabedoria, como o Fison e o Tigre no tempo dos frutos novos, como o Eufrates transborda de inteligência e como o Jordão no tempo da messe. Ele difunde a sabedoria como a luz… Ele, em primeiro lugar, a conheceu perfeitamente.” Isto Deus me iluminou! Mas ai! Que digo eu? Que a Sabedoria, que está entre nós, é grande demais para que a possamos compreender, e acolher o que é um pensamento mais vasto do que os mares e um conselho mais profundo do que o grande abismo. E nós o ouvimos gritar: “Eu, como um canal sem medida de águas, jorrei do Paraíso, e disse: ‘Eu regarei o meu jardim’, e eis que o meu canal tornou-se um rio e o rio tornou-se um mar. Como a aurora, eu espalho para todos a minha doutrina e a farei conhecer aos de mais longe. Penetrarei nas partes inferiores, lançarei o olhar sobre os que dormem, iluminarei os que esperam no Senhor. E ainda farei que se expanda a minha doutrina como profecia e a deixarei para aqueles que procuram a sabedoria, não cessarei de anunciá-la ao século santo. Eu não tenho trabalhado para mim somente, mas para todos aqueles que procuram a verdade.” Isto é o que me fez ler o Senhor, o Altíssimo.
E deixa que os braços se abaixem, levantando a cabeça.
– Mas, então, para ti Ele é o Messias?! Dize- o!
– Não é o Messias.
– Não é? E, então, que é que Ele é para ti? Demônio, não. Anjo, não. Messias, não…
– É Aquele que é.
– Tu estás delirando! Ele é Deus? Para ti aquele doido é Deus?
– É Aquele que é. Deus sabe quem é que Ele é. Nós estamos vendo as suas obras. Deus vê até os pensamentos dele. Mas não é o Messias, porque para nós Messias quer dizer Rei. E Ele não é, não será rei. Mas Ele é santo. E suas obras são de um santo. E nós não podemos levantar a mão contra o Inocente sem que cometamos pecado. Eu não aprovarei o pecado.
– Mas com aquelas palavras quase disseste ser Ele o Esperado.
– Eu o disse. Enquanto durou a Luz do Altíssimo, eu o vi como tal. Depois, não me segurando mais na mão do Senhor, que ficou alto ao ser levantado em sua luz, eu me tornei homem, o homem de Israel, e minhas palavras não foram mais do que palavras às quais o homem de Israel, eu, vós e aqueles de antes de nós e, Deus não permita, aqueles depois de nós, dão o significado conforme o pensamento deles, conforme o nosso pensamento, e não o significado que elas têm no Pensamento eterno, que as ditou ao seu servo.
549.10– Nós estamos falando, divagando, perdendo tempo. E, enquanto isso, o Povo se agita –grasna Cananias.
– Falaste bem! É preciso tomar uma decisão e começar a agir, para nos salvarmos e triunfarmos.
– Vós dizeis que Pilatos não nos quis escutar, quando lhe pedimos sua ajuda contra o Nazareno. Mas se nós fizéssemos que Ele soubesse… Dissestes antes que as milícias se exaltam e podem proclamá-lo César… Ora! Ora! Boa ideia. Vamos expor ao Procônsul esse perigo. Receberemos honras por termos sido fiéis servos de Roma e… se ele tomar providências, nós estaremos livres do rabi. Vamos, vamos. Tu, Eleazar de Anás, que és amigo dele mais do que todos, sê o nosso chefe –diz, com seu sorriso de serpente, Elquias.
Há ainda um pouco de hesitação, mas depois um grupo formado pelos mais fanáticos sai dali para ir à Fortaleza Antônia. Só ficam Caifás e os outros.
– A uma hora destas! Eles não vão ser recebidos –objeta um.
– Não. Pelo contrário. Esta é a melhor hora. Pôncio está sempre de bom humor depois de ter bebido e comido como um pagão bebe e come…
549.11Eu os deixo lá a discutir e a cena da Fortaleza Antônia para mim se torna clara.
A breve distância é logo percorrida e, sem dificuldade, pois está tão claro o luar a ponto de fazer um forte contraste com a luz vermelha das lâmpadas que estão acesas no vestíbulo do pretório.
Eleazar consegue fazer anunciar-se a Pilatos, e todos são levados a uma sala grande e vazia. Completamente vazia. Nela há somente uma cadeira pesada, baixa e de espaldar, coberta com um estofo de púrpura, que sobressai vivamente no meio da brancura da sala. Eles se reuniram, um pouco temerosos, tiritando de frio, todos de pé sobre o mármore claro do pavimento. Não aparece ninguém. O silencio é completo. Mas de vez em quando uma música, lá ao longe, interrompe o silêncio.
– Pilatos está à mesa. Certamente está com os amigos. Aquela música estava sendo tocada no tricl. Devem ser danças em honra dos hóspedes –diz Eleazar de Anás.
– Corruptos! Amanhã irei purificar-me. A luxúria transpira destas paredes –diz com nojo Elquias.
– Por que, então, vieste até aqui? A ideia foi tua –lhe retruca Eleazar.
– Em honra a Deus e para o bem da Pátria eu sei fazer qualquer sacrifício. E este é grande! Eu me havia purificado, por ter-me aproximado de Lázaro… e agora!… Que dia tremendo este de hoje!…
Pilatos não aparece. O tempo vai passando. Eleazar, que conhece bem o lugar, vai bater nas portas. Estão todas fechadas. O espanto toma conta dos presentes. Histórias amedrontadoras são contadas de novo. Eles se arrependem de terem ido. E já se sentem perdidos.
549.12Finalmente, eis que, do lado oposto em que estão, e eles estão perto da porta pela qual entraram e, portanto, perto da única cadeira do ambiente, vê-se uma porta que se abre e vem entrando Pilatos com uma veste cândida, como cândida é a sala. Ele entra, conversando com uns convidados. E está rindo. Volta-se para dar ordem a um escravo que está segurando o toldo para fora da entrada, a fim de que ele jogue essências em um braseiro, traga perfumes e água para as mãos, e para que um escravo traga um espelho e pentes. Dos hebreus, nem faz caso. É como se não estivessem lá. Eles se encolerizam, mas não têm coragem de fazer nenhum gesto…
Lá embaixo vêm os que trazem os braseiros, as resinas para pôr sobre as brasas e as águas perfumadas que vão sendo derramadas sobre as mãos romanas. Um escravo, com movimentos ligeiros, está penteando os cabelos segundo a moda dos romanos ricos daquele tempo. Então os hebreus se enfezam.
Os romanos estão rindo e caçoando, olhando de vez em quando para o grupo que está esperando lá no fundo, e um deles vai falar a Pilatos que nem se virou para olhar. Pilatos sacode os ombros, fazendo um gesto de quem está aborrecido, e bate palmas para chamar um escravo, ao qual ordena em voz alta que traga os doces e faça entrar as dançarinas. Os hebreus fremem de ira e de escândalo. Baste-nos pensar em um Elquias obrigado a ver dançarinas! Seu rosto só mostra sofrimento e ódio.
Chegam os escravos com os doces em vasos preciosos, e atrás deles vêm as dançarinas coroadas de flores e pouco cobertas por vestes tão leves, que mais parecem véus. Suas carnes branquíssimas podem ser vistas através das vestes leves tingidas em cor de rosa e azul, quando elas passam pela frente dos braseiros ardentes e dos muitos luzeiros que estão acesos no fundo. Os romanos admiram a graça dos corpos e dos movimentos, e Pilatos pede ainda mais um passo da dança que lhe agradou de modo especial. Elquias vira-se irritado para a parede e os seus companheiros o imitam, a fim de não ver as dançarinas revoando como umas borboletas pelo meio do ondular das vestes descompostas.
Terminada a breve dança, Pilatos as despacha, pondo nas mãos de cada uma o vaso cheio de doces, no qual ele deixa cair, descuidadamente, um bracelete. 549.13E finalmente é que ele se digna virar-se e olhar para os hebreus, dizendo aos amigos com uma voz de quem está aborrecido:
– E agora… deverei passar do sonho à realidade… da poesia à hipocrisia, da graça às coisas sujas da vida. É uma miséria isso de ser Procônsul!… Salve, amigos, e tende compaixão de mim.
Ele fica sozinho e pouco a pouco vai-se aproximando dos hebreus. Assenta-se, olha para suas mãos bem cuidadas e percebe que algo está errado por baixo de uma unha e passa a tratar daquilo, fica preocupado, tira para fora da veste um leve bastãozinho dourado, com o qual procura remediar o grande dano que lhe está causando uma unha defeituosa…
Depois, por grande bondade sua, ele gira a cabeça lentamente. Sorri zombeteiramente, ao ver que os hebreus ainda estão encurvados numa inclinação servil, e diz:
– Vós, vinde aqui. E sede breves. Não tenho tempo a perder com coisas sem valor.
Os hebreus se aproximam dele, sempre servis em seus gestos, até que um “Basta! Não fiqueis perto demais!” os prega no chão.
– Falai e ficai, de pé, pois só os animais é que ficam virados para o chão –e se ri.
Os hebreus se endireitam ao ouvirem aquela zombaria e ficam eretos.
– E então? Falai! Quisestes vir até aqui a todo custo. E agora que estais aqui, falai.
– Nós queríamos dizer-te… Acontece que… Nós somos servos fiéis de Roma…
– Ah! Ah! Ah! Servos fiéis de Roma! Eu levarei isso ao conhecimento do divino César, e ele ficará feliz! Ficará feliz! Falai, então, ó bobalhões! E sede breves!
549.14Os sinedritas fremem, mas não reagem. Então Elquias toma a palavra por todos:
– Deves saber, ó Pôncio, que hoje na Betânia foi ressuscitado um homem…
– Eu sei. Foi para dizer-me isso que viestes? Eu já sabia, há muitas horas. Feliz dele, que já sabe o que é morrer e como é o outro mundo! E que é que eu posso fazer se Lázaro de Teófilo ressuscitou? Será que ele me trouxe alguma mensagem do Hades? –diz ele com ironia.
– Não. Mas sua ressurreição é um perigo…
– Para ele? Com certeza! O perigo de ter que morrer de novo. Um acontecimento desagradável. E então? Que é que eu posso fazer? Sou eu algum Júpiter?
– O perigo não para Lázaro. Mas para César.
– Para?… Ora, sim Senhor! Será que eu bebi muito? Vós dissestes: para César? E que mal pode Lázaro fazer a César? Talvez tendes medo que o fedor de seu sepulcro corrompa o ar que o Imperador está respirando? Ficai em paz! Ele está longe demais!
– Não é isso. É que Lázaro, tendo ressurgido, pode fazer destronar o Imperador.
– Destronar? Ah! Ah! Ah! Esta é a maior novidade do mundo! Mas, então, quem está bêbado não sou eu, mas vós é que estais bêbados. Talvez tenha sido o espanto que vos transtornou a mente. Ver alguém ressurgir… Eu creio, creio que isso possa perturbar. Ide, ide para a cama. Bom repouso! Depois, um banho quente. Bem quente. Isso é muito bom para curar delírios.
– Não estamos delirando, Pôncio. Nós te dizemos que, se não tomares providência, passarás horas tristes. Serás punido certamente, se é que poderás escapar de ser morto pelo usurpador. Daqui a pouco, o Nazareno vai ser proclamado rei, rei do mundo, entendes? Os teus próprios legionários farão isso. Eles estão seduzidos pelo Nazareno, e o acontecimento de hoje os exaltou. Que servo de Roma és tu, se não te preocupas com sua paz? Quererás, então, ver o Império desfeito e dividido por causa de tua inércia? Queres ver Roma vencida e abatidas as suas insígnias, morto o Imperador, e tudo destruído?…
– Silêncio! Falo eu. E vos digo: sois uns doidos! E pior ainda: sois uns mentirosos. Uns patifes é o que sois. Mereceríeis a morte. Saí daqui, asquerosos servos do vosso interesse, do vosso ódio, de vossa baixeza. Servos sois vós. Não eu. Eu sou cidadão romano e os cidadãos romanos não são servos de ninguém. Eu sou o funcionário imperial e trabalho pelas fortunas da Pátria. Vós… é que sois os subjugados. Vós… vós sois os dominados. Vós… vós sois os condenados presos aos pequenos barcos e vos agitais inutilmente. E o chicote do chefe está sobre vós. O Nazareno!… Quereríeis vós que eu matasse o Nazareno? Quereríeis que eu o prendesse? Por Júpiter! Se para a salvação de Roma e do divino Imperador eu tivesse que mandar prender os indivíduos perigosos, ou matá-los aqui onde eu governo, o Nazareno e seus seguidores, somente esses, eu os deveria deixar livres e vivos. Ide. Saí daqui e não volteis a mim nunca mais daqui em diante. Turbulentos! Instigadores! Ladrões e receptadores de ladrões. Nenhuma de vossas manobras é desconhecida por mim. Ficai sabendo disso. E ficai sabendo também que armas novas e legionários novos têm servido para descobrir as vossas armadilhas e os vossos instrumentos. Gritais contra os impostos romanos. Mas quanto vos custou Melquias de Galaad, Jonas de Xitópolis e Filipe de Socó, João de Betaven e José de Ramaot, e todos os outros que em breve serão presos? E não andeis pelas grutas do vale, porque lá há mais legionários do que pedras, e a lei e a galera são iguais para todos. Para todos! Compreendeis? Para todos. Eu espero poder viver até ver-vos todos acorrentados, escravos entre os outros escravos, sob o calcanhar de Roma. Saí! Ide e contai aos outros, tu também, Eleazar de Anás, porque eu não os desejo ver mais em minha casa, pois o tempo da clemência terminou, este tempo em que Eu sou o Procônsul e vós os súditos. Os súditos. Sou eu quem comanda. Em nome de Roma. Saí. Serpentes noturnas! Vampiros! E o Nazareno ainda quer redimir-vos? Se Ele fosse Deus deveria fulminar-vos. E do mundo teria desaparecido esta mancha mais do que nojenta. Fora! E não ouseis ficar fazendo conjuras se não quiserdes conhecer a espada e o flagelo.
Ele se levanta e lá se vai, batendo a porta diante da cara dos pálidos sinedritas, que nem têm tempo de o perceber, porque já vem entrando um pelotão de soldados armados que os expulsa para fora da sala e do palácio, como a uns cães.
549.15Voltam à sala do Sinédrio. Contam o que aconteceu. A agitação é grande. A notícia da prisão de muitos ladrões e das batidas nas grutas para prender os outros perturba fortemente os que ficaram. Porque muitos, cansados de esperar, já haviam ido embora.
– Mas assim mesmo não podemos deixá-lo viver –urram alguns dos sacerdotes.
– Não podemos deixá-lo agir. Ele age. E nós não fazemos nada. E dia a dia vamos perdendo terreno. Se ainda o deixarmos livre, Ele continuará a fazer milagres e todos crerão nele. E os romanos acabarão vindo contra nós para destruir-nos completamente. Pôncio diz assim. Mas se a multidão o aclamasse rei, oh! Então Pôncio tem o dever de punir a todos nós. Não podemos permitir isso! –grita Sadoque.
– Está bem, Mas como? O caminho… legal romano fracassou. Pôncio está seguro quanto ao Nazareno. O caminho… legal, o nosso, tornou-se impraticável. Ele não peca… –objeta alguém.
– Inventa-se uma culpa, se não houver culpa –insinua Caifás.
– Mas é pecado fazer isso! Jurar falso! Fazer condenar um inocente! É… demais!… –dizem outros com horror–. É um delito, porque será a morte para Ele.
– E então? Isso vos espanta? Sois uns estultos e não sabeis nada. Depois do que aconteceu, Jesus deve morrer. Não refletis todos vós que é melhor que morra um homem do que morrerem muitos homens? Por isso, que Ele morra para salvar o seu povo, a fim de que não pereça toda a nossa nação. Afinal… Ele diz que é o Salvador. Por isso, que se sacrifique para salvar a todos –diz Caifás, repulsivo em seu ódio frio e astuto.
– Mas, Caifás ! Pensa bem! Ele…
– Já falei. O Espírito do Senhor está sobre mim, Sumo Sacerdote. Ai de quem não respeita o Pontífice de Israel. Os fulgores de Deus estão sobre ele. Chega de esperar! Basta de ansiedades! Eu ordeno e decreto que, quem souber onde é que está o Nazareno, venha e denuncie o lugar, e maldição sobre quem não obedecer à minha palavra.
– Mas, Anás –objetam alguns.
– Anás me disse: “Tudo o que fizeres será santo.” Suspendamos nossa sessão. Na sexta-feira, entre a terça e a sexta hora, todos aqui para deliberarmos. Todos, eu disse. Levai a notícia aos ausentes. E sejam chamados todos os chefes das famílias e das classes. Toda a flor de Israel. O Sinédrio falou. Ide.
E é o primeiro a se retirar para o ponto de onde veio, enquanto que os outros se vão para outros lugares. E, falando em voz baixa, vão saindo do Templo e indo para suas casas.
1 naquela ocasião, porque MV já tinha escrito (em março de 1945) o episódio sobre a condenação, que será relatado no capítulo 604.
2 que quiseram trazer o helenismo, como se narra em 1 Macabeus 1,10-15; 2 Macabeus 4,7-20; 6,1-11. Outras indicações do helenismo em 84.6 - 132.2 - 272.3 - 283.6 - 356.4 - 596.14.
3 vos lembro, isto é, que é mencionado em Provérbios 6,16-19.
4 as palavras, que se leem em Siraque 24,8.18-26.28-32.
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