503. 503. Os apóstolos indagam sobre o Traidor.Um saduceu e a infeliz mulher de um necromante.Saber distinguir o sobrenatural do oculto.


3 de outubro de 1944.

503.1Mais uma vez Jesus vai1 incansavelmente pelas estradas da Palestina. O rio fica ainda à sua direita, e Ele vai andando no mesmo rumo para onde vai a água, azul e cintilante, nos lugares em que o sol a beija, verde-azulada perto das margens, onde as sombras das árvores se refletem com seus verdes escuros.

Jesus está no meio de seus discípulos. Ouço Bartolomeu perguntar-lhe:

– Então, vamos mesmo para Jericó? Não temes nenhuma cilada?

– Não temo… Chegarei a Jerusalém pela Páscoa, por outro caminho, e eles, decepcionados, não sabem mais onde prender-me, sem darem na vista das multidões. Podes crer-me, Bartolomeu, que para Mim há menos perigo em uma cidade populosa do que indo por sendas mais afastadas. O povo é bom e sincero. Mas é também impetuoso. E ele se insurgiria, se eles me capturassem quando Eu estivesse pelo meio dele para evangelizar e curar… As serpentes trabalham… na solidão e na sombra. E depois, Eu tenho ainda hoje e amanhã para trabalhar… Depois chegará a hora do Demônio, e vós me perdereis, e me achareis mais tarde. Crede nisto. E sabei crer nisto, quando os acontecimentos, mais do que nunca, estiverem parecendo desmentir-me.

Os apóstolos suspiram, contristados, e olham para Ele com amor e pena, e João solta um gemido: “Não”, e Pedro o rodeia com seus curtos mas robustos braços, como para defendê-lo, e diz: “Ó meu Senhor e Mestre!” E não diz mais nada. Mas naquelas poucas palavras há muitas coisas.

– Assim é, meus amigos. Para isso é que Eu vim. Sede fortes. Vede como Eu vou indo, com segurança, para a minha meta, como alguém que vai para o sol, sorrindo para o sol que lhe bate na fronte. O meu sacrifício será um sol para o mundo. A luz da Graça descerá aos corações, a paz de Deus os tornará fecundos e os méritos do meu martírio tornarão os homens capazes de ganhar o Céu. E que quero Eu senão isto? Pôr as vossas mãos nas mãos do Eterno, meu Pai e vosso Pai, e dizer: “Eis aqui, Eu te reconduzo estes filhos. Olha, ó Pai, eles estão limpos. Podem voltar para Ti.” Eu quero ver-vos apertados sobre seu peito a dizer: “Amai-vos, afinal, porque o Filho Único e vós tendes ânsia disso, e por não terdes podido amar sofríeis profundamente.” Eis aí a minha alegria. E cada dia que me põe mais perto do acontecimento, que vai ser esse retorno, esse perdão, essa união, aumenta a minha ânsia de consumar o holocausto para dar-vos Deus e o seu Reino!

Jesus está majestoso e quase extático ao dizer isso. Ela vai caminhando com sua veste azul e com seu manto mais escuro, com a cabeça ainda descoberta nesta fresca hora da manhã, e parece estar sorrindo, talvez por alguma visão que seus olhos estejam recebendo sobre o azul de um céu sereno. O sol que o beija na face esquerda acende mais ainda seu olhar cintilante, pondo uma cor de ouro em sua cabeleira movida por um vento leve e por seus passos, acentuando o vermelho de seus lábios, abertos para o sorriso, e que parece encher todo o seu rosto com uma alegria que na realidade vem do interior do seu adorável Coração, aceso na Caridade por nós.

503.2– Mestre, posso dizer-te uma palavra? –pergunta Tomé.

– Qual é?

– Anteontem Tu disseste que o Redentor, que és Tu, terá um traidor. Como poderá um homem trair-te, a Ti que és o Filho de Deus?

– Um homem de fato não poderia trair o Filho de Deus, sendo Ele Deus, como o seu Pai. Mas o traidor não será um homem. Será um demônio em corpo humano. O mais possuído, o mais possesso dos homens. Maria de Magdala tinha sete demônios e o endemoninhado de poucos dias atrás estava dominado por Belzebu. Mas nesse homem estarão Belzebu e toda a sua corte demoníaca… Ah! Na verdade o Inferno estará naquele coração para dar-lhe a ousadia de vender, como um cordeiro ao açougueiro, o Filho de Deus aos seus inimigos!

– Mestre, agora esse homem já está possuído por Satanás?

– Não, Judas. Mas ele se inclina para Satanás, quer dizer, põe-se em condição de precipitar-se, caindo no domínio dele –(Jesus está falando com Iscariotes).

– E por que ele não vem a Ti para curar-se de sua má inclinação? Ele sabe que a tem ou não sabe?

– Se ele não soubesse não seria culpado como é, porque ele sabe que está propenso ao mal, mas não persiste nas resoluções que toma de sair dela. Se ele quisesse persistir viria a Mim… mas ele não vem… O veneno vai penetrando e sua proximidade comigo não o limpa porque não é desejada, mas até evitada… É o vosso engano, ó homens. Vós fugis de Mim quanto mais necessidades tendes de mim

–(respondeu Jesus a André).

– Mas ele já veio a Ti alguma vez? Tu o conheces? E nós o conhecemos?

– Mateus, Eu conheço os homens antes mesmo que eles me conheçam. E tu sabes disso, e estes também o sabem. Sou Eu que vos chamei, porque vos conhecia.

– Mas nós o conhecemos? –insiste Mateus.

– E podeis deixar de conhecer quem vem ao vosso Mestre? Vós sois meus amigos e repartis comigo o alimento, o repouso e as fadigas. Até a minha casa Eu vos abri, a casa da minha santa Mãe. Eu vos levo a Ela para que a aura, que dela emana, vos torne capazes de compreender o Céu com as suas vozes e as suas ordens. Eu vos levo a Ela como um médico leva os seus doentes, que acabaram de levantar-se de uma sequela de doenças, a fontes de saúde que os fortifiquem, vencendo as consequências das doenças que podem sempre voltar. Por isso vós não deixais de conhecer a nenhum dos que vêm a Mim.

– Em que cidade foi que o encontraste?

– Pedro, Pedro!

– É verdade. Mestre, eu sou pior do que uma mulher faladeira. Perdoa-me. Mas o amor, sabes…

– Eu sei, e por isso te digo que não me desgosta esse teu defeito. Mas tira esse também de ti.

– Sim, meu Senhor.

503.3A senda vai-se tornando mais estreita, apertada entre uma fileira de árvores e uma vala. E o grupo vai-se adelgaçando. Jesus fala com o próprio Iscariotes, ao qual dá ordens para fazer as despesas e dar as esmolas. Atrás deles, dois a dois, estão os outros. No fim, sozinho, está Pedro. Ele está pensando. Caminha de cabeça baixa, de tal modo recolhido em seus pensamentos que nem mesmo percebe quando está ficando distanciado dos outros.

– Ei, tu, homem? –interpela-o um que vai passando a cavalo–. Estás com o Nazareno?

– Sim. Por quê?

– Estais indo para Jericó?

– Tens necessidade de saber disso? Eu não sei nada. Vou atrás do Mestre e nada pergunto. Para qualquer lugar que Ele vá está bom. O caminho é aquele que vai para Jericó, mas poderíamos também voltar à Decápole. Quem sabe? Se queres informar-te bem lá está o Mestre.

O homem espora o cavalo e Pedro, por detrás dele, lhe faz uma careta curiosa e resmunga:

– Eu não confio, meu caro Senhor. Sois todos uma malta de cães! Eu não quero ser o traidor. E juro a mim mesmo: “Esta boca estará selada. É isso”

E faz um sinal sobre os seus lábios como se os fechasse com um cadeado.

O homem a cavalo já alcançou Jesus. E o interpela. Isso dá a Pedro tempo para alcançar os outros.

Quando o homem já vai partir, faz um sinal de saudação a Iscariotes. Ninguém nota isso a não ser Pedro, que chega por último. E ele parece não aplaudir aquela saudação. Pega Judas por uma manga e lhe pergunta:

– Quem é ele? Tu o conheces? Como o conheceste?

– De vista. É um dos ricos de Jerusalém.

– Tens amizade com os grandes, tu. Bom… contanto que tudo esteja bem. Dize-me uma coisa: aquele cara de raposa é que te diz tanta coisa?…

– Que coisas?

– Ora, aquelas que dizes saber sobre o Mestre!

– Eu?

– Sim. Tu. Não te lembras daquela tarde2 de água e lama? Naquele tempo da cheia?

– Ah! Não! Não! Mas estás pensando ainda em palavras ditas em um momento de mau humor?

– Eu penso em tudo o que pode fazer mal a Jesus: coisas, pessoas, amigos, inimigos… E estou sempre pronto a manter as promessas que faço a quem fizer mal a Jesus. Adeus.

Judas fica olhando como ele vai andando de um modo estranho. Um modo de quem vai com assombro, com dor, com raiva, e direi até mais: com hostilidade.

503.4Pedro chega perto de Jesus e o chama.

– Oh! Pedro! Vem!

Jesus lhe põe o braço sobre as costas.

– Quem era aquele judeu hirsuto?

– Hirsuto, Pedro? Ele estava todo limpo e perfumado!

– Ele tinha a consciência hirsuta. Desconfia, Jesus.

– Eu já te disse que ainda não chegou o meu tempo. E quando aquele tempo chega,nenhuma desconfiança me salvará… se Eu quisesse salvar-me até as pedras gritariam e se poriam em fila, se Eu quisesse salvar-me.

– Pode ser… Mas desconfia… Mestre.

– Pedro, que tens?

– Mestre… tenho uma coisa a dizer-te e um peso no coração.

– Uma coisa? Um peso?

– Sim. O peso é um pecado. E a coisa é um conselho.

– Começa pelo pecado.

– Mestre… eu… odeio… eu tenho repugnância, eis aí, senão ódio, porque Tu não queres que se odeie, por um de nós. Fica-me parecendo estar perto de uma caverna, a qual exala um fedor de serpentes, e eu não gostaria que elas saíssem para te fazerem mal, e ele está mesmo em uma caverna de serpentes, em tratos com o demônio.

– Como chegaste a saber disso?

– Ora!… Nem sei. Eu sou um rústico e ignorante, mas bobo eu não sou. Estou habituado a prever pelos ventos e pelas nuvens… e veio-me também a mim o poder de ver os corações. Jesus… eu estou com medo.

– Não julgues, Pedro. Nem suspeites. A suspeita cria quimeras. Veem-se coisas que não existem.

– Queira o Deus Eterno que nada disso exista. Mas eu não me sinto seguro.

– Quanto a quem, Pedro?

– Quanto a Judas de Keriot. Ele se gaba de ter grandes amizades, e pouco tempo faz aquele homem de ar sinistro o saudou como se saúda a quem é bem conhecido. Ele antes não as tinha.

– Judas é quem recebe e distribui. Ele tem jeito para aproximar-se dos ricos. Ele sabe agir.

– Ah! Sabe agir… Mestre, dize-me a verdade. Tu não tens suspeitas?

– Pedro, tu me és muito caro pelo teu coração. Mas Eu te quero perfeito. Perfeito ainda não é quem não obedece. Eu te disse: não julgues e não suspeites.

– Mas, no entanto, não me dizes…

– Daqui a pouco estaremos perto de Jericó e pararemos a fim de esperarmos uma mulher que não pode receber-nos em sua casa…

– Por quê? É alguma pecadora?

– Não. É uma infeliz. Aquele cavaleiro que te aborreceu tanto veio dizer-me que a esperasse. E a esperarei, ainda que Eu saiba que não posso fazer nada por ela. E sabes quem foi que pôs a mulher e o cavaleiro sobre os meus passos? Judas. Estás vendo que foi por uma razão honesta que ele travou relações com aquele judeu.

Pedro inclina a cabeça e se cala, confuso. Talvez ainda não esteja persuadido, mas ainda está curioso. E se cala.

503.5Jesus para, fora dos muros da cidade, cansado, sob o frescor de uma moita de arbustos que fazem sombra sobre uma fonte, junto da qual estão uns quadrúpedes bebendo. Os discípulos estão sentados para esperarem também. Esta deve ser uma parte bem secundária da cidade, porque, se tirarmos dela estes cavalos e asnos, que certamente são de mercadores em viagem, não se vê nenhuma multidão.

Vem vindo uma mulher toda envolta em um grande manto escuro e com o rosto coberto. Seu véu, espesso e escuro, desce até a metade de seu rosto. E com ela está o cavaleiro de antes, que agora está a pé, e outros três homens pomposamente vestidos.

– Nós te saudamos, Mestre.

– A paz esteja convosco.

– Esta é a mulher. Ouve-a e ajuda-a em seu desejo.

– Se Eu puder.

– Tu podes tudo.

– Tu crês nisto, saduceu?

O saduceu era aquele que estava a cavalo.

– Eu creio naquilo que vejo.

– E tu viste que Eu posso?

– Eu vi.

– E por que é que Eu posso, tu sabes?

Silêncio.

– Posso saber Eu como é que tu julgas que Eu posso?

Silêncio.

Jesus não se preocupa mais com ele nem com os outros. Ele fala à mulher:

– Que queres?

– Mestre… Mestre…

– Fala, então, sem medo.

A mulher lança um olhar enviesado para os seus acompanhantes, os quais o interpretam cada um a seu modo.

– A mulher está com o marido doente e te pede que o cures. Ela é uma pessoa influente, da corte de Herodes. Para ti é conveniente que a atendas.

– Não porque seja influente, mas porque ela é uma infeliz, Eu a atenderei, se puder. Que é que tem o teu marido? Por que ele não veio? E por que não queres que Eu vá a ele?

Outro silêncio e outro olhar enviesado.

– Queres falar-me sem testemunhas? Vem.

503.6Eles se afastam por alguns passos.

– Fala.

– Mestre, eu creio em Ti. E tanto creio que tenho a certeza de que Tu sabes tudo dele, de mim e de nossa vida desgraçada… Mas ele não crê… Ele te odeia. Ele…

– Mas ele não pode ficar são porque não tem fé. Não só não tem fé em Mim, mas nem mesmo no verdadeiro Deus.

– Ah! Tu sabes!

A mulher chora desesperadamente.

– Minha casa é um inferno! Tu livras os possessos. Portanto, sabes o que é o demônio. Mas esse demônio sutil, inteligente, falso e instruído, Tu o conheces? Sabes até a que perversões ele leva? Sabes a quais pecados? Sabes que ruínas ele causa ao redor de si? E ao redor de minha casa? Será ela mesma uma casa? Não. É a soleira do Inferno. O meu marido? Será ele meu marido? Agora ele está doente e não se preocupa comigo. Mas mesmo quando estava ainda forte e desejoso de amor, será que era um homem aquele que me abraçava, que me segurava e estava comigo? Não! Eu estava entre as espirais de um demônio, sentia o hálito e a viscosidade de um demônio. Eu lhe queria muito bem e ainda lhe quero. Sou mulher dele e ele me tirou a virgindade quando eu era pouco mais do que uma menina, tinha apenas quatorze anos. Quando me lembro daquela primeira hora, daquela hora em que me tornei mulher, e com ela me lembro das sensações ainda não conhecidas daquele primeiro abraço que me fez mulher, eu, com a parte melhor de mim mesma na primeira vez, e depois com a carne e o sangue, o repelia horrorizada, com minha alma e com todo o meu ser, quando me lembrava de como ele está nojento por causa de sua necromancia. Parecia-me que não era o meu homem, mas sim, os mortos que ele evoca que estivessem sobre mim, saciando-se de mim… E até agora, somente ao olhar para ele, que já está moribundo e ainda mergulhado naquela magia, eu sinto um calafrio. Não o vejo… Mas vejo Satanás. E que dor a minha! Nem mesmo na morte eu irei estar com ele, porque a Lei o proíbe. Salva-o, Mestre. Eu te peço que o cures para dar-lhe tempo de curar-se.

A mulher chora angustiada.

– Pobre mulher! Eu não posso curá-lo.

– Por que, Senhor?

– Porque ele não quer.

– Sim. Ele tem medo da morte. Sim, que ele quer.

– Não quer. Ele não é um doido, não é um possesso que não sabe qual o seu estado e não pede para ser libertado porque não tem a faculdade de querer livremente. Não é um impedido de querer. Mas é um que quer ficar assim. Ele sabe que o que ele está fazendo é proibido. Sabe que está amaldiçoado pelo Deus de Israel. Mas persiste. Mesmo que Eu o curasse e começasse pela alma, ele voltaria ao seu satânico prazer. Sua vontade está corrompida. É um rebelde. Não posso.

503.7A mulher chora mais fortemente. Aproximam-se dela os que a haviam acompanhado:

– Tu não a contentas, Mestre?

– Eu não posso.

– Eu bem que vo-lo havia dito, não? E quais as razões?

– Tu, um saduceu, ainda perguntas? Eu te faço lembrar o livro dos Reis3. Lê aquilo que Samuel disse a Saul e o que Elias disse a Ocozias. O espírito do profeta censura o rei por tê-lo perturbado, evocando-o lá do reino dos mortos. Não é lícito fazer isso. Lê o Levítico se não te lembras mais da palavra de Deus, Criador e Senhor de tudo o que existe, Tutor desta vida e daqueles que já estão na morte. Mortos e vivos estão nas mãos de Deus e não vos é lícito arrancá-los delas. Nem por curiosidade, nem por sacrílega violência, nem por uma maldita incredulidade. Que é quereis saber? Se existe um futuro eterno? E dizeis que credes em Deus. Se Deus existe, deverá haver um tribunal. E que tribunal deverá ser senão o eterno como Ele, formado por espíritos eternos. Se dizeis que credes em Deus, por que não credes em sua palavra? Não nos diz a sua palavra. “Não praticareis adivinhações nem vos guiareis por sonhos?” Não nos diz: “Se alguém se envolver com magos e adivinhadores, e fornicar com eles, Eu voltarei contra ele a minha face e o exterminarei do meio de seu povo?” Não diz: “Não façais para vós deuses de metal?” E que sois? Uns samaritanos e perdidos, ou sois filhos de Israel? E que sois: uns estultos ou uns dotados de razão? E se raciocinais segundo a imortalidade da alma, por que evocais os mortos? Se imortais não forem aquelas partes incorpóreas que animam o homem, que será mais que sobreviverá ao homem depois da morte? Podridão e ossos, ossos reduzidos a cinzas no meio de vermes. E se não credes em Deus, a ponto de recorrer a ídolos e a sinais para obterdes cura, dinheiro, respostas de oráculos, como fez esse homem para o qual estais pedindo saúde, porque vós também fazeis deuses de metal e acreditais que eles vos possam dizer palavras mais verdadeiras, mais santas, mais divinas do que as que Deus vos diz? Agora Eu vos dou a mesma resposta de Elias a Ocozias: “Porque tu mandaste emissários para consultarem Belzebu, deus de Acaron, como se não houvesse um Deus em Israel que pudéssemos consultar, por isso não descerás do leito para o qual subiste e certamente morrerás no teu pecado.”

503.8– Sempre és Tu que nos insultas e nos atacas. Eu te faço notar isso. Nós viemos ao teu encontro para…

– Para me pegardes em uma armadilha. Mas Eu leio o vosso coração. Abaixo as máscaras, ó herodianos vendidos ao inimigo de Israel. Abaixo a máscara, fariseus falsos e cruéis. Abaixo a máscara, ó saduceus, verdadeiros samaritanos. Abaixo a máscara, ó escribas, de palavras contrárias aos fatos. Abaixo a máscara, ó vós todos, violadores da Lei de Deus, inimigos da Verdade, concubinos do Mal. Abaixo, profanadores da Casa de Deus! Abaixo, maus formadores de consciências fracas. Abaixo, ó chacais, que farejais o cheiro da vítima no vento que tocou nela, ides seguindo aquela pista e fixais nela a vista, esperando a hora propícia para matá-la, e lambeis os beiços sobre os quais já pregustastes o sabor do sangue, e sonhais com o chegar da hora… Ó traficantes e fornicadores, que vendeis por muito menos do que um pouco de lentilhas a vossa primogenitura entre os povos, e não tendes mais bênção, porque outros povos haverão de vestir-se com a lã do Cordeiro de Deus. E como verdadeiros Cristos, aparecerão aos olhos do Altíssimo, o qual, sentindo a fragrância do seu Cristo emanando deles, dirá: “Eis o cheiro do meu Filho! Cheiro semelhante ao de um campo florido, abençoado por Deus. Sobre nós cai o orvalho do Céu: a graça. Em vós está a gordura da terra: os frutos do meu Sangue que Eu darei para a vida dos homens e recordação de Mim. A vós sirvam os povos, a vós se inclinem as gentes, porque lá onde estiver o sinal do Cordeiro, lá estará o Céu. E a terra está sujeita ao Céu. Sede donos de vossos irmãos, porque os seguidores do meu Cristo serão os reis do espírito por terem a Luz, e para essa Luz os outros voltarão seus olhares esperando a sua ajuda. Inclinem-se diante de vós os filhos de vossa mãe, a terra. Sim, todos os filhos da terra se inclinarão um dia ao meu Sinal. Maldito seja quem vos amaldiçoar e bendito quem falar bem de vós, porque a bênção e a maldição a vós dadas vêm de Mim, vosso Pai e vosso Deus.” Isto Ele dirá. Isto, ó fornicadores que, podendo ter como amada esposa da alma a verdadeira fé, ficais fornicando com Satanás e com suas falsas doutrinas. Isto Ele dirá, ó assassinos. Assassinos de consciências e assassinos de corpos. Aqui estão algumas vítimas vossas. Mas se dois corações são assassinados, um Corpo não o tereis senão pelo tempo de Jonas. E depois Ele, unido à sua essência imortal, vos julgará.

Jesus está terrível neste requisitório. Terrível. Creio que será mais ou menos assim o Último Dia.

503.9– E onde estão esses assassinados? Tu estás delirando. Tu, Tu é que és um concubino com Belzebu. Tu fornicas com ele e, em seu nome, operas milagres. E não o podes em nosso caso porque nós possuímos a amizade de Deus.

– Satanás não expulsa a si mesmo. Eu expulso os demônios em nome de quem, então?

Silêncio.

– Respondei!

– Mas não é preciso que nos ocupemos com este possesso! Eu já vo-lo havia dito. E não o quisestes crer. Ouvi, então, da boca dele. Responde, Nazareno doido. Conheces Tu o Ciemanflorasque?

– Eu não preciso disso.

– Estais ouvindo? Ainda uma pergunta. Não estiveste tu no Egito?

– Sim. Que há?

– Estais vendo? Quem é o necromante? O Satanás? Que horror! Vem, mulher. Santo é o teu marido em comparação com este. Vem… Vai ser preciso que te purifiques. Pois tocaste em Satanás!…

E lá se vão eles, puxando a mulher que vai, chorando, e com vivos gestos de repulsa.

Jesus, com os braços cruzados, os acompanha com os lampejos de seus olhares.

503.10– Mestre, Mestre.

Os apóstolos estão aterrorizados, tanto pela violência de Jesus como pelas palavras dos judeus.

Pedro pergunta, e está inclinado ao dizer:

– O que eles quiseram dizer com aquelas últimas perguntas? Que é aquilo?

– O quê? O Ciemanflorasque? –(Sim! o que é esse negócio?).

– Sim. O que é?

– Não penses nisso. Confundem a Verdade com a Mentira, Deus com Satanás. E em sua soberba satânica pensam que Deus, para atender aos desejos dos homens, precise ser por eles esconjurado com o seu tetragrama. O Filho fala com o Pai a língua verdadeira e, com ela, pelo amor recíproco do Pai e do Filho, realizam-se os milagres.

– Mas, por que foi que ele te perguntou se estiveste no Egito?

– Porque o mal se serve até das coisas mais inofensivas para fazer delas um ato de acusação para quem quer atacar. A minha permanência infantil em terras do Egito estará entre os pontos de acusação em sua hora de vingança. Vós e os futuros ficai sabendo que com o astuto Satanás e com os servidores fiéis dele é preciso usar de dupla astúcia. Por isso é que Eu disse4: “Sede astutos como as serpentes, além de serdes simples como as pombas.” Isto para não pordes nem o mínimo de armas nas mãos dos agitados pelo demônio. Mas também isso não é necessário. Vamos.

– Para onde, Mestre? Para Jericó?

– Não. Tomemos uma barca e vamos de novo para a Decápole. Tornaremos a ir pelo Jordão acima até as alturas de Enon e lá desembarcaremos. Depois, nas praias de Genesaré tomaremos outra barca, iremos a Tiberíades e de lá para Caná e Nazaré. Eu tenho necessidade de minha mãe! E também vós tendes. O que o Cristo não faz com a sua palavra, faz Maria com o seu silêncio. O que não faz o meu poder, faz a sua pureza. Oh! Minha mãe!

– Estás chorando, Mestre? Estás chorando? Nós te defenderemos! Nós te amamos!

– Não estou chorando nem temendo por causa daqueles que me querem mal. Eu choro pelos corações que são mais duros do que o jaspe, e nada posso sobre muitos deles. Vinde, amigos.

Eles descem para a margem e sobre a barca de alguém vão remando rio acima. E tudo termina assim.

503.11Diz Jesus:

– Tu e quem te guia, meditai muito na minha resposta a Pedro.

O mundo — e por mundo entendo não só os leigos — nega o sobrenatural, mas diante das manifestações de Deus está pronto para introduzir no assunto não o que é sobrenatural, mas o que está oculto. Confundem uma coisa com a outra. Agora, ouvi: sobrenatural é o que é de Deus. Oculto é o que vem de uma fonte extraterrena, mas que não tem sua raiz em Deus.

Em verdade Eu vos digo que os espíritos podem vir a vós. Mas como? De dois modos: por ordem de Deus ou pela violência do homem. Por ordem de Deus vêm os anjos e os espíritos bem-aventurados que já estão na luz de Deus. Por violência do homem podem vir os espíritos sobre os quais até um homem pode dar ordens, porque eles estão imersos nas regiões mais baixas do que as humanas, nas quais ainda existe uma lembrança da Graça ativa. Os primeiros vêm espontaneamente, obedecendo apenas a uma só ordem: a minha. E consigo eles trazem a verdade que Eu quero que conheçais. Os outros vêm por um complexo de forças conjuntas. Forças de homem idólatra unidas às forças de Satanás ídolo. Eles podem dar-vos a verdade? Não. Nunca. Absolutamente não. Pode uma fórmula, mesmo se ensinada por Satanás, dobrar Deus à vontade do homem? Não. Deus vem sempre espontaneamente. Uma oração pode unir a Ele, não uma fórmula mágica.

E se alguém objetar: “Samuel apareceu a Saul.” Eu digo: “Não foi por merecimento da maga. Mas por minha vontade com o intuito de fazer o rei cair em si, pois ele estava sendo rebelde à minha Lei.” Alguns poderão dizer: “E os profetas?” Os profetas falam por um conhecimento da Verdade que neles se infunde diretamente ou pelo ministério dos Anjos. Outros hão de objetar: “E a mão5 no banquete do rei Baltazar?” Que leiam esses a resposta de Daniel: “… também tu te exaltaste contra o Dominador do Céu, dando culto a deuses de prata, de bronze, de ferro, de ouro, de madeira, de pedra, os quais não veem, nem ouvem, nem conhecem. E não deste glória Àquele Deus em cujas mãos estão toda a tua respiração e todos os teus movimentos. Por isso, por Deus é que foi mandado o que foi dito (mandado espontaneamente, enquanto tu, homem estulto, nem pensavas nisso, e só tratavas de encher o teu ventre e de inchar a tua mente), e que foi dito por aquela mão que escreveu o que lá se encontra.”

Sim. Às vezes Deus chama vossa atenção por meio de manifestações que vós dizeis serem “mediúnicas”, mas que na realidade são a piedade de um Amor que vos quer salvar. Mas vós não deveis querer criá-las… As que são criadas nunca são sinceras. Nunca são úteis. Nunca trazem nenhum bem. Não vos façais escravos de uma coisa dessas que nos arruína. Não queirais dizer-vos e crer-vos mais inteligentes do que os humildes, que creem na verdade depositada há séculos na minha Igreja, somente porque dos soberbos é que procurais, na desobediência, a permissão para os vossos ilícitos instintos. Entrai de novo e permanecei na Disciplina, muitas e muitas vezes secular. De Moisés até Cristo, de Cristo até vós, de vós até o último dia, será ela e não outra. A vossa, será uma ciência? Não. A ciência está em Mim e na minha doutrina, e em obedecer-me. Será uma curiosidade sem perigo? Não. É um contágio, depois do qual sofrereis as consequências. Rejeitai Satanás se quereis ter Cristo. Eu sou o Bom. Mas não convivo com o Espírito do Mal. Ou Eu ou ele. Escolhei.

503.12Ó meu “porta-voz”, dize isso a quem isto é dirigido. É a última vez que irá a eles. E tu e quem te dirige, sede cautelosos. As provas se tornam contraprovas na mão do Inimigo e dos inimigos dos meus amigos. Estai atentos!

Ide com a minha paz.

1 Mais uma vez Jesus vai… está escrito em relação à “visão” do dia anterior, relatada no capítulo 419.
2 aquela tarde..., em 481.5/7.
3 no livro dos Reis, isto é, 1 Samuel 28,15-19; 2 Reis 1,16; o Levítico, em Levítico 19,4.26.31; 20,6.
4 Eu disse, em 265.7.
5 a mão... a resposta..., ambas em Daniel 5.


1
2
3
4
5
6
7
8
9
10