566. 566. Em Efraim, o dia da chegada da Mãecom Lázaro e as discípulas. O caráter de Pilatos.


12 de fevereiro de 1947.

566.1Na casa de Maria de Jacó já se levantaram, ainda que o dia esteja apenas começando. Eu diria que é dia de sábado, porque estou vendo presentes também os apóstolos que, normalmente, estão em missão. Há uma grande preparação de fornos e de água quente, e Maria é ajudada a peneirar as farinhas e a amassá-las para fazer pães. A velhinha está muito agitada, como uma menina. E enquanto está trabalhando com todos os cuidados, faz perguntas a uns e outros:

– Será mesmo para hoje? E os outros lugares estarão já prontos? Tendes a certeza de que não são mais do que sete?

Pedro é quem responde por todos, enquanto estava tirando a pele de um cordeiro a fim de prepará-lo para ser cozido:

– Devíamos estar aqui antes do sábado, mas parece que as mulheres ainda não estavam prontas e por isso se atrasaram. Mas hoje certamente chegarão. Ah! Sinto-me feliz com isto! O mestre foi para fora? Talvez tenha ido ao encontro delas…

– Sim. Ele saiu com João e Samuel, indo pela estrada do centro da Samaria –responde Bartolomeu, que vai saindo com um cântaro cheio de água fervendo.

– Então, podemos estar certos de que elas vêm. Ele sempre sabe todas as coisas –observa André.

– Eu gostaria de saber por que é que ficas rindo assim? Que é que há para rir quando o meu irmão fala? –pergunta Pedro, que notou a risadinha de Judas, que lá está parado em um canto sem fazer nada.

– Eu não estou rindo do teu irmão. Estais todos contentes e eu também posso estar, e rir-me até sem motivo.

Pedro olha para ele com um olhar bem expressivo, mas torna a ir ocupar-se do seu trabalho.

– Eis. Eu tive um bom trabalho para encontrar um ramo florido. Não é de amendoeira, como eu queria. Mas Ela, tendo terminado a florescência da amendoeira, tem ainda outros ramos, e por isso se contentará com o meu –diz Tadeu, que vem reentrando, gotejando água por causa do orvalho,como se tivesse estado nos bosques, e tendo nas mãos um feixe de ramos floridos.

É um milagre essa candura do orvalho, que parece ter vindo clarear e embelezar a cozinha.

– Oh! Que bonitas! Onde as achaste?

– Na casa de Noemi. Eu sabia que o pomar dela é temporão por causa de sua posição atrás dos montes do norte, que o conservam protegido. E subi para lá.

– Por isso é que tu também estás parecendo uma planta do bosque! As gotas do orvalho estão brilhando em teus cabelos e molharam tua roupa.

– A trilha estava úmida como se tivesse chovido. Começaram já aquelas orvalhadas abundantes dos meses mais belos.

E Tadeu se vai com suas flores e, pouco tempo depois, chama o seu irmão a fim de que o ajude a dispor as flores.

– Vou eu. Eu entendo disso. Mulher, não tens alguma ânfora de pescoço alto e que seja de terra vermelha? –diz Tomé.

– Eu tenho o que estás procurando e também outros vasos… Aqueles que eu usava nos dias de festa… para as núpcias dos meus filhos, ou por outro motivo importante. Se esperas que eu ponha estas fogaças no forno, daqui a uns instantes eu virei abrir-te a arca onde estão colocadas as coisas bonitas… Ah! Agora já são poucas, depois de tantas aventuras! Mas algumas delas eu conservei para… recordar… e sofrer, porque, mesmo sendo elas recordações de alegrias, agora são causa de pranto, pois nos fazem lembrar do que se acabou.

– Então seria melhor que ninguém tas pedisse. Era o que faltava! Eu não gostaria que nos acontecesse como em Nobe. Todos aqueles preparativos para nada… –diz Iscariotes.

– E se eu te disser que um grupo de discípulos bem que nos advertiu?! Pensas que eles tinham sonhado? Eles falaram com Lázaro. E ele os enviou na frente para avisar que antes do sábado já estaria aqui a Mãe com o carro de Lázaro, e Lázaro e as discípulas.

– E, no entanto, elas não vieram…

566.2– Vós, que tínheis visto aquele homem, dizei-me uma coisa: só vê-lo já não causa medo? –pergunta a velhinha, enxugando as mãos no avental depois de ter entregue as suas fogaças a Tiago de Zebedeu e a André, que as levaram para o forno.

– Medo? Por quê?

– Ora! De um homem que volta do meio dos mortos.

Ela está muito comovida.

– Fica calma, mãe. Em tudo ele está como nós –encoraja-a Tiago do Alfeu.

– É melhor que tomes cuidado e não fiques tagarelando com as outras mulheres. Para que não tenhamos daqui a pouco toda Efraim aqui dentro para aborrecer-nos –diz, como quem dá uma ordem, Iscariotes.

– Eu nunca andei falando palavras imprudentes, desde quando vós estais aqui. Nem falei com os da cidade nem com os peregrinos. Preferi passar por tola a mostrar-me sábia, para não perturbar o Mestre e fazer-lhe mal. E também hoje saberei calar-me. Vem, Tomé… –e sai para tirar fora os tesouros escondidos.

– A mulher está espantada pensando em ver um ressuscitado –diz Iscariotes, e ri ironicamente.

– Ela não está sozinha. Disseram-me os discípulos que em Nazaré estavam todos agitados, bem como em Caná e em Tiberíades. Alguém que volte da morte quatro dias depois de sepultado é coisa que não se encontra facilmente, como as margaridas da primavera. Também nós estávamos bem pálidos quando ele saiu do sepulcro! Mas, melhor do que ficar aí fazendo comentários inúteis, não poderíeis ir trabalhar? Todos trabalhamos e ainda há muita coisa por fazer… Hoje, que ainda se pode fazê-lo, vai à feira e compra o que for preciso. Tudo o que trouxemos não basta, agora que eles vão vir, e não teríamos tempo para voltar à cidade e fazer as compras. Seríamos detidos onde estivéssemos pelo pôr do sol.

Judas chama Mateus, que tornou a voltar para a cozinha, todo já em ordem, e saem juntos.

566.3Entra na cozinha Zelotes, ele também já preparado para sair, e diz:

– Aquele é Tomé. É um verdadeiro artista. Com um nadinha ele adornou a cozinha para um jantar de núpcias. Ide ver.

Todos, menos Pedro, que está terminando o seu trabalho, correm para ver. Pedro diz:

– Não vejo o momento em que já estejam aqui. Talvez esteja aqui também Marziam. Daqui a um mês é a Páscoa. Certamente ele já terá partido de Cafarnaum ou de Betsaida.

– Eu estou contente que venha Maria, por causa do Mestre. Ela o confortará mais do que todos nós. E Ele tem necessidade disso –responde Zelotes.

– E muita. Mas já notastes como até João está triste? Eu lhe fiz uma pergunta. Mas foi inútil. Naquela sua doçura, ele é mais firme do que todos nós e, quando ele não quer dizer, ninguém o faz falar. Mas eu tenho a certeza de que ele sabe alguma coisa. Ele parece ser a sombra do Mestre. Pois o acompanha sempre. Olha sempre para Ele. E quando não sabe que está sendo observado — porque nesse caso ele responde ao teu olhar com aquele seu sorriso que amansaria até um tigre — quando ele não sabe que está sendo observado, eu vejo o seu rosto tornar-se triste, muito triste. Experimenta tu fazer-lhe uma pergunta. Ele te quer muito bem. E sabe que tu és mais prudente do que eu.

– Oh! Isso não. Tu te tornaste um exemplo de prudência para todos nós. Não se reconhece mais em ti o velho Simão. És realmente a pedra, por sua robusta e firme compacidade, que sustém a todos nós.

– Mas deixa disso! Não o digas! Eu sou um pobre homem. É verdade que estando com Ele durante tantos anos, nós nos tornamos um pouco semelhantes a Ele. Um pouco… muito pouco, mas já bem diferente do que éramos antes. Estamos todos assim, mas não todos, infelizmente. 566.4Judas é sempre o mesmo. Tanto aqui como em Águas Belas…

– E queira Deus que seja sempre igual!

– O que? Que queres dizer?

– Nada e tudo, Simão de Jonas. Se o Mestre me ouvisse, me diria: “Não julgues.” Mas isso não é julgar. Isto é temer. Eu temo que Judas esteja pior do que em Águas Belas.

– Claro que está, mesmo se ainda é como era naquele tempo. Ele está pior, mesmo devendo ter mudado muito e crescido na justiça, contudo assim não fez, pois é sempre o mesmo. O que ele tem é o pecado de acídia espiritual, que antes não tinha. Porque nos primeiros tempos era louco, sim, mas era cheio de boa vontade… Dize-me uma coisa: que é que te faz pensar o fato de o Mestre ter decidido mandar conosco Samuel, e reunir todos os discípulos no maior número possível, lá em Jericó, pela lua nova de Nisã? Antes Ele havia dito que o homem ficaria aqui… Antes também nos havia proibido de dizer onde Ele estava. Eu tenho uma suspeita…

– Não. Eu vejo as coisas claras e lógicas. Enfim, não se sabe por quem nem como foi divulgada a notícia de que o Mestre está aqui, e essa notícia já chegou a toda a Palestina. Vê bem como aqui têm chegado peregrinos e discípulos de Quedes, e até de Engadi, de Jope e de Bozra. E, portanto, é inútil continuar a guardar o segredo. Além disso, a Páscoa já está perto, e é certo que o Mestre quer ter os discípulos consigo quando voltar a Jerusalém. O Sinédrio diz, pois eu já ouvi falar, que Ele está vencido e que já perdeu todos os seus discípulos. E Ele lhes vai responder entrando na cidade à frente dos discípulos…

– Eu tenho medo, Simão. Um grande medo… Já ouviste, não? Todos, até os Herodianos, se uniram contra Ele…

– Ora, pois sim! Deus nos ajude!…

– E Samuel, por que é mandado conosco?

– Certamente a fim de prepará-lo para a sua missão. Não vejo motivos para agitação… 566.5Estão batendo à porta. Com certeza são as discípulas!…

Pedro tira o seu avental ensanguentado e sai correndo atrás do Zelotes, que já chegou à porta da casa.

Aparecem pelas outras portas os outros que estão na casa e todos gritam: “Ei-las! Ei-las!”

Mas depois de abrirem as portas, ficam tão claramente desiludidos, diante de Elisa e de Nique, que as duas discípulas lhes perguntam:

– Mas terá acontecido alguma coisa?

– Não! Não! Mas é que… pensamos que fosse a Mãe e as discípulas da Galileia… –diz Pedro.

– Ah! Vós ficastes mal. Enquanto nós estamos muito alegres por ver-vos e por saber que Maria está para chegar –diz Elisa.

– Não ficamos mal. Ficamos, sim, desiludidos! Mas vinde, entrai. A paz esteja com as boas irmãs! –saúda por todos Tadeu.

– E a vós. O Mestre não está?

– Ele foi com João ao encontro de Maria. Sabe-se que ela vem pela estrada de Siquém, no carro de Lázaro –explica Zelotes.

Entram em casa, enquanto André se ocupa do burrinho de Elisa. Nique veio a pé. Está falando do que aconteceu em Jerusalém e perguntando pelos amigos e discípulos… por Anália, Maria e Marta, pelo velho João de Nobe, por José, Nicodemos, e muitos outros. 566.6A ausência de Judas Iscariotes dá ocasião para que se possa falar em paz e abertamente.

Elisa, que já é uma mulher anciã e de experiência, e que nos tempos de Nobe conversou com Iscariotes e já o conhece muito bem, e até “o ama só mesmo por amor de Deus”, como ela mesma diz abertamente, procura informar-se antes se ele está em casa ou saiu, deixando de unir-se aos outros por qualquer capricho, e somente depois de ficar sabendo que ele está fora fazendo as compras é que ela fala do que ficou sabendo: “que em Jerusalém parece estar tudo calmo, a ponto de não serem mais interrogados os discípulos conhecidos, e se sussurra que isso aconteceu por Pilatos ter engrossado a voz com os do Sinédrio, e fez que se lembrem de que a justiça na Palestina é ele que a exerce, e que por isso ele dá por terminado o assunto.”

Nique observa:

– E até se diz — e é justamente Manaém quem o diz, e com ele outros; até outra, porque é Valéria a outra voz — que Pilatos está verdadeiramente tão cansado com essas insurreições que têm abalado a cidade, e que lhe podem trazer aborrecimentos, que ele está impressionado também pela insistência com que os judeus lhe insinuam que Jesus tem em vista proclamar-se rei, a tal ponto que, se não lhe fossem favoráveis as notícias que lhe têm chegado por meio dos centuriões e as pressões de sua mulher, ele acabaria por punir o Cristo, talvez mandando-o para o exílio, para, afinal, não ter mais aborrecimentos.

– Só faltava essa! E ele é capaz de fazer isso. Muitíssimo capaz. É o mais leve dos castigos romanos e o mais usado depois da flagelação! Mas pensaste nisso? Jesus sozinho, e quem sabe onde, e nós espalhados aqui e ali… –diz Zelotes.

– É! Espalhados! Tu dizes. Mas a mim não espalham. Eu vou atrás Dele… –diz Pedro.

– Oh! Simão! Podes iludir-te pensando que te deixariam agir. Eles te amarram como a um condenado e te levam para onde quiserem, talvez para as galeras ou para dentro de uma das prisões deles, e tu, ao teu mestre não poderás mais acompanhar –diz Bartolomeu.

Pedro sente arrepiarem-lhe os cabelos, perplexo, desanimado.

– Nós o iremos dizer a Lázaro. E Lázaro irá diretamente a Pilatos. É certo que Pilatos verá o caso benevolamente, pois esses gentios gostam de ver seres extraordinários… –diz Zelotes.

– Ele já terá estado lá antes de partir, e Pilatos não desejará vê-lo mais –diz Pedro, abatido.

– Então ele irá lá como filho de Teófilo. Ou então acompanhará sua irmã Maria às casas das damas. Elas eram suas amigas, quando… sim, quando Maria era a pecadora…

566.7– Sabeis que Valéria, depois que o marido se divorciou dela, tornou-se uma prosélita? Ela procedeu seriamente. Leva uma vida de justa que é um exemplo para muitos de nós. Ela libertou os seus escravos e dá instruções a todos sobre o verdadeiro Deus. Ela havia adquirido uma casa em Sião. Mas agora que Cláudia chegou, ela voltou para a casa dela…

– Então!…

– Não. A mim ela disse: “Como Joana veio, eu vou ficar com ela. Porque agora quero persuadir Cláudia”… Parece que Cláudia não consegue superar a dificuldade que tem para crer em Cristo. Para ela, Ele é um sábio. E nada mais… Aliás, parece que, antes de vir para a cidade, estava um pouco perturbada pelas notícias que haviam feito correr e, com ceticismo, dizia: “É um homem como os nossos filósofos e não dos melhores. Porque sua palavra não concorda com sua vida”, e teve os… as… enfim, se tinha permitido coisas que antes havia abandonado, diz Nique.

– Tudo isso era de se esperar. Almas pagãs! Uhm! Pode haver uma que seja boa. Mas as outras!… Imundície! Imundície! –sentencia Bartolomeu.

– E José? –pergunta Tadeu.

– Qual? Aquele de Séforis? Ele tem muito medo! Ah! Veio o irmão, José! Ele veio e partiu logo, mas passou de novo por Betânia, a fim de dizer às irmãs que impeçam a todo custo o Mestre de ir à cidade e de parar por lá. Eu estive lá e ouvi. E assim foi que fiquei sabendo que José de Séforis teve muitos aborrecimentos e agora está com muito medo. Vosso irmão o encarregou de ficar sempre a par do que está sendo tramado no Templo. Aquele de Séforis o pode saber por meio daquele seu parente, que é o marido não sei se da irmã ou da filha da irmã da mulher que trabalha no Templo –diz Elisa.

566.8– Quanto medo! Agora, quando formos a Jerusalém, quero mandar meu filho à casa de Anás. Eu poderia também ir até lá, porque eu também conheço bem aquela velha raposa. Mas João sabe fazer as coisas. E Anás lhe queria muito bem, porque ele ouvia as palavras daquele velho lobo, que se pensava que fosse um cordeiro! Eu mandarei João. Ele saberá suportar até os impropérios sem reagir. Eu… se ele dissesse uma maldição contra o Mestre, ou então, que estou amaldiçoada porque o acompanho, eu lhe saltaria ao pescoço, e o seguraria, e apertaria aquele velho como se fosse uma rede da qual se espreme a água. E eu o faria entregar a alma vesga que ele tem dentro de si! Eu o faria mesmo que todos os soldados e sacerdotes estivessem ao redor do Templo!

– Oh! Se o Mestre te ouvisse falando assim! –diz, escandalizado, André.

– É justamente porque Ele não está aqui que eu falo!

– Tens razão. Não és tu somente que tens essa vontade. Eu também a tenho! –diz Pedro.

– E eu também, e não somente com Anás –diz Tadeu.

– Oh! Para isso eu estaria pronto a agir com muitos outros. Eu tenho uma longa lista… Aquelas três carcaças de Cafarnaum — eu excluo o fariseu Simão, porque ele é sofrivelmente bom. Aqueles dois lobos de Esdrelon e aquele velho montão de ossos que é Cananias, e depois… uma carnificina, sim, eu vos digo, uma carnificina em Jerusalém a começar pelo Elquias.

Pedro está furioso.

Tadeu, calmo para falar, mas ainda mais impressionante em sua calma glacial do que se estivesse furioso como Pedro, diz:

– Eu te ajudaria. Mas… talvez eu começasse por eliminar as serpentes que estão perto de nós.

– Quem? Samuel?

– Não, não! Perto de nós não está somente Samuel. Há muitos que mostram uma cara mas têm uma alma diferente da cara que mostram! Eu não os perco de vista. Nunca. Quero ter certeza antes de agir. Mas quanto tiver! O sangue de Davi é quente, e quente é o da Galileia. Estão em mim, tanto pela linhagem paterna como pela materna, pelas duas.

– Oh! E se souberes, avisa-me, hem! Eu te ajudo –diz Pedro.

– Não. A vingança do sangue é com os parentes. Cabe a mim.

566.9– Mas, meus filhos! Meus filhos! Não faleis assim. Não é isso que o Mestre ensina! Estais parecendo uns leõezinhos enfurecidos, em vez de serdes os cordeirinhos do Cordeiro. Despi-vos desse espírito de vingança. Os tempos de Davi estão superados já há um bom tempo. A lei do sangue e de talião foram anuladas pelo Cristo. Ele deixa os dez Mandamentos imutáveis, mas as outras duras leis de Moisés, Ele as revoga. De Moisés ficam os mandamentos de piedade, de humanidade e justiça, compreendidos e aperfeiçoados pelo nosso Jesus, no maior dos seus mandamentos: “Amar a Deus com todo o nosso ser, amar ao próximo como a nós mesmos, perdoar a quem nos ofende e amar a quem nos odeia.” Oh! Perdoai, se eu, uma mulher, ousei ensinar aos meus irmãos, e que são maiores do que eu! Mas eu sou uma velha mãe. Mas uma mãe sempre pode falar. Crede, meus filhos! Se vós mesmos chamardes Satanás, para que ele esteja em vós, junto com o ódio para com os inimigos e o desejo de vingança, ele entrará em vós e vos corromperá. Satanás não é uma força. Acreditai nisso. Força é Deus. Satanás é uma fraqueza, um peso, um torpor. Vós não poderíeis mais nem mover um dedo contra os inimigos, nem mesmo para fazer uma carícia ao nosso aflito Jesus, se o ódio e a vingança vos tivessem aprisionado. Vamos, meus filhos, todos os meus filhos! E vós também, que tendes tantos anos como eu, e até mais, talvez. Todos sois filhos para esta mulher que vos ama, para esta mãe que reencontrou a alegria de ser mãe amando-vos, todos vós, como filhos. Não me façais de novo ficar angustiada por ter perdido tão precocemente os caros filhos, e para sempre. Porque se morrerdes com o ódio ou com o delito, estareis mortos para sempre, e já não poderemos mais unir-nos lá em cima, cheios de júbilo, ao redor do nosso amor comum: Jesus! Prometei aqui, agora, a mim que vo-lo suplico, a esta pobre mulher, a uma pobre mãe, que não ficareis mais com esses pensamentos. Oh! Eles desfiguram até os vossos rostos. Vós me ficais parecendo uns desconhecidos, diferentes do que sois! Como o rancor vos faz ficar feios! Como éreis agradáveis! Mas, afinal, que foi que aconteceu? Escutai-me! Maria vos diria as minhas próprias palavras, com mais potência, porque Ela é Maria. Mas é melhor que Ela não saiba como é grande a dor… Oh! Pobre Mãe! Que foi que aconteceu? Será que eu devo crer mesmo que está chegando a hora das trevas, a hora que nos engolirá a todos, a hora em que Satanás será rei em todos, menos no Santo, e extraviará até os santos, até vós, fazendo-vos desprezíveis, perjuros e cruéis como ele é? Oh! Até agora fiquei sempre esperando! E sempre tenho dito: “Os homens não prevalecerão contra o Cristo.” Mas agora! Agora eu, por minha vez, temo e tremo! Sob este céu sereno de Adar, vejo que vem chegando e invadindo tudo a grande sombra que se chama Lúcifer, e pondo-vos todos no escuro e fazendo chover tóxicos, que vos tornam doentes. Oh! Tenho medo!

Elisa, que há tempo já vinha chorando sem mover-se, abandona-se com a cabeça sobre a mesa, junto à qual ela está sentada e soluçando dolorosamente.

566.10Os apóstolos olham um para o outro. Depois, aflitos, põem-se a confortá-la. Mas ela não quer ser confortada, e diz:

– Um, um só conforto me podeis dar: a vossa promessa. Para o vosso bem! E para que Jesus não tenha que contar, entre suas dores, mais esta, que é a maior de todas: a de ver-vos condenados, a vós que agora sois os seus diletos.

– Pois, sim, Elisa. Se é isso que tu queres! Não chores, mulher! Nós te prometemos. Escuta. Nem mesmo olharemos, para não ver. Não chores! Não chores! Nós perdoaremos a quem nos ofende. E amaremos a quem nos odeia! Vamos! Não fiques chorando.

Elisa levanta o rosto cheio de rugas, banhado pelo pranto, e diz:

– Lembrai-vos disso. Vós me prometestes. Repeti-o!

– Nós te prometemos, mulher!

– Meus caros filhos! Agora, sim, que me agradais! Eu reconheço que sois bons. Agora, que se acalmou a minha preocupação e que vós vos purificastes daquele fermento amargo, preparemo-nos para receber Maria. Que temos que fazer? –diz ela, acabando de enxugar os olhos.

– Verdadeiramente… já tínhamos feito. Como homens. Mas Maria de Tiago nos ajudou. Ela é uma samaritana, mas é muito boa. Agora ela está junto ao forno, esperando que o pão fique pronto. Ela está sozinha. Seus filhos, mortos ou esquecidos dela com suas riquezas dissipadas; e, com tudo isso, ela não guarda rancores…

– Ah! Vede só! Estais vendo que há quem sabe perdoar, mesmo entre os pagãos, os samaritanos? E deve ser terrível, vós sabeis disso, ter que perdoar a um filho!… É melhor morto do que pecador! Ah!

566.11Tendes a certeza de que Judas não está aqui?

– Se ele não virou passarinho, aqui não pode estar, pois estão abertas as janelas, mas fechadas todas as portas, menos esta.

– Então… Maria de Simão esteve em Jerusalém com o seu parente. Ela foi oferecer sacrifícios no Templo. Depois veio até nós. Parece uma mártir. Como está aflita! Ela me perguntou, e perguntou a todos, se não sabíamos nada sobre seu filho. Se ele estava com o Mestre. Se tinha estado sempre com Ele.

– Que é que aquela mulher tem? –pergunta, espantado, André.

– Ela tem o seu filho. Não te parece que basta? –pergunta Tadeu.

– Eu procurei reconfortá-la. Ela quis voltar conosco ao Templo. Então, fomos todas juntas rezar… Depois ela voltou, sempre com sua preocupação. E eu lhe disse: “Se ficas conosco, daqui a pouco iremos ao Mestre. Com Ele está o teu filho.” Ela já sabia que Jesus está aqui. Isto já está sabido até nos confins da Palestina. Mas ela disse: “Não, não. O Mestre me disse que eu não fosse a Jerusalém durante a primavera. Eu obedeço. Mas eu quis, antes do tempo de sua volta, subir ao Templo. Estou com tanta necessidade de Deus!” E então ela disse uma palavra estranha… Ela disse: “Eu não tenho culpa. Mas o inferno está em mim e eu nele, pelo tanto que estou sendo torturada”… Nós lhe fizemos muitas perguntas. Mas ela não quis dizer nada mais. Nem quais eram suas torturas nem quais as razões da proibição feita por Jesus. Ela nos pediu que não disséssemos nada nem a Jesus nem a Judas.

– Pobre mulher! Então, pela Páscoa ela não estará lá? –pergunta Tomé.

– Não estará.

– Ora, se Jesus lhe impõe deve ter seus motivos… Vós ouvistes, não? Por toda parte se sabe que Jesus está aqui –diz Pedro.

– Sim. E quem dizia isso era como se tivesse dado um toque de recolher em nome de Jesus, para que se sublevassem “contra os tiranos”, como diziam alguns. E outros diziam que Ele está aqui por saber que está desmascarado…

– São sempre as mesmas razões! Devem ter gasto todo o ouro do Templo para enviarem estes… servos deles por toda parte! –observa André.

566.12Ouvem-se umas batidas na porta.

– Estão aqui! –dizem eles, e correm para abrir.

Mas é Judas com suas compras. Mateus o acompanha. Judas vê Elisa e Nique, e as saúda, perguntando-lhes:

– Estais sozinhas?

– Sozinhas. Maria ainda não veio.

– Maria não vem das bandas do sul e não pode, portanto, estar convosco. Eu perguntava se Anastásica não veio.

– Ela não vem. Ficou em Betsur.

– Por quê? Ela também é discípula. Não estás sabendo que daqui iremos pela Páscoa a Jerusalém? Ela já devia estar aqui. Pois, se não são perfeitas as discípulas e os fiéis, quem o será então? Quem irá formar o cortejo ao Mestre para acabar com o boato de que todos o abandonaram?

– Ah! É por isso? Não será uma pobre mulher que irá preencher os lugares vazios! As rosas ficam bem entre os espinhos; ou, então, nos jardins fechados. Eu as trato como mãe, e assim ordenei.

– Então, pela Páscoa ela não estará lá?

– Não estará.

– Nenhuma das duas! –exclama Pedro.

– Que estás dizendo? São duas? –pergunta Judas, sempre suspeitoso.

– Nada, nada! É uma ideia minha. Pode-se pensar em tantas coisas, não? Até as moscas, por exemplo, que vêm pousar sobre o cordeiro do qual tirei a pele.

Vem entrando de novo Maria de Tiago, acompanhada por Samuel e João, que trazem os pães desenfornados. Elisa saúda a mulher e Nique também. E Elisa tem uma boa palavra, para deixar logo a mulher despreocupada:

– Estás aqui, Maria, na companhia de duas irmãs que também estão sofrendo. Eu estou sozinha, tendo perdido o esposo e filhos, e esta mulher está viúva. Por isso, nos amaremos, porque somente quem chorou é capaz de compreender.

566.13Nesse momento Pedro diz a João:

– Mas, como? O Mestre já está aqui?

– Está no carro. E com sua Mãe.

– E por que não o tinhas dito já?

– Não me deste nem o tempo. Aqui estão todas. Mas vereis como está emagrecida Maria de Nazaré. Parece ter envelhecido alguns lustros. Diz Lázaro que ela ficou muito preocupada quando ele lhe disse que Jesus havia se refugiado aqui.

– E para que lhe foi dizer isso aquele tolo? Antes de morrer, ele era inteligente. Mas talvez no sepulcro o seu cérebro ficou reduzido a uma papa e não se reconstruiu. Ninguém fica morto impunemente –diz, com desprezo e ironia Judas de Keriot.

– Não é nada disso. Procura primeiro saber, para depois falar. Lázaro de Betânia o disse a Maria quando já estavam na estrada, ao admirar-se Ela da estrada que ele ia tomando –diz, muito sério, Samuel.

– Sim. Na primeira passagem por Nazaré ele disse somente: “Eu te levarei a teu Filho daqui a um mês.” E não lhe disse: “Vamos a Efraim”, quando estavam já de partida, mas… –diz João.

– Todos sabem que Jesus está aqui. Será que ela não sabia? –pergunta sempre com seus modos de vilão Judas, interrompendo as palavras do companheiro.

– Maria sabia. Já tinha ouvido dizer. Mas, visto que um rio de mentiras diversas está correndo, um rio todo barrento através da Palestina, ela não acolhia como verdadeira uma notícia qualquer. Ela se ia consumando em seu silêncio, rezando. Mas assim que se viram em viagem, tendo Lázaro tomado a estrada que vai ao longo do rio, com a intenção de desorientar os nazarenos e todos os de Caná, de Séforis e de Belém da Galileia…

– Ah! Está também Noemi, com Mirta e Áurea? –pergunta Tomé.

– Não. Por Jesus foram proibidas de vir. Esta ordem foi trazida por Isaque, quando ele voltou da Galileia…

– Então… também estas mulheres não estarão conosco, como no ano passado.

– Não estarão conosco.

– E são três!

– Nem mesmo as vossas mulheres e filhas. O Mestre o disse a elas mesmas, antes de sair da Galileia. E já o disse pela segunda vez. Porque minha filha Mariana me disse que Jesus já o havia dito desde a Páscoa passada.

– Ora, muito bem! Estará pelo menos Joana? Salomé? Maria de Alfeu?

– Sim. E Susana.

– Sim. E certamente Marziam… 566.14Mas que barulho é este?

– São carros! Os carros! Com todos os nazarenos que não se deram por vencidos e acompanharam Lázaro… junto com os de Caná…

–responde João, que se põe a correr com os outros.

Ao abrirem a porta, apresenta-se à vista um espetáculo tumultuoso. Além de Maria, sentada ao lado de seu Filho, e das discípulas, além de Lázaro, de Joana, no carro, junto com Maria e Matias, Ester e outras serventes, e o fiel Jônatas, há uma multidão de pessoas: rostos conhecidos e rostos desconhecidos. De Nazaré, de Caná, Tiberíades, de Naim, de Endor. E samaritanos de todos os vilarejos pelos quais passaram durante a viagem, e outros vizinhos. E eles se precipitam diante dos carros, obstruindo a passagem para quem quer sair ou entrar.

– Mas que querem esses aí? Por que vieram? Como ficaram sabendo?

– Ora! Os de Nazaré estavam alertados, e tendo Lázaro chegado lá de tarde para partir na manhã seguinte, de noite eles correram às cidades vizinhas; e assim também fizeram os de Caná, pois Lázaro havia passado por lá, a fim de apanhar a Susana e encontrar-se com Joana. E alguns o acompanharam, enquanto outros foram chegando antes dele para verem Jesus e para verem Lázaro. E os da Samaria também ficaram sabendo e foram unir-se aos outros. E então estão todos… –explica João.

– Dize, tu que estavas com medo de que o Mestre não ia ter um cortejo, será que agora te parece suficiente este? –diz o Filipe a Iscariotes.

– Eles vieram por causa de Lázaro…

– Mas tendo-o já visto eles já podiam ter ido para frente. Mas ficaram parados aí. Isto é sinal de que vieram por causa do Mestre.

– Está bem. Não fiquemos falando palavras inúteis. Mas procuremos abrir alas para que eles possam entrar. Força, rapazes! Vamos voltar aos exercícios! Há muito tempo que não se trabalha com os cotovelos, a fim de abrir alas para o Mestre –e Pedro se põe em primeiro lugar a abrir um sulco por entre a multidão, que canta hosana, curiosa, devota ou faladeira, conforme o caso.

E tendo feito isso, ajudado pelos outros e por muitos discípulos, que, espalhados pelo meio do povo, estão procurando reunir-se aos apóstolos, mantém um espaço vazio para que as mulheres possam refugiar-se em casa, e assim Jesus e Lázaro. Depois ele fecha a porta e sai por último, trancando-a com fortes correntes e barras e mandando aos outros fechar a do lado do jardim.

566.15– Oh! Finalmente! A paz esteja contigo, Maria bendita. Finalmente te estou vendo! Agora tudo está bonito, porque tu estás conosco! –saúda-a Pedro, inclinando-se até o chão diante de Maria.

É uma Maria de rosto triste, pálido e cansado, um rosto já de Dolorosa.

– Sim, agora está tudo menos doloroso porque estou aqui perto dele.

– Eu te havia garantido que não estava dizendo mais do que a verdade! –diz Lázaro.

– Tens razão… Mas o sol se escureceu para mim e cessou toda paz desde quando fiquei sabendo que o meu Filho estava aqui… Então é que compreendi… Oh!

Outras lágrimas descem sobre as faces pálidas.

– Não chores, minha Mãe! Não chores! Eu estava aqui no meio desta gente boa, perto de uma outra Maria, que é uma mãe –e Jesus a guia para um quarto que se abre para o jardim silencioso.

Todos os acompanham. Lázaro se desculpa:

– Eu tive de dizer, pois Ela conhecia a estrada e não entendia por que fui por aquela. Acreditava que Ele estivesse comigo em Betânia… E em Siquém houve um homem que gritou: “Vamos também nós para Efraim ao encontro do Mestre.” Não me foi possível dar nenhuma desculpa. Eu até esperava ficar longe daquelas pessoas, partindo de noite, por caminhos pouco conhecidos. Mas nada. Estavam de guarda em todos os lugares e, enquanto um grupo me acompanhava, o outro ia pelos arredores para levar a notícia.

566.16Maria de Tiago traz leite, mel, manteiga e pão fresco e os oferece a Maria em primeiro lugar, e olha para Lázaro de alto a baixo, meio curiosa e meio espantada, e sua mão tem uma sacudidela, quando, ao dar o leite a Lázaro, roça nele a mão; e sua boca não consegue segurar um “oh!” quando o vê comer de sua fogaça como todos os outros.

Lázaro é o primeiro a rir-se, dizendo com afabilidade e firmeza, como todos os homens nobres por nascimento:

– Sim, mulher, eu como de verdade, e me agrada o teu pão e o leite. Certamente não recusarei uma cama, pois estou sentindo cansaço e estou com muita fome.

Depois ele se vira para todos, dizendo:

– Muitos são os que tocam em mim e depois pedem desculpas, mas o que eles querem é perceber que sou eu mesmo de carne e osso, e que o meu corpo tem calor e que eu respiro. Isso é um pequeno aborrecimento. Ao terminar esta minha missão, eu irei me fechar de novo em Betânia. Perto de Ti, Mestre, eu seria motivo de distrações demais. Eu tenho feito brilhar e tenho dado testemunho do teu poder até na Síria. Agora eu vou eclipsar-me. Tu somente é que deves resplandecer no Céu do milagre, no Céu de Deus e à vista dos homens.

Maria também está dizendo à velhinha:

– Tu tens sido boa para com o meu Filho. Ele me disse o quanto o tens sido. Deixa que eu te beije para mostrar-te quanto te sou agradecida. Nada tenho para recompensar-te, a não ser o meu amor. Eu também sou pobre… e também posso dizer que não tenho mais filho, porque Ele é de Deus e de sua missão… E que assim seja sempre, porque santo e justo é tudo o que Deus quer.

Maria é afável, mas percebe-se como já está atribulada… Pois os apóstolos olham para ela com dó, até ao ponto em que chegam a esquecer-se dos que fazem tumulto lá fora e de pedirem notícias dos parentes distantes.

Mas Jesus diz:

– Vou subir para despedir e abraçar o povo.

566.17E então, Pedro parece acordar, e diz:

– Mas onde está Marziam? Já vi todos os outros discípulos e não o vi.

– Marziam não está –responde Salomé, mãe de Tiago e de João.

– Marziam não está? Por quê? Está doente?

– Não. Ele está bem. E bem também está tua mulher. Mas Marziam não está. Porfíria não o deixou vir.

– Mulher estulta! Daqui a um mês é a Páscoa e ele deve vir pela Páscoa. Ela podia mandá-lo vir convosco, dar uma alegria ao filho e outra a mim. Mas ela é mais tarda do que uma velha para entender as coisas e…

– João e Simão de Jonas, e tu, Lázaro, com Simão Zelotes, vinde comigo. E vós todos, ficai aqui, onde estais, até que eu me despeça do povo e separe do povo os discípulos –ordena Jesus e sai com os quatro, fechando a porta.

Jesus atravessa o corredor, a cozinha e sai para o jardim, acompanhado por Pedro, que está resmungando, e pelos outros. Mas antes de pôr o pé no terraço, para na escadinha, vira-se, pondo uma mão sobre o ombro de Pedro, que levanta o rosto, descontente.

– Escuta-me bem, Simão Pedro, e deixa de ficar acusando e reprovando Porfíria. Ela é inocente. Ela está obedecendo a uma ordem minha. Sou Eu que lhe ordenei, antes dos Tabernáculos, que não deixasse Marziam vir à Judéia

– Mas é a Páscoa, Senhor?

– Eu sou o Senhor. Tu o dizes. E como Senhor, Eu posso ordenar qualquer coisa, pois que minha ordem é justa. Por isso não te deixes perturbar por escrúpulos. Estás lembrado do que está escrito1 nos Números? “Se alguém de vossa nação está imundo, ou está em viagem para longe, faça a Páscoa do Senhor no décimo quarto dia do segundo mês pela tarde.”

– Mas Marziam não está imundo, pelo menos eu espero que Porfíria não vá querer morrer justamente agora, nem ela está de viagem… –objeta Pedro.

– Não importa. Eu assim quero. Há coisas que nos tornam mais imundos do que um morto. Marziam… Não quero que ele se contamine. Deixa-me agir, Pedro. Eu sei. Sê capaz de obedecer, como o é a tua mulher e o próprio Marziam. Faremos com ele a segunda Páscoa no décimo quarto dia do segundo mês. E, então, estaremos felizes. Eu te prometo.

Pedro faz um gesto como para dizer: “Resignemo-nos”, mas não objeta nada.

566.18Zelotes observa:

– Já é muito que tu não continues a fazer a conta de quantos não estarão para fazer a Páscoa na cidade!

– Já não estou mais com vontade de contar. Tudo isso traz um mal-estar para cima de mim… Um gelo… Os outros podem saber?

– Não. Foi por isso que Eu vos chamei em particular.

– Então… eu também tenho alguma coisa a dizer a Lázaro em particular.

– Dize-o. Se eu puder, te responderei –diz Lázaro.

– Oh! Mesmo que não me respondas, não faz mal. Basta-me que tu vás a Pilatos — a ideia é do teu amigo Simão — e que tu, entre uma palavra e outra, consigas saber dele o que é que ele pensa fazer com Jesus de bem ou de mal… Sabes… mas com jeito… Porque dele se dizem tantas coisas!…

– Eu o farei. Logo que chegar a Jerusalém. Passarei por Betel e Ramá, em vez de passar por Jericó, para ir a Betânia, pararei no palácio de Sião e irei a Pilatos. Fica sossegado, Pedro, que eu serei hábil e sincero.

– E perderás o tempo à toa, meu amigo. Porque Pilatos — tu o sabes como homem e Eu o sei como Deus — não é mais do que um caniço que se dobra para o lado oposto ao furacão, tentando fugir dele. Ele nunca deixa de ser sincero. Porque está sempre convicto do que quer fazer e faz o que diz naquele momento. Mas, no momento seguinte, por causa do ronco do tufão que vem chegando, oh! não é que ele falte com suas promessas e com sua vontade — ele se esquece, é só isso, de tudo o que disse antes. Ele se esquece porque o ronco de uma vontade mais forte do que a dele o faz perder a memória, sopra para fora dela todos os pensamentos que um outro ronco nela havia colocado e põe dentro dela outros pensamentos novos. Depois, acima de todos os tufões que, com mil vozes, a começar pela da mulher que ameaça separar-se dele se ele não fizer o que ela quer — e uma vez separado dela, lá se vai toda a sua força, toda sua proteção que lhe vinha do “divo” César, como eles dizem, mesmo estando convencidos de que esse César é mais desprezível do que eles… Mas eles sabem ver a Ideia no homem, ainda que a Ideia anule o homem que se apresenta com ela, e a Ideia não se pode dizer que seja imunda, pois todo cidadão ama, é justo que ame a sua Pátria, que queira o seu triunfo… César é a Pátria… e eis… que até um miserável é… um dos grandes por aquilo que ele representa. Mas eu não queria falar de César e, sim, de Pilatos! Eu dizia, então, que acima de todas as vozes, desde a voz da mulher até às vozes das multidões, está a voz, oh! que voz! do seu eu. Do eu pequeno do pequeno homem, do eu ávido do homem, do eu orgulhoso do homem orgulhoso. E essa pequenez, essa avidez, esse orgulho querem reinar para serem grandes, querem reinar para serem cheios de dinheiro, querem reinar para poderem dominar sobre uma multidão de súditos que o reverenciem. O ódio mina por baixo, mas quem não o vê é o pequeno César chamado Pilatos, o nosso pequeno César… Ele vê somente as colunas vertebrais inclinadas, que fingem ter uma veneração e um tremor na frente dele, ou que sentem realmente este ou aquela. E com esta voz tempestuosa do eu, ele está disposto a tudo, contanto que continue a ser Pôncio Pilatos, o Procônsul, o servo do César, o dominador de muitas regiões do império. E por tudo isso, mesmo que agora seja meu defensor, amanhã será meu Juiz, e inexorável. Sempre é incerto o pensamento do homem. É muito mais incerto quando esse homem é Pôncio Pilatos. Mas, Lázaro, procura contentar Pedro… se é que isso o pode consolar.

– Consolar, não, mas… conservar-me mais calmo, se…

– Então, contenta o nosso bom Pedro, e vai a Pilatos…

– Eu irei, Mestre. Mas Tu pintaste o Procônsul como nenhum historiador ou filósofo teria podido fazer. Fizeste um trabalho perfeito!

– Do mesmo modo Eu poderia pintar o homem em sua verdadeira imagem. 566.19Mas vamos até o meio destes que estão tumultuando.

Sobe pelos últimos degraus da escadinha e se apresenta. Levanta os braços e diz com voz forte:

– Homens da Galileia e da Samaria, discípulos e seguidores. O vosso amor, o desejo de honrar-me e de honrar minha Mãe e ao meu amigo, fazendo uma escolta ao carro deles, já me diz qual é o vosso pensamento. Eu só posso abençoar-vos por esse vosso pensamento. Mas agora voltai para vossas casas, para vossos trabalhos… Vós da Galileia, ide e dizei aos que lá ficaram que Jesus de Nazaré os abençoa. Homens da Galileia, nós nos veremos pela Páscoa em Jerusalém, onde entrarei no dia depois do sábado, antes da Páscoa. Homens de Samaria, ide vós também, e que saibais não limitar o vosso amor por Mim só a seguir-me e procurar-me nos caminhos da terra, mas nos do espírito. Ide, e que a Luz brilhe em vós. Discípulos do Mestre, separai-vos dos fiéis e ficai em Efraim para receberdes as minhas instruções. Ide. Obedecei.

– Ele tem razão. Nós o perturbamos. Ele quer estar com sua Mãe

–gritam os discípulos e os nazarenos.

– Nós iremos. Mas antes queremos que nos prometas que irás a Siquém antes da Páscoa. Até Siquém! Até Siquém!

– Eu irei. Ide. Eu irei antes de subir para Jerusalém, pela Páscoa.

– Não vás! Não vás! Fica conosco! Conosco! Nós te defenderemos e te faremos nosso Rei e Pontífice. Estes daqui te odeiam! Nós te amamos! Abaixo os judeus! Viva Jesus.

– Silêncio. Não façais tumulto. Minha Mãe sofre com esses gritos que me podem fazer mais mal do que uma palavra de maldição. Ainda não chegou a minha hora. Ide. Eu passarei por Siquém. Mas tirai do vosso coração o pensamento de que Eu possa, por uma baixa vileza humana e por uma sacrílega rebelião contra a vontade do meu Pai, deixar de cumprir o meu dever de israelita adorando o verdadeiro Deus no único Templo em que pode ser adorado; e o meu dever de Messias, assumindo uma coroa em outro lugar que não seja Jerusalém, onde serei ungido Rei do Universo, conforme a palavra e a verdade vista pelos grandes profetas2.

– Abaixo! Não há outro profeta depois de Moisés! Tu és um iludido!

– E vós também o sois. Pensais que sois livres? Não. Como é que se chama Siquém? Qual é o seu novo nome? E, como com ela, o mesmo acontece com muitas outras cidades da Samaria, da Judeia, da Galileia. Porque as forças armadas de Roma nos nivelam todos por um mesmo nível. Por acaso, Siquém ainda se chama Siquém? Não. Agora é Neápolis, assim como Betecá se chama Citópolis, e muitas outras cidades que, pela vontade dos romanos, ou pela dos vassalos aduladores, passaram a usar os nomes a elas impostos pelo domínio ou pela adulação. E vós, somente vós quereríeis ser mais do que uma cidade, mais do que os nossos dominadores e mais do que Deus? Não. Nada pode mudar aquilo que está destinado a ser útil para a salvação de todos. Eu vou pelo caminho reto. Acompanhai-me se quereis entrar comigo no Reino eterno.

566.20Jesus faz um gesto como quem vai embora. Mas o povo de Samaria tumultua tanto, que os galileus reagem e, ao mesmo tempo, correm para fora da casa, indo para o jardim, depois escada acima, e sobre o terraço os que estavam na casa. Aparece, então, o rosto pálido, triste e angustiado de Maria, que vem atrás de Jesus. E a Mãe o abraça e o aperta, como se quisesse defendê-lo das ofensas que sobem lá de baixo:

– Tu nos traíste! Vieste refugiar-te entre nós fazendo-nos crer que nos amavas, e depois nos desprezas! Desprezados seremos mais ainda agora, por tua culpa! –e assim por diante.

Ajuntam-se ao redor de Jesus os discípulos, os apóstolos e, por última, amedrontada, Maria de Tiago. Os urros que vêm lá de baixo explicam quais as origens do tumulto, origens longínquas, mas verdadeiras:

– Por que nos mandaste agora os teus discípulos, para nos dizerem que estás sendo perseguido?

– Não mandei ninguém. Lá estão os de Siquém. Que eles venham para frente. Que foi que eu disse a eles, um dia, sobre a montanha?

– É verdade. Ele disse que não se poderia adorar a não ser no Templo, até que chegue a era nova para todos. Mestre, nós não somos culpados, podes crer. Mas estes estão iludidos pelos teus falsos enviados.

– Eu sei. Mas agora ide. Eu irei a Siquém, do mesmo modo. Não tenho medo de ninguém. Mas agora ide, para não fazerdes mal a vós mesmos e aos do vosso sangue. Estais vendo como, descendo pela estrada, estão brilhando ao sol as couraças dos legionários? Certamente eles vos vieram acompanhando de longe ao verem este grande cortejo, e ficaram no bosque, de atalaia. Os vossos gritos de agora é que os estão atraindo para cá. Ide, para o vosso bem.

De fato, lá ao longe sobre a estrada mestra que se vê subindo para os montes, aquela sobre a qual Jesus se encontrou com o esfaimado, vê-se o brilhar de umas luzes que se movem e avançam. As pessoas vão-se espalhando lentamente. No fim só ficam os de Efraim, os galileus e os discípulos.

– Ide também, para as vossas casas, ó efraimitas. E, vós da Galileia, parti. Obedecei a quem vos ama!

Estes também se vão. 566.21Ficam somente os discípulos, que Jesus manda que entrem na casa e no jardim. Pedro, com outros, desce para ir abrir.

Judas de Keriot não desce. Ele se ri. Está rindo e dizendo:

– Agora irás ver os “bons samaritanos”, como te odiarão. Para construir o Reino, Tu deixas de lado as pedras. E pedras deixadas ao lado da construção tornam-se armas para atacar. E Tu as desprezaste! Mas eles não se esquecerão.

– Que me odeiem. Não será por medo do ódio deles que eu irei deixar de cumprir o meu dever. Vem, minha Mãe. Vamos dizer aos discípulos o que deverão fazer, antes de despedi-los.

E por entre Maria e Lázaro, Ele passa para descer pela escada e entrar na casa, onde estão apinhados os discípulos que vieram de Efraim, aos quais Ele dá ordem de se espalharem por toda parte a fim de irem avisar a todos os companheiros que estejam em Jericó na lua nova de Nisã e o fiquem esperando até que Ele chegue, e aos moradores dos lugares por onde forem passando que Ele deixará Efraim, e que eles vão procurá-lo em Jerusalém pela Páscoa.

Depois ele os divide em grupos de três, confiando a Isaque, a Hermes e a Estêvão o novo discípulo Samuel, que Estêvão saúda, dizendo:

– A alegria de ver-te na luz consola a ânsia que eu tenho de ver que tudo se transforma em pedra para o Mestre! –enquanto que Hermes o saúda assim:

– Deixaste um homem por Deus. E Deus está verdadeiramente contigo.

Isaque, humilde e acanhado, diz somente:

– A paz esteja contigo, meu irmão.

Depois de oferecerem-lhes o pão e o leite, que os efraimitas tiveram o pensamento de oferecer, também os discípulos partem, e enfim há paz…

566.22Mas enquanto se prepara o cordeiro, Jesus ainda tem o que fazer. Ele vai até perto de Lázaro e lhe diz:

– Vem comigo, ao longo da torrente.

Lázaro obedece, com sua habitual prontidão.

Afastam-se da casa uns duzentos metros. Lázaro se cala, esperando que Jesus fale. E Jesus fala:

– Eu te queria dizer isto: minha Mãe está muito abatida. Tu estás vendo. Manda para cá as tuas irmãs. Eu, na verdade, estou indo para Siquém com todos os apóstolos e as discípulas. Mas Eu as mandarei depois até Betânia, enquanto eu pararei em Jericó por algum tempo. Posso ainda ousar ter comigo mulheres aqui na Samaria. Mas não em outros lugares…

– Mestre! É verdade que tu temes… Mas se assim é, para que é que me ressuscitaste?

– Para ter um amigo.

– Oh!!! Se foi para isso, então eis-me aqui. Toda dor não é nada, se eu puder te confortar com a minha amizade.

– Eu sei. Por isso Eu me valho e me valerei de ti como do mais perfeito dos amigos.

– Deverei ir mesmo a Pilatos?

– Se achares que vale a pena. Mas por Pedro. Não por Mim.

– Mestre, quero fazer-te saber… Quando vais deixar este lugar?

– Daqui a oito dias. O tempo dá apenas para Eu ir até onde quero e estar depois em tua casa, antes da Páscoa. Quero restaurar-me em Betânia, o oásis da paz, antes de mergulhar no tumulto de Jerusalém.

– Tu sabes, Mestre, que o Sinédrio está bem decidido a inventar acusações, mesmo que não existam provas, para obrigar-te a fugir para sempre? Isto eu fiquei sabendo pelo sinedrita João, com quem por acaso eu me encontrei em Ptolemaida, todo alegre pelo novo filho que lhe está para nascer. Ele me disse: “Fico entristecido com isso, do Sinédrio ter decidido uma coisas dessas. Porque eu gostaria que o Mestre estivesse presente à circuncisão do meu filho, que eu espero há de ser homem. Ele deve nascer nos primeiros dias de tamuz. Mas estará ainda entre nós o Mestre por aquele tempo? Eu gostaria… para que o pequeno Emanuel, e esse nome já te diz o que penso, O tivesse presente em seu primeiro ato no mundo. Porque o meu filho, feliz dele, não terá que lutar para crer, assim como nós. Ele crescerá no tempo messiânico e lhe será fácil aceitar a ideia.” João já chegou a crer que Tu és o Prometido.

– E esse único entre muitos me compensa por aquilo que os outros tentaram tirar-me. E obrigado por tudo, meu amigo. Tu és um verdadeiro amigo. Com dez iguais a ti, ainda seria doce viver no meio de tanto ódio…

– Agora tens tua Mãe, meu Senhor. Ela vale por dez ou cem Lázaros. Mas lembra-te de que qualquer coisa de que possas precisar, basta que eu possa, e a irei procurar para Ti. Manda-me e eu serei teu servo para qualquer coisa. Não serei sábio, nem santo, como são outros que te amam, mas um outro mais fiel do que eu, excluindo João, não poderás encontrar. Eu não creio ser soberbo ao dizer isso.

566.23E, agora que temos falado de Ti, quero falar-te da Síntique. Eu a vi ativa e sábia como só pode ser uma grega que pôde tornar-se uma tua seguidora. Talvez ela sofra por estar longe. Mas diz que está alegre por poder preparar o teu caminho. Espera ver-te antes de morrer.

– Ela me verá com toda certeza. Eu não decepciono as esperanças dos justos.

– Ela tem uma pequena escola, muito frequentada por meninas de todos os lugares. Mas pela tarde ela tem consigo algumas meninas pobrezinhas de raça mista e que por isso não têm nenhuma religião. E ela as instrui, falando a respeito de Ti. Eu lhe disse: “Por que não te fazes prosélita? Isso te ajudaria muito.” Ela me respondeu: “Porque não quero dedicar-me toda aos de Israel, mas aos altares vazios que estão esperando por um Deus. Eu os preparo para receberem o meu Senhor. Depois, quando o seu Reino estiver estabelecido, irei para a minha Pátria e, sob os céus da Hélade, consumirei a minha vida preparando os corações aos mestres. Este é o meu sonho. Mas se eu morrer antes, por doença ou perseguição, ir-me-ei embora feliz do mesmo modo, porque será o sinal de que terminei o meu trabalho e de que Ele está chamando a Si a sua serva, que o amou desde o primeiro encontro.”

– É verdade. Síntique me amou realmente desde o primeiro encontro.

– Eu não queria dizer-lhe nada dos teus sofrimentos. Mas Antioquia é como uma concha que recebe todas as notícias do vasto império romano e, portanto, também de tudo o que acontece aqui. Por isso Síntique não deixa de ficar sabendo dos teus sofrimentos. E o que mais a faz sofrer é estar longe. Mas eu fiquei com um chapéu tecido por ela, com bisso de dois tamanhos. E ele está com tua Mãe. Síntique quis, com o fio, escrever a tua história, a dela e a do João de Endor. E sabes como? Tecendo ao redor do quadro um bordado no qual se representa um cordeiro que defende de uma manada de hienas duas pombas, uma das quais já está com as asas despedaçadas, e a voluntária prisão da outra, aos pés do cordeiro. Parece uma daquelas histórias que os escultores gregos fazem com o mármore sobre os festões dos templos e sobre os obeliscos dedicados a seus mortos, ou que os pintores pintam em seus vasos. Ela queria enviá-lo a Ti por mãos dos meus servos. Mas eu o tomei.

– Eu o levarei porque é obra de uma boa discípula. Vamos para casa. Quando é que pensas em partir?

– Amanhã, pela aurora. Para que os cavalos descansem. Depois, só irei parar em Jerusalém e irei a Pilatos. Se eu puder falar-lhe, te mandarei as respostas dele por meio de Maria.

Eles entram de novo em casa, lentamente e falando de coisas menores.

1 está escrito, em: Números 9,10-11. Diz respeito à Páscoa suplementar, considerada na obra diversas vezes, e cuja celebração está apresentada no capítulo 636.
2 vista pelos grandes profetas, como em: Isaías 2,3.


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