493. 493. Discurso perto da fonte de Em Rogel,que foi lugar de permanência dos três Sábios.
16 de setembro de 1946.
493.1 Jesus volta de Betânia pela estrada de baixo (digo assim para referir-me à mais longa que não passa pelo Monte das Oliveiras, que entra na cidade, passando pelo subúrbio de Tofet).
Antes, Ele para, a fim de socorrer aos leprosos que não souberam pedir-lhe outra coisa, a não ser pão, e depois vai direto a um grande tanque quadrangular, coberto e fechado de todos os lados, menos de um. Um poço, um grande poço coberto, o maior que eu já tenha visto. É maior do que o da Samaritana1, e deve também ser mais rico de águas, porque o solo, ao redor dele, por sua fertilidade, mostra estar sendo abastecido por ele, em contraste com o árido e sepulcral vale de Hinom, que se entrevê a noroeste. Somente uma construção de pedra maciça, como é a do poço e de sua cobertura, é que teria podido resistir à umidade do chão. As pedras que, mesmo sem sermos entendidos, podemos dizer que são antigas, resistem, escuras e fortes, para a proteção da preciosa água.
Ainda que o dia esteja sombrio, apesar da proximidade dos sepulcros dos leprosos, o que causa sempre uma grande tristeza na vizinhança, o lugar é sereno, tanto por sua fertlidade, como por ter atrás de si, ao norte, vastos jardins, ricos em árvores de toda espécie, que erguem suas copas viçosas contra o céu cinzento que se abaixa sobre a cidade, e, diante dela, ao sul, o vale do Cedron, que se alarga em seu leito, e vai tendo aumentadas suas águas, assim como o vale se torna mais alegre e cheio de luz, à medida que acompanha a estrada que vai para Betânia e para Jericó, por um bom trecho do terreno.
Muita gente: mulheres com suas ânforas, burriqueiros com os seus baldes, caravanas que chegam ou que partem, ou que param junto ao poço para tirar água. O chão é úmido até uma boa distância, pois os baldes ficam pingando para fora, quando são despejados nas vasilhas. Tranquilas e doces vozes de mulheres, vozinhas estridentes de crianças, vozes graves, roucas e robustas dos homens, zurros de asnos e caretas dos camelos que, agachados por baixo de suas cargas, estão esperando que o cameleiro volte trazendo a água.
Uma cena muito característica é o pôr do sol fosco no qual o céu apresenta umas manchas de um amarelo irreal, repentino, que espalha uma luz estranha sobre tudo, enquanto cada vez mais, por baixo das nuvens, pesadas e cor de chumbo, vão-se acavalando e correndo para o ocidente. As partes mais altas da cidade parecem uns fantasmas à luz estranha que vem de um horizonte tristonho, todo riscado com pinceladas de enxofre.
493.2 – Com toda esta água e este vento… –Pedro pergunta–, para onde iremos nesta tarde?
– Para a casa do homem dos jardins. Amanhã subirei para o Templo e…
– Outra vez? Olha bem o que estás fazendo! É preferível aceitar o convite dos libertos de irmos à sinagoga deles –aconselha Simão, o Zelotes.
– Então, sinagoga por sinagoga, existem outras que têm dado sinais de o desejarem. Por que haveremos de ir logo para estes? –diz Judas de Keriot.
– Porque eles são mais seguros. A razão logo se compreende, sem que eu a diga –replica Zelotes.
– Seguros? Que é que te dá certeza disso?
– O fato de terem eles sabido permanecer fiéis, mesmo depois daquilo pelo que passaram.
– Não fiqueis questionando entre vós. Amanhã Eu subo ao Templo. Eu o disse. 493.3Agora nos demoraremos por aqui um pouco. É sempre um lugar de boa evangelização.
– Não mais do que os outros. Não sei porque preferes este.
– Por que, Judas? Por muitas razões, que Eu direi aos que se unem e por uma que Eu digo a vós em particular. Neste poço da fonte de Rogel, foi onde pararam, incertos e decepcionados, os três Sábios do Oriente, pois foi neste ponto que desapareceu a estrela que os havia guiado desde tão longe. Qualquer outro homem teria desconfiado de Deus e de si mesmo. Eles rezaram até à manhã seguinte, ao lado de seus camelos já cansados, os únicos que estavam acordados no meio dos servos já adormecidos, e, tendo chegado a manhã, levantaram-se, dirigindo-se para as portas, desafiando até um perigo de vida. Reinava Herodes, o sanguinário. Lembrai-vos disso. Bastava até muito menos do que a frase que eles, os Sábios, queriam dizer-lhe, para que ele decretasse a morte deles. Mas eles estavam Me procurando. Não estavam indo atrás de glória, riquezas e honras. Procuravam a Mim somente. Um pequenino, era o Messias deles, o Deus deles. A procura de Deus porque é boa, dá sempre todas as ajudas e a coragem. Os medos, as coisas baixas são a herança de quem só sonha com coisas baixas. Eles suspiravam por adorar a Deus. Eram fortes, por causa desse seu amor. E poucas horas depois, seu amor teve um prêmio, por que aqui, em uma noite de luar, reapareceu-lhes a estrela, a seus olhos. A estrela de Deus não falta nunca a quem, com justiça e amor, procura a Deus. Os três Sábios! Podiam fazer uma parada por entre as falsas honrarias que Herodes lhes prestaria, depois da resposta dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas e doutores. Eles bem que estavam tão cansados! Mas não pararam nem por uma noite e, antes que fechassem as portas da cidade, saíram para fazer sua parada até à aurora. Depois… não a aurora do sol, mas a aurora de Deus reapareceu, para fazer virar de prata a estrada, a Estrela os chamou com suas luzes, e eles foram para a Luz. Felizes deles e de quem os sabe imitar!
Os apóstolos e Marziam, com Isaque, estão atentos a escutar com aquele rosto feliz, que eles sempre têm, quando Jesus relembra o seu nascimento, e Isaque concorda, suspira, sorri, ao lembrar-se, com um rosto extático, longe daquele lugar e daquele tempo, tendo voltado atrás, há mais de trinta anos, aquela noite, aquela estrela, que ele viu com toda a certeza, quando estava no meio do seu rebanho…
493.4 Outras pessoas se aproximam, pois a estrada é de grande movimento, e ficam escutando. Algumas se lembram da fantástica caravana e da notícia que ela trouxe… e, das consequências dela.
– Este é sempre um lugar de conselho. A história sempre se repete. Este é sempre lugar de prova. Para os bons e para os maus. Mas toda a vida é uma prova da fé a da justiça do homem.
Eu vos lembro2 a fidelidade de Cusa, de Sadoque e de Abiatar, de Jônatas e de Aquimás, que deste lugar partiram para salvarem o seu rei, e foram protegidos por Deus, porque agiam com Justiça. Eu vos lembro um acontecimento conexo a este mesmo lugar, que não terminou bem, porque foi um abuso, e por isso não foi abençoado por Deus. Perto da pedra de Zoelet, junto à fonte de Rogel, Adonias conspirou contra a vontade de seu pai, e se fez proclamar rei pelos do seu partido. Mas não lhe foi favorável o abuso, porque, antes que terminasse o banquete, os hosanas que ressoaram em Gion o fizeram ciente, antes mesmo que lhe falasse o Jônatas de Abiatar, de que Salomão era o rei, e ele, que havia querido usurpar o trono, devia confiar somente na misericórdia de Salomão.
São muitos os que repetem os gestos de Adonias e combatem o verdadeiro Rei, ou conjuram contra Ele, seguindo o partido, que parece ser o mais forte. Muito poucos, assim fazendo, saberão depois aproximar-se do altar, pedindo perdão e confiados na misericórdia de Deus.
Poderemos nós, que acabamos de relembrar três acontecimentos que houve junto a este poço, dizer que o lugar está sujeito a influxos bons ou não bons? Não. Não é o lugar. Nem o tempo. Não são os acontecimentos, mas é a vontade do homem que perturba as ações do homem. En Rogel viu a fidelidade dos servos de Davi e o pecado de Adonias, assim como viu a fé dos três Sábios. O poço é o mesmo. Sobre suas pedras e em suas águas mataram a sede e e buscaram apoio Jônatas e Aquimaas, Adonias e os seus, bem como os três Sábios. Mas a água e as pedras viram três coisas diferentes: uma fidelidade ao rei Davi, uma traição ao rei Davi e uma fidelidade ao Rei dos reis. É sempre a vontade do homem que faz que se realize o bem ou o mal. Sobre a vontade do homem projeta suas luzes a Vontade de Deus, e os vapores venenosos a vontade de Satanás: Compete ao homem acolher a luz ou o veneno, tornar-se justo ou pecador.
Junto a este poço foi colocado um guarda, a fim de que ninguém corrompa as águas. Além do guarda, foram-lhe dados uns muros, um teto para que o vento não jogasse dentro dele folhas e sujeiras que contaminassem as águas preciosas. Também junto ao homem Deus colocou um guarda: é a vontade inteligente e consciente do homem, e, além disso, alguns reforços: os mandamentos e conselhos angelicais para que o espírito do homem não fosse corrompido cientemente, ou sem o saber. Mas, quando o homem corrompe a sua cosnciência, a sua inteligência, já não ouve as inspirações do Céu, viola a Lei, e é como um guarda que deixa de guardar o poço, ou como um doido que desmantela as defesas. Ele depois deixa indefeso o campo para os inimigos satânicos, para as concupiscências do mundo e da carne e para que não sejam aceitas as tentações, sempre é prudente estar atentos contra elas e repeli-las.
493.5 Filhos de Jerusalém, hebreus, prosélitos, viajantes por acaso aqui reunidos para ouvirdes a palavra de Deus, sede sábios com a verdadeira sabedoria, que consiste em saber defender o próprio eu das ações que desonram o homem.
Estou vendo aqui muitos gentios. A eles eu digo que não basta ficar somente adquirindo riquezas e mercadorias, mas há uma outra coisa, que é a vida para a própria alma. Porque o homem tem uma alma em si, uma coisa impalpável. Mas é ela que o faz estar vivo, é uma coisa que não morre, mesmo depois que a carne já morreu, uma coisa que tem o direito de viver a sua verdadeira e eterna vida, e que o homem não pode viver, se matar o seu verdadeiro ser com as suas más ações.
A idolatria e a gentilidade não são coisas difíceis de ser superadas. O sábio medita, e diz: “Por que terei eu de dar culto aos ídolos, viver sem a esperança de uma vida melhor, ao passo que, caminhando para o verdadeiro Deus, poderei conquistar a alegria para sempre?” O homem sobreestima seus dias nesta vida, e a morte lhe causa horror. Quanto mais ele estiver envolvido nas trevas das religiões falsas, ou na falta de fé, tanto mais ele teme a morte. Mas aquele que adere à verdadeira fé, não sentirá mais horror à morte, porque sabe que depois da morte há uma vida eterna na qual os espíritos se encontrarão, não haverá mais sofrimentos nem separações. Não é difícil sugerir o caminho da Vida. Basta crer no Único Deus verdadeiro, amar o próximo e amar a honestidade em todas as ações.
Vós de Israel sabeis quais são as coisas mandadas e quais as proibidas. Mas Eu digo a estes que estão ouvindo e que levarão para longe consigo as minhas palavras, que são estas coisas… (e diz o Decálogo).
A verdadeira religião consiste nisto, e não nos sacrifícios vazios e pomposos. Obedecer aos preceitos de uma moral perfeita, de uma virtude sem defeito, usar de misericórdia, fugir daquilo que desonra o homem, deixar a vaidade, as adivinhações do erro, os augúrios mentirosos, os sonhos dos maus, como diz3 o livro sapiencial, usar com justiça os dons de Deus, isto é, a saúde, a prosperidade, as riquezas, a inteligência, o poder, não ter soberba, que é um sinal de estultície porque o homem é vivo, são, rico, sábio, poderoso, enquanto Deus lho concede não ter desejos exagerados, que às vezes conduzem até ao delito. Viver, numa palavra, como homens e não como animais, com uma dignidade também para consigo mesmos.
Descer é fácil, subir de novo é difícil. Mas quem gostaria de viver em um abismo podre, só porque lá caiu, não procuraria sair dele, subindo de novo para os cumes floridos e cheios de sol? Em verdade, Eu vos digo que a vida do pecador está situada em um abismo e, portanto, no erro. Mas aqueles que acolhem a Palavra da Verdade, vem a Verdade, sobem para os cumes para a Luz.
Ide agora todos para os vossos trabalhos. Mas lembrai-vos de que junto à Fonte de En Rogel, a Fonte da Sabedoria vos deu de beber as suas águas para que não tenhais mais sede e volteis a Ela.
Jesus abre caminho, se dirige para a cidade, deixando as pessoas a comentar, a perguntar e a responder.
493.6Diz Jesus:
– Aqui colocareis a visão da adúltera, tida a 20 de março de 1944.
1 o da samaritana, em 143.1/2.
2 Eu vos lembro... os episódios relatos em 2 Samuel 17; 1 Reis 1.
3 diz, em Siraque 34,1-8.
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