266. 266. Os discípulos do Batista querem certificar-seque Jesus é o Messias. Testemunho do Precursore invectiva contra as cidades impenitentes.
29 de agosto de 1945.
266.1Jesus está sozinho com Mateus que, tendo-se ferido em um dos pés, não pôde sair com os outros para ir pregar. Contudo, os doentes e os desejosos de ouvir a Boa Nova se apinham no terraço e nos espaços livres da horta para ouvi-lo e obterem ajuda.
Jesus termina de falar, dizendo:
– Tendo nós refletido juntos sobre a grande frase1 de Salomão: “Na abundância da justiça está a suma fortaleza”, Eu vos exorto a possuir essa abundância, porque ela é a moeda com que se entra no Reino dos Céus. Permanecei com a minha paz, e Deus esteja convosco.
Depois, o Senhor se volta para os pobres e os doentes — e, em muitos casos, eles são uma coisa e outra ao mesmo tempo — e escuta com bondade as suas lamentações, socorre-os com dinheiro, aconselha-os com palavras, cura-os com a imposição das mãos e com sua palavra. Mateus, ao lado do Senhor, se encarrega de distribuir as moedas.
266.2Jesus está ouvindo com atenção uma pobre viúva, que lhe conta, por entre lágrimas, como foi a morte repentina de seu marido, que era carpinteiro, quando ele estava em seu banco de trabalho, e acontecida poucos dias antes:
– Eu saí correndo à procura de Ti, chegando até aqui e, então, todos os parentes do falecido me acusaram de ser uma mulher sem compostura e dura de coração, e ainda continuam a falar mal de mim. Mas eu vim porque sei que Tu ressuscitas os mortos, e sei que se eu pudesse encontrar-te, meu marido teria sido ressuscitado. Mas Tu não estavas aqui. Agora ele está no sepulcro, há duas semanas… e eu estou aqui com meus cinco filhos… Os parentes me odeiam, e não me ajudam. Eu tenho oliveiras e videiras. São poucas, mas poderiam dar-me o pão para o inverno, se eu pudesse conservá-las até o tempo da colheita. Mas eu não tenho dinheiro, porque o falecido, há tempo já não vinha muito bom, e pouco podia trabalhar e, para manter-se, comia e bebia até demais… Ele dizia que o vinho lhe fazia bem… quando, na verdade o que lhe fez foi o mal dobrado de matá-lo e de levar embora as nossas economias, que já estavam tão magras, por causa do pouco trabalho dele. Ele estava para terminar um carro e um cofre e já tinha montado duas camas, umas mesas e mesinhas. Mas agora… Mas agora ficaram por acabar, e o meu filho homem não tem ainda nem oito anos. Eu vou perder o dinheiro… Vou ter que vender as ferramentas, a madeira. O carro e o cofre eu nem os posso vender como carro e cofre, porque, tendo ficado inacabados, vou precisar vendê-los como lenha para queimar. E o dinheiro que isso der não bastará, porque eu, minha mãe já velha e doente e meus cinco filhos, somos sete pessoas… Eu vou vender a vinha e as oliveiras. Dize-me: que devo fazer? Eu gostaria de conservar o banco e as ferramentas para o meu filho, que já sabe alguma coisa a respeito de madeira… gostaria também de conservar a terra, para dela viver, e como dotes para as filhas…
Jesus estava ouvindo tudo isso, quando uma confusão se arma entre as pessoas, e faz que Ele perceba que alguma novidade há por ali. Ao virar-se para ver, o que vê são três homens, que estão procurando abrir caminho por entre a multidão. Jesus se volta de novo para a viúva:
– Onde é que tu moras?
– Em Corozaim, perto da entrada que vai para a Fonte Quente. Moro em uma casa baixa, entre duas figueiras.
– Está bem. Eu virei acabar de fazer o carro e o cofre, e tu os venderás a quem os encomendou. Espera-me amanhã cedo.
– Mas, Tu!? Tu trabalhares para mim?
A mulher está sufocada pelo espanto.
– Eu voltarei a trabalhar no meu ofício, e te darei paz. E, enquanto isso, estarei dando uma lição de caridade aos de Corozaim, que não têm coração.
– Oh! Sim. Sem coração! Se ainda estivesse aqui o velho Isaque! Ele não me teria deixado morrer de fome! Mas ele voltou ao seio de Abraão…
– Não chores. Vai tranquila. Aqui tens o que já serve para hoje. Amanhã Eu virei. Vai em paz.
A mulher se prostra para beijar-lhe a veste, e sai dali mais aliviada.
266.3– Mestre três vezes santo, posso eu te saudar? –pergunta um dos três recém-chegados, que pararam respeitosamente atrás de Jesus, esperando que Ele se despedisse da mulher e, por isso, eles ouviram a promessa de Jesus. E este homem que saúda é Manaém.
Jesus se volta e com um sorriso diz:
– Paz a ti, Manaém! Então, te recordaste de Mim?
– Sempre, Mestre. E tinha pensado em ir a Ti na casa de Lázaro ou no horto das Oliveiras para estar contigo. Mas antes da Páscoa foi preso João Batista. Foi preso por traição e eu temia que, na ausência de Herodes que veio a Jerusalém pela Páscoa, Herodíades ordenasse a morte do santo. Ela não quis ir às festas de Sião, dizendo-se doente. Doente, sim. De ódio e de luxúria… Eu fui a Maqueronte para controlar e… reter a pérfida mulher, que seria capaz de matar por suas próprias mãos… E não o faz por medo de perder o favor de Herodes, que… por medo ou convicção defende João, limitando-se a tê-lo prisioneiro. Ora, Herodíades fugiu do calor oprimente de Maqueronte indo para um castelo de sua propriedade. E eu vim com estes meus amigos e discípulos de João. Ele os mandava para que te interrogassem. E eu me uni a eles.
266.4A multidão, ouvindo falar de Herodes e compreendendo quem fala, se aproxima curiosa em torno do grupo de Jesus e dos três.
– Que desejais perguntar-me? –pergunta Jesus depois de trocar saudações com dois austeros personagens.
– Fala tu, Manaém, que sabes tudo e que és mais amigo –diz um dos dois.
– Eis, Mestre. Tu deves tolerar se por tanto amor os discípulos possuem alguma dúvida para com Aquele que creem antagonista ou suplantador de seu mestre. Assim fazem os teus, assim aqueles de João. É um compreensível ciúme, que demonstra todo o amor dos discípulos para os mestres. Eu… sou imparcial, e estes que estão comigo o podem dizer, porque te conheço e a João e vos amo com justiça, tanto que, por quanto te ame por aquilo que és, preferi fazer o sacrifício de estar perto de João, porque venero a ele também pelo que é, e atualmente porque está mais em perigo do que Tu. Ora, por este amor, no qual sopram com seu ódio os fariseus, esses chegaram a duvidar que Tu sejas o Messias. E confessaram a João, crendo dar-lhe uma alegria ao dizer “Para nós tu és o Messias. Não pode haver outro mais santo do que tu.” Mas João os reprovou, primeiramente chamando-os de blasfemadores, e depois, depois da reprovação, com mais doçura, explicou todas as coisas que te indicam como verdadeiro Messias. Enfim, vendo-os ainda não persuadidos, tomou dois deles, estes, e lhes disse: “Ide a Ele e dizei-lhe em meu nome: ‘És Tu aquele que deve vir ou devemos esperar por outro?’” Não mandou os discípulos já pastores, porque eles creem e não seria bom mandá-los. Mas tomou entre aqueles que duvidam para fazê-los aproximar-se e para que a tua palavra dissipe as dúvidas dos seus semelhantes. Eu os acompanhei para poder te ver. Já disse tudo. Tu, agora, acalma as suas dúvidas.
266.5– Mas não nos creias hostis, Mestre! As palavras de Manaém o poderiam fazer pensar. Nós… Nós… Nós conhecemos há anos Batista e o temos visto sempre santo, penitente, inspirado. Tu… não te conhecemos mais que pela palavra de outros. E Tu sabes o que é a palavra dos homens… Cria e destrói fama e louvor no contraste de quem exalta e de quem abate, assim como uma nuvem é formada e desfeita por dois ventos contrários.
– Sei, sei. Leio a vossa alma, e os vossos olhos leem a verdade em tudo o que vos circunda, assim como os vossos ouvidos ouviram o colóquio com a viúva. Isto bastaria para persuadir. Mas vos digo. Observai quem me circunda. Que não são ricos nem alegres, que não são pessoas escandalosas. Mas pobres, doentes, honestos israelitas que querem conhecer a Palavra de Deus. E não outra coisa. Isto, isto, esta mulher, e depois aquela menina e aquele velho, vieram aqui doentes e agora estão sãos. Interrogai-os e vos dirão o que tinham e como os curei e como agora estão. Fazei-o, fazei-o. Eu, entretanto, falo com Manaém.
E Jesus quer retirar-se.
– Não, Mestre. Nós não duvidamos das tuas palavras. Somente, dá-nos uma resposta para levarmos a João, para que ele veja que viemos e para que possa, em base nesta, persuadir os nossos companheiros.
– Ide referir isso a João: “os surdos ouvem; esta menina era surda e muda. Os mudos falam; e aquele homem era mudo desde o nascimento. Os cegos veem.” 266.6Homem, vem aqui. Dize a eles o que tinhas –diz Jesus segurando por um braço a um dos miraculados.
E o homem diz:
– Eu sou pedreiro, e me caiu sobre o rosto um balde de cal viva. E me queimou os olhos. Durante quatro anos, eu fiquei nas trevas. O Messias me lavou os olhos secos com sua saliva, e eles ficaram mais vivos do que quando eu tinha vinte anos. Que Ele seja por isso bendito.
Jesus continua:
– E assim é com os cegos, os surdos e os mudos curados. Os coxos se põem de pé, os estropiados se põem a correr. Ali está aquele velho, que antes era encolhido, e agora está ereto como uma palmeira do deserto e ágil como uma gazela. Curam-se as mais graves doenças. Tu, mulher, que é que tinhas?
– Um mal no seio, por ter dado leite demais a umas bocas vorazes. E o mal que eu tinha no seio ia roendo a minha vida.
Agora, olhai, e ela entreabre o vestido, para mostrar intactas as mamas, e acrescenta:
– Eu era uma chaga só, e o que o prova é a minha túnica, ainda molhada pela podridão. Agora, eu vou para casa pôr uma roupa limpa, e estou forte e feliz. Enquanto que ontem eu estava morrendo, trazida até aqui por uns que tiveram dó de mim, e me sentia muito infeliz… por causa dos meninos, que estavam para ficar sem mãe. Louvor eterno ao Salvador.
– Estais ouvindo? E podeis interrogar o sinagogo desta cidade a respeito de sua filha e, voltando a Jericó, passai por Naim, perguntai pelo jovem que foi ressuscitado na presença da cidade inteira, quando ele já estava para ser colocado no sepulcro. Assim, podereis referir-vos aos mortos que ressuscitaram. Que muitos leprosos estejam curados, podeis ficar sabendo pela boca dos habitantes de muitos lugares de Israel, mas, se quiserdes ir a Sicaminon, procurai alguns deles entre os discípulos, e encontrareis muitos. Dizei, pois, a João que os leprosos ficam limpos. E dizei, pois o estais vendo, que aos pobres está sendo anunciada a Boa Nova. E feliz daquele que não se escandalizar de Mim. 266.7 Dizei isto a João. E dizei-lhe que Eu o abençôo com todo o meu amor.
– Obrigado, Mestre. Abençoa-nos também a nós, antes de nossa partida.
– Vós não podeis partir nestas horas de calor. Ficai, então, como meus hóspedes, até à tarde. Vivereis por um dia a vida deste Mestre, que não é João, mas a quem João ama, porque sabe quem Ele é. Vinde para casa. Lá está mais fresco, e tomareis uma refeição. Adeus, meus ouvintes. A paz esteja convosco –e tendo despedido as turbas, entra em casa com os três hóspedes…
266.8… Que coisas foram ditas naquelas horas de forte calor, eu não sei. O que eu estou vendo agora é a preparação da partida dos dois discípulos para Jericó. Manaém parece que vai ficar, porque não lhe trouxeram o cavalo, com os dois jumentos, que estão diante da abertura do muro do pátio. Os dois enviados por João, depois de muitas inclinações, feitas a Jesus e a Manaém, montam a cavalo, e viram-se ainda, para tornarem a olhar e saudar, até que uma curva do caminho faça que eles desapareçam de vista.
Muitos em Cafarnaum se ajuntaram para verem esta partida, porque a notícia da vinda dos discípulos do João, e a resposta que Jesus deu a eles já correm pela cidade inteira, e creio que até por outras cidades vizinhas. Vejo pessoas de Betsaida e de Corozaim, que se apresentaram aos enviados de João, perguntando por ele, e mandando-lhe saudações — talvez sejam ex-discípulos do Batista — e que tinham ficado numa encruzilhada, com os de Cafarnaum, comentando os fatos. Jesus, tendo Manaém a seu lado, está querendo entrar de novo na casa falando. Mas o povo o rodeia, e o aperta, cheio de curiosidade, e querendo observar de perto o irmão de leite de Herodes e as suas maneiras cheias de distinção para com Jesus e cheio do desejo de falar com o Mestre.
266.9– Aqui está também Jairo, o sinagogo. Mas, graças a Deus, aqui não há fariseus. É o próprio Jairo quem diz:
– Ficará contente João! Não somente mandaste uma resposta exaustiva, mas também, detendo-os aqui, pudeste ensiná-los e mostrar-lhes um milagre.
– E que foi de não pouca importância –diz um homem.
– Eu trouxe de propósito a minha menina aqui hoje, para que todos a vissem. Nunca ela esteve tão bem, e para ela é uma alegria vir até o Mestre. Vós ouvistes, não? A resposta dela? “Eu não me lembro do que é a morte. Mas eu me lembro de que um anjo me chamou, levando-me através de uma luz cada vez mais viva, no fim da qual estava Jesus. E como eu o vi naquela hora com o meu espírito que estava voltando a mim, daquele modo não o vejo mais agora. Vós e eu agora vemos o Homem. Mas o meu espírito viu a Deus que está encerrado no Homem.” E, como ela ficou boa, desde então! Ela já era boa. Mas agora é um verdadeiro anjo. Ah! para mim, digam os outros o que quiserem, para nós, só Tu és santo!
– Mas João também é santo –diz um de Betsaida.
– Sim, mas é muito severo!
– Não é mais severo para com os outros do que para consigo mesmo.
– Mas não faz milagres, e dizem que ele jejua para ficar como um faquir.
– Seja como for, mas é um santo.
E o bate-boca vai-se espalhando pelo meio da multidão. 266.10Jesus levanta a mão e a estende naquele seu gesto habitual, que Ele faz quando pede silencio e atenção, porque deseja falar. E logo todos fazem silêncio.
Diz Jesus:
– João é santo, e um grande santo. Não olheis para o seu modo de agir, nem para o fato de não fazer milagres. Em verdade, Eu vos digo: “Ele é um grande no reino de Deus.” Lá aparecerá em toda a sua grandeza.
Muitos se queixam de que ele era e é severo, até parecer um homem rude. Em verdade, Eu vos digo que ele tem trabalhado como um gigante para preparar os caminhos do Senhor. E quem trabalha assim, não tem tempo a perder com molezas. Não dizia ele, enquanto ia ao longo do Jordão, aquelas palavras2 de Isaías, com as quais ele e o Messias foram profetizados: “Todo vale será aterrado, todo monte será arrasado, os caminhos tortos serão endireitados e os escabrosos serão aplanados”, e isso para preparar os caminhos do Senhor e Rei? Mas, em verdade, ele fez mais do que todo Israel para preparar-me o caminho! Ora, quem precisa arrasar montes, aterrar vales endireitar caminhos ou suavizar as subidas muito íngremes, só pode estar fazendo um trabalho rude. Porque ele era o Precursor, e somente o curso de umas poucas luas é que o punha na minha frente, e tudo havia de ser feito, antes que o sol já estivesse no alto, no dia da Redenção. O tempo é este, o Sol se levanta para brilhar sobre Sião, e de lá sobre o mundo todo. João preparou o caminho. Como devia.
Que fostes ver no deserto? Algum caniço agitado pelo vento para todas as direções? Mas, então, que fostes ver? Algum homem vestido com vestes delicadas? Mas os que assim se vestem moram nas casas dos reis, envoltos em vestes macias e servidos por mil servos e cortesãos, cortesãos de um pobre homem. Aqui está um deles. Perguntai-lhe se nele não há um desgosto pela vida da Corte, e não há nela profunda admiração pelo penhasco solitário e escabroso, sobre o qual em vão se arremessam os raios e saraivadas, e os ventos loucos lutam para arrancá-lo, enquanto que ele continua sólido, projetando todas as suas partes para o céu, com aquela ponta que apregoa a alegria do alto, por ser tão vertical, e pontiaguda como uma chama que sobe. Esta rocha é João. Assim é que o vê Manaém, porque compreendeu a verdade da vida e da morte, e vê grandeza onde existe, ainda que esteja escondida por baixo de aparências selvagens.
E vós, que vistes em João, quando fostes a ele? Um profeta? Eu vos digo: Ele é mais do que um profeta. Ele é mais do que muitos santos, mais do que os santos, porque é dele que está escrito3: “Eis que envio diante de vós o meu anjo para preparar o teu caminho diante de Ti.”
266.11Anjo. Considerai. Vós sabeis que os anjos são espíritos puros criados por Deus à sua semelhança espiritual, enviados para estabelecer uma união entre o homem, que é a perfeição da criatura visível e material, e Deus, que é a Perfeição do céu e da Terra, Criador do Reino Espiritual e do reino animal. Até no homem mais santo existe sempre a carne e o sangue para pôr um abismo entre ele e Deus. E o abismo se torna mais profundo pelo pecado, que torna pesado até o que há de espiritual no homem. Eis que, então, Deus cria os anjos, criaturas que atingem o vértice da escada das criaturas, assim como os minerais lhe formam a base. Os minerais, o pó que compõe a terra, os materiais inorgânicos em geral. Espelhos tersos do pensamento de Deus, chamas cheias de vontade de trabalhar por amor, prontas para compreender, solícitas para agir, livres em suas vontades como nós, mas de uma vontade totalmente santa, que não conhece as rebeliões nem os estímulos do pecado. Isto são os anjos adoradores de Deus, seus mensageiros junto aos homens, nossos protetores, doadores a nós da Luz que os reveste e do Fogo, que eles, ao adorarem, concentram em si.
João é chamado “anjo”, por sua palavra profética. Pois bem. Eu vos digo: “Entre os nascidos de mulher não apareceu nenhum maior do que João Batista.” E, no entanto, o menor no reino dos Céus é filho de Deus, e não filho de mulher. Procurai, pois, todos vós, tornar-vos cidadãos do Reino.
266.12Que estavam perguntando um ao outro?
– Nós estávamos dizendo: “Mas João estará no Reino? Como ele estará?”
– Ele, em sua alma, é já do Reino, e lá ele estará depois da morte, como um dos sóis mais esplêndidos da eterna Jerusalém. E isso pela graça, que nele é sem defeito, e por sua própria vontade. Porque ele foi e é violento até consigo mesmo, por um fim santo. Do Batista para a frente, o Reino dos Céus é daqueles que sabem conquistá-lo, fazendo força contra o Mal, pois são os violentos que o conquistam. Porque agora estão sendo conhecidas as coisas que se hão de fazer, e todos os meios são dados para essa conquista. Já não estamos mais naquele tempo em que quem falava eram somente a Lei e os Profetas. Esses falaram até João. Agora fala a Palavra de Deus, e ela não esconde nem um i de tudo o que é preciso saber-se para essa conquista. Se credes em Mim, deveis ver João como Elias que há de vir4. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Mas, ao que é que Eu irei comparar esta geração? É semelhante àquela de que falam os meninos que, sentados na praça, gritam aos seus companheiros: “Nós tocamos música, e vós não dançastes, entoamos lamentações, e não chorastes.” Com efeito, veio João, que não come e não bebe, e esta geração diz “Ele pode fazer assim, porque está com o demônio, que o ajuda.” Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem “Aí está um comilão e um beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores.” Assim é que à Sabedoria se faz justiça pelos seus filhos! 266.13Em verdade, Eu vos digo que só os pequeninos é que sabem reconhecer a verdade, porque neles não há malícia.
– Disseste bem, Mestre –diz o sinagogo–. Eis aí porque a minha filha, ainda sem malícia, Te vê, como nós não conseguimos ver-Te. Contudo, esta cidade e as cidades vizinhas estão transbordando, cheias da tua doutrina, da tua sabedoria e bondade, e, devo confessá-lo, só sabem proceder com maldade para contigo. Elas não se arrependem. E o bem que Tu lhes dás, fermenta em ódio contra Ti.
– Que estás dizendo, Jairo? Tu nos estás caluniando! Nós aqui estamos, porque somos fiéis ao Cristo –diz um de Betsaida.
– Sim. Nós. Mas, quantos somos nós? Somos menos de cem pessoas e de três cidades, que deveriam estar aos pés de Jesus. Entre os que estão faltando, e eu falo somente dos homens, a metade é inimiga, uma quarta parte é indiferente, e os outros eu quero supor que não tenham podido vir. Não é isso culpa aos olhos de Deus? E deixarão de ser punidos todo esse ódio e essa teimosia no mal? Fala Tu, Mestre, que sabes e que, se te calas, é pela tua bondade, e não porque não o saibas. Tu és magnânimo, e isso é por eles tomado como ignorância e fraqueza. Fala, pois, e que a tua fala possa sacudir pelo menos os indiferentes, já que os malvados não se convertem, mas se tornam cada vez piores.
– Sim. Isso é uma culpa, e será punida. Porque o dom de Deus não é nunca para ser desprezado, nem usado para fazer o mal. Ai de ti, Corozaim, ai de ti, Betsaida, que fazeis mau uso dos dons de Deus. Se em Tiro, ou em Sidon tivessem acontecido os milagres que aconteceram no meio de vós, há muito tempo, vestidos de cilícios e cobertos de cinza, já teriam feito penitência, e teriam vindo a Mim. E por isso, Eu vos digo que para com Tiro e Sidon será usada maior clemência do que para convosco, no dia do Juízo. E tu, Cafarnaum, crês que, só por me teres hospedado, serás exaltada até o céu? Tu descerás até o inferno. Porque se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que Eu te dei, aquela cidade estaria ainda florescente, porque teria crido em Mim, e se teria convertido. Por isso será usada maior clemência para com Sodoma no Juízo Final, porque ela não conheceu o Salvador, nem sua palavra, e por isso é menor a sua culpa, mas não será usada para contigo, que conheceste o Messias e ouviste a palavra dele, mas não te converteste. Contudo, visto que Deus é justo, para com os habitantes de Cafarnaum e de Betsaida que santificaram, obedecendo à minha palavra, será usada uma grande misericórdia. Porque não é justo que os justos sejam envolvidos na ruína junto com os pecadores. 266.14E, quanto à tua filha, Jairo, e quanto à tua, Simão, e quanto ao teu menino, Zacarias, e aos teus netos, Benjamim, Eu vos digo que eles, sendo sem malícia, já estão vendo a Deus. E vós estais vendo como a fé deles é pura, e como é ativa neles, unida a uma sabedoria celeste e a anseios de caridade, que os adultos não sentem.
E Jesus, levantando os olhos para o céu, que já vai ficando escuro com o chegar da tarde, exclama:
– Eu te agradeço, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e doutos, e as revelaste aos pequenos. Assim seja, ó Pai, porque assim te aprouve. Tudo foi confiado a Mim pelo meu Pai, e ninguém o conhece, a não ser o Filho, e aqueles a quem o Filho tiver querido revelar. E Eu o revelei aos pequenos, aos humildes, aos puros, porque a esses Deus se comunica, e a verdade desce, como uma semente, sobre os terrenos limpos, e sobre ela o Pai faz chover as suas luzes, para que ela lance raízes, e se torne uma planta. E até, em verdade, o Pai prepara estes espíritos dos pequeninos, em seus desejos, a fim de que eles conheçam a Verdade, e Eu sinta a alegria pela fé que eles têm.
1 frase, que na vulgata era a secunda parte (inexplicavelmente inexiste na neo-vulgata) do pequeno verso de Provérbios 15, 5.
2 palavras, que estão em Isaías 40,4.
3 está escrito, em Malaquias 3,1.
4 come Elias que há de vir, como é dito em Malaquias 3,23. João Batista é comparado a Elias também em 81.5 (“Ele é, por missão, equiparado a Elias…”) e em nota em 349.8.
1
2
3
4
5
6
7
8