124. 124. A “velada” se hospedana casinha de Águas Belas.


5 de março de 1945.

124.1O dia está tão feio, que não há nenhum peregrino. Chove a cântaros, e a eira se transformou em um pequeno charco, no qual estão boiando umas folhas secas, vindas quem sabe de onde, trazidas pelo vento que assobia e bate portas e janelas. A cozinha, mais escura que nunca, porque, para se impedir que a chuva entre, é preciso conservar a porta apenas entreaberta, se enche de fumaça e os que estão lá dentro ficam com os olhos lacrimejantes, e tossem, porque o vento está soprando a fumaça para baixo.

– Salomão1 tinha razão –sentencia Pedro–. Três coisas expulsam o homem: a mulher briguenta… e essa eu deixei brigando em Cafarnaum com os outros genros, a chaminé que solta fumaça e um telhado que tem goteiras. Estas duas últimas coisas nós as temos aqui… Mas amanhã eu vou dar um jeito nesta chaminé. Vou subir no telhado, e tu e tu e tu (Tiago, João e André) vireis comigo. E com umas placas de ardósia, faremos uma saliência e uma coberta lá na cumeeira.

– E onde é que vais achar as placas de ardósia? –pergunta Tomé.

– Em cima do telheiro. Se chove por lá não é o fim do mundo. Mas aqui… para que as tuas iguarias não sejam mais enfeitadas com lágrimas fuliginosas?

– Imagina! Tomara que o consigas! Olha como eu estou preto. Quando estou perto do fogo, me chove na cabeça!

– Pareces um monstro egípcio –diz, rindo, João.

E de fato, Tomé está com umas bizarras vírgulas pretas em seu rosto gorducho e bonachão. O primeiro a rir disso é ele mesmo, sempre alegre, e Jesus também ri porque, justamente quando estava falando, uma nova gota cheia de fuligem lhe cai sobre o nariz, fazendo que fique com a ponta preta.

124.2 – Tu, que entendes de tempo, que é que achas? Ficará muito ainda assim? –pergunta Iscariotes a Pedro ele que, há alguns dias, está muito mudado.

– Agora mesmo vou saber te responder. Vou fazer-me de astrólogo –diz Pedro, que vai até a porta, e abre-a um pouco mais, colocando a cabeça e a mão fora.

Depois, emite seu parecer:

– Vento baixo, vindo do sul. Calor e caligem… Hum! É ainda pouco para…

Pedro se cala, depois torna a entrar devagar, deixa a porta só um pouquinho aberta, e fica olhando.

– Que é? –perguntam uns três ou quatro.

Mas Pedro faz sinal com a mão para que se calem. Depois olha. E, em seguida, diz, sussurrando:

– Está aí aquela mulher. Ela foi beber da água do poço e apanhou um feixe de lenha que tinha ficado na eira. A lenha está toda molhada. Certamente não pega fogo… A mulher já se vai… Eu vou atrás. Quero ver…

E saiu com cuidado.

– Mas onde será que ela há de morar, para estar sempre perto daqui? –pergunta Tomé.

– E para estar aqui com esse tempo! –diz Mateus.

– Certamente vai ao povoado, porque anteontem também tinha ido comprar pão –diz Bartolomeu.

– Tem uma bela constância para estar assim velada! –observa Tiago do Alfeu.

– Ou um grande motivo –termina Tomé.

– Mas será mesmo a pessoa a qual se referia ontem aquele judeu? –pergunta João–. Eles são sempre tão mentirosos!

E Jesus está, em todo esse tempo, calado, como se fôsse surdo. Todos o olham, certos de que Ele sabe. Mas Ele está trabalhando com uma faca afiada, sobre um pedaço de madeira macia, que lentamente vai-se transformando em um conveniente garfo grande para tirar verduras da água fervente. E, quando termina, oferece o seu trabalho a Tomé, que está totalmente dedicado aos trabalhos da cozinha.

– És muito habilidoso, Mestre. Mas… 124.3não nos dizes quem ela é?

– Uma alma. Para Mim, todos vós sois “almas”. Nada mais. Homens, mulheres, velhos, meninos: almas, almas, almas. Almas cândidas, os pequeninos. Almas azuis, os jovenzinhos. Almas róseas, os jovens. Almas de ouro, os justos. Almas de piche, os pecadores. Mas somente almas; só almas. Eu sorrio às almas cândidas, porque me parece estar sorrindo aos anjos; repouso entre as flores róseas e azuis dos adolescentes bons; alegro-me com as almas preciosas dos justos; canso-me e sofro para tornar preciosas e esplêndidas as almas dos pecadores. Os rostos?? Os corpos?? Nada. Eu vos conheço pelas vossas almas.

– E ela, que alma é? –pergunta Tomé.

– Uma alma menos curiosa do que a dos meus amigos, porque não indaga, não pergunta, vai e vem sem dizer nada e sem ficar olhando.

– Eu pensava que ela fôsse uma mulher de má vida ou uma leprosa. Mas mudei de opinião, porque… Mestre, se eu te disser uma coisa, não me censurarás? –pergunta Iscariotes, indo pôr-se sentado no chão junto aos joelhos de Jesus, muito diferente, humilde, bom, até mais bonito neste seu ar modesto, do que tudo o que ele pode ser, quando se mostra como o pomposo e vaidoso Judas.

– Não te censurarei. Fala.

– Eu sei onde ela mora. Eu a segui uma tarde… fingindo ter saído para ir buscar água, porque percebi que, ao escurecer, sempre vem ao poço… Uma manhã encontrei no chão um grampo de prata… exatamente na beira do poço… e compreendi que ela o tinha perdido. Pois bem, ela mora numa pequena cabana de madeira que está lá no bosque. Talvez sirva para os camponeses. Porém está meio apodrecida, e a mulher lhe pôs por cima uns ramos para servirem de cobertura. Possivelmente ela esteja levando aquele feixe para isso. A cabana é uma toca. Não sei como lá se pode ficar. Daria apenas para um cão grande, ou para um burrinho pequeno. Era uma noite de lua e vi bem. Está meio sepultada entre as sarças, mas dentro… está vazia, e não tem porta. É por isso que mudei de opinião e compreendi que não é uma de má vida.

– Não devias ter feito isso. Mas, sê sincero, não fizeste nada mais?

– Não, Mestre. Eu teria gostado de vê-la, porque desde Jericó que a venho observando e me parece conhecer o seu passo tão leve, e rápido com que se locomove. Também a sua pessoa deve ser ágil… e bela. Sim. Isto se entende, não obstante todas aquelas vestes… Mas não ousei espiá-la enquanto ia deitar-se no chão. Talvez ela tenha tirado o véu. Mas eu a respeitei…

Jesus o olha fixamente e depois diz:

– Sofreste com isso. Mas disseste a verdade. E Eu te digo que estou contente contigo. Uma outra vez te custará menos ainda ser bom. Tudo depende de dar o primeiro passo. Muito bem, Judas! –e o acaricia.

124.4 Pedro torna a entrar:

– Mestre, aquela mulher é doida! Sabes onde ela mora? Quase na beira do rio, em um casebre de madeira, debaixo de um matagal. Talvez ele tenha servido, há tempo, para algum pescador ou lenhador… Quem sabe! Nunca teria pensado que num lugar úmido como aquele, afundado numa toca, sob um emaranhado de sarças, estivesse uma pobre mulher. E eu lhe disse: “Fala e sê sincera. És leprosa?” Ela me respondeu com um fio de voz: “Não.” “Jura”, eu disse. E ela: “Eu juro.” “Olha que, se és e não o dizes e vais para perto da casa e eu venho a saber que és imunda, farei que te apedrejem. Mas se tu és uma perseguida, se és ladra ou assassina e moras aqui por medo de nós, não temas nenhum mal. Mas agora sai daí. Não estás vendo que estás na água? Estás com fome? Estás com frio? Estás tremendo. Eu sou velho, estás vendo? Não te estou cortejando. Velho e honesto. Por isso, escuta-me.” Eu disse assim. Mas ela não quis vir. Um dia vamos encontrá-la morta, porque está exatamente na água.

Jesus está pensativo. Olha para os doze rostos que estão virados para Ele. Depois diz:

– Que achais que se deva fazer?

– Mas, Mestre, Tu é que tens que decidir!

– Não. Eu quero que vós julgueis. É um assunto em que está em causa também o vosso apreço. E Eu não devo fazer violência sobre o vosso direito de protegê-lo.

– Em nome da Misericórdia, acho que não se pode deixá-la ali –diz Simão.

E Bartolomeu:

– Eu diria que hoje ela fôsse colocada no quarto grande. Para lá não vão os peregrinos? Também ela pode ir para lá.

– Afinal, é uma criatura como todas as outras –comenta André.

– Além disso, hoje não vem ninguém, e por isso… –observa Mateus.

– Eu proporia que a hospedássemos por hoje, e amanhã o diríamos ao feitor. Ele é um bom homem –diz Judas Tadeu.

– Tens razão! Muito bem! E há tantas estrebarias também vazias. Uma estrebaria é sempre um palácio em relação àquele barquinho afundado! –exclama Pedro.

– Vai dizer então a ela –incita Tomé.

– Os jovens ainda não falaram –observa Jesus.

– Para mim está bem o que Tu fazes –diz o primo Tiago.

E o outro Tiago, com o seu irmão, a uma voz:

– Para nós também.

– Eu penso apenas no mal-aventurado caso de que chegue algum fariseu –diz Filipe.

– Oh! Mesmo que fôssemos para as nuvens, achas que ficaríamos sem acusações? Não acusam a Deus, porque está longe. Mas, se pudessem tê-lo perto de si, como o tiveram Abraão, Jacó e Moisés, iriam fazer-lhe censuras… Quem é sem culpas para eles? –diz Judas de Keriot.

– Então, ide dizer-lhe que se abrigue no quarto. Vai tu, Pedro, com o Simão e o Bartolomeu. Sois anciãos e causareis menos acanhamento à mulher. E dizei a ela que lhe daremos alimento quente e uma veste seca. É aquela que Isaque deixou. Estais vendo como tudo serve? Até uma veste de mulher dada a um homem…

Os jovens riem porque a veste em questão deve ter tido alguma história engraçada.

Os três anciãos vão… e voltam pouco depois.

– Custou… mas acabou vindo. Nós lhe juramos que não a perturbaremos nunca. Agora vou levar-lhe a palha e a veste. Dá-me as verduras e um pão. Ela não tem nem o que comer hoje. De fato… quem é que vai andar por aí, com um dilúvio destes?

O bom Pedro sai com os seus tesouros.

124.5 – E agora uma ordem para todos: por motivo nenhum se vá ao quarto. Amanhã proveremos. Habituai-vos a fazer o bem pelo bem, sem curiosidade e desejos de ter em troca uma distração ou coisa parecida. Estais vendo? Vós estáveis tristes, porque hoje não se teria feito nada de útil. Amamos o próximo. O que podíamos fazer de maior? Se ela é, uma infeliz, o que certamente é, não pode a nossa ajuda dar-lhe um conforto, um calor, uma proteção bem mais profunda do que um pouco de alimento, uma pobre veste e um teto sólido? Se ela for uma culpada, uma pecadora, uma criatura que procura Deus, o nosso amor não será a mais bela lição, a mais poderosa palavra, a mais nítida indicação para colocá-la no caminho de Deus?

Pedro entra lentamente e escuta o seu Mestre.

– Vede, amigos. Muitos mestres tem Israel que falam, falam… Mas as almas continuam sendo o que são. Por quê? Porque as almas ouvem as palavras dos mestres, mas veem também as suas ações. E umas destroem as outras. E as almas ficam onde estavam, se é que não retrocedem. Mas quando um mestre faz o que diz e age como santo em todas as suas ações, ainda que faça somente ações materiais, como a de dar um pão, uma veste, um abrigo à carne sofredora do próximo, consegue que as almas prossigam e cheguem a Deus, porque são as suas próprias ações que dizem aos irmãos: “Deus existe; e aqui está Deus.” Oh! O amor! Em verdade Eu vos digo que quem ama salva-se a si mesmo e aos outros.

– Falas bem, Mestre. Aquela mulher me disse: “Seja bendito o Salvador e Aquele que o enviou, e todos vós com Ele”, e a mim, um pobre homem, quis beijar-me os pés, chorando, atrás do seu espesso véu… Bem!! Agora esperemos que não chegue algum daqueles noitibós de Jerusalém… Se não! Quem nos salva?

– A nossa consciência nos salva do julgamento do nosso Pai. E basta isso –diz Jesus.

E se assenta à mesa, depois de abençoar e oferecer o alimento.

Tudo termina.



1 Salomão, mais ou menos em: Provérbios 19,13; 21,9.19; 25,24; 27,15.