530. 530. Uma outra noite de pecado de Judas Iscariotes.
14 de novembro de 1946.
530.1Nobe inteira ainda está dormindo. Estamos vendo chegar a primeira claridade do dia. A aurora, com essas luzes tão mansas do inverno, tem uma delicadeza em suas cores que até parece irreal. Não é a luz verde-prata das auroras do verão, tão rápida em mostrar-se e a andar para um ouro pálido, e depois em um cor-de-rosa cada vez mais intenso. Mas um verde jade, que se destempera para formar um cinza azulado muito tênue, já a está anunciando no oriente com um pequeno semicírculo, que aparece bem na linha do horizonte. É um ponto de uma luminosidade quase velada, quase cansada, como se fosse uma chama pálida de enxofre aceso atrás das cortinas de uma fumaça branquicenta. E tarda em crescer sob um céu ainda pardo, embora sereno, e ainda com as estrelas olhando para o mundo. E tarda em afastar essa cor pardacenta para dar lugar à sua bela cor de jade pálido e do puro cobalto, como é o céu da Palestina. Tímida e frienta, parece querer ficar parada por uns instantes no primeiro degrau do oriente. E lá está indecisa, tendo apenas dilatado seu semicírculo de uma luminosidade sulfurina, e somente já um pouco diluída do esverdeado para o branco, misturado com uma lembrança do amarelo, quando fica anulada por um repentino cor-de-rosa, que o céu emite do seu último véu noturno e fica limpo e bonito, como um baldaquino de safira pálida. E um fogo se acende na linha do horizonte, como se tivesse caído uma parede, e ficasse colocada à mostra uma fornalha ardente. Mas será fogo ou um rubi aceso por algum fogo escondido? Não. É o sol que vem nascendo. Ei-lo. Mal ele desponta por detrás das curvas do horizonte e já achou o que pincelar de coral rosa: um bloco de nuvens, e como transformar em diamantes as gotas de orvalho sobre as copas das árvores de folhas perenes. Um alto carvalho, que fica na extremidade do povoado, está com um véu de diamantes sobre suas folhas de bronze viradas para o oriente. Parecem muitasestrelinhas piscando por entre os ramos desse gigante que se ergueu, com sua copa, rumo ao azul.
Talvez, durante a noite, as estrelas tenham baixado para contar segredos celestes aos cidadãos de Nobe, ou talvez para consolarem, com sua luz pura, o homem que ficou sem dormir, caminhando em silêncio lá em cima, no terraço de João. Sim. Porque, único em toda Nobe adormecida, Jesus está acordado e vai lentamente para diante e para trás no terraço da casinha, com os braços cruzados sobre um grande manto que o cobre todo e bem fechado para defendê-lo do frio, estando também coberto com um capuz até sobre a cabeça. Jesus, a cada vez que chega na extremidade do terraço, olha para fora e se inclina, para ver lá embaixo a rua que passa pelo centro do povoado. A rua ainda está muito escura, vazia e silenciosa. Depois, recomeça a andar lentamente, como de costume, com a cabeça baixa, meditando, olhando de vez em quando para o céu que cada vez mais se enche de luz e das fugazes cores da alva e da aurora; ou acompanhando com o olhar o vão levemente rumorejante do primeiro pássaro que, despertado pela luz, passa pelo vão da telha hospitaleira de algum telhado vizinho, para descer e ir bicar alguma coisa aos pés da velha macieira do João, indo embora depois, voando, por ter visto Jesus, com uns gritinhos de medo, que fazem despertar outros filhotes que estão aninhados ali por perto.
530.2De um lugar todo cercado vem um balido de ovelha e se perde, tremulando pelos ares. Pela estrada vem vindo um tropel apressado. Jesus se põe a olhar. Depois corre rápido para descer pela escadinha abaixo, entra na cozinha escura e fecha a porta atrás de Si.
Os passos já vêm chegando perto, já se ouvem à beira da horta, ao lado da casa, e param diante da saída da cozinha, vê-se uma mão que procura a fechadura, percebe que ela está sem chave, faz então funcionar o ferrolho, que se pode mover tanto do lado de fora como do de dentro; e, ao mesmo tempo, uma voz está dizendo:
– Alguém já se terá levantado?
Depois uma mão abre cuidadosamente a porta, sem fazê-la ranger. A cabeça de Judas de Keriot aparece pela abertura… Ele olha… A escuridão é completa. Faz frio. Silêncio.
– Esqueceram a porta aberta… Mas ela me parecia estar fechada… Afinal… É uma coisa sem importância!… Os ladrões não roubam os pobres. E mais miseráveis do que nós… Ah! É… Mas esperemos que… não fique assim. Onde está aquele maldito acendedor?… Não o encontro… Se eu conseguir acender o fogo… Por que foi que eu vim tarde, sim, tarde demais… Mas onde estará? São muitas as mãos que o usam. Estará sobre o fogão? Não… Sobre a mesa? Não… Sobre os bancos… Não. Sobre a mísula? Também não… Aquela porta carunchada chia, ao abrir-se… Madeira carunchada… gonzos enferrujados!… Tudo velho, mofado, tudo horrível aqui. Ah! Pobre Judas! E não há… O remédio é pedir ao velho…
Sempre falando, ele foi andando e tateando para um lado e para outro, invisível no escuro, cauteloso como um ladrão ou um pássaro noturno… 530.3Choca-se contra um corpo e dá um grito meio sufocado pelo espanto.
– Não tenhas medo. Sou Eu. E o acendedor está em minha mão. Ei-lo aqui. Acende –diz Jesus mansamente.
– És Tu, Mestre? Que é que estavas fazendo aqui sozinho, no escuro, exposto ao frio… Certamente haverá muitos doentes hoje, depois de um sábado e dois dias de tempo chuvoso, mas eles não estarão aqui tão cedo. Somente agora é que se estarão pondo em movimento nas cidades vizinhas, porque somente agora é que se pode prever que não irá chover. O vento da noite já enxugou as estradas.
– Eu sei. Mas acende a luz. Não é próprio de gente honesta ficar falando assim na escuridão. Isso é de ladrões, de mentirosos, de luxuriosos e assassinos. Os cúmplices nas más ações amam as trevas. Eu não sou cúmplice de ninguém.
– Nem eu, Mestre. Eu estava querendo acender um bom fogo. E, por isso, me levantei primeiro… Que é que estás dizendo, Mestre? Tu estavas murmurando por entre os lábios e eu não ouvi bem.
– Então, acende.
– Ah!… Assim já vi que o tempo está sereno. Mas está fazendo frio. Todos gostarão de achar um bom fogo… Tu te levantaste por ouvir o barulho que eu fazia ou por causa do velho que… Ele ainda está sentindo dores?… Aí está! Finalmente! A isca e o acendedor parece que estavam úmidos, pois não queriam nem soltar faísca… Eles se molharam…
530.4Uma chamazinha se levanta do pavio de uma candeia. Só uma labareda, pequena, vacilante, mas suficiente para que sejam vistos os dois rostos: o rosto pálido de Cristo e o amorenado e destemido de Judas.
– Agora vou acender o fogo… Estás pálido como um morto. Tu não dormiste. E por causa daquele velho! Tu és bom demais.
– É verdade. Eu sou bom demais. Com todos. Até com aqueles que não o merecem. Mas o velho o merece. É um homem honesto e de coração fiel. Não obstante isso, Eu não velei por causa dele, mas por causa de um outro. É verdade. A isca e o acendedor não estavam úmidos, mas não foi por causa de alguma taça que tombou ou de algum liquido derramado em algum incidente, mas por minhas lágrimas que caíram sobre eles. É verdade. O tempo está sereno, mas faz frio, e o vento já enxugou as estradas, mas ao romper da aurora caiu o orvalho. Pega no meu manto. Ainda está úmido. Depois chegou a aurora, mostrando o tempo sereno, veio a luz para mostrar um lugar vazio, veio o sol depois da aurora para fazer brilhar a orvalhada sobre as folhas e as lágrimas sobre os cílios. É verdade. Hoje teremos muitos doentes, mas Eu não os esperava. Eu estava esperando por ti. Porque foi por causa de ti que Eu velei a noite inteira. Por ti, porque, não podendo ficar fechado aqui a esperar-te, subi ao terraço a fim de dizer ao vento a minha mágoa, mostrar às estrelas a minha dor, à aurora o meu pranto. Não é o velho doente, mas o jovem desencabrestado, o discípulo que evita o Mestre, o apóstolo de Deus que prefere a cloaca ao Céu, a mentira à verdade, foram estas coisas que me fizeram ficar em pé a noite inteira te esperando. E quando Eu ouvi os teus passos, desci até aqui… para continuar te esperando. Não mais com a tua pessoa, que já estava perto de Mim, vagando como se fosse um ladrão pela cozinha escura, mas com os teus sentimentos. Fiquei esperando uma palavra. E tu não a soubeste dizer, quando percebeste que eu estava de pé diante de ti. Aquele ao qual estás vendendo o teu espírito não te advertiu, então, do que Eu sabia? Mas, não! Ele não podia advertir-te nem sugerir-te a única palavra que podias, que devias dizer, se fosses um justo. E ele te sugeriu as mentiras sobre o que nada perguntei, inúteis, mas mais ofensivas do que a tua fuga noturna. Ele as sugeriu a ti, escarnecendo, contente por ter-te feito descer mais um degrau, e por Me ter causado mais uma dor… É verdade. Virão muitos doentes. Mas o mais doente de todos não virá ao seu Médico. E o próprio Médico está doente com a dor por este que não quer ficar curado. É verdade. Tudo é verdade. Também que Eu murmurei uma palavra que tu não entendeste. Depois de tudo o que Eu disse não adivinhas o que poderia ter sido?
Jesus falou em voz baixa, mas de modo tão incisivo e doloroso e, ao mesmo tempo, tão severo, que Judas, que às primeiras palavras estava sorridente, de pé e desrespeitoso, bem perto de Jesus, foi pouco a pouco se retraindo e se encolhendo, como se cada palavra de Jesus fosse para ele uma chicotada, enquanto Jesus ficou sempre mais erguido, como verdadeiro juiz, um juiz verdadeiramente trágico na representação de sua dor.
Judas, confinado agora entre uma masseira e um canto da parede, murmura:
– Mas… Eu não saberia…
– Não? Pois bem. Eu te irei dizer, porque não tenho medo de dizer o que é verdade. Mentiroso! Eis o que Eu disse. E se ainda se suporta o menino mentiroso, porque ele ainda não sabe o que vale uma mentira e se deve ensiná-lo a não dizê-la mais, em um homem isso não se suporta, e em um apóstolo, discípulo da própria Verdade, causa repugnância. Isso mesmo, repugnância. Eis por que é que Eu te esperei a noite toda e chorei molhando a mesa, lá onde estava o acendedor, e depois chorei vigiando e chamando-te com toda a minha alma, à luz das estrelas. E eis porque me molhei de orvalho, como o amante1 dos Cânticos. Mas inutilmente minha cabeça ficou coberta de orvalho e os meus cabelos pelas gotas da noite, inutilmente Eu bato à porta de tua alma e lhe digo: “Abre-me a porta, porque Eu te amo, por mais que já não sejas imaculada.” Aliás, justamente porque está manchada é que Eu quero entrar nela e limpá-la. Justamente porque está doente é que Eu quero entrar e curá-la. Presta atenção, Judas! Presta atenção para que o esposo não se afaste, e para sempre, e que tu não o possas mais encontrar… 530.5Judas, não dizes nada?
– Já é tarde para falar. Tu disseste que eu te causo repugnância. Expulsa-me…
– Não. Também os leprosos me causam repugnância. Mas Eu tenho piedade deles. E se eles me chamam, Eu vou a eles e os curo. Não queres ser curado?
– É tarde… e é inútil. Eu não sei ser santo. Expulsa-me, eu te digo.
– Eu não sou um dos teus amigos fariseus, que dizem ser imundas muitas coisas e as evitam ou excluem com dureza, quando poderiam limpá-las com caridade. Eu sou o Salvador e não expulso ninguém…
Há um longo silêncio. Judas está em seu canto. Jesus está apoiando as costas à mesa e parece sentir alívio com isso, pois está cansado e sofrendo… Judas levanta a cabeça. Olha para Jesus, titubeando e murmura:
– E se eu te deixasse que farias?
– Nada. Respeitaria a tua vontade. Rezaria por ti. Mas de minha parte Eu te digo que, mesmo que tu me deixes, já é tarde demais.
– Para quê, Mestre?
– Para quê? Tu sabes tanto como Eu… Acende agora o fogo. Lá em cima há gente caminhando. Sufoquemos o escândalo aqui entre nós. Todos pensarão que tivemos um sono curto e que o que nos reuniu aqui foi um desejo de calor. Pai!…
E enquanto Judas aproxima o facho dos feixes já colocados no fogão e sopra para que a chama pegue nuns gravetos mais leves, Jesus levanta as mãos sobre a própria cabeça e depois as aperta sobre os olhos…
1 como o amante, de Cântico dos cânticos 5,2-6.
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