277. 277. Em Magdala, nos jardins de Maria.O amor e a correção entre irmãos.
16 de setembro de 1945.
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277.1Jesus não está mais onde estava na última visão. Mas está em um vasto jardim, que se estende até o lago, além do qual, ou melhor, no meio do qual há uma casa precedida e rodeada por este jardim que, do lado de trás, porém, se prolonga pelos menos três vezes o espaço que tem aos lados e à frente da casa.
Nele há flores, mas, mais do que outras coisas, há árvores, pequenos bosques e recantos verdes, como que cercados por piscinas de mármore precioso, que mais parecem quiosques, que estão ao redor de mesas e cadeiras de pedra. E haveria estátuas aqui e ali, tanto ao longo dos caminhos, como passando por entre as piscinas. Restam delas ainda os pedestais, como uma lembrança ao lado dos loureiros e buxos, ou a espelhar-se nas piscinas cheias de água límpida.
A presença de Jesus com os seus e a de pessoas de Magdala, entre as quais está o pequeno Benjamim, aquele que teve a coragem de dizer1 a Iscariotes que ele era mau, me faz pensar que estes sejam os jardins da casa de Madalena… revistos e corrigidos agora para o seu novo uso, tendo sido tiradas deles todas aquelas coisas que podiam causar desgosto e escândalo, fazendo lembrar o passado.
O lago está todo encrespado, com uma cor cinzento-azulada, refletindo o céu, pelo qual vão passando, sem rumo certo, nuvens trazendo a carga das primeiras chuvas do outono. Mas, assim mesmo, ele está belo, com esta luz parada e pacífica de um dia que não está sereno, mas também ainda não de todo chuvoso. Suas margens não têm mais tantas flores como antes e contudo, em compensação, vão sendo pintadas aqui e ali pelo grande pintor que é o outono, e vão mostrando pinceladas de ocre ou de púrpura, junto a uma fraca palidez das folhas, que estão morrendo nas árvores, e dos vinhedos, que vão perdendo suas cores, antes de entregarem à terra suas vestes vivas. Há um ponto, no jardim de uma casa de campo, que está à beira do lago como ela, que está avermelhando agora, como se das águas estivesse transbordando sangue, ao longo de uma sebe de ramos flexíveis, que o outono fez ficar cor de cobre, iluminado por fogo, enquanto os salgueiros esparsos por sobre as margens, não muito longe, estão tremendo em suas folhas azul-prateadas, leves, mais pálidas ainda do que costumam estar, antes de morrerem.
277.2Jesus não olha para aquilo que eu olho. Olha os pobres doentes, aos quais está concedendo a cura. Olha para velhos mendigos, aos quais dá dinheiro. Olha para crianças que as mães lhe apresentam, a fim de que Ele as abençoe. E olha piedosamente para um grupo de irmãs, que lhe contam a conduta do seu único irmão, que foi causa da morte da mãe, pela angústia que por ele lhe foi causada, lhe pedem, estas pobres mulheres, que Ele lhes de conselho, e reze por elas.
– Com certeza, Eu rezarei. Rezarei para que Deus vos dê paz, e para que vosso irmão se converta e se lembre de vós, dando-vos o que é justo e, sobretudo, para que ele volte a amar-vos. Porque, se ele fizer isso, fará tudo mais. Mas, vós o amais, ou estais com raiva dele? Vós o perdoais de coração ou esse vosso choro é pela raiva que tendes dele? Pois ele também é infeliz. E mais do que vós. E, mesmo com as suas riquezas, ele está mais pobre do que vós e é preciso ter dó dele. Ele não tem mais o vosso amor, e está sem o amor de Deus. Estais vendo como ele está infeliz? Vós e vossa mãe, com a morte acabareis ficando alegres por terminardes esta triste vida que ele vos fez viver. Mas ele, não, pelo contrário, da falsa alegria de agora, ele passaria para um tormento eterno e atroz. Vinde para perto de Mim. Falarei a todos, ao falar a vós.
E Jesus se encaminha para o centro de um prado, cheio de moitas floridas, ao centro do qual, há tempo, deve ter havido uma estátua. Agora aí ainda se vê o pedestal, rodeado por uma sebe baixa de mirto e de roseiras miúdas. 277.3Jesus se abaixa naquela sebe e faz o ato de falar. Todos se calam, e se aglomeram em volta dele.
– A paz esteja convosco. Ouvi.
Foi dito2: “Ama a teu próximo como a ti mesmo.” Mas, quem está no próximo? Está todo o gênero humano, tomado de um modo geral. Depois, em sentido mais restrito, todos os conterrâneos. Depois, sempre em sentido mais restrito, todos os parentes. E, enfim, como no último círculo desta coroa de amor, fechada como as pétalas de uma rosa ao redor do coração da flor, o amor aos irmãos pelo sangue, que são os primeiros próximos. O centro do coração da flor do amor é Deus, e o amor para com Ele é o primeiro que se há de ter. Ao redor deste centro está o amor aos pais, o segundo que se há de ter, porque realmente o pai e a mãe são os pequenos “deuses” da terra, criando-nos, e cooperando com Deus para criar-nos, além de cuidarem de nós com um amor incansável. Em torno desse ovário, que está chamejante de pistilos e exalando os perfumes dos amores mais seletos, eis que se concentram os círculos dos diversos outros amores. O primeiro é o devido aos irmãos nascidos do mesmo seio e do mesmo sangue do qual nós nascemos.
Mas por que é que tem que ser amado o irmão? Será porque sua carne e seu sangue são iguais aos nossos? Isto até os passarinhos, unidos em seu ninho, sabem fazer. Na verdade, eles têm apenas isto em comum: terem nascido de uma única ninhada e terem de comum sobre a língua o sabor da saliva da mãe e do pai. Nós, homens, somos mais do que os passarinhos. Temos mais do que a mesma carne e o mesmo sangue. Temos um pai, uma mãe e um sangue. Temos um Pai, além de um pai e uma mãe. Temos uma alma, e temos Deus, Pai de todos. E, então, é preciso saber amar o irmão como irmão, amar o irmão pelo pai e pela mãe que nos tem gerado e como irmão por Deus, que é Pai universal.
Deveis amá-lo, pois, espiritualmente, mais do que carnalmente. Amá-lo, não só pela carne e pelo sangue, mas pelo espírito, que nós temos em comum. Amar, como se deve, amar mais o espírito do que a carne do nosso irmão. Porque o espírito é mais do que a carne, visto que o Pai, que é Deus, é mais do que o pai que é homem. Porque o valor do espírito é maior do que o valor da carne. Porque o nosso irmão seria muito mais infeliz, se perdesse o Pai, que é Deus, do que se perdesse o pai que é homem. A orfandade, quanto ao pai que é homem, já é uma dor dilacerante, mas ela não é mais do que uma orfandade. Ela nos priva do que é terreno, quando temos necessidade de ajuda e de carícias. Mas o espírito, se ele souber crer, não fica lesado pela morte do pai. Pelo contrário, para acompanhá-lo até lá onde o justo se encontra, o espírito do filho sobe, como que atraído pela força do amor. E, em verdade, Eu vos digo que isto é amor, amor a Deus e ao pai, que subiu com o seu espírito a um lugar de sabedoria. Sobe para os lugares onde está mais perto de Deus, e age com mais retidão, porque não lhe falta a verdadeira ajuda, que são as orações do pai, que agora sabe amar perfeitamente, nem lhe falta a segurança, que agora lhe é dada pela certeza, por estar o pai agora vendo, melhor do que em vida, as obras do filho e pelo desejo de poder unir-se a ele por meio de uma vida santa.
Por isso é preciso preocupar-se mais com o espírito do que com o corpo do próprio irmão. Seria um amor bem pobre o que se interessasse só pelo que perece, descuidando-se do que não perece e que, tendo sido deixado de lado, pode levar a perder-se a alegria eterna. Muitíssimos são os que se cansam com coisas inúteis e se esforçam para conseguir o que tem apenas um mérito relativo, perdendo assim de vista o que é realmente necessário. As boas irmãs, os bons irmãos não devem preocupar-se somente de ter bem compostas as suas vestes, preparados os alimentos ou então de ajudar com o seu trabalho os irmãos. Eles devem inclinar-se sobre os seus espíritos e ouvir a voz deles, procurar perceber os defeitos e, com amorosa paciência, afadigar-se para dar a eles um espírito sadio e santo, se, naquelas vozes e naqueles defeitos virem algum perigo para a sua vida eterna. E devem, se ele pecou contra eles, esforçar-se para perdoar e para que ele seja perdoado por Deus, tendo ele voltado ao amor, sem o que Deus não perdoa.
277.4Está dito no Levítico: “Não odeies o teu irmão no teu coração, mas repreende-o publicamente para não ficares responsável pelos pecados cometidos por ele.” Mas, do não odiar ao amar, há um abismo de distâncias. Pode parecer-vos que a antipatia, o afastamento e a indiferença não sejam pecados, porque não chegam a ser ódio. Não. Eu não venho dar luzes novas ao amor, e necessariamente também não ao ódio, porque o que torna claro em cada caso o primeiro, sabe tornar claro em cada caso também o segundo. A mesma elevação para altas esferas pelo primeiro, traz consigo, em consequência, um maior afastamento pelo segundo, porque, quanto mais o primeiro se eleva, parece que o segundo se afunda, cada vez mais para baixo.
A minha doutrina é perfeição. É uma fineza de sentimentos e de juízo. É verdade sem metáforas e paráfrases. E Eu vos digo que antipatia, afastamento e indiferença já são ódio, simplesmente porque não são amor. Pois o contrario do amor é o ódio. Podereis dar outro nome à antipatia? Ao ato de afastar-vos de alguém? À indiferença? Quem ama tem simpatia para com o amado. Portanto, se o considera antipático, já não o ama. Quem ama, ainda que os negócios da vida o afastem materialmente do amado, continua a estar perto dele com seu espírito. Portanto, se um se afasta de outro com o espírito, não mais o ama. Quem ama nunca tem indiferença para com o amado, mas, ao contrário, tudo dele lhe interessa. Logo, se alguém tem indiferença por outro, é sinal de que não mais o ama. Vós, pois, estais vendo que estas três coisas são ramificações de uma mesma planta: a do ódio.
277.5Ora, que é que acontece, quando alguém que nós amamos nos ofende? Em noventa por cento, se não cresce um ódio, crescem a antipatia, o afastamento e a indiferença. Não. Não façais assim. Não fiqueis com um coração gelado, por causa dessas três formas de ódio. Amai. Mas vós estais perguntando uns aos outros: “Como poderemos?” Eu vos respondo: “Como o pode Deus, que ama até a quem o ofende. É um amor doloroso, mas sempre bom.” Vós dizeis: “E como fazer?” Eu dou a nova lei, tendo em vista o irmão culpado, e digo: “Se o teu irmão te ofende, não o aviltes publicamente, repreendendo-o publicamente, mas obriga o teu amor a andar para a frente e a esconder a falta do teu irmão aos olhos do mundo.” Porque com isto terás grande mérito aos olhos de Deus, fechando assim, por amor, a porta de todos os desejos do teu orgulho.
Oh! Como agrada ao homem fazer que se saiba que ele foi ofendido e que com isso sofreu! Ele vai, como um mendigo louco, não pedir moedas de ouro ao rei, mas vai a outros, tolos e pedintes como ele, pedir mãozadas de cinza e de estrume, e uns goles de um tóxico que queima. Isto é o que o mundo dá ao ofendido, que vai lastimando-se, e pedindo a esmola de um consolo. Deus, o Rei, dá ouro puro a quem, tendo sido ofendido, vai, sem rancor, sozinho chorar a seus pés a sua dor, e pedir a Ele, que é Amor e Sabedoria. um conforto de amor e de ensinamento pela contingência de estar ele sofrendo. Portanto, se quiserdes conforto, ide a Deus, e agi com amor.
Eu vos digo, corrigindo a lei antiga: “Se teu irmão pecou contra ti, vai corrigi-lo entre ti e ele somente. Se ele te ouvir, ganhaste novamente o teu irmão. E, junto com ele, ganhaste muitas bênçãos de Deus. E, se o teu irmão não te ouvir, mas te rejeitar, obstinado em sua culpa, tu, para que não se diga que tu estás consentindo nela, ou que és indiferente ao bem do espírito fraterno, toma contigo duas ou três testemunhas sérias, boas, confiáveis, e com elas volta ao teu irmão e, benignamente, repete na presença delas as tuas observações, a fim de que as testemunhas possam por suas bocas dizer que tu fizeste tudo o que podias para, com santidade, corrigir o teu irmão. Porque este é o dever de um bom irmão, visto que o pecado contra ti, feito por ele, é uma lesão à alma dele, e com a alma dele tu deves te preocupar. Se isso também não der resultado, leva o assunto ao conhecimento da sinagoga, para que ela o chame de novo à ordem, em nome de Deus. Se nem com isto ele se corrigir, e rejeitar a sinagoga e o Templo, como rejeitou a ti, considera-o, então, um publicano, um pagão.”
277.6Fazei assim com os irmãos pelo sangue e com os irmãos pelo amor. Porque até com o vosso próximo mais afastado deveis agir com santidade, sem avidez, sem inexorabilidade, sem ódio. E, quando são causas pelas quais se torna preciso ir aos juízes, e tu vais a eles com o teu adversário, Eu te digo, ó homem, que muitas vezes estarás indo ao encontro de males maiores, por tua culpa, e Eu te digo que procures fazer tudo o que for possível, enquanto vais indo pela estrada, para te reconciliares com ele, tanto se tiveres razão, como se não a tiveres. Porque a justiça humana é sempre imperfeita, e geralmente o astuto ganha na justiça, podendo o culpado passar por inocente, e tu, inocente, passares por culpado. E, então, te aconteceria, não somente não teres como reconhecido o teu direito, mas também perderes a causa, e de inocente passares para a lista dos culpados por difamação, e o juiz te passaria para o executor da justiça, e este não te deixaria ir embora, sem que tivesses pago até o último centavo.
Procura, pois, ser conciliador. O teu orgulho sofre com isso? Melhor ainda. Basta que a tua santidade cresça. Não tenhas saudade do ouro. Não sejais ávidos de louvores. Fazei que seja Deus quem vos louve. Procurai fazer para vós uma bolsa no Céu. E rezai por aqueles que vos ofendem. Para que se arrependam. Se isso acontecer, eles mesmos vos prestarão honras e bens. E, se eles não fizerem isso, disso Deus cuidará.
Ide agora, que é hora da refeição. Fiquem aqui somente os mendigos, para se assentarem à mesa dos apóstolos. A paz esteja convosco.
1 a coragem de dizer, em 184.7.
2 Foi dito, em Levítico 19, 17-18, que compreende a citação sucessiva em 277.4.
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