95. 95. Tiago de Alfeu acolhido entre os discípulos.Jesus fala junto à banca de Mateus.
2 de fevereiro de 1945.
95.1 É uma manhã de feira em Cafarnaum. A praça está cheia de vendedores das mais diversas mercadorias.
Jesus, que chega à praça, vindo do lago, vê que estão vindo ao seu encontro os seus primos Judas e Tiago. Apressa-se em ir também ao encontro deles e, depois de tê-los abraçado com afeto, pergunta-lhes atenciosamente:
– E vosso pai? Que foi que aconteceu?
– Nada de novo, quanto à vida dele, responde Judas.
– E então, por que vieste? Eu te havia dito: “fica aí”.
Judas abaixa a cabeça e fica calado. Mas quem explode agora é Tiago:
– É por minha culpa que ele não te obedeceu. Sim. Por culpa minha. Mas eu não pude suportar mais. Todos contra. E por quê? Por acaso, faço mal em amar-te? Fazemos mal, por acaso? Até aqui, eu me tinha detido, com o escrúpulo de agir mal. Mas agora que sei, agora que Tu disseste que acima de Deus nem mesmo o pai está, então eu não suportei mais. Oh! Procurei ser respeitoso, fazer entender as razões, endireitar as ideias. Eu disse: “Por que me combateis? Se é o Profeta, se é o Messias, por que quereis que o mundo diga: ‘A sua família lhe foi inimiga. Em um mundo que o seguia, essa faltou’? Por que, se Ele é o infeliz que vós dizeis, não devemos estar nós da família junto à sua demência, para impedir que ela lhe seja nociva, e que seja nociva a nós?” Ó Jesus, assim eu dizia, para raciocinar humanamente, como eles raciocinavam. Mas Tu sabes que eu e Judas não te julgamos doido. Tu sabes que vemos em Ti o Santo de Deus. Tu sabes que sempre te olhamos como a nossa Estrela maior. Mas não quiseram entender-nos. Nem escutar-nos quiseram mais. E eu vim embora. Na escolha, ou Jesus ou a família, escolhi a Ti. Eis-me, se é que Tu me queres. Se não me quiseres, eu serei, então, o mais infeliz dos homens, porque não terei mais nada. Nem a tua amizade, nem o amor da família.
– Assim é que estão as coisas? Ó meu Tiago, meu pobre Tiago! Não queria ver-te sofrer assim, porque Eu te amo. Mas, se o Jesus-Homem contigo chora, o Jesus-Verbo por ti jubila. Vem. Estou certo de que a alegria de seres o portador de Deus entre os homens aumentará cada vez mais o teu júbilo, até alcançar o pleno êxtase, na hora extrema desta vida e na vida eterna do Céu.
95.2 Jesus se vira e chama os seus discípulos, que haviam parado prudentemente a alguns metros de distância.
– Vinde, amigos. O meu primo Tiago agora é um dos meus amigos e por isto, vosso amigo. Quanto Eu desejei esta hora, este dia, para ele, o meu perfeito amigo de infância, o meu bom irmão na juventude!
Os discípulos fazem festa ao novo que chegou e a Judas que fazia dias que não viam.
– Nós te havíamos procurado em tua casa… mas estavas no lago.
– Sim, estive dois dias no lago com Pedro e os outros. Pedro teve uma boa pesca. Não é verdade?
– Sim, e agora, o que me desagrada, é que terei que dar muitas didracmas àquele ladrão ali–, e aponta o cobrador de iimpostos, Mateus, que tem sua banca cheia de gente que vem pagar por suas terras, eu creio, ou por mercadorias.
– Tudo será proporcional, Eu te digo. Mais pescas, mais pagas, mas também mais ganhas.
– Não, Mestre. Mais pesco, mais ganho. Mas, se dobro o peso da pesca, aquele ali não me faz pagar o dobro. Faz-me dar quatro vezes mais… É um chacal!
– Pedro! Pois bem, vamos exatamente lá perto. Quero falar. Sempre há gente perto daquela banca de impostos.
– Sem dúvida alguma! –resmungou Pedro–. Gente e maldições.
– Pois bem. Eu irei até lá levar bênçãos. Quem sabe se um pouco de honestidade não entre no cobrador da impostos.
– Podes ficar tranquilo, pois a tua palavra não passará pela sua pele de crocodilo.
– Veremos.
– Que lhe dirás?
– Diretamente, nada. Mas falarei de modo que chegue também a ele.
– Dirás que é ladrão tanto quem assalta nas estradas, como quem esfola os pobres que trabalham para terem o pão, e não para ir atrás de mulheres e bebedeiras?
– Pedro, não queres tu ir falar no meu lugar?
– Não, Mestre. Eu não saberia falar bem.
– E, com o azedume que trazes dentro de ti, farias mal a ti e a ele.
95.3 Chegaram junto à banca do imposto.
Pedro faz menção de pagar. Jesus segura-o e diz:
– Dá-me as moedas. Hoje, pago Eu.
Pedro o olha espantado, e depois lhe dá uma bolsa de pele com algumas moedas dentro.
Jesus espera a sua vez e, quando está à frente do cobrador, diz:
– Pago por oito cestas de peixe, de Simão de Jonas. Os cabazes estão ali, aos pés dos aprendizes. Podes verificar, se julgares necessário. Mas entre pessoas honestas deveria bastar a palavra. E creio que tu me julgues tal. Quanto é a taxa?
Mateus, que estava sentado à sua banca, na hora em que Jesus diz: “Creio que tu me julgues tal”, pôs-se de pé. Baixo e já velhote, mais ou menos da idade de Pedro, mostra porém um rosto cansado de gozador, e uma visível confusão. No início ele fica com a cabeça inclinada, depois a levanta e olha para Jesus. E Jesus o olha fixo, sério, dominando-o com a sua imponente estatura.
– Quanto? –repete Jesus, pouco depois.
– Não há taxa para o discípulo do Mestre –responde Mateus. E em voz mais baixa, acrescenta:– Reza pela minha alma.
– Eu a trago em Mim, porque recolho os pecadores. Mas tu… por que não cuidas dela?
E Jesus, logo em seguida, lhe vira as costas, voltando para Pedro, que está admirado. Também os outros estão espantados. Cochicham, piscam….
95.4 Jesus vai-se encostar a uma árvore, que está a uns dez metros de Mateus, e começa a falar.
– O mundo é comparável a uma grande família, cujos componentes têm ofícios diferentes e todos necessários. Há agricultores, pastores, vinhateiros, carpinteiros, pescadores, pedreiros, os operários da madeira e do ferro, depois os escrivães, os soldados, os oficiais destinados a missões especiais, os médicos, os sacerdotes. Há de tudo. O mundo não poderia ser feito de uma só classe. Todas são necessárias, todas santas, se todas fazem o que devem, com honestidade e justiça. Como se pode chegar a isso, se satanás tenta de todos os lados? Pensando em Deus, que tudo vê, até as obras mais escondidas, e na sua Lei, que diz: “Ama ao teu próximo como a ti mesmo, não lhe faças o que não gostarias que te fôsse feito, não roubes de modo nenhum.”
Dizei, ó vós, que me estais ouvindo: porventura, quando alguém morre, leva consigo suas bolsas de dinheiro? E, ainda que fôsse tão tolo, de querê-las consigo no sepulcro, pode, por acaso, usá-las na outra vida? Não. As moedas tornam-se metais corroídos sobre a podridão de um corpo desfeito. Mas a sua alma, nessa outra vida, estaria nua, mais pobre que o bem-aventurado Jó, privada até da menor das moedas, ainda que aqui e no sepulcro tivesse deixado talentos e talentos. Aliás, ouvi, ouvi! Aliás, em verdade Eu vos digo, que com as riquezas dificilmente se conquista o Céu, mas, ao contrário, geralmente com elas se perde o Céu, mesmo com as riquezas honestamente adquiridas, ou por herança, ou por ganho, porque poucos são os ricos que sabem usar com justiça as suas riquezas.
Que é preciso então, para se ter esse Céu bendito, este repouso no seio do Pai? É preciso que não sejais ávidos de riquezas. Ávidos no sentido de querê-las a todo custo, mesmo faltando com a honestidade e o amor; ávidos no sentido que, possuindo-as, sejam amadas mais do que o Céu e o próximo, negando caridade ao próximo necessitado; ávidos pelas coisas que as riquezas podem dar, ou seja, mulheres, prazeres, mesa lauta, vestes de luxo, que são ofensa para quem tem frio e fome. Há, sim, há uma moeda pela qual podem trocar-se as moedas injustas do mundo em dinheiro que vale no Reino dos Céus. E é a santa esperteza de fazer que as riquezas humanas, muitas vezes injustas ou causas de injustiça, se transformem em riquezas eternas. Ou seja, ganhar com honestidade, devolver aquilo que injustamente se deteve, usar dos bens com parcimônia e desapego, sabendo separar-se deles, porque, antes ou depois, eles nos deixam — oh! pensai nisto! — enquanto que o bem praticado não nos deixa nunca.
Todos gostaríamos de ser chamados “justos” e ser julgados como tais e, como tais, premiados por Deus. Mas como é que Deus pode premiar a quem de justo só tem o nome, mas não as obras? Como pode dizer: “Eu te perdoo”, se vê que o arrependimento é só verbal, mas não acompanhado por uma verdadeira mudança de espírito? Não existe arrependimento, enquanto continua o desejo do objeto pelo qual pecamos. Mas quando uma pessoa se humilha, quando ela corta o membro moral de uma paixão má, que pode chamar-se mulher ou ouro, e diz: “Por Ti, Senhor, não quero saber mais disto”, eis então que ela está verdadeiramente arrependida. E Deus a acolhe, dizendo: “Vem, tu me és querido como um inocente e um herói.”
Jesus terminou. E vai saindo, sem sequer virar-se para Mateus, que tinha ido para o círculo dos ouvintes, desde as primeiras palavras.
95.5 Quando estão perto da casa de Pedro, a mulher dele corre ao seu encontro para dizer-lhe qualquer coisa. Pedro faz sinal a Jesus para que venha perto dele.
– Aí está a mãe de Judas e de Tiago. Ela quer falar Contigo, mas não quer ser vista. Como iremos fazer?
– Assim. Eu entro em casa como para descansar, e vós todos ireis distribuir o óbolo aos pobres. Toma também as moedas da taxa que foi devolvida. Vai.
Jesus faz um aceno de despedida para todos, enquanto Pedro distrai, tentando persuadi-los a ir com ele.
– Onde está a mãe, mulher? –pergunta Jesus à mulher de Pedro.
– Está no terraço, Mestre. Lá ainda está fazendo sombra, e está fresco. Podes subir. Lá estarás mais à vontade do que em casa.
Jesus sobe pela escadinha. Em um canto, sob a cerrada parreira de uva, sentada em um banquinho colocado junto ao parapeito, toda vestida de escuro, com o véu muito caído sobre o rosto, está Maria de Alfeu. Está chorando, sem fazer barulho.
Jesus a chama:
– Maria! Tia querida!
Ela levanta um pobre rosto angustiado e estende as mãos:
– Oh Jesus! Quanta dor sinto em meu coração!
Jesus vai para junto dela. Obriga-a a ficar sentada. Mas Ele fica em pé, com seu manto ainda pendente das costas, e tendo uma mão sobre o ombro da tia e a outra entre as mãos dela:
– Que tens? Por que tanto pranto?
– Oh! Jesus! Eu escapei de casa, dizendo: “Vou a Caná procurar ovos e vinho para o doente.” Junto ao Alfeu está tua Mãe, que cuida dele como Ela sabe fazer, e eu fico tranquila. Mas na realidade vim até aqui. Corri noites inteiras1, para chegar aqui mais depressa. E já não aguento mais… Mas o cansaço não é nada. O que me faz mal é a dor do coração!… O meu Alfeu… o meu Alfeu… os meus filhos… oh! por que tanta diferença entre os que são do mesmo sangue? E por que essa diferença há de ser como as duas pedras de um moinho para triturar o coração de uma mãe? Estão Contigo Judas e Tiago? Sim? Então já sabes… Oh! Jesus! Por que o meu Alfeu não compreende? Por que está morrendo? Por que quer morrer assim? E Simão e José? Por que, por que não estão Contigo, mas contra Ti?
– Não chores, Maria. Eu não tenho rancor deles. Disse isso também a Judas. Compreendo e sinto compaixão. Se é por isso que estás chorando, não chores mais.
– É por isso sim, porque te ofendem. Por isso, e depois, e depois… porque eu não quero que o meu esposo morra na inimizade Contigo. Deus não o perdoará… e eu… oh! eu não o terei mais nem mesmo na outra vida…
Maria está realmente angustiada. Chora com grandes lágrimas sobre a mão esquerda, de Jesus, e frequentemente a beija, erguendo o seu pobre rosto, atormentado.
– Não –diz Jesus–. Não. Não digas assim. Eu perdoo. E se Eu perdoo…
95.6 – Oh! Vem, Jesus. Vem para salvar a alma e o corpo dele. Vem… Estão dizendo também, para acusar-te, já estão dizendo que tiraste dois filhos de um pai que está morrendo, e dizem isto por toda a cidade de Nazaré, entendes? E dizem ainda: “Ele fez milagres por toda parte, mas na sua casa não os sabe fazer.” E porque te defendo, dizendo: “Que é que Ele pode fazer, se de certo modo o expulsastes com as vossas repreensões, se não credes Nele?”
– Disseste bem: se não credes. Como posso fazer onde não se tem fé?
– Oh! Tu podes tudo! Eu creio por todos! Vem. Faz um milagre… pela tua pobre tia….
– Não posso.
Jesus está muito triste ao dizer isto. Posto de pé, apertando contra o seu peito a cabeça da chorosa, parece confessar sua impotência à natureza serena, parece chamá-la como testemunha da sua pena de não poder, por decreto eterno.
A mulher chora mais forte.
– Escuta, Maria. Sê boa. Eu te asseguro que, se pudesse, se fôsse bom fazer isso, Eu o faria. Oh! Arrancaria do Pai esta graça para ti, para minha Mãe, para Judas e Tiago, e também, sim, também para Alfeu, José e Simão. Mas não posso. Tu agora sentes tanta dor no coração, que não podes entender a justiça no fato. Eu direi a ti, mas mesmo assim, não a entenderás. Quando chegou a hora da passagem de meu pai, e tu sabes como ele era justo, e como minha Mãe o amava, Eu não o trouxe de volta à vida. Não é justo que a família, na qual vive um Santo, esteja isenta das inevitáveis desventuras da vida. Se assim fosse, Eu deveria ser eterno nesta terra, e, no entanto, brevemente morrerei, e, nem Maria, a minha santa Mãe, poderá arrancar-me da morte. Não posso. O que Eu posso é isto, e o farei.
Jesus sentou-se e segurou a cabeça de sua parente sobre o ombro:
– Isto Eu farei. Prometer-te, por causa desta dor, a paz para o teu Alfeu, garantir-te que não estarás separada dele na outra vida, dar-te a minha palavra que a nossa família estará reunida no Céu, recomposta eternamente, e que, enquanto Eu viver e depois, infundirei sempre em minha querida parente tanta paz, tanta força, até fazer dela uma apóstola junto à tantas pobres mulheres, das quais a ti, como mulher, será mais fácil aproximar-te. Serás a minha dileta amiga neste tempo de evangelização. Não chores! a morte de Alfeu te livra dos deveres conjugais e te eleva àqueles mais sublimes de um sacerdócio feminino místico, tão necessário junto ao altar da grande Vítima, e junto a muitos pagãos, que inclinarão mais os seus corações diante do heroísmo santo das mulheres discípulas, do que diante dos discípulos. Oh! o teu nome, querida tia, será como uma chama no céu cristão… Não chores mais. Vai em paz. Forte, resignada, santa. Minha Mãe… ficou viúva antes de ti… e te confortará como Ela sabe. Vem. Não quero que partas sozinha, debaixo deste sol. Pedro te acompanhará com o barco até o Jordão, e de lá até Nazaré, com um burrinho. Sê boa.
– Abençoa-me, Jesus. Dá-me força, Tu.
– Sim, Eu te abençoo e te beijo, minha boa tia.
E a beija ternamente, segurando-a por muito tempo contra o seu coração, até poder vê-la acalmada.
1 noites inteiras é leitura incerta no texto manuscrito, do qual resulta clara a forma plural. Contudo parece arbitrário, mesmo que mais realístico, a transcrição datilografada: por toda a noite.