276. 276. O homem avarento e a parábola do rico estulto.As inquietudes e a vigilância nos servos de Deus.
10 de setembro de 1945.
276.1Jesus está sobre uma das colinas da margem ocidental do lago. A seus olhos se mostram as cidades e os povoados espalhados pelas beiras de um e do outro lado, mas exatamente ao pé da colina estão Magdala e Tiberíades, a primeira com o seu bairro de luxo, com seus muitos jardins, claramente separados das pobres casas dos pescadores, dos camponeses e das pessoas comuns por uma pequena torrente, agora completamente seca. A outra, esplêndida em todas as suas partes, é uma cidade que não sabe o que é miséria e decadência, e se ri, toda bela e nova, exposta ao sol, defronte ao lago. Entre uma e outra cidade, são cultivadas hortas, poucas, mas bem cuidadas, a partir da pequena planície. Depois crescem as oliveiras que tomam conta das colinas. Por trás das costas de Jesus, se olharmos deste cume, vê-se a selada do Monte das Bem-aventuranças, a cujos pés está a estrada mestra, que do Mediterrâneo vai até Tiberíades.
Talvez por causa desta vizinhança de uma estrada mestra é que Jesus terá escolhido este lugar, ao qual podem chegar as pessoas vindas de muitas localidades da beira do lago ou da Galileia interior, e de onde, à tarde, é fácil voltar para as casas, ou encontrar hospedagem em muitos pontos. O calor aqui também é mais temperado por causa da altitude e por causa das árvores de tronco alto, que no cume tomaram o lugar das oliveiras. Há de fato muita gente, além dos apóstolos e dos discípulos. São pessoas que precisam de Jesus para obterem saúde ou para pedir conselhos. Uns vieram por curiosidade, outros foram levados por amigos, ou apenas por imitação. De qualquer modo, são muitos. A estação já não é a da canícula, mas agora está mudada para uma agradável amenidade de outono, que convida mais do que nunca a quem quiser ir em peregrinação à procura do Mestre.
276.2Jesus já curou os doentes e já falou ao povo e, certamente, terá exposto o tema das riquezas injustas e do desapego delas, que é necessário a todos para ganharem o Céu, mas indispensável para os que querem ser seus discípulos. Agora Ele está respondendo à pergunta de um ou de outro dos discípulos ricos, que estão um pouco perturbados com este assunto.
O escriba João diz:
– Devo, então, destruir o que tenho, despojando os meus familiares do que é deles?
– Não. Deus te deu bens. Faze que eles sirvam à Justiça, serve-te deles com justiça, isto é, atende com eles às necessidades de tua família, é o teu dever. Trata humanamente os servos é caridade. Ajuda os pobres, acode às necessidades dos discípulos pobres. Então, as riquezas não te servirão de tropeço, mas de ajuda.
Depois, falando a todos, diz:
– Em verdade, Eu vos digo que o mesmo perigo de perder o Céu, por amor das riquezas, pode tê-lo também até o discípulo mais pobre, se, tendo-se tornado meu sacerdote, faltar com a justiça, ou pactuar com o rico. Quem é rico, ou mau, muitas vezes tentará seduzir-vos com donativos, para que estejais de acordo com o seu modo de viver e com seu pecado. E haverá, entre os meus ministros, os que cederão à tentação dos presentes. Não deve ser assim. Que o Batista vos ensine. Realmente nele, ainda que não fosse juiz nem magistrado, havia a perfeição do juiz e do magistrado, como é indicada1 pelo Deuteronômio: “Tu não farás acepção de pessoas, não aceitarás presentes, porque eles tornam cegos os olhos dos sábios e mudam as palavras dos justos.” Muitíssimas vezes o homem deixa que lhe embotem o fio da espada da justiça, pelo ouro que um pecador passa por cima dele. Não, isso não pode ser. Sabei ser pobres, sabei saber morrer, mas nunca pactuar com a culpa. Nem mesmo com a desculpa de querer usar aquele ouro em benefício dos pobres. É um ouro maldito e não lhes faria nenhum bem. É ouro de um compromisso infame. Vós sois constituídos discípulos para serdes mestres, médicos e redentores. Que seríeis, se vos tornásseis cúmplices no mal, por algum interesse? Mestres de uma ciência maligna, médicos que matam o doente, não redentores, mas colaboradores para a ruína dos corações.
276.3Um da multidão, vem para a frente, e diz:
– Eu não sou discípulo. Mas eu te admiro. Responde, então, a esta minha pergunta: Será permitido a alguém ficar com o dinheiro de outro?
– Não, homem. Isso é furto igual ao praticado por aquele que tira da bolsa de quem vai passando.
– Mesmo quando o dinheiro é da família?
– Mesmo assim. Não é justo que um se aproprie do dinheiro de todos os outros.
– Então, Mestre, vai a Abelmain, na estrada de Damasco, e manda a meu irmão que reparta comigo a herança que nos deixou o nosso falecido pai, mas sem ter deixado nada por escrito. Ele a apanhou toda. E nota que nós somos gêmeos, nascidos do primeiro e único parto. Portanto, eu tenho os mesmos direitos que ele!
Jesus olha para ele e lhe diz:
– É uma situação difícil e o teu irmão certamente não está agindo bem. Mas tudo o que Eu posso fazer é rezar por ele, para que se converta, e ir ao teu povoado para evangelizar e tocar-lhe assim o coração. Não me será pesada a viagem, se Eu puder restabelecer a paz entre vós.
O homem, irritado, dispara:
– E que queres que eu faça com as tuas palavras? É preciso outra coisa, em vez de palavras, neste caso!
– Mas, não me disseste que mande ao teu irmão que…
– Mandar não é evangelizar. Mandar sempre se faz com ameaça. Ameaça-o, então, de ferir a pessoa dele, se não me der o que é meu. Tu o podes fazer. Assim como dás saúde, podes também dar doença.
– Homem, Eu vim para converter, não para bater. Mas, se tiveres fé nas minhas palavras, encontrarás paz.
– Que palavras?
– Eu te disse que rezarei por ti e por teu irmão, a fim de que fiques consolado e que ele se converta.
– Histórias! Histórias! Eu não tenho a ingenuidade de crer nelas. Vem e manda.
276.4Jesus, que era manso e paciente, torna-se imponente e severo. Ele se endireita — antes estava um pouco inclinado sobre o homenzinho corpulento e irado —, e diz:
– Homem, quem foi que me constituiu juiz e árbitro entre vós? Ninguém. Mas, para acabar com uma briga entre dois irmãos, Eu estava disposto a ir exercer minha missão de pacificador e de redentor e, se tivesses crido nas minhas palavras, quando voltasses para Abelmain, terias encontrado, já convertido, o teu irmão. Tu não sabes crer. E não terás o milagre. Tu, o primeiro a agarrar o tesouro, terias ficado com ele, deixando teu irmão sem uma parte dele, porque, em verdade, assim como vós nascestes gêmeos, assim tendes também gêmeas as mesmas paixões e tu, como o teu irmão, só tendes um amor: o ouro. E só uma fé: o ouro. Fica, então com a tua fé. Adeus.
O homem vai-se embora, blasfemando e escandalizando a todos os que gostariam de vê-lo castigado. Mas Jesus se opõe a eles. Ele diz:
– Deixai que ele se vá. Por que quereis sujar vossas mãos, batendo num irracional? Eu o perdôo porque é um possesso do demônio do ouro que o seduz: fazei assim também. Melhor é rezarmos por esse infeliz para que se torne um homem de alma bela pela liberdade.
– É verdade. Até no rosto ele ficou horrível pela sua cobiça. Tu viste? –perguntam um ao outro os discípulos e os que estavam presentes e se encontravam mais perto do avarento.
– É verdade! É verdade! Nem parecia mais aquele de antes.
– Sim. Quando ele repeliu o Mestre, pouco faltou para que batesse nele, enquanto o maldizia, e no rosto parecia um demônio.
– Um demônio tentador. Tentava o Mestre para a maldade…
276.5– Ouvi –diz Jesus–. Verdadeiramente as alterações do espírito se fazem ver no rosto. É como se o demônio assomasse à superfície daquele seu possesso. Poucos são os que, sendo demônios, ou por atos ou por sua aparência, não deem sinais daquilo que são. E esses poucos são os perfeitos no mal, os perfeitamente perversos. O rosto do justo, ao contrário, é sempre belo, mesmo quando materialmente ele é deforme, e de uma beleza sobrenatural, que se derrama do seu interior para o exterior. E, não por medo de dizer, mas pela verdade dos fatos, nós podemos observar nos que estão sem a impureza dos vícios um frescor até em suas carnes. A alma está em nós e presente em todas as nossas partes. Os maus cheiros de uma alma corrompida corrompem também as carnes. Enquanto que os perfumes de uma alma pura preservam tudo. A alma corrompida impele a carne para os pecados obscenos e estes a tornam envelhecida e deformada. A alma pura impele a carne a uma vida pura. E isso conserva o frescor e comunica majestade.
Fazei que em vós permaneça uma juventude pura de espírito, e que ressurja, se já estiver perdida, e tomai cuidado para resguardar-vos de toda cobiça, tanto da sensualidade, como do poder. A vida do homem não depende da abundância dos bens que ele possui. Nem esta, nem, muito menos a outra: a eterna. Mas depende de sua maneira de viver. E, com a vida, a felicidade desta terra e a do Céu. Porque o viciado não é feliz, realmente feliz. Enquanto que o virtuoso é sempre feliz, tem sempre alegria celestial, mesmo quando é pobre e sozinho. Nem a morte o impressiona. Porque ele não tem culpa nem remorsos que o façam ter medo do encontro com Deus, e não tem saudades das coisas que deixa na terra. Ele sabe que no Céu é que está o seu tesouro e, como alguém que vai pegar a herança que o espera, uma herança santa, ele vai alegre, bem disposto, ao encontro da morte, que lhe abre as portas do Reino, onde está o seu tesouro.
Formai logo o vosso tesouro. Começai-o desde a juventude, vós que sois jovens; trabalhai incansavelmente, vós anciãos que, pela idade, estais já mais perto da morte. Mas, posto que a morte tem um prazo desconhecido, e muitas vezes chega para o menino antes de chegar para o velho, não fiqueis adiando o trabalho de formar para vós um tesouro de virtude e de boas obras para a outra vida, a fim de que a morte não vos pegue, sem que tenhais posto no Céu um tesouro de merecimentos. Muitos são os que dizem: “Oh! Eu sou jovem e forte. Por enquanto, quero gozar nesta terra, depois me converterei.” Que grande erro!
276.6Ouvi esta parábola. As terras de um homem rico haviam produzido muito. Ele havia feito uma colheita imensa. Pôs-se ele, então a contemplar toda aquela riqueza, os montes de cereais sobre os seus campos e terreiros e, não tendo mais lugar nos celeiros, precisava colocar a colheita sob telheiros provisórios e até nos quartos de sua casa. Então, ele disse: “Eu trabalhei como um escravo, mas a terra não me decepcionou. Trabalhei e consegui uma colheita que vale por dez, e agora preciso descansar por outras dez. Como vou fazer para guardar toda esta colheita? Vendê-la, eu não quero, porque seria obrigado a trabalhar para ter uma nova colheita no ano que vem. Eu vou fazer o seguinte: Vou desmanchar os meus celeiros, e farei outros bem maiores, onde possam caber todas as colheitas, todos os meus bens. Depois, eu direi a mim mesmo: ‘Desperta, homem! Tens garantida agora a posse de muitos bens, e por muitos anos. Descansa, então, come, bebe, regala-te!’” Aquele homem, como muitos outros, não fazia diferença entre o corpo e a alma, misturava o que é sagrado com o que é profano, porque na verdade a alma não se regala nas glutonarias nem no ócio, e aquele homem, como muitos outros, depois de ter feito a primeira boa colheita nos campos do bem, logo parou, achando que já havia feito tudo.
Mas, não sabeis vós que, uma vez posta a mão ao arado, é preciso que quem assim fez persevere, durante um, dez, cem anos, enquanto durar esta vida, porque ficar parado é um delito contra nós mesmos, pois com isso deixamos de dar valor a uma glória maior, e isso é voltar atrás, pois quem para, quase sempre não só deixa de ir para a frente, mas fica para trás? O tesouro do Céu deve aumentar o amor de ano em ano, para que seja realmente bom. Visto que a misericórdia vai ser benigna até para com quem teve poucos anos para formar o seu tesouro. Mas ela não será cúmplice dos preguiçosos, que têm longa vida, e trabalham pouco. Há de ser um tesouro em contínuo aumento. E, se ele não for mais um tesouro frutífero e ficar inerte, isso irá em detrimento da paz já preparada no Céu.
Deus disse ao estulto: “Homem estulto, que confundes o corpo e os bens da terra com o que é espiritual, e de uma graça de Deus fazes um mal, fica sabendo que nesta mesma noite te será exigida e tirada a tua alma, e o teu corpo jazerá sem vida. Tudo o que acumulaste, de quem será? Pensas em levá-lo contigo? Não. Tu ficarás como nu, sem teres as tuas colheitas terrenas, nem obras espirituais praticadas diante dos meus olhos, e assim serás pobre na outra vida. Melhor teria sido para ti se, com tuas colheitas, tivesses feito obras de misericórdia para com o próximo e para ti próprio. Porque, sendo misericordioso para com os outros, era para a tua alma que o estarias sendo. E, em vez de nutrir pensamentos de ócio, devias exercer atividades das quais pudesses tirar honestas vantagens para o teu corpo e grandes méritos para a tua alma, até que Eu te houvesse chamado.” E o homem naquela noite morreu e foi severamente julgado.
Em verdade, Eu vos digo que assim acontece a quem ajunta tesouros para si e não se torna rico aos olhos de Deus. Agora ide e fazei um tesouro da doutrina que vos acaba de ser transmitida. A paz esteja convosco.
E Jesus, tendo abençoado, vai-se afastando dali, indo para um ponto bem fechado do bosque com os apóstolos e discípulos paravtomarem alimento e descanso. 276.7Mas, enquanto estão comendo, Ele continua ainda falando sobre a lição de antes, repetindo um assunto de que Ele já falou2 muitas vezes aos apóstolos e que eu creio que dele nunca se fala demais, porque o homem é sempre vítima de medos insensatos.
– Crede –diz Ele–, que somente desse enriquecimento de virtudes é necessário preocupar-se. E prestai atenção: que vossa preocupação nunca seja cheia de angústia nem de inquietação. O bem é inimigo da inquietação, dos medos, daquelas pressas que muito têm ainda de avareza, de ciúme, de desconfiança humana. O vosso trabalho seja constante, confiante, pacífico. Sem partidas bruscas, nem paradas repentinas. Quem faz assim são os burros selvagens. Mas ninguém faz uso deles, a não ser que seja algum doido, para ir fazer uma viagem sem segurança. Pacíficos nas vitórias, pacíficos nas derrotas. Até o choro por causa de algum erro cometido e que vos entristece, porque com tal erro desagradastes a Deus, deve também ele ser pacífico, confortado pela humildade e pela confiança. A prostração, o rancor contra si mesmo é sempre um sintoma de soberba e, portanto, de desconfiança. Se alguém é humilde, sabe que é pobre homem sujeito às misérias da carne, que às vezes triunfa. Se alguém é humilde, tem confiança, não somente em si mesmo, mas em Deus, e fica calmo nas derrotas, dizendo: “Perdoa-me, Pai. Eu sei que Tu conheces a minha fraqueza, que me vence de vez em quando. Eu creio que Tu tens compaixão de mim. Tenho a firme confiança de que Tu me ajudarás no futuro, ainda mais do que antes, apesar de eu ter satisfeito tão pouco à tua vontade.”
E não sejais nem apáticos, nem avarentos com os bens de Deus. De tudo o que tiverdes de sabedoria e virtude, distribuí. Sede ativos nas coisas espirituais, como os homens o são nas coisas da carne.
276.8E, quanto à carne, não fiqueis imitando os que são do mundo, que estão sempre tremendo por causa do seu amanhã, pelo medo de que lhes falte o supérfluo, de que os pegue uma doença, de que chegue a morte, de que os inimigos lhes possam fazer mal, e assim por diante. Deus sabe do que precisais. Não temais, pois, pelo vosso dia de amanhã. Ficai livres daqueles medos, que pesam mais do que os grilhões dos galeotes. Não fiqueis preocupados com vossa vida, nem com o que havereis de comer, ou beber, nem com que vestir-vos. A vida do espírito é mais do que a do corpo e do que as vestes, porque é com o corpo e não com as vestes que vós viveis. E com a mortificação do corpo, ajudais o espírito a conseguir a vida eterna. Deus sabe até quando vai deixar a alma no corpo e até que hora vos dará o necessário. Ele o dá aos urubus, animais impuros, que vivem de comer cadáveres e que tem sua razão de existir justamente nessa sua função de eliminar as podridões. E Ele não o dará a vós? Aquelas aves não têm despensas nem celeiros, e assim mesmo Deus as nutre. Vós sois homens, e não urubus. Atualmente vós sois a flor da humanidade, pois sois os discípulos do Mestre, os evangelizadores do mundo, os servos de Deus. E podeis pensar que Deus cuida até dos lírios dos vales, e os faz crescer, e os veste com a veste mais bela do que as que teve Salomão, sem que eles tenham outro trabalho senão o de exalar o seu perfume, adorando, poderá Ele deixar de pensar também em vossa veste? Vós que, por vós mesmos, não sois capazes nem de pôr mais um dente nas bocas desdentadas, nem de encompridar com mais uma polegada uma perna encolhida, nem de dar mais agudeza de vista a uma pupila enevoada. E, se não podeis fazer nem estas coisas, como achais que podereis afastar de vós a miséria e a doença e fazer brotar alimento da poeira? Não podeis. Mas não sejais gente de pouca fé. Vós tereis sempre o que vos é necessário. Não fiqueis aflitos como as pessoas do mundo que ficam excitadas, querendo prover-se do que querem gozar. Vós tendes vosso pai que sabe de que precisais. Vós só tendes que procurar, e que seja a primeira de vossas procuras, o Reino de Deus e a sua justiça, pois tudo mais vos será dado, sem que o procureis.
276.9Não temais, ó vós do meu pequeno rebanho. Aprouve a meu Pai chamar-vos para o Reino, para que tenhais esse Reino. Podeis, pois, aspirar a ele e ajudar o Pai com a vossa vontade e uma santa operosidade. Vendei os vossos bens, fazei com eles esmola, se estais sozinhos. Dai aos vossos um conforto, abandonando vossa casa para seguir-me, pois é justo não tirar o pão aos filhos e às esposas. E, se não podeis assim fazer sacrifício de riquezas em dinheiro, sacrificai as riquezas do afeto. Estas também são riquezas que Deus avalia bem, por serem o que são: ouro mais puro que qualquer outro, pérolas mais preciosas do que as que foram arrebatadas aos mares, rubis mais raros do que os que foram extraídos das vísceras do solo. Porque renunciar à família por Mim é caridade perfeita mais do que o ouro sem impurezas, é pérola nascida do pranto, rubi feito do sangue que geme da ferida do coração, lacerado pela separação do pai e da mãe, da esposa e dos filhos. Mas estas bolsas não se desgastam, este tesouro não míngua nunca. Os ladrões não penetram no Céu. O caruncho não rói o que lá é depositado. E, tende o Céu no coração, e o coração no Céu. Junto ao vosso tesouro. Porque o coração, tanto para o bem, como para o mal, estará lá onde estiver aquilo que lhe parece ser o seu querido tesouro. Porque, assim como o coração está onde está o tesouro (no Céu), assim o tesouro está onde estiver o coração (isto é, em vós), ou melhor, o tesouro está no coração e, com o tesouro dos santos, está no coração o Céu dos santos.
276.10Estai sempre prontos, como quem está preparado para viagem ou à espera do patrão. Vós sois servos do patrão que é Deus. A qualquer hora Ele pode chamar-vos para onde Ele está, ou vir aonde vós estais. Estai, pois, sempre prontos para ir ou a prestar-lhe honras, estando com vossos lados cingidos com cintos de viagem e de trabalho e com as lâmpadas acesas nas mãos. Se sairdes de uma festa de núpcias com alguém que tenha ido à vossa frente para os Céus, ou antes de vós se tenha consagrado a Deus nesta terra, Deus poderá lembrar-se de vós, que estais esperando, e pode dizer-vos: “Vamos para onde está Estêvão, ou João ou, então Tiago ou Pedro.” E Deus é sempre rápido para vir e para dizer: “Vem.” Portanto, estai prontos para abrir-lhe a porta, quando Ele chegar ou para partir, quando Ele vos chamar.
Felizes aqueles servos que o Patrão, quando chegar, encontrar vigilantes. Em verdade, para recompensá-los por sua espera fiel, Ele se cingirá com sua veste, e fazendo-os assentar-se à mesa, pôr-se-á a servi-los. Ele pode vir na primeira vigília, ou na segunda, ou na terceira. Vós não o sabeis. Por isso, estai sempre vigilantes. E felizes sereis vós, se assim o Patrão vos encontrar. Não vos enganeis, dizendo: “Há muito tempo! Esta noite Ele não vem.” Vós vos sairíeis mal. Vós não sabeis. Se alguém soubesse quando o ladrão haveria de vir, não deixaria de guardar a casa, porque o malandro poderia forçar a porta e os ferrolhos. Vós também estai preparados, porque, quando menos pensardes, virá o Filho do homem, dizendo: “Chegou a hora.”
276.11Pedro, que quase já se esqueceu de acabar de comer, para ficar ouvindo o Senhor, vendo que Jesus se cala, pergunta:
– Isto que estás dizendo é para nós, ou para todos?
– É para vós e para todos. Mas é mais para vós, porque vós sois os intendentes colocados pelo Patrão à frente dos servos e tendes o duplo dever de estar preparados, seja para vós como intendentes, seja para vós como simples fiéis. Como deve ser o intendente posto pelo patrão à frente de seus familiares para dar a cada um, a seu tempo, a justa porção? Ele deve ser perspicaz e fiel. Para cumprir o seu próprio dever e para fazer que os que lhe estão submissos cumpram o dever deles. Se assim não fosse, ficariam prejudicados os interesses do patrão, que paga ao intendente para que faça as suas vezes e, em sua ausência, zele por seus interesses.
Feliz daquele servo que, quando o patrão voltar para casa, o encontrar fielmente em seu trabalho, com diligência e justiça. Em verdade, Eu vos digo que ele o fará intendente de mais outras propriedades e até mesmo de todas as suas propriedades, e ficará tranquilo e se alegrando em seu íntimo pela segurança que aquele servo lhe dá. Mas, se aquele servo disser: “Oh! Que bom! O patrão está muito longe, e me escreveu que vai tardar a voltar. Por isso, eu posso fazer o que eu achar bom e depois, quando a volta dele estiver próxima, tomarei minhas providências.” E, assim pensando, se ele começar a comer e a beber até ficar bêbado, e a dar ordens aos servos como um ébrio, confiando na bondade deles, pois lhe são submissos, mas se recusam a cumprir suas ordens quando elas são em prejuízo do patrão, e ele, então passar a bater nos servos e nas servas, até fazê-los cair doentes e debilitados, e ele, crendo ainda que é feliz, disser: “Afinal, eu gosto de ser patrão e de ser temido por todos”, que será, então, que lhe vai acontecer? Vai-lhe acontecer que o patrão logo chegará, quando ele menos o esperar, e talvez até surpreendendo-o no ato de embolsar do dinheiro do patrão ou de estar subornando algum dos servos mais pobres. E nesse caso, Eu vo-lo digo, o patrão o tirará do cargo de intendente, e até do rol dos seus empregados, pois não é justo conservar os infiéis e traidores no meio dos honestos.
E agora o patrão o punirá tanto, quanto antes o havia amado e instruído. Porque quem mais conhece a vontade e o pensamento do patrão, mais está obrigado a cumpri-los exatamente. Se não fizer assim, como o patrão lhe mandou, e de modo mais exato do que todos os outros, ele receberá muitas pancadas, enquanto que os que, como servos menores, pouco sabem ou erram pensando que estão fazendo o bem, terão castigos menores. A quem muito foi dado, muito será exigido, e deverá prestar conta de muito quem tomou conta de muito, pois vão ser exigidas dos meus intendentes contas até de um pequenino, que tem apenas uma hora de nascido.
276.12A escolha que Eu fiz dele não foi para ele ir descansar em algum pequeno bosque fresco e florido. Eu vim trazer fogo a esta terra. E que é que Eu posso desejar, a não ser que ele se acenda? Por isso Eu me canso, e quero que vos canseis até à morte, e até que a terra toda seja uma fogueira de fogo celeste. Eu devo ser batizado com um batismo. E, como estarei angustiado, enquanto ele não for feito! Vós não me perguntais por quê? Porque para isso Eu poderei fazer de vós os portadores do Fogo, agitadores que haverão de se mover em todos e contra todos os estratos sociais, para fazer deles uma só coisa: o rebanho de Cristo.
Credes que Eu tenha vindo para trazer a paz à terra? E para estar de acordo com o modo de ver da terra? Não. Pelo contrário, venho trazer discórdia e separação. Porque, de agora em diante, e enquanto a terra toda não for um único rebanho, de cinco pessoas que houver em uma casa, duas estarão contra três, o pai estará contra o filho e esse contra o pai, a mãe contra as filhas e estas contra aquela, as sogras e as noras terão um motivo a mais para não se entenderem, porque uma linguagem nova estará sobre certos lábios e se tornará uma Babel, pois que uma agitação profunda sacudirá o reino dos afetos humanos e sobre-humanos. Mas depois virá a hora em que tudo se unificará em uma língua nova, falada por todos os que foram salvos pelo Nazareno, e se depurarão as águas dos sentimentos, indo para o fundo as escórias, e brilhando na superfície as límpidas ondas dos lagos celestes.
É verdade que servir-me pode não ser tomar repouso, conforme o sentido que o homem der a esta palavra. É preciso ter heroísmo, e ser incansável. Mas Eu vos digo: no fim será Jesus, sempre e ainda Jesus, que cingirá a veste para vos servir, e depois sentar-se-á convosco para um banquete eterno, e ficarão esquecidas todas as fadigas e dores.
276.13Agora, visto que ninguém mais nos procurou, vamos para o lago. Repousemos em Magdala. Nos jardins de Maria de Lázaro há lugar para todos, e ela pôs a sua casa à disposição do Peregrino e de seus amigos. Não é preciso que Eu vos diga que Maria de Magdala morreu com o seu pecado e renasceu em seu arrependimento, sendo agora Maria de Lázaro, discípula de Jesus de Nazaré. Vós já o sabeis, porque a notícia correu ruidosa, como vento por uma floresta. Mas Eu vos digo o que não sabeis: que todos os bens pessoais da Maria de Lázaro são para os servos de Deus e para os pobres de Cristo. Vamos…
1 indicada, em Deuteronômio 16,19.
2 já falou, por exemplo, no capítulo 173.
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