420. 420. Cura de um endemoninhado completo.A vocação da mulher ao amor.
29 de setembro de 1944.
420.1 Jesus e os seus ainda estão pelas campinas. Aqui a ceifa dos trigais já terminou, e os campos mostram os restolhos queimados. O Senhor vai indo ao lado de um caminho sombreado, e está falando com uns homens, que se ajuntaram ao grupo dos apóstolos.
– Sim –diz um deles–, nada o pode curar. Está mais do que louco. E, sabes de uma coisa? Ele é o terror de todos, especialmente das mulheres, porque ele sai correndo atrás delas, dizendo chalaças obscenas. E ai delas, se ele as pegasse!
– Nunca se sabe onde é que ele está –diz um outro–. Sobre os montes, nos bosques, nos sulcos dos prados… sai de uma cova de repente, como uma cobra… As mulheres têm muito medo dele. Uma, ainda jovenzinha, que estava voltando do rio, vendo-se agarrada pelo louco, morreu dentro de poucos dias com uma grande febre.
– Outro dia, meu cunhado tinha ido ao lugar, onde havia preparado para si e para os seus um sepulcro, pois havia morrido o pai de sua mulher, e a fim de preparar tudo o mais também para a sepultura. Mas teve que fugir, porque dentro do sepulcro lá estava o obsesso, nu e uivando como sempre, que o ameaçava com pedradas… Ele o acompanhou quase até o povoado, depois voltou para o sepulcro, e meu cunhado teve que sepultar o seu morto no meu sepulcro.
– E aquela vez em que ele se lembrou de que Tobias e Daniel o pegaram à força, o amarraram e o levaram para casa? Ele os esperou, meio escondido no meio dos caniços e da lama do rio. E, quando eles subiram para a barca, indo para a pesca ou para a travessia, não estou bem certo, com sua força de demônio, levantou a barquinha e a emborcou. Eles ficaram vivos por milagre, mas tudo o que havia na barca se perdeu, e ela também ficou com a quilha quebrada e os remos imprestáveis.
420.2 – Mas vós não fizestes que os sacerdotes o vissem? –interroga Judas de Alfeu.
– Sim. Amarrado como um fardo de mercadoria, ele foi levado até Jerusalém. Foi uma viagem!… Eu te digo, pois eu estava lá, que eu não preciso descer ao inferno para ficar sabendo o que acontece por lá e o que por lá se diz. Mas não adiantou nada…
– Como da outra vez?
– Pior!
– No entanto… e o sacerdote? –esclama Bartolomeu.
– Mas, que queres tu!… Seria necessário que…
– Necessário o quê? Continua…
Silêncio.
– Fala, afinal! Não tenhas medo. Não te acusarei.
– Pois bem… como eu ia dizendo… mas eu não quero pecar… ia dizendo… que… se… o sacerdote poderia sair-se bem se… se…
– Se ele fosse santo, queres dizer, mas não tens coragem de o dizer. Eu te digo: evita julgar. Mas é verdade tudo o que dizes. É dolorosamente verdadeiro!… –diz Pedro.
Jesus se cala, e suspira. Há um silêncio breve, mas completo. Depois, outro se atreve de novo.
– Se nós o encontrarmos, Tu o curas? E livras estes lugares dele?
– Tu esperas que Eu o possa? Por quê?
– Porque Tu és santo.
– Santo é Deus.
– E Tu és o Filho dele.
– Como é que o podes saber?
– Ora! Esta notícia está correndo e, além disso, nós somos da beira-rio, e sabemos o que fizeste, há três meses. Quem é que pode fazer parar uma cheia, senão o Filho de Deus?
– E Moisés não o fez? E Josué também?
– Eles trabalharam em nome de Deus e para sua glória. E puderam, porque eram santos… Tu o és ainda mais do que eles.
– E Tu o farás, Mestre?
– Eu o farei, se nós nos encontrarmos.
420.3 Eles continuam para diante. O calor, que está aumentando, os faz deixar a estrada e ir procurar um abrigo em um capão de mato, que fica à beira do rio, que agora está com suas águas revoltas, como quando estava na cheia. Mas, se bem que ele esteja com bastante água, ela está tranquila e azul, e cintilando ao receber a luz do sol.
O caminho se alarga, e deixa que se veja lá ao longe o branco das casas. Deve ser um lugarejo este, do qual eles se aproximam. Às margens do rio há pequenas construções, muito brancas e sem aberturas, a não ser uma em uma das paredes. Algumas delas estão abertas. Em sua maior parte estão fechadas. Ao redor das casas não há ninguém. Elas estão espalhadas por sobre um terreno árido e não cultivado, que parece abandonado. Nele só se veem ervas daninhas e grandes pedras.
– Vai-te embora! Vai-te embora! Para trás, senão eu te mato!
– Eis o obsesso, que já nos viu! Eu vou-me embora.
– Eu também.
– Eu vos acompanho.
– Não temais. Ficai e vede.
Jesus está tão seguro que os… corajosos lhe obedecem… mas indo colocar-se atrás dele. Jesus vai na frente, sozinho e majestático, como se nada estivesse vendo, nem ouvindo.
– Vai-te embora!
O urro daquela voz é de dilacerar. É um meio rosnado, e meio uivo. Parece impossível que aquilo possa ter saído de uma garganta humana.
– Vai-te embora! Para trás! Eu te mato. Por que me persegues? Eu não quero te ver!
O obsesso salta, completamente nu, moreno, com barba e cabelos longos e desgrenhados. As madeixas pretas e cheias de folhas secas e de poeira, estão caídas sobre seus olhos turvos, injetados pelo sangue, e que se viram nas órbitas. Sua boca espuma e sangra, porque o louco se golpeou com uma pedra cortante, e diz:
– Por que é que não te posso matar? Quem é que amarra a minha força? És Tu? És Tu?
420.4 Jesus olha para ele, e continua a ir para a frente.
O louco rola no chão e se morde, espuma ainda mais, fere-se com uma pedra, levanta-se, aponta com o dedo para Jesus, para o qual ele olha fixamente, todo transtornado, e diz:
– Ouvi, ouvi! Este que aí vem!
– Cala-te, demônio que estás no homem. Eu te ordeno.
– Não! Não! Não. Eu não me calo, não, não me calo. Que é que há entre nós e ti? Por que não nos tratas bem? Não te bastou ter-nos confinado no reino do inferno? Não te basta vir, ter vindo para tomar-nos o homem! Tu, que és grande e poderoso, passa e conquista, se é que o podes fazer. Mas deixa que nós façamos o que quisermos, e causemos prejuízos.. Nós somos para essas coisas. Oh! Mal… Não o posso dizer. Não faças que eu to diga! Não posso maldizer-te Eu te odeio! Eu te persigo! Eu te espero para torturar-te. Eu te odeio e odeio Aquele do qual tu procedes, e odeio Aquele que é o Espírito. Eu odeio o Amor, pois eu sou o ódio. Eu te quero maldizer. Eu te quero matar! Mas não posso. Não posso! Não posso, por enquanto! Mas eu te estou esperando, ó Cristo. Estou te esperando. Eu hei de ver-te morto! Ó hora de alegria! Não! Não é de alegria! Não! Morto, Tu? Não. Não estarás morto. E eu estarei vencido. Vencido! Sempre vencido… Ah!…
É o auge do paroxismo.
Jesus continua a dirigir-se para o obsesso, mantendo-o sob os raios dos seus olhares magnéticos. Jesus está agora completamente sozinho. Os apóstolos e os populares ficaram lá atrás. Estes últimos atrás dos apóstolos. E os apóstolos, afastados pelo menos uns trinta metros de Jesus.
Alguns dos moradores do lugar, que me parece muito povoado, e também rico, saíram, atraídos pelos gritos, e estão olhando a cena, prontos também eles para fugir, como os do outro grupo. A cena está formada assim: no centro está o obsesso e Jesus, já a poucos metros um do outro. Atrás de Jesus, do lado esquerdo, estão os apóstolos e os populares. A direita, atrás do obsesso, estão os moradores do povoado.
420.5 Jesus, depois de ter dado a ordem para que o demônio se calasse, também não falou mais nada. Somente ficou olhando fixamente para o obsesso. Agora, porém, Jesus levanta os braços, estende-os na direção do endemoninhado, e está para falar. Mas os urros do endemoninhado tornam-se verdadeiramente infernais. O obsesso se contorce, pula para a direita, para a esquerda, para o alto. Parece querer fugir, ou investir contra Jesus, mas não o consegue. E, pregado ali, e impossibilitado de fazer suas contorções, não pode mais fazer movimento algum. Quando Jesus estende os braços, com as mãos também estendidas, como quem está jurando, o louco urra com mais força e, depois de ter dito tantas imprecações e dado risadas, e blasfemado, ele se põe a chorar e a suplicar.
– Para o inferno, não. No inferno, não. Não me mandes para lá! A minha vida já é tão horrível aqui mesmo, neste cárcere de homem, que eu quero percorrer o mundo e despedaçar as tuas criaturas. Mas lá, lá, lá!… Não! Não! Não! Deixa-me fora!…
– Sai deste homem. Eu te ordeno.
– Não.
– Sai.
– Não.
– Sai!
– Não!
– Em nome do Deus verdadeiro, sai!
– Oh! Por que é que me vences? Mas eu não saio, não. Tu és o Cristo, o Filho de Deus, mas eu sou…
– Quem és?
– Eu sou Belzebu, Belzebu eu sou, o Dono do mundo, e não me dobro. Eu te desafio, ó Cristo!
O possesso se imobiliza de repente, fica rígido, quase hierático, e fita a Jesus com olhos fosforescentes, movendo apenas os lábios, emitindo palavras ininteligíveis, e fazendo, com as mãos levadas para as costas e com os cotovelos dobrados, alguns leves movimentos. Jesus também se deteve. Com os braços, agora cruzados sobre o peito, olha para ele. Jesus move somente os lábios. Mas não ouço nenhuma palavra.
420.6 Os presentes estão esperando, e são de parecer diferente.
– Ele não vai conseguir!
– Sim, agora o Cristo consegue.
– Não. O outro está ganhando.
– Ele é muito forte.
– Sim.
– Não.
Jesus descruza os braços. O seu rosto irradia autoridade, e sua voz é como um trovão.
– Sai. É a última vez. Sai, ó Satanás! Sou Eu que ordeno!
– Aaaah!
(é um urro muito longo, e com uma aflição sem medida. Nem quem vai sendo traspassado lentamente por uma espada sente uma coisa assim). Depois o urro se transforma em palavras:
– Eu saio, sim. Tu me venceste. Mas eu me vingarei. Tu me esmagas, mas tens ao teu lado um demônio, e nele eu entrarei para possuí-lo, investindo-o de todo o meu poder. E não haverá ordem tua que o arranque de mim. Em qualquer tempo e em qualquer lugar eu gero os meus filhos. Eu, o autor do Mal. E, como Deus por si mesmo se gerou, eu também por mim mesmo me gero. Minha concepção é no coração do homem, e este me pariu, pariu um novo Satanás, que é ele mesmo, e eu fico jubilante, jubiloso por ter tantos filhos! Tu e os homens sempre encontrareis estas minhas criaturas, que são outros tantos eu. Eu vou, ó Cristo, tomar posse do meu novo reino, como Tu queres, e vou deixar-te este farrapo de homem, estragado por mim. Por meio dele, que eu te entrego, recebe uma esmola que Satanás te faz. Ó Deus, eu pego mil e dez mil agora, e Tu os encontrarás, quando estiveres como um sujo pedaço de carne entregue à disputa dos cães, e eu tomarei dela, durante séculos e séculos, dez mil ou cem mil, para fazer dela o meu instrumento e o teu tormento. Crês Tu que ganharás de mim, ao ergueres o teu Sinal? Os meus o derrubarão, e eu vencerei… Ah! é certo que eu não te venço. Mas te torturarei em ti mesmo e nos teus…
Ouve-se um fragor, como o de um raio. Mas não há esplendor de luz, nem roncar de trovão. Somente se ouve um estampido seco e dilacerante, e, enquanto o obsesso cai como morto no chão, e lá fica, um grosso tronco, que está perto dos discípulos, cai por terra, como se, a um metro do chão, tivesse sido serrado por uma serra de fogo em funcionamento. O grupo dos apóstolos mal teve tempo de escapar. E os populares fugiram todos.
420.7 Mas Jesus, que se inclinou sobre o que está prostrado, e o tomou pela mão, estando assim encurvado e com mão do que foi libertado em sua mão, diz:
– Vinde. Não temais!
Temerosas, as pessoas se aproximam.
– Está curado. Ide buscar uma roupa.
Um deles sai correndo.
O homem vai voltando a si, pouco a pouco. Abre os olhos, e eles vão ao encontro do olhar de Jesus. Procura sentar-se. Com a mão livre, enxuga o suor, o sangue e a baba, joga para trás os cabelos e fica se observando a si mesmo. Vê que está nu, diante de tanta gente, e fica com vergonha. Então, ele se encolhe sobre si mesmo, e pergunta:
– Que foi que aconteceu? Quem és Tu? Por que estou aqui? E assim nu?
– Não é nada, amigo. Agora vão trazer-te roupa, e voltarás para tua casa.
– De onde é que eu vim? E Tu, de onde vens?
Fala com voz cansada e fraca o doente.
– Eu vim do Mar da Galileia.
– E, como é que me conheces? Por que me estás socorrendo? Como te chamas?
Chegam alguns com uma roupa, e a põem no miraculado. Chega também uma pobre velha, chorosa, que aperta ao coração o curado.
– Meu filho!
– Minha mãe! Por que me deixaste por tanto tempo?
A velha chora mais fortemente, e o beija e acaricia. Quereria dizer outras palavras, mas Jesus faz que ela se controle, e lhe inspira palavras mais piedosas:
– Tu estiveste muito tempo doente, meu filho! Louva a Deus, que te curou, e ao Messias, que agiu em nome de Deus.
– E este, como se chama?
– Jesus da Galileia. Mas o seu nome é Bondade. Beija as mãos dele, meu filho, dize-lhe que te perdoe tudo o que fizeste ou disseste… certamente tu lhe falaste de tua…
– Sim, ele já falou de sua febre –diz Jesus para evitar as palavras imprudentes–. Mas não era ele que estava falando, e Eu não tive severidade para com ele. Que ele seja bom, agora. Seja continente.
Jesus frisa bem estas palavras. O homem abaixa a cabeça, confuso.
420.8 Mas aquilo, que por Jesus foi poupado, não o é pelos moradores ricos, que se aproximaram. Entre eles estão os inevitáveis fariseus.
– Ainda te saíste bem! Bom para ti foi teres encontrado este homem, que é o patrão dos demônios.
– Endemoninhado, eu?
O homem está aterrorizado.
A velha explode:
– Malditos! Gente sem piedade e sem respeito! Víboras rancorosas e cruéis! E tu, também, ministro inútil da sinagoga. Chamar ao Santo de patrão dos demônios!
– E quem queres dizer que possa agir contra eles, senão o rei ou pai deles?
– Oh! Sacrílegos! Blasfemadores! Sede m…
– Silêncio, mulher. Sê feliz com o teu filho. Não faças imprecações. Eu não sinto pena dele, nem preocupações. Ide todos em paz. Aos bons, a minha bênção. Vamos, meus amigos.
– Posso acompanhar-te?
É o curado que fala.
– Não. Fica aí. Sê testemunha de Mim, e alegria de tua mãe. Vai.
E, por entre gritos de aplauso e murmúrios de desprezo, Jesus vai atravessando uma parte da pequena cidade, e depois torna a voltar para debaixo das sombras das árvores que estão ao longo da margem do rio.
420.9 Os apóstolos estão ao redor dele, bem perto.
Pedro pergunta:
– Por que é, Mestre que o espírito imundo fez tanta resistência?
– Porque era um espírito completo.
– Que quer dizer essa palavra?
– Ouvi-me. Há quem se dá a Satanás, abrindo uma porta a um vício capital. E há quem se dá duas vezes, quem três, quem sete. Quando alguém abre seu espírito aos sete vícios, então entra nele um espírito completo. Entra Satanás, o príncipe negro.
– Aquele homem, ainda jovem, como podia ser possuído por Satanás?
– Oh! meus amigos! Sabeis vós por qual caminho vem Satanás? Três são os caminhos geralmente usados e deles há um que não falha nunca. Os três são: a sensualidade, o dinheiro e a soberba da mente. O da sensualidade é o que nunca falha. Feita estafeta das outras concupiscências, ela passa semeando o seu veneno, e tudo floresce, numa floração satânica. Por isso, Eu vos digo: “Sede senhores da vossa carne.” Seja esse domínio o meio de todos os outros, do mesmo modo que esta escravidão é o começo de todas as outras. O escravo da luxúria se torna ladrão e trapaceiro, cruel, homicida, contanto que esteja servindo à sua patroa. A própria sede de poder tem parentesco com a carne. Não vos parece? Mas assim é. Meditai, e vereis se Eu estou errado. Pela carne, Satanás entrou no homem e, feliz se ele o puder fazer, é pela carne que ele torna a entrar. Ele, uma e sete vezes, com a proliferação de suas legiões de demônios menores.
– De Maria de Magdala Tu disseste1 que ela tinha sete demônios.
Tu o disseste, e com certeza eram demônios da luxúria. E, no entanto, Tu a libertaste com muita facilidade.
– Sim, Judas. É verdade.
– E, então?
– Então tu dizes que minha teoria cai por terra. Não, meu amigo. A mulher queria já ficar livre da posse dele. Ela queria. A vontade é tudo.
420.10 – Por que é, Mestre, que como nós vemos, muitas mulheres são possuídas pelo demônio e, pode-se dizer, por esse demônio ?
– Vê, Mateus. A mulher não é igual ao homem em sua formação e nas reações quanto à culpa original. O homem tem outras metas para seus desejos, mais ou menos bons. A mulher tem uma meta: o amor. O homem tem uma outra formação. A da mulher é esta: é sensível, e nisso é até mais perfeita, por estar destinada à geração. Tu sabes que toda perfeição gera um aumento de sensibilidade. Um ouvido perfeito ouve o que escapa a outro ouvido menos perfeito, e se compraz com isso. O mesmo se diga do olho, e do paladar e do olfato. A mulher devia ser a doçura de Deus sobre a terra, devia ser o amor, a encarnação desse fogo que move Aquele que é, a manifestação, o testemunho desse amor. Deus a tinha por isso dotado de um espírito superabundantemente sensível para que, sendo mãe um dia, soubesse e pudesse, a seus filhos abrir os olhos do coração para o amor a Deus e aos seus semelhantes, assim como o homem teria aberto os olhos da mente aos seus filhos para entenderem e agirem. Reflete na ordem que Deus fez a si mesmo: “Façamos para Adão uma companheira.” Deus-Bondade não podia senão querer fazer uma boa companheira para Adão. Quem é bom ama. A companheira de Adão devia, pois, ser capaz de amar, a fim de poder ajudar, colaborar, e ser a substituta de Deus em amar ao homem, sua criatura, de modo que até nas horas em que a Divindade não se manifestava à sua criatura com sua voz de amor, o homem não se sentisse infeliz por falta de amor. Satanás sabia dessa perfeição. Satanás sabe muitas coisas. É ele que fala pelos lábios dos pitões, dizendo mentiras, misturadas com verdades. E estas verdades, ele as odeia, porque ele é a Mentira, e ele as diz somente — lembrai-vos vós todos, e vós do futuro — ele somente as diz para seduzir-vos com a quimera de que não são as Trevas que estão falando, mas a Luz. Satanás, astuto, tortuoso e cruel, insinuou-se para dentro desta perfeição e mordeu nela, deixando nela o seu veneno. A perfeição da mulher no amar tornou-se assim um instrumento para Satanás poder dominar a mulher e o homem e, poder assim propagar o mal…
420.11 – Mas, e as nossas mães, então?
– João, temes tu por elas? Não são todas as mulheres que são instrumento de Satanás. Perfeitas no sentimento, são sempre exageradas na ação: São anjos, quando querem ser de Deus, e são demônios, quando querem ser de Satanás. As mulheres santas, e tua mãe está entre estas, querem ser de Deus, e são anjos.
– Não te parece injusta a punição dada à mulher, Mestre? Também o homem pecou.
– Mas, e a recompensa, então? Está escrito que a Mulher trará de volta ao mundo o Bem e que Satanás será vencido por Ela.
– Não julgueis nunca as obras de Deus. Isto em primeiro lugar. Mas pensai que, assim como pela mulher é que entrou o Mal, é justo que por Ela entre o Bem no mundo. Há de ser anulada uma página escrita por Satanás. E o que fará isso, vai ser o pranto de uma mulher. E, visto que Satanás dará eternamente os seus urros, eis que uma voz de mulher cantará para abafar aqueles urros.
– Quando será?
– Em verdade, Eu vos digo que a voz dela já desceu dos Céus, onde, desde a eternidade, ela já vinha cantando o seu aleluia.
– Ela será maior do que Judite?
– Maior do que todas as mulheres.
– Que fará? Que fará ela, então?
– Virará Eva, com o seu tríplice pecado, de cabeça para baixo. Obediência absoluta. Uma pureza absoluta. Uma humildade absoluta. Sobre isso é que ela se erguerá, como uma rainha vitoriosa.
– Mas, não é a tua mãe, Jesus, a que é a maior, por ter-te gerado?
– Grande é aquele que faz a vontade de Deus. E Maria é grande por isso. Qualquer outro merecimento vem de Deus. Mas este é todo dela, e que por isso seja Ela bendita.
E tudo termina.
420.12Diz Jesus:
– Tu viste um “possesso” de Satanás. Muitas respostas há nas minhas palavras. Não tanto por causa de ti, mas por causa dos outros. Irão gostar? Não. Para aquelas que delas mais necessitam não adiantarão nada. Repousa com a minha paz.
1 disseste, como dirá em 503.2.
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