514. 514. Conselhos sobre a santidade a um jovem indeciso.Reprovação aos cidadãos de Beterondepois da cura de um romano e de uma judia.


17 de outubro de 1946.

514.1Jesus está ainda andando por entre os montes, acompanhado pelo povo, pelos seus apóstolos e discípulos. Entre estes últimos estão agora também alguns discípulos ex-pastores, que talvez estavam em algum lugarejo pelo qual tenham passado.

Jesus vai subindo por um vale e indo para um monte por uma estrada que acompanha com suas curvas as encostas do monte, e é certamente uma estrada romana, por sua pavimentação característica e pela conservação bem feita, coisas que só se podem encontrar nas estradas construídas e conservadas pelos romanos. O povo passa por ela nos pontos em que ela se dirige para o vale, ou quando do vale ela sobe para a cadeia do grupo de montanhas que forma uma coroa nos pontos mais altos dos povoados e cidades. E alguns, vendo Jesus e os que o acompanham, perguntam quem é Ele, e passam a acompanhá-lo também, enquanto outros somente observam, e outros sacodem a cabeça, sorrindo de modo escarninho.

Um pelotão de soldados, com seu passo pesado e tilintar de armas e couraças, os alcança. E eles voltam, a fim de olharem para Jesus que, tendo deixado a estrada romana, está para tomar uma estrada judaica que se dirige para o cume de um monte, onde está um povoado. É um caminho pedregoso, está barrento porque choveu e os pés escorregam nos seixos rolados ou se afundam nas poças. Os soldados, que certamente se dirigiam àquela mesma cidade, depois da fazerem alto, tornam a pôr-se em movimento, e o povo é obrigado a ir colocar-se ao lado, num caminho muito estreito, para dar passagem ao pelotão, que passa em rígida formação. Alguns insultos atravessam os ares, mas a disciplina que os obriga a andar em coluna, impede aos soldados de dar-lhes o que merecem.

Ei-los de novo perto de Jesus, que se pôs de lado para deixá-los passar e que olha para eles com seus olhos mansos, que parecem estar abençoando e acariciando, com a luz de seus íris de safira. E os rostos fechados dos soldados tornam-se de novo mais claros, com uma lembrança do sorriso que já não é de escárnio, mas até respeitoso como uma saudação.

Passam. A multidão coloca-se a caminho atrás do Rabi, que está adiante de todos.

514.2Um jovem sai de entre a multidão e alcança o Mestre, saudando-o com respeito. Jesus retribui a saudação.

– Eu desejaria pedir-te uma coisa, Mestre.

– Fala.

– Eu te ouvi por acaso numa manhã depois da Páscoa, perto de um monte vizinho do Carit. E desde então fiquei pensando que eu também podia estar entre aqueles que Tu chamas. Mas, antes de vir, eu quis saber muito bem o que é necessário fazer e o que não se deve fazer. Eu fiz estas perguntas aos teus discípulos todas as vezes que os encontrava. E um me dizia uma coisa e outro, outra. E eu ficava incerto, quase espantado. Em uma coisa todos estavam concordes, uns com mais intransigência e outros com menos, e era sobre a obrigação de ser perfeitos. Eu… Sou um pobre homem, Senhor, e a perfeição é somente para Deus… Eu te ouvi uma segunda vez… e Tu mesmo dizias: “Sede perfeitos.” E eu fiquei desanimado. Uma terceira vez, faz poucos dias, foi no Templo. E por mais que fosses severo, já me pareceu que fosse possível sê-lo, porque… nem eu sei por que… nem eu sei explicá-lo, nem a mim próprio, nem a Ti. Mas me parecia que, se fosse uma coisa impossível ou tão perigosa como se quiséssemos fazer-nos deuses, Tu, que nos queres salvar, não no-lo proporias. Porque a presunção é pecado. Querer ser deuses foi o pecado de Lúcifer. Mas talvez haja uma maneira de sê-lo sem pecarmos, e é seguindo a tua Doutrina, que certamente é de salvação. Falei bem?

– Falaste bem. E então?

– E então, eu continuei a perguntar isto e aquilo. E tendo sabido que estavas em Ramá, fui para lá. Desde então, com licença de meu pai, eu passei a acompanhar-te. E, aí está, cada vez mais eu quereria ir…

– Pois vem! De que tens medo?

– Eu não sei… Nem eu mesmo sei… Pergunto, pergunto… Mas sempre, enquanto estou te ouvindo, parece-me fácil e resolvo ir. E depois fico pensando no assunto, ou pior, fico perguntando a um e a outro, e me fica parecendo muito difícil.

– Vou dizer-te o que é que está acontecendo: é uma cilada do demônio para impedir que tu venhas. Ele te amedronta com fantasmas, te confunde e te faz ficar perguntando a quem, como tu, está precisando de luz… Por que é que não vieste a Mim diretamente?

– Porque… eu tinha… não era medo, mas… os nossos sacerdotes e rabis! Eles são tão duros e soberbos! E Tu… Eu não tinha coragem de aproximar-me de Ti. Contudo, em Emaús, ontem, creio ter compreendido que não devo ter medo. E agora estou aqui, a perguntar-te o que gostaria de saber. Há pouco tempo, um dos teus apóstolos me disse: “Vai e não tenhas medo. Ele é bom até com os pecadores.” E um outro me disse: “Faze-o sentir-se feliz com a tua confiança. Quem confia nele o acha mais doce do que uma mãe.” E um outro ainda: “Eu não sei se estou errado, mas eu te digo que Ele vai dizer-te que a perfeição está no amor…” Eis o que me disseram os teus apóstolos, alguns pelo menos mais doces do que os discípulos. Não todos, mas são até muito poucos. E entre os apóstolos há alguns que fazem medo a um pobre homem como eu. Um me disse, com um riso que não era bom: “Queres tu tornar-te perfeito? Nós, que somos seus apóstolos, não o somos, e tu já queres sê-lo? É impossível.” Se os outros não me tivessem falado, eu teria fugido, desanimado. Mas estou tentando uma última prova… e se tu me disseres que é impossível.”

514.3– Meu filho, achas que eu poderia ter vindo para propor coisas impossíveis aos homens? Quem achas tu que tenha estado a por em teu coração este desejo de te tornares perfeito? Terá sido o teu próprio coração?

– Não, Senhor. Eu penso que tenhas sido Tu, com as tuas palavras.

– Não estás longe da verdade. Mas responde-me ainda. Para ti, as minhas palavras, que palavras são?

– Justas.

– Está bem. Mas achas que são palavras de homem ou de alguém mais que homem?

– Oh! Tu falas com sabedoria, e mais doce e mais claro ainda. Por isso eu digo que as tuas palavras são mais do que de homem. E não creio estar falando mal, se é que compreendi bem o que estavas dizendo no Templo. Porque lá pareceu-me que estavas dizendo que Tu és a Palavra de Deus, pois falavas como Deus.

– Compreendeste bem e falaste bem. E, então, quem foi que te pôs no coração o desejo da perfeição?

– Foi Deus que o pôs nele, por meio de Ti, que és a Palavra dele.

– Portanto, foi Deus. Agora, pensa bem: se Deus, que conhece a capacidade dos homens, lhes diz: “Vinde a Mim, sede perfeitos”, é sinal de que Ele sabe que o homem, se quiser, pode tornar-se perfeito. É esta uma palavra antiga. Ela ressoou, pela primeira vez quando foi dirigida a Abraão1, como uma revelação, como uma ordem, um convite: “Eu sou o Deus Onipotente. Caminha em minha presença. Sê perfeito.” E Deus se lhe manifesta a fim de que o Patriarca não tivesse dúvidas sobre a santidade daquela ordem nem da verdade do convite. Ele o manda caminhar em sua presença, porque quem caminha nesta vida, convicto de o estar fazendo sob o olhar de Deus, não pratica más ações. Por conseguinte, ele se põe na condição de quem pode tornar-se perfeito, como Deus o convida a tornar-se.

– É verdade! É verdade! Se Deus o disse, é porque pode ser feito. Oh! Mestre! Como tudo se compreende quando Tu falas! Mas, então, por que foi que os teus discípulos e até aquele apóstolo me transmitiram uma ideia… tão cheia de medo da santidade? Por acaso, não creem eles serem verdadeiras aquelas palavras e as tuas? Ou não saberão eles andar na presença de Deus?

514.4– Não fiques pensando assim. Não julgues. Vê, meu filho: às vezes, o próprio desejo deles de ser perfeitos, e sua humildade, lhes dão o medo de nunca poderem sê-lo.

– Mas, então, o desejo da perfeição e a humildade são obstáculos para tornar-se perfeito?

– Não, filho. O desejo e a humildade não são obstáculos. Pelo contrário, é até necessário esforçar-se por tê-los profundamente, mas bem ordenados. São bem ordenados quando não têm pressa imprudente, desânimo sem razão, dúvida e falta de confiança, como aquelas de quem crê que, por causa de sua imperfeição, o homem não possa tornar-se perfeito. Todas as virtudes são necessárias e uma delas é um vivo desejo de chegar à perfeição.

– Sim. Isto já me diziam aqueles a quem eu interroguei. Diziam-me que é necessário ter as virtudes. Mas uns me diziam ser necessária uma, e outros, outra. E todos me afirmavam a absoluta necessidade de ter aquela que eles diziam ser indispensável para sermos santos. E isso me enchia de medo, porque, como é que se vai poder ter todas as virtudes em grau perfeito, fazendo-as nascer juntas, como um ramalhete de diversas flores? É preciso tempo… e a vida é tão breve. Tu, Mestre, explica-me qual é a virtude indispensável.

– É a caridade. Se amares, serás santo, porque do amor a Deus e ao próximo é que vêm todas as virtudes e todas as boas obras.

– Sim? Assim é mais fácil. Então, a santidade é o amor. Se eu tiver a caridade, terei tudo… É disso que é feita a santidade.

– Disso e das outras virtudes. Porque a santidade não é somente ser humilde, ou somente prudente, ou somente casto, e assim por diante. Mas consiste em ser virtuoso. 514.5Vê, meu filho, quando um rico quer dar um jantar, será que ele manda fazer só um alimento? Ou, ainda, quando quer fazer um ramalhete de flores, para oferecer como homenagem, por acaso ele irá colocar no ramalhete só uma flor? Não, não é verdade? Porque, ainda que colocasse sobre as mesas grande quantidade do mesmo alimento, os convivas o criticariam como um anfitrião sovina, que se preocupa somente em querer mostrar as suas posses, mas não em demonstrar sua fineza, como um anfitrião que se preocupa com os diversos gostos de seus convidados e que quer ver cada um deles servindo-se deste ou daquele alimento, e não só se sacie com ele, mas sinta prazer em comê-lo. É assim que se faz um ramalhete. Não com uma só flor. Mas com muitas flores juntas ele faz com que as diversas cores e os diversos perfumes agradem a todos os olhos e olfatos, e são causa de elogios ao anfitrião. A santidade, que devemos considerar como um ramalhete de flores oferecido ao Senhor, deve ser formada por todas as virtudes. Em um espírito predominam a humildade, em outro a fortaleza, em outro a continência, em outro a paciência, em outro o espírito de sacrifício e de penitência, todas estas nascidas da planta real e finamente perfumada, que é o amor, e cujas flores predominarão sempre no ramalhete, pois todas as virtudes é que compõem a santidade.

– E qual delas se deve cultivar com mais cuidado?

– A caridade. Eu já te disse.

– E depois?

– Não existe um método, meu filho. Se tu amares o Senhor, Ele te dará os seus dons, isto é, Ele se comunicará a ti e, então, as virtudes que tu queres ver crescer robustas crescerão sob o sol da Graça.

– Em outras palavras: na alma que ama, é Deus quem opera grandemente

– Sim, filho. É Deus que opera grandemente, deixando que o homem use de sua livre vontade em tender à perfeição, e de seus esforços para repelir as tentações e manter-se fiel aos seus propósitos, em suas lutas contra a carne, o mundo e o demônio, que o assaltam. E isso para que o seu filho tenha merecimento em sua santidade.

– Ah! Agora, sim. Portanto, é muito justo dizer-se que o homem é feito para ser perfeito como Deus quer. Obrigado, Mestre. Agora eu sei. E agora assim farei. E Tu, reza por mim.

– Eu te terei em meu coração. Vai, e não fiques com medo de que Deus te deixe sem sua ajuda.

O jovem, muito contente, se separa de Jesus…

514.6Já estão perto do povoado. Bartolomeu, junto com Estevão, aproximam-se de Jesus para dizer-lhe que, enquanto Ele estava falando com o jovem, um de Beteron, parente de Elquias, o fariseu, veio pedir-lhe que o levasse logo à sua mulher, que estava morrendo.

– Vamos. Eu falarei depois. Sabeis onde está?

– Ele deixou conosco um servo, que está lá atrás com os outros.

– Vai chamá-lo, e apressemos o passo.

O servo se apresenta. É um velho robusto, mas está muito triste. Saúda Jesus e olha de soslaio para Ele, que lhe sorri, perguntando:

– De que é que está morrendo a tua patroa?

– De… Ela estava para ter um menino. Mas ele lhe morreu no ventre e o sangue dela se corrompeu. Ela está delirando como se estivesse doida, e vai morrer. Já lhe abriram as veias para fazer baixar a febre. Mas seu sangue está já todo envenenado, ela vai morrer. Eles a desceram à cisterna para cortar o ardor da febre. E a febre baixou enquanto ela esteve na água gelada. Depois, foi ficando mais forte do que antes, e ela começou a tossir, a tossir e… vai morrer.

– Nem há dúvida! Com curas desse modo! –cochicha Mateus, por entre os dentes.

– Quanto tempo faz que ela está doente?

514.7O servo já ia responder, quando chega, correndo pela descida, o comandante de uma companhia romana. Ele para diante de Jesus.

– Salve! És Tu o Nazareno?

– Eu sou. Que queres de Mim?

Os que acompanhavam a Jesus se aproximam, crendo talvez que.

– Um dia, um do nossos cavalos machucou um menino hebreu e Tu o curaste2, para impedir que os hebreus começassem a vociferar contra nós. Agora as pedras dos hebreus derrubaram um soldado, e ele está caído, com a perna quebrada. Eu sei que Tu não nos desprezas, como fazem todos os hebreus…

– Queres tu que eu cure o soldado?

– Sim. Curaste o servo do centurião e a menina da Valéria. Salvaste o Alexandre da ira dos teus compatriotas. Estas coisas ficam sabidas de alto a baixo.

– Vamos ao soldado.

– E a minha patroa? –pergunta descontente o servo.

– Depois.

E Jesus vai caminhando atrás do graduado, que devora a estrada com suas longas pernas musculosas e livres de se embaraçarem nas vestes. Mas, mesmo caminhando assim, ele ainda encontrou a maneira de dizer uma palavra ao que o acompanha em primeiro lugar, e que é Jesus, e lhe diz:

– Eu estive com Alexandre, há tempo. Ele me…. falava de Ti. O acaso te coloca perto de mim neste momento.

– O acaso? Por que não dizer Deus? O verdadeiro Deus?

O soldado fica calado por uns instantes, e depois diz de um modo que só Jesus ouça:

– O verdadeiro Deus seria o dos hebreus. Mas Ele não se faz amar. Se Ele for como os hebreus! Eles, nem de um ferido têm pena…

– O verdadeiro Deus é o Deus tanto dos hebreus como dos romanos, dos gregos, dos árabes, dos partas, dos celtas, dos iberos, dos gauleses, dos citas, dos líbios e dos hiperbóreos. Não existe mais do que um Deus. Mas muitos não o conhecem e outros o conhecem mal. Se o conhecessem bem, seriam todos entre si como irmãos, e não haveria injustiças, ódios e calúnias, vinganças, luxúrias, furtos e homicídios, adultérios e mentiras. Eu conheço o verdadeiro Deus e vim para fazê-lo conhecido.

– Dizem… Nós devemos ter sempre os ouvidos escutando, para levarmos as notícias aos centuriões, a fim de que eles as levem ao Procônsul. Dizem que Tu és deus. É verdade?

O militar está muito preocupado ao dizer isso. Ele olha para Jesus, por baixo da sombra de seu elmo, e parece um pouco atemorizado.

– Eu o sou.

– Por Júpiter! Então, é mesmo verdade que os deuses descem para conversar com os homens? Ter andado pelo mundo inteiro atrás de insígnias, e chegar até aqui, já velho, para encontrar um deus!

– O Deus. Único. Não um deus –Jesus o corrige.

Mas o militar se sente aniquilado pela ideia de estar na frente de um deus… E nem fala mais… 514.8E fica pensando. Continua a pensar até que, justamente na entrada do povoado, encontram toda a companhia parada ao redor do ferido, que está gemendo no chão.

– Eis –diz concisamente o militar.

Jesus abre caminho e se apressa. A perna, com uma quebradura difícil, está com o pé virado para dentro, e já inchada e lívida. O homem deve estar sofrendo muito e, vendo que Jesus estende uma mão, lhe suplica:

– Não me causes muita dor!

Jesus sorri. Toca apenas com a ponta do dedo o lugar em que o ponto lívido do trauma indica onde está a fratura. Depois diz:

– Levanta-te!

– Mas ele tem uma segunda fratura, mais acima, no quadril –explica o militar, como se quisesse dizer–: “Não toques nela.”

Naquele intervalo chega um cidadão de Beteron, e diz:

– Mestre, Mestre! Tu perdes o tempo com uns pagãos e minha mulher está morrendo!

– Vai e traze-a a Mim.

– Não posso. Ela está louca.

– Vai e traze-a a Mim.

– Mestre, ninguém a segura. E, além disso, está nua e não pode vestir-se. Ela está doida, e rasga suas vestes. Está morrendo e não se sustenta.

– Vai e traze-a a Mim, se não és inferior a estes gentios.

O Homem vai-se embora, descontente.

514.9Jesus olha para o romano estendido a seus pés:

– E tu, sabes ter fé?

– Eu, sim. Que é que devo fazer?

– Levantar-te.

– Cuidado, Camilo, porque… –ia dizendo o graduado.

Mas o soldado já está de pé, ágil, já curado.

Os israelitas não gritam hosana. Porque o curado não é um hebreu. Pelo contrário, eles parecem estar contrariados, ou pelo menos com uns semblantes que parecem de crítica ao ato de Jesus. Mas os soldados não estão assim. Eles desembainham suas espadas curtas e largas, levantam-nas no ar cinzento, depois de tê-las batido nos escudos, como quem quer fazer um rumor de festa. E Jesus está no meio do círculo das lâminas.

O militar graduado olha para Ele… Não sabe o que dizer nem o que fazer, ele que é um homem, ao lado de um deus, ele um pagão, ao lado de Deus… Ele fica pensando, e acha que, pelo menos, deve fazer para Deus o que faria para o César. E dá ordem para uma saudação militar ao imperador (pelo menos me parece que é isto, pois ouço ressoar um “Ave!” forte, enquanto as lâminas brilham, colocando-se quase horizontalmente acima do braço estendido). E, não contente ainda, o graduado diz em voz baixa:

– Vai tranquilo, mesmo de noite. As estradas… estão todas vigiadas. Estamos preparados contra os ladrões. Tu estarás seguro. Eu…

Ele para. E não sabe o que dizer mais.

Jesus lhe sorri, dizendo:

– Obrigado. Vai e sê bom. Mesmo com os ladrões, sê humano. Sê fiel em teu serviço, mas sem crueldade. Eles são uns infelizes. E deverão dar contas a Deus de suas ações.

– Eu o serei. Salve! Gostaria de ver-te ainda…

Jesus olha para ele, fixando-o bem. Depois diz:

– Nós nos tornaremos a ver. Sobre um alto monte.

E torna a dizer:

– Sede bons. Adeus.

Os soldados põem-se em marcha.

514.10Jesus entra no povoado. Anda uns poucos metros e, depois, ao encontro dele e dos que o acompanham, vê que vem vindo um grande grupo, fazendo, aos gritos, os seus comentários.

E do grupo se destacam um homem e uma mulher — o homem de antes — e se curvam diante de Jesus: a mulher põe-se de joelhos e o homem fica somente inclinado.

– Levantai-vos e louvai o Senhor. Mas Eu devo dizer a ti, homem, que a tua consciência não está limpa. Tu te dirigiste a Mim por egoísmo, não por amor a Mim nem por fé em Mim. E duvidaste da minha palavra. E tu sabes quem Eu sou. Depois tiveste um pensamento que não era bom. Porque eu parei para curar um gentio, e também todo o povoado tinha cometido um ato não bom quando se recusou a acolher o ferido. Por um excesso de misericórdia Eu curei tua esposa, sem entrar em tua casa. Porque tu não o merecias. Eu o fiz para mostrar-te que não é preciso que eu vá, para realizar. Basta que Eu queira. Mas em verdade Eu te digo, e a vós todos, que aqueles que vós desprezais são melhores do que vós e sabem crer no meu poder mais do que vós. Levanta-te, mulher. Tu não és culpada, porque não tinhas o uso da razão. Vai, e, de agora em diante, aprende a crer, em reconhecimento ao Senhor.

A expressão dos habitantes se torna fria e arrogante diante da repreensão de Jesus. Acompanham-no mal-humorados até chegarem à praça, onde Ele fica para falar, visto que o sinagogo não o convida a entrar na sinagoga e nenhuma casa se abre para o Mestre.

514.11– Quando Deus está com os homens, os homens tudo podem contra a desventura, seja ela qual for. Mas quando Deus está do lado oposto, não está com os homens, eles nada podem contra a desventura. Esta cidade, em suas crônicas3, faz que se recorde isso mais de uma vez. Deus estava com Josué, e Josué derrotou os reis cananeus e, sobre esta estrada, Deus o ajudou a destruir os inimigos de Israel, “mandando do céu sobre eles grossas pedras, e deles pereceram muitos, mais pelas pedras de granizo do que pela espada”, como se lê no livro de Josué.

Deus estava com Judas Macabeu, o qual se postou sobre esta colina, com o seu pequeno exército, para ver o poderoso exército de Seron, chefe das milícias sírias, e Deus deu grande valor às palavras do chefe de Israel com uma vitória fragorosa.

Mas a condição necessária para termos Deus conosco é pôr-nos em movimento por um motivo justo. “Nas batalhas, a vitória não depende do número, mas da ajuda que vem do Céu”, diz o Macabeu. Em todas as coisas da vida, o bem não vem da renda, do poder ou de outra causa, mas da ajuda que vem do Céu. E ela vem porque se pede ajuda para coisas boas. “Para nossas vidas e para as nossas leis”, diz ainda o Macabeu. Mas quando se recorre a Deus para um fim mau ou impuro, é inútil invocar a sua ajuda. Deus não responderá, ou responderá com castigos e não com bênçãos.

Esta verdade está muito esquecida agora em Israel. E se quer a ajuda de Deus, e se invoca Deus para fins não bons. Não se praticam as virtudes, e se guardam os Mandamentos mas não com uma verdadeira observância. Do que eles mandam, se faz o que pode dar na vista e é louvado pelos homens. Mas o que está atrás da aparência é outra coisa. Eu venho para dizer: sede sinceros em vossas ações, porque Deus vê todas as coisas, e são inúteis os sacrifícios, vãs são as orações, se forem feitas como mera ostentação de culto, enquanto que o coração está cheio de pecados, de ódio e de desejos maus.

514.12Beteron, não faças em teus habitantes aquilo que Abdias diz de Edom. Edom, crendo-se seguro, permitia a si mesmo oprimir Jacó e alegrar-se com suas derrotas. Não faças assim, ó cidade sacerdotal. Toma em tuas mãos e medita sobre o rótulo de Abdias4. Medita. Medita. Medita. E muda de caminho. Anda com a justiça, se não queres conhecer dias de horror. Porque, senão, não te salvará o estares neste alto, nem o estares, na aparência, fora dos caminhos de guerra. Eu vejo em ti muitos que não têm Deus consigo e que não querem estar com Deus. Estais murmurando? Eu vos estou dizendo a verdade. Eu subi até aqui para vo-la dizer. Para tentar salvar-vos ainda.

O nosso nome não era um só? Todo ele não era Israel? Por que é, então, que ele se dividiu e tomou dois nomes? Oh! Verdadeiramente isso me faz lembrar do casamento de Oséias com a mulher das prostituições e dos filhos nascidos de uma que fornicou. Mas o que é que diz o Profeta? “O número dos filhos de Israel será como a areia do mar… E, então, em vez de dizer-lhes: ‘Vós sois o meu povo’, se lhes dirá: ‘Vós sois os filhos do Deus vivo’. E os filhos de Judá e de Israel se reunirão e elegerão um só chefe, e subirão da Terra, porque grande é o dia de Israel.”

Oh! Mas por que, então, criticais Aquele que deve reunir tudo e fazer um só povo, um grande povo, único, como único é Deus, amar todos os filhos do homem porque todos são filhos de Deus, e que deve tornar filhos do Deus vivo até aqueles que neste momento parecem estar mortos? E vós podeis julgar as minhas ações, os corações deles e o vosso? De onde vos vem a luz? A luz vem de Deus. Mas se Deus me manda com a tarefa de reunir todos sob um só cetro, como podeis vós ter uma luz que seja verdadeiramente divina, e que vos mostre as coisas justamente do modo oposto àquele como Deus as vê? Pois vós as estais vendo ao oposto de como Deus as vê.

Não fiqueis murmurando. É verdade. Vós estais fora do que é justo. Mas ainda mais do que vós estão aqueles que vos seduzem para não serdes justos. Eles serão duplamente punidos. Vós me acusais de fornicar com o inimigo, com o dominador. Eu estou lendo nos vossos corações. Mas e vós não estais fornicando com Satanás, fazendo-vos seguidores daqueles que combatem o Filho, o Enviado por Deus? Aí está o por que me odiais. Mas Eu conheço o rosto de quem instila em vós o ódio.

Como está dito em Oséias, Eu vim com as mãos cheias de dons e o coração cheio de amor, procurei atrair-vos de todas as maneiras mais agradáveis, para fazer-me ser amado. Eu falei ao meu povo como o esposo à esposa, oferecendo-lhe amor eterno, e paz, e justiça, misericórdia. Ainda há uma hora para impedir que ao povo que me repele, e aos chefes que estimulam o povo - Eu os conheço - que fiquem sem rei, sem príncipe, sem sacrifício e sem altar. Mas perto da toca, onde mais forte é o ódio e mais forte será o castigo, lá estão trabalhando para comprar as consciências e encaminhá-las para o delito. Oh! Como, em verdade, aqueles que desviam ou extraviam as consciências serão julgados sete vezes sete mais severamente do que os que foram transviados.

Vamos. Eu vim e fiz um milagre, e vos disse a verdade para persuadir-vos de quem sou Eu. Agora, vou-me embora. E se entre vós houver pelo menos um que seja justo, que ele me siga, porque triste é o futuro deste lugar onde se aninham as serpentes para seduzir e trair.

E Jesus se volta, retomando a estrada por onde veio.

514.13– Por que, Rabi, falaste assim? Eles te odiarão –perguntam os apóstolos.

– Eu não procuro conquistar amor por meio de compromissos e de mentira.

– Mas não teria sido melhor não teres vindo?

– Não. É necessário não deixar nenhuma dúvida.

– E a quem foi que convenceste?

– A nenhum. Por enquanto, a nenhum. Mas logo alguns irão dizer: “Não podemos maldizer a ninguém, porque fomos avisados e nada fizemos.” E se acusarem a Deus por os estar castigando, sua acusação será como uma blasfêmia.

– Mas a quem é que querias referir-te, quando disseste…

– Perguntai isso a Judas de Keriot. Ele conhece muitos deste lugar e conhece as astúcias deles.

Todos os apóstolos olham para Judas.

– Sim. Este lugar é quase um servo de Elquias. Mas… eu não creio que Elquias…

As palavras morrem sobre os lábios de Judas que, ao levantar os olhos de sua cintura, que ele estava apertando para se compor melhor, encontra o olhar de Jesus, um olhar cintilante e penetrante, a ponto de parecer até magnético. Ele abaixa a cabeça e termina:

– O certo, porém, é que se trata de um povoado soberbo e detestável, digno daquele que o domina. Cada um tem aquilo que merece. Eles têm Elquias. Nós temos Jesus. E o Mestre fez bem fazendo-os saber que Ele sabe. Muito bem.

– Maus certamente eles são. Vós vistes. Nem uma saudação depois do milagre. Nem mesmo uma esmola! Nada! –observa Filipe.

– Eu, porém, tremo ao ver o Mestre desmascará-los assim –suspira André.

– Fazer isso e não fazer, é a mesma coisa. Eles o odeiam do mesmo modo. Eu gostaria de voltar para a Galileia –diz João.

– Para a Galileia! Isso mesmo! –suspira Pedro, e abaixa a cabeça muito pensativo.

Atrás, aqueles que acompanharam Jesus e que não o deixam, estão comentando, e comentando estão também os discípulos.

1 a Abraão, em Gênesis 17,1.
2 o curaste, em 115.1/2.
3 crônicas, que as partes aqui citadas estão em Josué 10,8-11; 1 Macabeus 3,13-24.
4 o rótulo de Abdias, que é mais curto dos livros proféticos: um capítulo só de 21 verssos; do casamento de Oséias, em Oseias 1; diz o Profeta, em Oseias 2,1-2.


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