572. 572. Em Siquém, a última parábolasobre os conselhos dados e recebidos.


2 de março de 1947.

572.1A praça principal de Siquém está incrivelmente cheia de gente. Creio que a cidade toda esteja nela e que tenham convergido para lá até os habitantes dos campos e dos lugares vizinhos. Os de Siquém, na tarde do primeiro dia, devem ter-se espalhado para darem o aviso em todos os lugares, e todos vieram: os sãos e os doentes, os pecadores e os inocentes. Estando já cheia a praça, cheios os terraços até sobre os telhados, as pessoas se empoleiraram até nas árvores que fazem sombra sobre a praça.

Na primeira fila, perto do lugar conservado livre para Jesus, na frente de uma casa construída sobre quatro degraus, estão os três menininhos que Jesus tomou dos ladrões e os pais deles. Como os pequenos estão ansiosos para ver o seu Salvador! Cada grito os faz virar a cabeça, procurando vê-lo. E quando se abre a porta da casa e nela aparece Jesus, os três pequeninos voam para a frente, com um só grito: “Jesus! Jesus! Jesus!” e sobem pelos degrauzinhos sem nem mesmo esperar que Ele desça para abraçá-los. E Jesus se inclina e os abraça, levantando-os depois — um ramalhete vivo de flores inocentes — e os beija nos rostinhos e por eles é beijado.

O povo faz um murmúrio de comoção e uma voz diz:

– Não há quem saiba beijar os nossos inocentes como Ele.

E outras vozes dizem:

– Estais vendo como Ele os ama? Ele os salvou dos ladrões, deu-lhes uma casa, depois de lhes ter matado a fome e dado roupas, e agora os beija como se fossem filhos de suas vísceras.

572.2Jesus pôs os pequeninos no chão, sobre o degrau mais alto, perto do seu corpo, e responde a todos, àquelas últimas palavras, não se sabe de quem:

– Em verdade, para mim eles são mais do que filhos de minhas vísceras. Porque Eu sou o pai de suas almas e elas são minhas, não pelo tempo que passa, mas pela eternidade que fica. Assim pudesse Eu dizer de cada homem que de Mim, que sou a Vida, recebesse vida para sair de sua morte!

Eu vos convidei a isso quando vim pela primeira vez ao meio de vós e pensastes que havia ainda muito tempo para vos decidirdes a fazê-lo. Só uma é que se preocupou em atender ao chamado e a andar pelo caminho da vida: a que era a criatura mais pecadora entre vós. Talvez, justamente por já sentir-se morta, ter-se visto morta, apodrecida em seu pecado, é que ela tenha sentido pressa para escapar da morte. Vós não vos sentis nem vos vedes mortos, e a pressa que ela tinha vós não tendes. Mas qual é o doente que espera ficar morto para depois ir atrás dos remédios que dão vida? O morto só tem necessidade do sudário, dos aromas e de um sepulcro no qual possa jazer para nele se tornar pó, depois de ter passado pela podridão. Porque se, para os seus sábios fins, a podridão de Lázaro, olhada por vós com olhos arregalados pelo temor e pelo estupor, foi pelo Eterno transformada em saúde, isso não deve servir para que alguém, ao chegar perto da morte do espírito, diga: “O Altíssimo me dará de novo a vida da alma.” Não tenteis o Senhor vosso Deus.

372.3Vinde agora para a Vida. Não há mais tempo para esperar. As uvas estão para serem colhidas e prensadas. Preparai o vosso espírito para o Vinho da Graça, que está para ser-vos dado. Não é assim que fazeis quando tendes que tomar parte em algum grande banquete? Não preparais o vosso estômago para receber os alimentos e os vinhos finos, fazendo antes do banquete uma prudente abstinência, que irá fazer o paladar discernir melhor os gostos, e o estômago para receber bem e desejar mais do alimento e das bebidas? E não é assim que faz o vinhateiro, quando prova do vinho que acaba de ser feito? Ele não estraga o seu paladar no dia em que vai provar o vinho novo. Não faz isso, porque quer perceber com exatidão as boas qualidades e os defeitos, para corrigir estes e melhorar aquelas, e assim poder vender bem a sua mercadoria. Mas se o convidado para o banquete sabe fazer assim a fim de poder apreciar com maior prazer as bebidas e os vinhos, e se assim faz o vinhateiro para poder vender bem o seu vinho, ou para fazer ficar mais vendável aquele que, tendo defeito, seria recusado pelo comprador, não é verdade que assim deveria fazer o homem para o bem do seu espírito, como preparação para os gozos do Céu, a fim de ganhar o tesouro para poder entrar no Céu?

Escutai o meu conselho. Este, sim, é que é bom escutar. É um bom conselho. Um conselho justo e dado pelo Justo, que em vão foi mal aconselhado, porque Ele quer livrar-vos dos frutos dos maus conselhos que tendes recebido. Sede justos como Eu sou. E procurai saber dar o justo valor aos conselhos que vos são dados. Se souberdes fazer-vos justos, dareis o justo valor.

372.4Ouvi uma parábola. Ela termina o ciclo daquelas contadas em Silo e em Lebona, e sempre fala dos conselhos dados e recebidos.

Um rei mandou o seu filho querido ir visitar o seu reino. O reino desse rei estava dividido em muitas províncias, pois era um reino muito grande. E as províncias tinham do rei um conhecimento diferente. Algumas o conheciam tão bem que pretendiam ser suas prediletas e se orgulhavam disso. Segundo elas, somente elas eram perfeitas, por conhecerem o rei e por saberem o que ele desejava. Outras o conheciam, mas sem se julgarem sábias por isso, e se empenhavam em procurar conhecê-lo sempre mais. Outras tinham conhecimento do rei, mas o amavam a seu modo e tinham feito para si um código especial, que não era o verdadeiro código do reino. Do verdadeiro código elas haviam aproveitado o que lhes agradava e até onde lhes agradava, e depois haviam deturpado até aquele pouco com a mistura de outras leis copiadas de outros reinos, ou feitas por elas mesmas e que não eram boas. Não. Não eram boas. Havia ainda outras que conheciam muito menos o seu rei, e outras apenas sabiam que havia um rei. E nada mais do que isto. E consideravam uma fábula o pouco que sabiam.

O filho do rei saiu para ir visitar o reino de seu pai e para levar a todas as regiões um conhecimento exato do rei, nuns lugares corrigindo os soberbos, noutros se esforçando por animar os abatidos, e noutros retificando conceitos errados, mais além persuadindo a eliminarem os elementos impuros da lei pura, e lá ensinava como preencher as lacunas, ou noutros lugares instruindo para dar um mínimo de conhecimentos e de fé no rei verdadeiro, do qual todos os homens eram súditos. Este filho do rei pensava, porém, que a primeira lição para era o exemplo de uma justiça segundo o código, tanto em suas partes mais graves como nas coisas menores. E ele era perfeito. A tal ponto, que o povo de boa vontade começou a melhorar e a seguir e imitar tanto as ações como as palavras do filho do rei, pois suas palavras e suas ações eram uma coisa só, pelo tanto que umas correspondiam às outras, sem nenhuma dissonância.

372.5Mas os das províncias, que se julgavam perfeitos só porque conheciam o que estava escrito no código, mas sem saberem o que aquilo significava, viam que pela observância daquilo que o filho do rei fazia e daquilo que ele os exortava a fazer, ficava claro até demais que eles conheciam a leto conteúdo do código, mas não possuíam o espírito das leis do rei, e com isso ficava desmascarada a hipocrisia deles. Então pensaram em acabar com aquilo que os fazia parecer o que não eram. E, para conseguirem isso, foram por dois caminhos. Um deles era ir contra o filho do rei, e o outro era ir contra os seus seguidores. Ao primeiro deram maus conselhos e lhe moveram perseguições. Aos segundos, maus conselhos e intimidações.

Há muitas coisas que são maus conselhos. Por exemplo, é um mau conselho dizer: “Não faças isto, que te pode prejudicar”, fingindo estar bem interessado. E é um mau conselho perseguir para persuadir àquele que se quer extraviar a faltar à sua missão. É um mau conselho dizer aos seguidores: “Defendei a todo custo e com todos os meios o justo perseguido”, e é um mau conselho dizer aos seguidores: “Se vós o protegerdes, ireis ao encontro do nosso ódio.” Mas Eu não falo aqui dos conselhos dados aos seguidores. Falo dos conselhos dados ao filho do rei ou que fizeram que fossem dados; com falsa bondade, com lividez de ódio, ou pela boca de recadeiros ignorantes, levados a fazer o mal crendo que estavam ajudando.

O filho do rei escutou esses conselhos deles. Ele tinha ouvidos, olhos, inteligência e coração. Mas não podia, portanto, deixar de ouvi-los, de vê-los, de entendê-los, de examinar o que diziam. O filho do rei, porém, tinha, mais do que tudo, o espírito reto de um verdadeiro justo, e a todos os conselhos dados ciente ou inconscientemente para fazê-lo pecar, dando um mau exemplo aos súditos de seu pai, respondeu: “Não. Eu faço o que meu pai quer. Eu sigo o código dele. O fato de ser filho do rei não me exime de ser o mais fiel dos seus súditos na observância da lei. Vós, que me odiais e me quereis amedrontar, ficai sabendo que nada me fará violar a Lei. Vós, que me amais e me quereis salvar, ficai sabendo que eu vos bendigo por esse vosso pensamento, mas ficai sabendo também que o vosso amor e o amor que eu vos tenho, visto quem sois mais fiéis do que aqueles que se dizem ‘sábios’, não me deve fazer ser injusto no cumprimento do meu dever para com um amor maior, que é o que eu devo ao meu pai.”

372.6Esta é a parábola, meus filhos. Ela é tão clara que cada um de vós pode tê-la compreendido. E nos espíritos retos só pode surgir esta apreciação: “Ele é realmente o justo, porque nenhum conselho humano o pode arrastar para o caminho do erro.” Sim, filhos de Siquém. Nada me pode arrastar ao erro. Ai de mim se eu andasse no erro! Ai de Mim e ai de vós. Em lugar de ser o vosso Salvador, seria o vosso traidor, e teríeis razão de odiar-me. Mas Eu não o farei.

Não vos censuro por terdes aceitado sugestões e pensado em tomar medidas contra a justiça. Não sois culpados, posto que o fizestes por espírito de amor. Mas Eu vos digo o que disse no princípio e no fim, a vós eu o digo: vós me sois mais queridos do que se fôsseis filhos de minhas vísceras, porque sois os filhos do meu espírito. Eu trouxe o vosso espírito à Vida e o farei ainda mais. Sabei, e seja esta a lembrança de Mim, sabei que eu vos abençoo pelo pensamento que tivestes no coração. Mas crescei na justiça, querendo somente o que é honra prestada ao Deus verdadeiro, para com o qual é necessário ter um amor absoluto, como não é dado a nenhuma criatura. Vinde a esta perfeita justiça que vos dou como exemplo, justiça que esmaga os egoísmos do próprio bem-estar, o medo dos inimigos e da morte, esmaga tudo, para fazer a vontade de Deus.

Preparai o vosso espírito. A aurora da Graça está chegando. O banquete da Graça já vem perto. As vossas almas, as almas daqueles que querem ir à Verdade, estão na vigília de suas núpcias, de sua libertação, de sua redenção. Preparai-vos em justiça para a festa da Justiça.

372.7Jesus faz um sinal para os pais dos meninos, que estão perto deles, para entrarem em casa com Ele, e se retira, depois de ter tomado nos braços os três meninos, como no começo.

Na praça, os comentários se entrecruzam. São muito diferentes. Os melhores dizem:

– Ele tem razão. Nós fomos traídos por aqueles falsos enviados.

Os menos bons dizem:

– Mas Ele não devia adular-nos. Ele nos faz odiar ainda mais. Ele nos burlou. É um verdadeiro judeu.

– Não podeis dizer isso. Os nossos pobres conhecem o seu socorro. Os nossos doentes, o seu poder. Os nossos órfãos, a sua bondade. Não podemos pretender que Ele peque para nos contentar.

– Ele já pecou, porque nos odiou e nos fez odiar…

– E por quem?

– Por todos. E zombou de nós. Sim. Zombou de nós.

Os diversos pareceres tomam conta da praça, mas não perturbam o interior da casa onde está Jesus junto com os notáveis, com os meninos e seus pais.

Mais uma vez se confirma a palavra profética1:

– Ele será uma pedra de contradição.

1 palavra profética, de Simeão bem 32.5 (Luca 2,34).


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