120. 120. Os discursos de Águas Belas:Não farás deuses para ti em minha presença.
28 de fevereiro de 1945.
120.1 – Foi dito: “Não farás para ti deuses em minha presença. Não farás para ti nenhuma escultura ou representação daquilo que está no céu, na terra, ou nas águas. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor teu Deus, forte e ciumento, que visito a iniquidade dos pais nos filhos1, até a terceira e quarta gerações daqueles que me odeiam, e faço Misericórdia até à milésima geração daqueles que me amam e observam os meus mandamentos.”
A voz de Jesus ribomba no quarto grande cheio de gente, porque está chovendo, e todos foram abrigar-se nele. Na primeira fila estão quatro doentes, ou seja, um cego conduzido por uma mulher, um menino cheio de crostas, uma mulher amarelenta por causa de icterícia ou malária, e um outro que foi trazido numa pequena padiola.
Jesus fala, apoiado na manjedoura vazia. João e os dois primos, em companhia de Mateus e Filipe, estão perto Dele, enquanto Judas com Pedro, Bartolomeu, Tiago e André estão na porta e controlam a entrada daqueles que ainda chegam, Tomé e Simão circulam entre o povo, fazendo que as crianças se calem, recolhendo os óbolos, ouvindo os pedidos.
120.2 – “Não farás para ti deuses em minha presença.”
Vós já ouvistes como Deus é onipresente, com o seu olhar e a sua voz. Na verdade, estamos sempre na Sua presença. Fechados dentro de um quarto, ou entre o público do Templo, estamos igualmente na sua presença. Benfeitores escondidos, que até aos beneficiados ocultam o rosto, ou assassinos, quando assaltam o viajante em algum desfiladeiro solitário e o trucidamos, igualmente estão na Sua presença. Em sua presença está o rei no meio de sua corte, o soldado no campo de batalha, o levita no interior do Templo, o sábio debruçado sobre os livros, o camponês sobre o sulco, o mercador em seu balcão, a mãe inclinada sobre o berço, a esposa no quarto nupcial, a virgem no segredo da morada paterna, o menino que estuda na escola, o velho que se deita para morrer. Todos estão em Sua presença, e todas as ações do homem igualmente estão em Sua presença.
Todas as ações do homem! Tremenda palavra! E consoladora palavra! Tremenda, se as ações são de pecado; consoladora, se são ações de santidade. Saber que Deus vê é um freio para quem quer fazer o mal e um conforto para quem quer fazer o bem. Deus vê que estou fazendo o bem. Eu sei que Ele não se esquece do que vê. Eu creio que Ele premia as boas ações. Por isso estou certo de que irei receber um prêmio e com esta certeza, descanso. Ela me dará uma vida serena e uma morte plácida, porque na vida e na morte minha alma será consolada pelo raio da estrela da amizade de Deus. Assim é que raciocina aquele que faz o bem.
120.3 Mas aquele que faz o mal, por que não pensa que, entre as ações proibidas estão os cultos idolátricos? Por que não diz: “Deus está vendo que, enquanto finjo estar prestando um culto santo, estou adorando um deus ou deuses mentirosos, aos quais levanto um altar secreto aos homens, mas conhecido a Deus”? Que deuses são esses, poderíeis dizer, se nem no Templo existe figura de Deus? Que rosto têm esses deuses, se ao verdadeiro Deus foi impossível dar um rosto?
Sim. Impossível dar-lhe um rosto, porque o Perfeito e o Puríssimo não pode ser dignamente representado pelo homem. Só o espírito pode entrever a sua incorpórea e sublime beleza, e ouvir a sua voz, sentir a sua carícia, quando Ele se efunde a um dos seus santos, merecedor desses contatos divinos. Mas o olho, o ouvido, a mão do homem não podem ver nem ouvir e nem, repetir com o som sobre a cítara, com o macete e o cinzel no mármore, aquilo que é o Senhor. Oh! Felicidade sem fim, quando, ó espíritos dos justos, chegardes a ver a Deus! O primeiro olhar será a aurora da felicidade que, pelos séculos dos séculos será vossa companheira.
Contudo, o que não nos foi possível fazer pelo verdadeiro Deus, eis que o homem o faz pelos deuses mentirosos. Cada um ergue um altar à mulher; ou ao ouro; ou ao poder; ou à ciência; ou aos triunfos militares; um adora o homem poderoso, seu semelhante por natureza e superior apenas em prepotência ou fortuna; ou adora a si mesmo, e diz: “Não há outros iguais a mim.” Aí estão os deuses daqueles que são do povo de Deus.
Não vos admireis de que os pagãos adorem animais, répteis e astros. Quantos répteis! Quantos animais! Quantos astros apagados adorais em vossos corações! Os lábios pronunciam palavras de mentira para adular, possuir, corromper. E não são estas as orações dos idólatras secretos? Os corações planejam pensamentos de vingança, de comércio ilícito, de prostituição. E não são estes os cultos aos deuses imundos do prazer, da avidez, do mal?
120.4 Foi dito: “Não adorarás nada daquilo que não é o teu Deus verdadeiro, único, eterno.” Foi dito: “Eu sou o Deus forte e ciumento.”
Deus Forte: nenhuma outra força é maior do que a Dele. O homem é livre para agir, satanás é livre para tentar. Mas quando Deus diz: “Basta”, o homem não pode mais agir mal e satanás não pode mais tentar. Rechaçado fica este em seu inferno e derrubado fica aquele em seu abuso de fazer o mal, porque há um limite para isso, além do qual Deus não permite que se vá.
Deus Ciumento: de que? De qual ciúme? Será o mesquinho ciúme dos homens pequenos? Não. O santo ciúme de Deus por seus filhos. O justo ciúme. O amoroso ciúme. Ele vos criou. Ele vos ama. Ele vos quer. Ele sabe o que vos prejudica. Conhece o que é que pode separar-vos Dele. E é ciumento daquilo que se intromete entre o Pai e os filhos, desviando-os do único amor que é salvação e paz: Deus. Compreendei esse sublime ciúme, que não é mesquinho, que não é cruel, nem carcerário. Mas que é um amor infinito, que é uma infinita bondade, que é uma liberdade sem limites, que se dá a uma criatura finita, por desejá-la na eternidade para si e, e fazê-la partícipe de sua infinidade. Um pai bom não quer gozar sozinho de suas riquezas. Mas quer que os filhos as gozem com ele. No fundo, foi mais para os filhos do que para si que ele as acumulou. Assim é com Deus colocando a perfeição neste amor que há em todas as suas ações.
120.5 Não decepcioneis o Senhor. Ele promete castigo aos culpados e aos filhos dos culpados. E Deus nunca mente em suas promessas. Mas não fiqueis abatidos, em vosso ânimo, ó filhos do homem e de Deus. Ouvi, e exultai com esta outra promessa: “Eu uso de Misericórdia até à milésima geração daqueles que me amam e observam os meus mandamentos.” Até à milésima geração dos bons. E até à milésima fraqueza dos pobres filhos do homem, os quais caem, não por malícia, mas por irreflexão e por ciladas de satanás. Mais ainda. Eu vos digo que Ele vos abre os braços se, com o coração contrito e o rosto lavado pelo pranto, vós disserdes: “Pai, eu pequei. Eu sei. Mas eu me humilho por isso e a Ti me confesso. Perdoa-me. O teu perdão será a minha força para voltar a ‘viver’ a verdadeira vida.”
Não temais. Antes que vós pecastes por fraqueza, Ele sabia que iríeis pecar. Mas seu Coração só se fecha, quando persistis no pecado, querendo pecar, fazendo de um certo pecado, ou de muitos pecados, os vossos deuses horrorosos. Abatei todos os ídolos, e dai lugar ao Deus verdadeiro. Ele descerá com a sua glória para consagrar o vosso coração, quando se vir sozinho em vós.
Dai a Deus a sua morada. Não em templos de pedra, mas no coração dos homens. Lavai a soleira dela, livrai o seu interior de todo aparato inútil ou culposo. Somente Deus. Só Ele. Ele é tudo! E em nada é inferior ao Paraíso o coração de um homem com Deus, o coração de um homem que cante o amor ao Hóspede divino.
Fazei de cada coração um Céu. Iniciai a coabitação com o Excelso. Ela se aperfeiçoará em vosso eterno amanhã, em poder e alegria. Mas aqui será tal, que superará o tremente espanto de Abraão, Jacó e Moisés. Porque não será mais o encontro fulgurante e assustador com o Poderoso, mas a permanência com o Pai e o Amigo que desce para dizer-vos: “A minha alegria é estar entre os homens. Tu me fazes feliz. Obrigado, filho.”
120.6 A multidão que supera uma centena, sai, depois de algum tempo, do encantamento. Há quem se aperceba chorando ou sorrindo pela mesma esperança de alegria. Enfim a multidão parece despertar, tem como que um sussurro, um suspiro forte, e finalmente um grito como de libertação:
– Bendito sejas Tu! Tu nos abres o caminho da paz!
Jesus sorri e responde:
– A paz está em vós, desde que sigais o Bem, a partir de hoje!
Depois Ele se dirige aos doentes, passa a mão sobre o menino doente, sobre o cego, sobre a mulher com icterícia, inclina-se sobre o paralítico e diz:
– Eu quero.
O homem o olha e depois grita:
– Há calor no corpo que estava morto!
E se põe em pé, assim como estava, até que lhe ponham nas costas a coberta da sua pequena cama, enquanto a mãe levanta o menino já sem crostas, o cego agita os olhos por causa do primeiro contato com a luz, e algumas mulheres gritam:
– A Dina já não está mais amarela como os ranúnculos selvagens.
O alvoroço alcança o auge. Alguns gritam, outros abençoam, outros empurram para ver, outros procuram sair para ir informar a cidade. Jesus é investido por todos os lados.
Pedro vê que o estão quase comprimindo e grita:
– Rapazes! Estão sufocando o Mestre! Vamos abrir caminho!
E com uma verdadeira ginástica de cotovelos e até algum pontapé nas canelas, os doze conseguem abrir caminho e libertar Jesus, levando-o para fora dali.
– Amanhã cuidarei disso –diz–. Tu ficarás na porta e os outros no fundo. Eles te machucaram?
– Não.
– Pareciam doidos! Que modos!
– Deixa que o façam. Estavam felizes… E Eu com eles. Ide para aqueles que pedem o batismo. Eu entro em casa. Tu, Judas, com Simão, dai o óbolo aos pobres. Tudo. Nós temos muito mais do que é justo para uns apóstolos do Senhor. Vai, Pedro, vai. Não tenhas medo de trabalhar demais. Eu te justifico ao Pai, porque Eu é que te mando. Adeus amigos.
E Jesus, cansado e suado, se fecha na casa, enquanto os discípulos executam cada um sua tarefa junto aos peregrinos.
1 a iniquidade dos pais nos filhos, em vez de iniquidade dos filhos, é correção de MV numa cópia datilografada, em conformidade como texto de Êxodo 20,5.