594. 594. Terça-feira santa. Lições da figueira seca.O tributo a César e a ressurreição dos corpos.


1 de abril de 1947.

594.1Estão para entrar de novo na cidade, sempre pela mesma estradinha afastada que eles tomaram na manhã anterior, como se Jesus não quisesse ser rodeado pelo povo enquanto estivesse esperando, antes de estar no Templo, do qual Ele logo vai-se aproximando ao entrar na cidade pela porta do Rebanho, que está perto da Probática. Mas hoje muitos dos setenta e dois já o estão esperando do lado de lá do Cedron, antes da ponte e assim que o veem aparecer por entre as oliveiras verde-cinzentas, com suas vestes purpúreas, vão ao seu encontro. Eles se reúnem e vão indo para a cidade.

Pedro, que olha para frente e para baixo por causa do declive, sempre desconfiado de estar vendo algum mal intencionado, vê no meio do frescor das últimas ladeiras, um montão de folhas murchas penduradas sobre as águas do Cedron. As folhas enroladas e quase secas, aqui e ali manchadas de ferrugem, são semelhantes às de uma planta que as chamas tivessem secado. De vez em quando a brisa faz que alguma delas caia e mergulhe nas águas da torrente.

– Mas esta é a figueira de ontem! A figueira que Tu amaldiçoaste! –grita Pedro, mostrando com a mão a planta seca, e fala virado para trás dirigindo-se ao Mestre.

Todos correm para lá, menos Jesus, que vai para frente com seu passo de costume. Os apóstolos estão narrando aos discípulos o que aconteceu antes com a árvore que eles estão vendo, e todos juntos comentam o caso e ficam olhando assombrados, para Jesus.

594.2Jesus, então, vai para perto deles, sorri ao observar aqueles rostos espantados e amedrontados, e diz:

– E por que não? Estais assim tão maravilhados porque, pela minha palavra, tenha ficado seca uma figueira? Será que não me vistes ressuscitar os mortos, curar os leprosos, dar a vista aos cegos, multiplicar os pães, acalmar as tempestades, apagar o fogo? E ficais admirados de que uma figueira fique seca?

– Não é pela figueira. É que ontem ela ainda estava vegetando, quando a amaldiçoaste, e agora está seca. Olha! Está quebradiça como a argila seca. Seus ramos não têm mais medula. Olha. Lá se vão como a poeira –e Bartolomeu esfarinha por entre os dedos uns ramos, que ele quebrou facilmente.

– Não têm mais medula. Assim tu disseste. E sobrevém a morte, quando não há mais medula, seja para uma planta, como para uma nação, como para uma religião, mas ficou somente uma casca dura e uma folhagem inútil: uma exterioridade feroz e hipócrita. A medula, branca, interna, cheia de linfa, corresponde à santidade, à espiritualidade. A casca dura e a folhagem inútil é a humanidade destituída de vida espiritual e justa. Ai daquelas religiões que se tornam humanas, porque os seus sacerdotes e fiéis não têm mais o espírito vital. Ai daquelas nações cujos chefes são apenas ferocidade e um ressoante clamor, despojados de ideias frutíferas! Ai dos homens nos quais falta a vida do espírito!

– Porém, se Tu dissesses isso aos grandes de Israel, ainda que o teu falar seja justo, não serias sábio. Não te deixes iludir por terem eles até agora te deixado falar. Tu mesmo o dizes, que não o fazem pela conversão do coração, mas como cálculo. Também Tu, então, calcula o valor e as consequências das tuas palavras. Porque existe também a sabedoria do mundo, além da sabedoria do espírito. E é preciso saber usar dela para nossa vantagem. Porque, enfim, por enquanto estamos no mundo e não ainda no Reino de Deus –diz Iscariotes sem azedume, mas em um tom doutoral.

– O verdadeiro sábio é aquele que sabe ver as coisas sem que as sombras de sua própria sensualidade e as reflexões do cálculo as alterem. Eu direi sempre a verdade do que vejo.

594.3– Mas, afinal, esta figueira está morta porque foste Tu a amaldiçoá-la, ou um… caso… um sinal… como direi? –pergunta Filipe.

– É tudo isso que disseste. Mas o que Eu fiz, vós também poderíeis fazer se chegásseis a ter a fé perfeita. Tende-a, no Senhor Altíssimo. E quando a tiverdes, em verdade Eu vos digo que, se alguém chegar a ter a confiança perfeita na força da oração e na bondade do Senhor, poderá dizer a este monte: “Sai daqui, e joga-te no mar”; e, se ao dizer isso, não ficar hesitando em seu coração, mas crendo que tudo o que ele ordena possa acontecer, tudo o que ele disser se verificará.

– E ficaremos parecendo uns magos e seremos apedrejados, como está dito para os que praticam a magia. Seria um milagre bem estulto, e para nosso prejuízo! –diz Iscariotes, balançando a cabeça.

– Estulto és tu, que não entendes a parábola! –responde o outro Judas.

Jesus não fala a Judas. Ele fala a todos:

– Eu vos digo, e é uma velha lição a que Eu repito nesta hora: seja qual for a coisa que pedirdes na oração, tende fé em obtê-la e a obtereis. Mas se antes de orar, tiverdes alguma coisa contra alguém, perdoai antes e fazei as pazes, para terdes como amigo o vosso Pai, que está no Céu, e que muito, muito vos perdoa e ajuda, da manhã até à tarde, e do pôr do sol até à aurora.

594.4Eles entram no Templo. Os soldados da Fortaleza Antônia os observam ao passarem. Eles vão adorar o Senhor, depois voltam para o pátio, onde os rabis estão ensinando. Antes ainda que o povo acorra para Jesus e se aglomere ao redor dele, já o cercam os saforins, os doutores de Israel e alguns herodianos; e, com uma delicadeza fingida, depois de o terem saudado, lhe dizem:

– Mestre, nós sabemos que Tu és sábio e verdadeiro, e que ensinas o caminho de Deus sem levares em conta coisa nem pessoa alguma, a não ser que ela esteja fora da verdade e da justiça, e pouco te incomodas com o juízo dos outros sobre Ti, mas somente te preocupas em conduzir os homens para o Bem. Dize-nos, então: é lícito pagar o tributo a César ou não é lícito fazê-lo? Que é que te parece?

Jesus olha para eles com um daqueles seus olhares de uma penetrante e solene perspicácia, e responde:

– Por que me tentais com hipocrisia? Contudo, alguém entre vós deve saber que Eu não fico enganado por honrarias fingidas! Mas mostrai-me uma das moedas daquelas usadas para pagar o tributo.

Eles lhe mostram uma moeda. Jesus a observa de um lado e do outro, e, segurando-a apoiada na palma da mão esquerda, bate sobre ela com o indicador da mão direita, dizendo:

– De quem é esta imagem, e que é que diz esta inscrição?

– A imagem é de César e a inscrição traz o nome dele. É o nome de Caio Tibério César, que agora é o imperador de Roma.

– Pois, então, dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus –e lhes vira as costas, depois de ter entregado o dinheiro a quem lho havia dado.

594.5Jesus escuta tudo o que os peregrinos lhe perguntam e os conforta, os absolve e os cura.

Enquanto isso, as horas passam. Ele sai do Templo, talvez para ir andar lá fora e tomar o alimento que lhe levaram os servos de Lázaro, que disso estão encarregados.

Depois Ele torna a entrar no Templo, pois já passa do meio-dia. Ele é incansável. Graça e sabedoria saem de suas mãos postas sobre os enfermos, e de seus lábios dos quais saem sábios conselhos que Ele dá às numerosas pessoas que dele se aproximam e fazem seus pedidos. Parece que Ele quer consolar a todos, curar a todos, antes que não o possa fazer mais.

Já chegou o pôr do sol e os apóstolos, já cansados, foram sentar-se no chão sob os pórticos, atordoados por aquele contínuo movimento nos pátios do Templo na iminência da Páscoa, quando do Incansável se aproximam os ricos com suas vestes pomposas.

Mateus, que está cochilando com um olho só, levanta-se e vai sacudir os outros. Ele diz:

– Estão indo para o Mestre uns saduceus. Não o deixemos sozinho, para que não o ofendam nem procurem fazer-lhe mal, ou zombar dele ainda.

Então todos se levantam, vão até o Mestre e o rodeiam logo. Eu creio que houve represália em ir ao Templo ou voltar dele na hora sexta.

594.6Os saduceus, que saúdam a Jesus com inclinações até exageradas, lhe dizem:

– Mestre, Tu respondeste com tanta sabedoria aos herodianos, que ficamos com o desejo de receber, como eles, nós também, um raio da tua luz. Escuta. Moisés disse1: “Se um homem morrer sem deixar filhos, que o irmão dele despose a viúva para dar uma descendência ao irmão.” Pois bem. Havia entre nós sete irmãos. O primeiro, tendo tomado por mulher uma virgem, morreu sem deixar prole e, portanto, deixou a mulher para um seu irmão. Também este segundo morreu sem deixar prole, e também o terceiro que a desposou, e assim por diante, até chegarem ao sétimo. A mulher, depois de ter desposado todos os sete irmãos, morreu. Dize-nos, então: na ressurreição dos corpos, se for verdade que os homens vão ressuscitar, se for verdade que a alma sobreviverá ao corpo unindo-se a ele no último dia e formando com ele um todo, qual dos sete irmãos que irá ficar com a mulher, se todos os sete a possuíram na terra?

– Vós estais errados. Não sabeis compreender nem as Escrituras nem o poder de Deus. Será muito diferente desta a outra vida. No Reino Eterno não existirão as necessidades da carne, como neste mundo. Porque, na verdade, depois do Juízo Final, a carne ressurgirá e se unirá de novo à alma imortal formando com ela um todo, vivo, e até melhor do que está agora a minha e a vossa pessoa, mas não mais sujeita às leis, e sobretudo aos estímulos e abusos que agora vigem. Na ressurreição, os homens e as mulheres não se tornarão esposos nem esposas, mas serão semelhantes aos anjos de Deus no Céu os quais não se casam, mas vivem no amor perfeito, que é o divino e espiritual. E quanto à ressurreição dos mortos, não lestes vós como Deus, do meio da sarça, falou2 a Moisés? Que foi que o Altíssimo lhe falou naquela ocasião? “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó.” Ele não diz: “Eu fui”, dando a entender com isso que Abraão, Isaac e Jacó tinham sido, mas não eram mais. Ele disse: “Eu sou.” Porque Abraão, Isaac e Jacó são. Eles são imortais. Como todos os homens em sua parte imortal, enquanto durarem os séculos, e depois, com a carne ressuscitada por toda a eternidade. Sou, como o é Moisés, como o são os profetas e os justos, como infelizmente o é Caim, e como são aqueles do dilúvio e os sodomitas, e todos aqueles que morreram em pecado mortal. Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.

594.7– Então, Tu também morrerás. E depois estarás vivo?

Eles o estão tentando. Já estão cansados de o tratarem mansamente. E seu ódio é tanto, que não podem mais conter-se.

– Eu sou o Vivente e a minha carne não conhecerá a destruição. A arca nos foi tirada e a atual também nos será tirada, como um símbolo. O Tabernáculo nos foi tirado e destruído. Mas o verdadeiro Templo de Deus não poderá ser retirado nem destruído. Quando os seus adversários pensarem que o fizeram, então será a hora em que ele se estabelecerá na verdadeira Jerusalém, em toda a sua glória. Adeus.

E Jesus se apressa em ir para o Pátio dos Israelitas, porque as trombetas de prata estão chamando para o sacrifício da tarde.

594.8Jesus me diz:

– Assim como Eu te fiz assinalar a frase “ao meu cálice”3, na visão da mãe de João e de Tiago que pedia um lugar para os seus filhos, assim Eu te digo que assinales na visão de ontem este ponto: “Quem cair contra esta pedra, se esfacelará.” Nas traduções sempre se usou a palavra “sobre.” Eu disse contra e não sobre. É uma profecia contra os inimigos da minha Igreja. Aqueles que a combatem, arrojando-se contra Ela, pois Ela é a Pedra angular, ficarão esfacelados. A história da Terra, desde há vinte séculos, confirma o que Eu estou dizendo. Os perseguidores da Igreja se esfacelam ao se jogarem contra a Pedra angular. E também o tenham presente aqueles que, por serem da Igreja, se creem salvos dos castigos divinos, aquele sobre o qual cair o peso da condenação do Chefe e Esposo desta minha Esposa, deste meu Corpo místico, aquele tal será esmagado.

594.9E prevendo a uma objeção dos sempre existentes escribas e fariseus, que maltratam os meus servos, Eu digo: se nestas últimas visões aparecem frases que não estão nos Evangelhos, como esta no fim da visão de hoje, e do lugar em que Eu falo da figueira que secou, e de outros ainda, lembrem-se de que os evangelistas eram sempre daquele povo, e viviam em tempos nos quais qualquer empurrão forte demais podia ter repercussões violentas e nocivas aos neófitos.

Que eles releiam os Atos dos Apóstolos e verão que não era pacífica a fusão de tantos pensamentos diversos e que, se uns aos outros se admiravam, reconhecendo uns nos outros os seus méritos, não faltaram entre eles as discrepâncias, porque diferentes são os pensamentos dos homens, e sempre imperfeitos. E para evitar fraturas mais profundas entre um pensamento e outro, iluminados pelo Espírito Santo, os Evangelistas omitiram em seus escritos, de propósito, qualquer frase que tivesse despertado as excessivas suscetibilidades dos hebreus e escandalizasse os gentios, que deviam crer que os hebreus eram perfeitos, por formarem o núcleo do qual veio a Igreja, para que não se afastassem dela, dizendo: “Eles são como nós.” Conhecer as perseguições de Cristo, sim. Mas as doenças espirituais do povo de Israel, já corrompido, especialmente nas classes mais altas, isso, não! Não ficaria bem. E o mais que puderam, tomaram cuidado.

Observem como os Evangelistas se vão tornando sempre mais explícitos, até chegarem ao límpido Evangelho do meu João. Os outros foram escritos em épocas mais distantes da minha Ascensão ao meu Pai. Somente João é que relata inteiramente até mesmo as manchas mais dolorosas do próprio núcleo apostólico, chamando abertamente Judas de “ladrão”, e referindo integralmente as baixezas dos judeus (capítulo 6: a fingida vontade de me fazerem rei, as discussões no Templo, o abandono de muitos depois de ter Eu falado sobre o Pão do Céu, a incredulidade de Tomé). O último sobrevivente, que viveu até ver já forte a Igreja, levanta os véus que outros não tinham ousado levantar.

Mas agora o Espírito de Deus quer que sejam conhecidas estas palavras também. E por elas bendigam ao Senhor, porque são muitas luzes e muitos guias para os justos de coração.”

594.10– Colocarás aqui a segunda parte da terça-feira, isto é, a instrução noturna aos Doze no Getsêmani.

1 Moisés disse, em: Deuteronômio 25,5-6.
2 da sarça, falou, em: Êxodo 3,1-6.
3 ao meu cálice, em 577.11; contra esta pedra, in 592.17.


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