362. 362. A missão das “vozes” na Igreja futura.O encontro com a Mãe e as discípulas.
16 de dezembro de 1945.
362.1 Estão agora no outro lado do Jordão e vão caminhando apressados rumo ao oeste, dirigindo-se para uma segunda cadeia de colinas, mais alta do que a primeira, formada por colinas baixas além das quais está a planície do Jordão. Pela conversação deles, eu compreendo que evitaram a planície para não tornarem a cair na lama, que já deixaram do outro lado, e estão pensando em ir por onde devem, seguindo as estradas do interior que são bem conservadas e mais transitáveis, principalmente em tempo de chuva.
– Para que ponto estaremos indo? –pergunta Mateus, que está se orientando mal.
– Com certeza para o meio entre Silo e Betel. Eu estou reconhecendo os montes –diz Tomé–. Por aqui passamos há pouco com Judas, que em Betel foi hóspede de alguns fariseus.
– Poderias sê-lo também. Mas não quiseste ir. Contudo, nem eu nem eles te dissemos: “Não venhas.”
– Também eu não estava dizendo que me dissestes nada. Eu só estou dizendo que eu preferi ficar com os discípulos que estavam evangelizando aqui.
E assim o incidente terminou, a ponto de André ficar alegre com isso, e dizer:
– Se em Betel tivermos fariseus amigos, não seremos assaltados.
– Mas nós estamos voltando para trás. Não estamos indo para Jerusalém –objetam-lhe.
– Mas deveremos ir para lá pela Páscoa! E nem sei como faremos…
– Mas, como não? Por que Ele disse que volta a Caná? Podiam voltar as mulheres e nós iríamos fazer a peregrinação.
– É um destino de minha mulher não fazer a Páscoa em Jerusalém! –exclama Pedro.
362.2 João interpela Jesus, que está ocupado em uma séria conversa com o Zelotes:
– Mestre, como faremos para irmos e voltarmos em tempo?
– Eu não sei. Mas confio em Deus. Se ficarmos atrasados, não será culpa minha.
– Fizeste bem em ser prudente –diz o Zelotes.
– Ah! Por Mim, Eu teria ido adiante. Porque ainda não chegou a minha hora. Isto Eu o sinto. Mas, como teríeis suportado vós a aventura, vós que faz algum tempo tendes estado tão cansados?
– Mestre… tens razão. Parece que um demônio veio soprar o seu hálito sobre nós. Estamos muito mudados!-
– O homem se cansa. Quer com rapidez as coisas. E sonha com coisas tolas. E, quando percebe que uma coisa é o sonho e que outra é a realidade, então ele se perturba e, se não tiver uma vontade firme, deixa-se dobrar. Ele não se lembra de que o Onipotente, que podia num instante transformar o Caos no Universo, quis fazê-lo por fases ordenadas e separadas por espaços de tempo, aos quais Ele deu o nome de dias. Eu devo, do Caos espiritual desse mundo todo, tirar o Reino de Deus. E o farei. Eu construirei suas bases e as estou já construindo, devendo quebrar a rocha duríssima para formar dentro dela os fundamentos que não se abalarão. Vós levantareis lentamente os muros. Os vossos sucessores continuarão a obra em altura e largura. Como Eu vou morrer na obra, assim vós também morrereis e haverá outros e mais outros que morrerão de morte cruenta ou incruenta, mas consumados por este trabalho, que requer um espírito de imolação, de generosidade, e lágrimas e sangue, e uma paciência sem medida…
362.3 Pedro intromete sua cabeça cinzenta entre Jesus e João:
– Pode-se saber o que estais dizendo?
– Oh! Simão! Vem cá. Estávamos falando da futura Igreja. Eu estava explicando que, contra as vossas pessoas, os vossos cansaços, desconfortos e assim por diante, ela requer calma, constância, esforço, confiança. Eu estava explicando que ela requer o sacrifício de todos os seus membros. De Mim, que dela sou o Fundador e que dela sou a Cabeça mística para vós, para todos os discípulos, para todos aqueles que terão o nome de cristãos e que fazem parte da Igreja universal. E, na verdade, na grande escala das hierarquias estarão às vezes os mais humildes, aqueles que parecerão simplesmente “números”, os que tornarão verdadeiramente vital a Igreja. Em verdade, Eu deverei muitas vezes refugiar-me nestes para continuar a manter viva a fé e a força dos sempre renovados colégios apostólicos, e destes apóstolos deverei fazer uns atormentados por Satanás e por alguns homens invejosos, soberbos e incrédulos. E o martírio moral deles não será menos penoso do que o material, obrigados, como eles estarão, entre a vontade ativa de Deus e a vontade malvada dos homens, instrumentos de Satanás, que procurarão com todo estudo e violência fazê-los parecerem mentirosos, loucos, obsessos, a fim de paralisar neles a minha obra e os frutos da mesma e que são outros tantos golpes vitoriosos contra a Besta.
– E eles resistirão?
– E resistirão, ainda que não Me tenham materialmente consigo. Deverão crer não somente que há o dever de crer, mas também em sua secreta missão, crer que ela é santa, que é útil, crer que ela veio de Mim, enquanto, ao redor deles, Satanás estará assobiando para atemorizá-los e o mundo gritará para escarnecer-se deles e dos nem sempre luminosos ministros de Deus, a fim de condená-los. Este é o destino das minhas vozes no futuro. Contudo, Eu não terei outro modo senão este para despertar, para fazer os homens voltar ao Evangelho e ao Cristo! Mas, por tudo aquilo que Eu houver exigido deles e lhes tiver imposto e recebido deles, oh! Eu lhes darei a alegria eterna, uma glória especial! 362.4No Céu existe um livro fechado. Só Deus pode ler nele. Nele estão todas as verdades. Mas Deus às vezes tira os selos e revela as verdades já ditas aos homens, obrigando um homem, escolhido para essa tarefa, a conhecer o passado, o presente e o futuro como estão contidos no misterioso livro. Já vistes um filho, o melhor filho da família, ou um estudante, o melhor da escola. ser chamado pelo pai ou pelo mestre para ler em um livro de adultos e para dar a explicação do que foi lido? Ele fica ao lado do pai ou do mestre, abraçado por um dos braços deles, enquanto a mão do pai ou do mestre vai mostrando, com o dedo indicador, as linhas que quer que sejam lidas e conhecidas pelo seu predileto. Assim faz Deus com os seus consagrados para tal tarefa. Ele os atrai e os sustenta com o seu braço e os força a ler o que Ele quer e a saber o significado do que leu e a dizê-lo depois e a receber por isso escárnio e sofrimento. Eu, o Homem, sou o Chefe da raça daqueles que dizem as verdades do livro celeste e, por isso, recebo o escárnio, o sofrimento e a morte. Mas o Pai já tem preparada a minha Glória. E Eu, depois de subir para ela, prepararei a glória daqueles que Eu tiver obrigado a ler no livro fechado os pontos que Eu quis e, na presença de toda a Humanidade ressuscitada e dos coros dos anjos, Eu os mostrarei como os escolhidos, chamando-os para perto de Mim, enquanto irei abrindo os selos do Livro, pois já será inútil conservá-lo fechado e eles sorrirão ao tornarem a ler as palavras que lhes haviam sido explicadas quando eles sofriam na terra.
362.5 – E os outros? –pergunta João, que está muito atento à lição.
– Que outros?
– Os outros que, como eu, não leram na terra aquele livro, não conhecerão nunca o que ele diz?
– No Céu tudo será conhecido pelos bem-aventurados. Eles tudo conhecerão, mergulhados na Sabedoria Infinita.
– Mas será logo? Logo depois da morte?
– Logo. Logo que entrarem na Vida.
– Mas, então, por que no último dia Tu farás ver que os chamas para conhecerem o Livro?
– Porque não serão somente os bem-aventurados que haverão de ver isso. Mas a Humanidade toda. E, do lado dos condenados, estarão muitos daqueles que zombaram das vozes de Deus como se fossem vozes de loucos e de endemoninhados e os terão atormentado por causa daquele seu dom. É uma longa, mas justa represália concedida àqueles que foram mártires da obtusidade maldosa do mundo.
– Como vai ser belo ver isso –exclama João, arrebatado.
– Sim. E ver todos os fariseus rangendo os dentes de raiva –diz Pedro, esfregando as mãos.
– Oh! Eu penso que ficarei só olhando para Jesus e para os benditos, que lerão com Ele o Livro… –responde João, sonhando já com aquela hora, com os olhos perdidos quem saberá em que visão de luz e tornados mais lúcidos do que pela onda de um pranto emotivo que não chega a escorrer, mas faz ficar brilhante a íris celeste como um sorriso de criança por entre seus lábios vermelhos.
O Zelotes olha para ele e Jesus também. Mas Jesus não diz nada. O Zelotes é que fala:
– Tu olharás para ti mesmo naquela hora! Porque, se entre nós há alguém que vai ser a “voz de Deus” sobre a Terra e que vai ser chamado para ler os pontos do Livro selado, serás tu João, o predileto de Jesus e amigo de Deus.
– Oh! Não digas isso! Eu sou o mais ignorante de todos. E, se Jesus não tivesse dito que o Reino dos Céus é das crianças, eu pensaria que não poderia tê-lo nunca, porque não sou bom para nada. Não é verdade, Mestre que, se eu valho alguma coisa, é só porque sou semelhante a uma criança?
– Sim, tu pertences à bem-aventurada infância. E que sejas bendito por isso!
362.6 Vão caminhando por algum tempo e depois Pedro, que está olhando para trás, por cima da estrada caravaneira sobre a qual eles já estão, exclama:
– Misericordiosa Providência! Mas aquele é o carro das mulheres!
Todos se viram. É realmente o carro pesado de Joana que vem chegando, puxado pelo trote de dois robustos cavalos. Param, então, a fim de esperá-lo. O toldo de couro, todo descido, não deixa ver quem está atrás dele. Mas Jesus faz um sinal de parar e o condutor solta uma exclamação de alegria quando vê Jesus de pé ao lado da estrada, com o braço levantado.
Enquanto o homem faz parar os dois cavalos que bufam, aparece pela abertura do toldo o rosto magro de Isaque:
– O Mestre! –ele grita–. Mãe, alegra-te! Ele está aqui!
Vozes de mulheres, tropel de passos é o que se ouve no carro. Mas, antes que alguma das mulheres desça, já pularam no chão Manaém, Marziam e Isaque, que correm para venerar o Mestre.
– Estás ainda aqui, Manaém?
– Sempre fiel na custódia. E agora mais do que nunca, porque as mulheres estavam com medo… Mas… nós Te obedecemos, porque se deve obedecer. No entanto podes crer que não havia nada de preocupante. Sei com certeza que Pilatos chamou à ordem os turbulentos, dizendo que todo aquele que criar sedições nestes dias de festa será duramente punido. Eu creio que não está fora dessa proteção de Pilatos a mulher dele e especialmente as damas amigas de sua mulher. Na Corte tudo se sabe e não se sabe nada. Mas sabe-se de muitas coisas…
362.7E Manaém se desvia para ceder o lugar a Maria, que desceu do carro e andou pelos poucos metros da estrada toda trêmula e comovida.
Beijam-se, enquanto as discípulas todas prestam veneração ao Mestre. Não estão presentes nem Maria nem Marta de Lázaro.
Maria murmura:
– Quanta angústia desde aquela tarde! Meu Filho, como todos te odeiam!
E as lágrimas descem ao longo de duas linhas vermelhas que mostram sobre o rosto o sinal de muitas outras que escorreram naqueles dias.
– Mas tu estás vendo que o Pai provê a tudo. Portanto, não chores. Eu desafio todo o ódio do mundo com coragem. Mas uma só lágrima tua me deixa abatido. Eia, pois, ó Mãe santa!
E segurando-a abraçada com um braço junto a Si vira-se para as discípulas a fim de saudá-las e tem palavras particulares para Joana, que quer voltar atrás para acompanhar Maria.
– Oh! Mestre! Não é uma coisa difícil estar com a tua Mãe. Maria ficou detida em Betânia por causa dos sofrimentos do irmão. Somente vim eu. Deixei os meninos com a mulher do guarda do palácio, que é boa e maternal. Mas Cusa também ajuda a vigiar e Tu podes pensar se poderá faltar alguma coisa ao querido Matias, que meu marido muito estima. Mas também Cusa me disse que a partida era inútil. A demora do Procônsul quebrou as unhas da própria Herodíades. Ele, pois, o Tetrarca, está tremendo de medo e só tem um pensamento: vigiar para que Herodíades não o arruíne aos olhos de Roma. A morte de João veio destruir muitas coisas que estavam a favor de Herodíades. E Herodes ouve também, e muito bem, que o povo está revoltado contra ele por causa do assassinato de João. A raposa percebe que seu pior castigo seria perder a proteção odienta e derisória de Roma. O povo o agrediria imediatamente. Por isso, oh! nada de dúvidas! Ele nada fará por sua própria iniciativa!
362.8 – Então voltemos a Jerusalém. Podeis estar tranqüilos quanto à vossa incolumidade. Vamos. As mulheres tornem a subir no carro e com elas vai Mateus, que está cansado. Mas descansaremos em Betel. Vamos.
As mulheres obedecem. Sobem com elas Mateus e Bartolomeu. Os outros preferem ir atrás do carro, a pé, em companhia de Manaém, Isaque e de Marziam. E Manaém está contando como fez as indagações para saber quanto de verdade havia na bazófia do herodiano que havia lançado um boato doloroso na tranqüila reunião de Betânia junto a Lázaro, “que estava sofrendo muito”, diz Manaém.
– Foi uma mulher a Betânia?
– Não, Senhor. Mas nós há três dias que estamos fora de lá. Quem é?
– Uma discípula. Eu a entregarei à Elisa porque é jovem, sozinha e sem meios.
– Elisa está no palácio de Joana. Ela queria vir. Mas está muito constipada. Estava ansiosa por te ver. E dizia. “Mas não compreendeis que em vê-lo está a minha paz?”
– Eu lhe darei mais uma alegria com esta jovem. 362.9E tu, Marziam, não falas?
– Eu estou escutando, Mestre.
– O rapaz escuta e escreve. A um ou a outro ele pede que lhe repitam as tuas palavras e ele as escreve, escreve sem parar. Mas será que nós as teremos dito bem a ele? –diz Isaque.
– Eu as olharei e acrescentarei o que estiver faltando no trabalho do meu discípulo –diz Jesus, acariciando a face amorenada de Marziam.
E pergunta:
– E o velho pai? Tu o tens visto?
– Oh! Sim. Ele não estava me reconhecendo. Chorou de alegria. Nós o veremos no Templo, pois Ismael os manda. E até lhes deu mais dias este ano. Ele está com medo de Ti.
– Naturalmente! Depois da brincadeira que houve em Canania, no sábado! –diz Pedro, rindo.
– Mas o medo de Deus não constrói e sim destrói. Não é amizade. É somente uma espera que muitas vezes se transforma em ódio. Mas cada um faz o que pode…
Prosseguem pela estrada, e eu os perco de vista.