630. 630. Os apóstolos são enviados ao Getsêmani.Meditação sobre a oração do “Pai Nosso”.
11 de abril de 1947.
630.1Os apóstolos vestem seus mantos e perguntam:
– Onde iremos, Senhor?
O modo de falar deles não é mais tão familiar como era antes da Paixão. Se fosse lícito dizer, eu diria que eles agora falam com a alma ajoelhada. Mais do que a posição do corpo, que está sempre inclinado em veneração ao Ressuscitado, mais do que uma reserva em tocar nele, mais do que uma alegria temerosa quando Ele toca neles ou os acaricia, ou os beija, ou lhes dirige em particular a palavra, é o aspecto deles que apresenta “algo” que não se pode descrever, mas que é evidente; e exprime que, mais do que a humanidade deles, é o espírito que não pode mais ser como era em seu relacionamento com o Mestre, e impregna cada ato humano com o seu novo modo de sentir.
Antes, Ele era “o Mestre”. O Mestre que eles em sua fé acreditavam que era Deus. Mas que, para os sentidos deles, era sempre um homem. Agora Ele é o “Senhor”. É Deus. Não há mais necessidade de atos de fé para crerem nisso. A evidência aboliu essa necessidade. Ele é Deus. É o Senhor ao qual o Senhor disse1: “Senta-te à minha direita”, e o proclamou com a palavra e com o prodígio da Ressurreição. É Deus como o Pai. E é o Deus a quem eles abandonaram por medo, depois de terem recebido tanto dele…
Eles olham sempre para Ele com aquele ar de veneração e reverência, com o qual um verdadeiro fiel olha para a Hóstia fulgurante no ostensório, ou olha para o Corpo de Cristo, elevado pelo Sacerdote no Sacrifício de cada dia. Em seu olhar, que quer ver o aspecto do Amado, mais belo ainda do que no passado, há também a expressão de quem não ousa ver, de quem não ousa parar para ficar olhando… O amor os impulsiona a fixar-se sobre aquele seu Amado, o temor faz que de repente abaixem as pálpebras e a cabeça, como se um clarão os houvesse ofuscado.
630.2De fato, mesmo se Jesus, Jesus Ressuscitado, seja Ele mesmo, ao mesmo tempo não é mais Ele. Olhando-O melhor, Ele está diferente. As linhas do rosto são as mesmas, assim como a cor dos olhos e dos cabelos, a estatura, as mãos, os pés, no entanto, Ele está diferente. A voz, os gestos são os mesmos, no entanto, Ele está diferente. É um corpo verdadeiro, a tal ponto que até veda a passagem da luz do sol no ocaso, que entra com seus últimos raios na sala, pela janela aberta. No entanto, Ele está diferente. Não se tornou soberbo nem distante, mas está diferente.
É uma majestade nova, constante, que se difunde lá onde reinava a aparência humilde e descuidada, às vezes tão descuidada que o incansável Mestre parecia extenuado. Tendo desaparecido a magreza destes últimos tempos, tendo-se eliminado aquele aspecto de cansaço físico e moral que lhe dava uma aparência envelhecida, tendo perdido aquele olhar cheio de aflição, suplicante, que perguntava, sem falar: – Por que me repelis? Acolhei-me…, – o Cristo Ressuscitado parece até mais alto e robusto, livre de todos os fardos, firme, vitorioso, majestoso, divino. Nem mesmo quando se deixava ver como poderoso nos grandes milagres, ou imponente, nos momentos mais importantes do seu magistério, Ele era como é agora, que está ressuscitado e glorificado. Não emana luz. Não. Não emana luz como na transfiguração e como nas primeiras aparições depois da ressurreição. Contudo, Ele parece luminoso. É verdadeiramente o Corpo de Deus com a beleza dos corpos glorificados. Ele atrai e atemoriza, ao mesmo tempo.
630.3Talvez sejam também aquelas feridas, tão visíveis, nas mãos e nos pés, aquilo que incute esse respeito profundo. Não sei. Só sei que os apóstolos, embora Jesus seja tão doce com eles e procure criar novamente a atmosfera de tempos passados, estão diferentes. Antes eles eram insistentes e tagarelas, mas agora quase não falam e, se Ele não responde, não insistem. Se Ele lhes sorri, ou sorri a um deles, eles mudam de cor e não ousam responder com um sorriso ao seu sorriso. Se Ele, como está fazendo agora, estende a mão para pegar o seu manto branco — Ele está sempre vestido com uma veste de um branco resplandecente, muito mais do que um cândido cetim desde que Ressuscitou — ninguém deles corre, como faziam antes, na alegria e honra de ajudá-lo. Parece que têm medo de tocar as suas vestes e os seus membros. E é Ele que tem de dizer, como agora:
– Vem, João. Ajuda o teu Mestre. Estas feridas são verdadeiras feridas… e as mãos feridas não são ágeis como antes…
João obedece, e vai ajudar Jesus a colocar o amplo manto, e parece estar vestindo um Pontífice, pelo capricho com que o faz, tomando cuidado em seus movimentos a fim de não esbarrar nem de leve naquelas Mãos, nas quais estão os estigmas avermelhados. Mas, por mais cuidado que ele tenha, esbarra na mão esquerda de Jesus e grita, como se fosse ele o esbarrado, e detém seu olhar sobre as costas daquela Mão, temendo ver gotejar ainda algum sangue dela. Pois aquela ferida cruel continua viva!
Jesus lhe põe a mão direita sobre a cabeça, dizendo:
– Tu tiveste mais coragem quando me recebeste ao Eu ser despregado da Cruz. Naquela hora ainda gotejava sangue, e tanto que, por causa dele,ficaste vermelho até nos cabelos. Foi uma nova orvalhada da noite sobre o novo amigo. Tu me havias colhido como se colhe um cacho do ramo… Por que estás chorando? Eu te dei a minha orvalhada de Mártir. E tu sobre a minha cabeça espalhaste a orvalhada da piedade. Mas, então, podias chorar… 630.4E tu, por que choras, Simão Pedro? Tu não esbarraste contra a minha Mão. Tu não me viste morto…
– Ah! meu Deus! É por isso que eu choro! Pelo meu pecado.
– Eu já te perdoei, Simão de Jonas.
– Mas eu não me perdoo. Não. Nada fará que termine o meu pranto. Nem mesmo o teu perdão.
– Mas a minha glória, sim.
– Tu estás glorioso, e eu pecador.
– Tu, glorioso, depois de teres sido o meu pescador. Pesca grande, milagrosa, tu ainda farás, Pedro. E depois Eu te direi: “Vem para o banquete eterno.” E aí não chorarás mais. Mas todos vós tendes as lágrimas sobre as pupilas. E tu, Tiago, meu irmão, ficas jogado aí nesse canto como se tivesses perdido todos os bens. Por que isso?
– Porque eu esperava que… Tu, então, sentes as Feridas? Ainda as sentes? Eu esperava que para Ti toda dor tivesse terminado e todos os sinais estivessem cancelados. E para nós também. Para nós pecadores. Aquelas chagas!… Que dor só ao vê-las!
– Sim. Por que não as cancelaste? Em Lázaro não ficaram sinais… São uma… uma repreensão aquelas Chagas! Elas gritam com uma voz tremenda! Elas são mais fulgurantes e amedrontadoras do que os raios do Sinai –diz Bartolomeu.
– Censuram em alta voz a nossa vileza. Porque nós fugimos, enquanto Tu as recebias… –diz Filipe.
– E quanto mais as olhamos, mais a consciência nos censura e nos joga no rosto nossa vileza, nossa estultice e incredulidade –diz Tomé.
– Para nossa paz e a deste povo pecador, pois Tu morreste e ressuscitaste para o perdão do mundo, anula aquelas acusações ao mundo, ó Senhor! –roga André.
630.5– Elas são a Saúde do mundo. Nelas está a Saúde. Quem as abriu foi o mundo que odeia, mas o Amor fez delas Remédio e Luz. Por elas a Culpa foi crucificada. Por elas foram suspensos e sustentados todos os pecados dos homens, para que o fogo do Amor os consumasse no verdadeiro Altar. Quando o Altíssimo ordenou a Moisés a arca e o altar do perfume, não desejou-os perfurados por anéis2 a fim de serem levados e conduzidos onde queria o Senhor? Eu também fui perfurado. Sou mais do que a arca e o altar. Sou muito mais do que a arca e o altar. Eu queimei o perfume da minha caridade por Deus e pelo próximo, e carreguei o peso de toda a iniquidade do mundo. E o mundo precisa recordar isso. Para recordar o que isso custou a um Deus. Para recordar de quanto Deus o amou. Para recordar o que as culpas produzem. Para recordar que em Um só está a salvação: Naquele que transpassaram. Se o mundo não visse a vermelhidão das minhas Chagas, na verdade logo se esqueceria que foi por sua culpa que Deus se imolou, esqueceria que realmente eu morri no tormento mais atroz, esqueceria qual é o bálsamo para as suas feridas. Aqui está o bálsamo. Vinde e beijai-as. Cada beijo aumenta a purificação e a graça para vós. Em verdade vos digo que purificação e graça nunca são suficientes, porque o mundo consome aquilo que o Céu infunde, e é preciso compensar as ruínas do mundo com o Céu e os seus tesouros. Eu sou o Céu. Todo o Céu está em Mim, e os tesouros celestes fluem das Chagas abertas.
Ele estende as Mãos para que os seus apóstolos as beijem. E deve apertar aquelas mãos feridas sobre as bocas ávidas e temerosas dos apóstolos, porque o temor de aumentar a dor refreia aqueles lábios de apertarem aquelas feridas.
– Não é isso o que faz doer, ainda que os lábios apertem. A dor é uma outra!…
– Qual é, Senhor? –pergunta Tiago do Alfeu.
– De ter morrido por muitos e muitos inutilmente. 630.6Mas, vamos. Aliás, ide vós adiante. Vamos ao Gestêmani… O quê? Tendes medo?
– Por nós, não, Senhor… É que os grandes de Jerusalém te odeiam agora mais do que antes.
– Não tenhais medo. Nem por vós. Deus vos protege. Nem por Mim. Para Mim terminaram as constrições da Humanidade. Eu vou ver minha Mãe, e depois virei a vós. Temos que cancelar muitas coisas horrendas de um passado recente, de culpas e ódios. Mas nós o faremos com o amor, com o contrário daquilo que foi culpa… Estais vendo? O vosso beijo cancela e tempera a dor e as consequências dos cravos nas carnes vivas. Assim, o que nós iremos fazer cancelará os sinais horrendos e santificará os lugares que foram profanados pelas culpas. A fim de que eles não sejam para vós motivos de uma dor demasiadamente grande, quando os virdes…
– Iremos também ao Templo?
Um medo, um grande pavor, é o que se nota no rosto de todos.
– Não. Se fosse, Eu o santificaria com a minha Presença. E isso não pode ser. Poderia ter sido, mas ele não o quis. Para ele não há mais redenção. É como um cadáver que vai se decompondo rapidamente. Deixemo-lo aos seus mortos. Que tratem de fazer o seu sepultamento. Em verdade, os leões e os abutres despedaçarão o sepulcro e o cadáver, e lá não ficará nem mesmo o esqueleto do Grande Morto que não quis a Vida.
Jesus sobe pela escadinha e sai. Os outros, em silêncio, imitam-no. Mas quando eles põem o pé no corredor, que serve de átrio, Jesus não está mais lá. A casa está silenciosa e parece vazia. Todas as portas estão fechadas.
630.7João mostra a porta de entrada do Cenáculo, e diz:
– Maria está lá. Está sempre lá. Como em um êxtase contínuo. O seu semblante resplandece de uma luz inefável. É a alegria que irradia do seu Coração. Ontem ela me dizia: “Pensa, João, em quanta felicidade se espalhou por todo os reinos de Deus.” Eu Lhe perguntei: “Quais reinos?” Eu pensava que Ela soubesse de alguma maravilhosa revelação sobre o reino do seu Filho, vencedor também da morte. Ela me respondeu: “No Paraíso, no Purgatório, no Limbo. Perdão para os que estão se purificando no purgatório. Subida ao Céu de todos os justos e perdoados. O Paraíso povoado pelos bem-aventurados. Deus glorificado neles. Os nossos antepassados e parentes lá em cima, cheios de júbilo. E ainda felicidade para o reino que é a Terra, onde agora resplandece o sinal e abriu-se a fonte que vence Satanás e cancela a Culpa e as culpas. Não só paz aos homens de boa vontade. Mas também redenção e reeleição ao grau de filhos de Deus. Eu vejo as multidões. Oh! Quantas pessoas! Vejo-as descer a esta Fonte e mergulhar e sair dali renovadas, lindas, em veste nupcial, em veste régia. As bodas das almas com a Graça, a realeza de ser filhos do Pai e irmãos de Jesus.
De lá eles saíram conversando, e vão-se afastando enquanto a noite vai chegando.
630.8A rua está muito movimentada, especialmente nesta hora em que as pessoas se reúnem ao redor da mesa para o jantar. Jerusalém, depois da maré de gente que a inundou durante a Páscoa e que a abandonou depois das festas, tão trágicas neste ano, parece ainda mais vazia do que normalmente. E Tomé nota isso e o faz notar.
– É isso aí. Os estrangeiros, aterrorizados, abandonaram-na precipitadamente depois de Sexta-feira, e quem ainda havia resistido ao grande medo daquele dia, fugiu no momento do segundo terremoto, que certamente aconteceu na hora em que o Senhor saiu do Sepulcro. E também aqueles que não eram gentios fugiram. Muitos, e eu sei disso com certeza, nem chegaram a consumir o cordeiro e deverão voltar para a Páscoa suplementar. Também os cidadãos deste lugar fugiram ou se afastaram, uns para levarem os seus mortos que morreram no terremoto de Parasceve, e alguns pelo medo da ira de Deus. O exemplo foi duro –diz Zelotes.
– E isso foi bom. Os raios, as pedras sobre todos os pecadores!
–comenta Bartolomeu.
– Não digas isso! Não o digas! Nós, mais do que todos os outros, é que merecemos o castigo celeste. Nós, que também somos pecadores… Estais lembrados deste lugar? Quanto tempo faz? Dez. Dez tardes… ou dez anos ou dez horas? Tão longe e tão perto me parece o meu pecado, aquelas horas, aquela tarde… que eu nem sei mais… Que palerma eu sou! Nós estávamos tão seguros, tão dispostos a lutar, tão heroicos! E depois? Ah!…
E Pedro bate com sua mão na fronte e mostra a pracinha à qual já chegaram:
– É ali. Foi ali que eu comecei a ter medo!
– Mas basta! Basta, Simão! Ele te perdoou. E antes Dele, Maria. Basta! Não fiques te torturando –diz João.
– Oh! Assim fosse! Tu, tu, João, me apoias sempre, sabes? Sempre! É porque tu sabes guiar que Ele te confiou sua Mãe. É justo. Mas eu, que sou um verme vil e mentiroso, tenho mais necessidade do que Maria de ser guiado. Por que eu estou com escamas na vista, e não vejo…
– Realmente mais escamas te virão se continuares assim. Tu queimarás mesmo as pupilas, e o Senhor não estará aqui para as curar… –lhe diz ainda João, abraçando-lhe os ombros para consolá-lo.
– Para mim bastaria ver bem com a alma. Depois… os olhos não fazem falta.
– Mas fazem falta a muitos!! 630.9Como farão os doentes, agora? Viste aquela mulher, ontem, como estava desesperada! –diz André.
– Sim…
Eles se entreolham e depois confessam juntos:
– E nenhum de nós se julgou digno de pôr-lhe as mãos…
A humilhação causada pela lembrança do comportamento deles os arrasa.
Mas Tomé diz a João:
– Tu, porém, podias fazê-lo. Tu não fugiste, tu não o renegaste, tu não foste incrédulo.
– Eu também tenho o meu pecado. Ele é também contra o amor, como o vosso. Eu, perto da arcada da casa do Josué, agarrei pelo pescoço Elquias e o teria estrangulado, porque ele dizia insolências à Mãe. E também eu odiei e amaldiçoei Judas de Keriot! –diz João.
– Cala-te! Não fales esse nome. É o de um demônio, e eu tenho a impressão de que ele não esteja ainda no inferno, mas que nos esteja rodeando para fazer-nos pecar novamente –diz aterrorizado Pedro.
– Oh! Ele está, sim, no inferno! E, ainda que estivesse aqui, o seu poder agora cessou. Ele tinha tudo para ser um anjo, e foi um demônio, e Jesus venceu o demônio –diz André.
– Está bem… Mas é melhor não falar o nome dele. Eu fico com medo. E, quanto a ti, João, não te sintas culpado. Todos amaldiçoarão o homem que traiu o Mestre!
– É justo fazer isso –diz Tadeu, que sempre pensou a favor de Iscariotes.
– Não. Maria me disse que basta sobre ele o julgamento de Deus e que em nós deve haver um só sentimento: o de gratidão por não termos nós sido os traidores. E se Ela não amaldiçoa, Ela, a Mãe que viu as torturas de seu Filho, nós devemos fazê-lo? Vamos esquecer…
– Isso é coisa de louco! –exclama seu irmão Tiago.
– Contudo é a palavra do Mestre quanto aos pecados de Judas…
João se cala e suspira.
– Que é? Então, há outros? Tu sabes… Fala!
– Eu prometi que ia procurar esquecer e estou fazendo esforço para cumpri-lo. Quanto a Elquias… o tempo já passou… Mas naquele dia cada um de nós tinha o seu anjo e seu demônio a seu lado, e nem sempre nós demos ouvidos ao anjo da luz…
Diz Zelotes:
– Tu sabes que Naum está estropiado e que seu filho ficou esmagado por um muro ou pelo barranco de um monte? Sim. Foi naquele dia da morte. Ele foi encontrado mais tarde. Oh! Bem mais tarde, quando já cheirava mal. Quem o descobriu foi alguém que estava indo para a feira. E Naum estava com outros seus companheiros, e eu não sei o que foi que o apanhou, se foi alguma pedra que rolou ou se foi algum golpe. Só sei que ele está todo machucado e não entende nada. Parece um animal. Está babando e mugindo, e ontem, com a única mão que ficou sã, pegou pelo pescoço o seu… patrão, que tinha ido à casa dele, e gritava, gritava: “Para ti! Para ti!” Se os servos não tivessem corrido…
– Como é que sabes disso, Simão? –perguntam ao Zelotes.
– Ontem eu vi José –responde ele laconicamente.
630.10– Estou achando que o Mestre está demorando para vir. Estou preocupado –diz Tiago de Alfeu.
– Vamos voltar… –propõe Mateus.
– Ou, então, vamos parar aqui nessa pequena ponte –diz Bartolomeu.
Eles param. Mas Tiago de Zebedeu e o outro Tiago, André e Tomé voltam e, pensativos, ficam olhando para o chão, olham para as casas. André, empalidecendo, mostra com o dedo a parede de uma casa, onde aparece, sobre a brancura da cal, uma mancha vermelho escura, e diz:
– É sangue! Será talvez sangue do Mestre? Estaria já perdendo sangue aqui? Oh! Dizei-me!
– E que queres que nós te digamos, se nenhum de nós o acompanhou? –diz desconsolado, Tiago de Alfeu.
– Mas o meu irmão e sobretudo João o acompanharam.
– Não logo. Não imediatamente. Disse-me João que o acompanharam a partir da casa de Malaquias. Aqui não havia ninguém. Ninguém de nós… –diz Tiago do Zebedeu.
Eles estão olhando a grande mancha escura sobre o muro branco, a pouca distância do chão, e Tomé observa:
– Nem a chuva foi capaz de lavá-la. Nem o granizo que caiu tão forte nestes dias conseguiu fazê-la despregar-se daquele muro… Se eu soubesse que é sangue Dele, eu descascaria aquele muro…
– Vamos perguntar aos daquela casa. Talvez eles saibam… –sugere Mateus, que já os alcançou.
– Acho que não é bom. Sabes por quê? Eles poderiam ser inimigos do Cristo e… –responde Tomé.
– E nós continuamos a ser uns covardes… –termina Tiago de Alfeu, dando um grande suspiro.
Pouco a pouco todos foram-se aproximando daquele muro e o estão olhando…
630.11Passa uma mulher, uma retardatária, que está voltando da fonte com os cântaros pingando água fresca. Ela os observa. Apoia os cântaros no chão e os interroga.
– Estais vendo aquela mancha no muro? Vós sois discípulos do Mestre? Vós me pareceis sê-lo por serdes magros no rosto, e também porque eu não vos vi indo atrás do Senhor quando Ele passou por aqui, preso e sendo conduzido para a morte. Isso me põe na incerteza, porque um discípulo que segue o Mestre nas horas boas e faz questão de ser discípulo dele, e tem sempre olhares severos para aqueles que não estão prontos como ele a deixar tudo para acompanhar o Mestre, devem ir atrás dele também nas horas difíceis. Pelo menos deveria fazer isso. Mas eu não vos vi. Não. Não vos vi. E se eu não vos vi, isso é sinal de que eu, uma mulher de Sidon, estive atrás daquele que não foi acompanhado pelos seus discípulos israelitas. Mas eu recebi um benefício Dele. Vós… Será que a vós Ele nunca havia feito um benefício? Isso me causa estranheza, pois Ele fazia benefícios aos gentios e samaritanos, aos pecadores e até aos ladrões, dando lhes a vida eterna quando não podia mais dar-lhe a vida da carne. Será que Ele não vos amava? Isso era sinal de que vós éreis piores do que as áspides e as hienas imundas, ainda que, na verdade, eu creio que Ele amasse até as víboras e os chacais, não por serem o que eram, mas porque foram criados por seu Pai. Aquilo ali é sangue. Sim. É sangue. Sangue uma mulher da beira do grande mar. Antigamente aquelas terras eram dos filisteus, por isso os habitantes de lá ainda são um pouco desprezados pelos hebreus. No entanto, ela soube defender o Mestre até que o marido bateu nela com tanta força, que depois de tê-la espancado, quebrou-lhe a cabeça, e o cérebro e o sangue saíram para fora e borrifaram a parede da casa no lugar onde agora os órfãos estão chorando. Mas ela havia recebido um benefício. O Mestre havia curado o seu marido, que estava doente de uma doença horrível. E por isso ela amava o Mestre. E o amou até chegar a morrer por Ele. E ela o precedeu no seio de Abraão, como dizeis vós. Também Anália o precedeu, e ela teria sabido morrer assim também, se a morte não a tivesse levado antes. E também uma mãe, mais acima, lavou a rua com sangue, com o sangue do ventre aberto pelo filho brutal, a fim de defender o Mestre. E uma velha morreu de dor, ao ver passar ferido e espancado Aquele que havia feito voltar a vista ao seu filho. E um velho mendigo morreu, porque ele colocou o seu corpo em defesa e recebeu na cabeça a pedrada, que estava destinada à cabeça do vosso Senhor. Pois não é verdade que o reconhecíeis como vosso Senhor? Os valentes de um rei morrem ao redor dele. Mas nenhum de vós morreu. Vós estáveis sempre longe daqueles que o espancavam, Ah! Não! Houve um que morreu. Ele se matou. Mas não por sentir alguma dor. Também não foi para defender o Mestre. Primeiramente ele o vendeu, depois o mostrou por meio de um beijo e, em seguida, se matou. Ele não tinha mais nada que fazer. Não podia mais crescer em maldade. Nisto ele já estava formado, estava perfeito, como Belzebu. O mundo o teria apedrejado para tirá-lo desta terra. Oh! Eu creio que esta piedosa que morreu para impedir que o Mártir levasse pancadas, eu creio que a velha Ana que morreu pela dor de vê-lo daquele modo, e o velho mendigo, e a mãe do Samuel e a virgem que morreu, e eu que não sei subir ao Templo pois tenho pena dos cordeiros e das pombas que são imolados, eu creio que teríamos tido a coragem de apedrejá-lo, e não teríamos tremido ao vê-lo ferido pelas nossas pedras… Ele o sabia, e poupou ao mundo o trabalho de matá-lo, e poupou a nós de nos tornarmos carrascos para vingar o Inocente…
Ela olha para eles com desprezo. E o seu desprezo vai ficando cada vez mais evidente à medida que ela vai falando. Seus olhos, grandes e negros, estão duros como o olho de uma ave de rapina quando está olhando um grupo que não sabe ou não pode reagir… E ela assobia por entre os dentes sua última palavra:
– Bastardos!
E recolhendo as suas ânforas, ela vai-se embora, contente por ter podido cuspir todo o seu desprezo para com os discípulos que abandonaram o Mestre…
Eles estão aniquilados. Estão com as cabeças inclinadas, os braços pendentes e abatidos… A verdade os esmaga. E eles ficam meditando sobre as consequências de sua vileza… Calam-se… Nem ousam olhar-se um ao outro. Até João e Zelotes, os dois que são inocentes dessa culpa, estão agora como os outros, talvez pela dor de ver os companheiros tão humilhados e pela impossibilidade de curar aquela ferida que lhes fez aquela mulher com suas palavras sinceras…
630.12A rua já está na penumbra. A lua, nos seus últimos dias, eleva-se tardia e assim o crepúsculo se ensombra rapidamente. O silêncio é absoluto. Não há um rumor nem uma voz humana. E no silêncio só o borbulhar do Cedron reina. Assim, quando a voz de Jesus ressoa, eles têm um sobressalto como se fosse um som para assustar, mas é uma voz cheia de doçura, que diz:
– Que estais fazendo neste lugar? Eu vos aguardava lá no meio das oliveiras… Por que estais contemplando coisas mortas quando vos espera a Vida? Vinde Comigo.
Jesus parece estar vindo do Getsêmani em direção a eles. E se detém ao lado deles. Olha para aquela mancha, sobre a qual ainda estão fixados os olhares atemorizados dos apóstolos, e diz:
– Aquela mulher já está em paz. Já se esqueceu da dor. Será que ela está inativa em relação aos seus filhos? Não. Duplamente ativa. E ela os santificará, pois não pede a Deus senão isso.
Jesus põe-se a caminho. Eles O acompanham. Em silêncio.
Mas Jesus se vira, e diz:
– Por que é que estais fazendo esta pergunta em vossos corações: “E por que ela não pede a conversão do marido? Ela não é santa, se o odeia…” Ela não o odeia. Ela já o perdoou desde quando ele a estava matando. Mas uma alma que entrou no Reino da Luz, vê com sabedoria e justiça. E ela vê que não há conversão nem perdão para o marido. E muda, então, sua oração em favor de alguém que pode receber o bem. 630.13Esse aqui não é sangue meu, não. No entanto, eu perdi muito sangue, também por este caminho!… Mas os passos dos inimigos o espalharam, misturando-o com a poeira e a sujeira. Mas ainda há muito sangue visível… Porque derramei tanto que os passos e a água não poderão cancelá-lo facilmente. Iremos juntos, e vereis o meu Sangue derramado por vós…
– Onde? Para onde que Ele quer ir? Será ao lugar do seu pranto? Ao Pretório? –perguntam um ao outro.
E João diz:
– Mas Cláudia já partiu dois dias depois do sábado e, como dizem, estava indignada, com receio até de ficar perto do seu marido… Assim me disse o soldado armado com uma hasta. Cláudia separa sua responsabilidade da do marido. Porque ela o havia advertido que não perseguisse o Justo, pois é melhor ser perseguido pelos homens do que pelo Altíssimo, do qual o Mestre era o Messias. E não estão aqui nem Plautina nem Lídia. Foram com Cláudia a Cesareia. E Valéria foi com Joana para Beter. Se elas estivessem aqui poderíamos entrar. Mas agora… não sei não… Longino não está aí, pois Cláudia o quer para sua escolta… –diz João.
– Estará indo para o lugar em que tu viste as ervas salpicadas de sangue…
Jesus, que vai à frente, se vira e diz:
– Vamos ao Gólgota. Lá há tanto do meu Sangue, que a poeira ficou parecendo um material ferroso duro. E já houve quem lá estivesse antes de vós…
630.14– Mas é um lugar imundo! –grita Bartolomeu.
Jesus dá um sorriso de compaixão e responde:
– Todos os lugares de Jerusalém são imundos depois do cruel pecado. No entanto, vós não sentis nenhum outro desconforto de estardes lá a não ser a do medo da multidão…
– Sempre foi lá que os ladrões foram mortos…
– Eu fui morto lá. E santifiquei para sempre aquele lugar. Em verdade vos digo que, até o fim dos séculos, não haverá lugar mais santo do que aquele, e virão as multidões de toda a terra e de todas as épocas para beijar aquela poeira. E já houve quem veio à vossa frente. Sem temer os escárnios e as vinganças, e sem ter medo de se contaminar. Contudo, aqueles que vos precederam tinham dupla razão para terem medo disso.
– Quem é, Senhor? –pergunta João, ao qual Pedro cutucou o lado com o cotovelo para que ele perguntasse.
– Maria de Lázaro! Assim como ela recolheu as flores pisadas pelos meus pés quando Eu, antes da Páscoa, entrava em sua casa — era uma lembrança de alegria que ela distribuía entre as suas companheiras — ela soube agora subir ao Calvário e escavar com suas mãos a terra endurecida pelo meu Sangue, e descer com sua carga para depositá-la no colo de minha Mãe. Ela não tinha medo. E era conhecida como “a Pecadora” e como “a discípula”. Nem quem recebeu no colo aquele terriço acreditou que iria contaminar-se. Tudo foi anulado por meu Sangue, e santa é a gleba sobre a qual ele caiu. Amanhã, antes da hora sexta, subireis até o Gólgota. Lá Eu vos alcançarei… Mas quem quiser ver o meu Sangue, ei-lo aqui.
E mostra com o dedo a parte baixa da pequena ponte.
– Aqui bateram em minha boca e dela saiu sangue. Por que foi espancada e por que não houve quem tratasse dela pelo menos com um beijo?…
630.15Eles entram no Getsêmani. Mas Jesus tem de abrir antes um ferrolho que agora fecha o acesso ao horto das Oliveiras. Um ferrolho novo. Uma cerca resistente, com pontas agudas, alta, travada por uma fechadura nova e robusta. Jesus tem a chave, tão nova que brilha como aço, e abre a fechadura à luz do ramo luminoso que Filipe acendeu para enxergar, já que é noite de fato.
– Antes não havia… Por quê?… –cochicham os apóstolos uns com os outros, enquanto ficam olhando para o muro que cerca o Getsêmani.
– Certamente Lázaro não quis aqui mais ninguém. Olha lá. Há pedras, cimento e cal. Agora é de madeira, depois será um muro…
Jesus diz:
– Vinde. Não fiqueis ocupando-vos com coisas mortas, Eu vos digo… Vejam. Vós estáveis aqui… Eu aqui Eu fui rodeado e preso, e vós fugistes por lá… Se já existisse esse muro… ele teria impedido a vossa fuga. Mas como poderia Lázaro pensar — ele que tanto desejava acompanhar-me enquanto que vós desejáveis fugir — que vós teríeis fugido? Estarei fazendo-vos sofrer ? Antes fui Eu que sofri. E quero anular aquela dor. Vem beijar-me, Pedro…
– Não, Senhor! Não! Esse gesto foi o que Judas fez, aqui, nessa mesma hora. Não, não, não!
– Beija-me. Eu preciso que vós façais com amor sincero o gesto insincero de Judas. Depois disso sereis felizes. Seremos mais felizes. Eu e vós. Vem cá, Pedro. Beija-me.
Pedro não só beija, mas lava com suas lágrimas a face do Senhor e sai de lá cobrindo o rosto, indo sentar-se no chão para chorar. Um depois do outro, eles o beijam no mesmo lugar… Uns mais, outros menos, todos estão com o rosto coberto de lágrimas…
630.16– E agora vamos. Todos juntos. Eu vos separei de Mim naquela noite depois de ter-vos fortificado com o meu Corpo, e por poucas horas. Mas vós caístes logo. Lembrai-vos sempre do quanto fostes fracos e de que, sem a ajuda de Deus, não poderíeis estar na justiça nem por uma hora. Vede. Aqui eu disse para vigiar àqueles que se consideravam os mais fortes, tão fortes a ponto de pedir para beber o meu cálice e proclamar que, a custo de morrer, não me teriam renegado. Eu os deixeis, dizendo-lhes que rezassem… Eu os deixei e eles adormeceram. Lembrai-vos disso e ensinai que, quem é deixado por Jesus, se não mantiver o contato com Ele por meio da oração, cai em torpor e pode ser pego. Se Eu não vos tivesse despertado, em verdade poderíeis até ser mortos no sono e comparecer perante o julgamento de Deus com o peso da vossa humanidade. Vinde ainda… Vede! Abaixa o facho, Filipe. Vede! Quem quiser ver o meu Sangue, olhe aqui. Na maior angústia, semelhante à de alguém que está morrendo, eu suei sangue. Olhai… Foi tanto que até agora a terra está dura e a relva vermelha, porque a chuva não conseguiu dissolver os grumos que secaram com caules e flores. Vede! E ali eu me encostei e aqui veio o anjo do Senhor para me confortar na minha vontade de fazer a Vontade de Deus. Lembrai-vos que, se sempre quisestes fazer a Vontade de Deus, lá onde a criatura não pode mais resistir, vem Deus com seu anjo para sustentar o herói extenuado. Quando estiverdes na angústia, não tenhais medo de cair na vileza ou de renegar, se persistirdes em querer aquilo que Deus quer. Lembrai-vos disso! Lembrai-vos disso! Eu já vos disse, certa vez, que depois da tentação do deserto fui sustentado por anjos. Agora ficastes sabendo que também aqui, depois da extrema tentação, fui sustentado por um anjo. E assim acontecerá convosco e com todos aqueles que serão meus fieis. Porque, em verdade Eu vos digo, que aquilo que Eu recebi como ajuda vós também recebereis. Eu mesmo a obterei para vós, se o Pai ainda não a tiver concedido em sua amorosa justiça. Somente a dor, o sofrimento, será inferior ao meu… Sentai-vos. A lua se eleva a oriente e nos iluminará. Não creio que dormireis esta noite, embora sejais ainda e somente homens. Não. Não dormireis, porque entrou em vós um agente que antes não tínheis. O remorso. Que é uma tortura, é verdade. Mas serve para conduzir a estágios mais elevados, seja no bem que no mal. Em Judas de Keriot, tendo ele já se afastado de Deus, produziu o desespero e a desgraça. Em vós, que nunca saístes da proximidade com Deus — Eu vos asseguro, porque não estava em vós a vontade nem a consciência plena daquilo que fazíeis — o remorso produzirá um arrependimento cheio de confiança, que vos conduzirá à sabedoria e à justiça. 630.17Ficai onde estais. Eu vou até ali, à distância do arremesso de uma pedra, à espera da aurora.
– Oh! Não nos deixes, Senhor! Tu disseste o que nós somos se estivermos longe de Ti! –suplica André, de joelhos e com as mãos estendidas, como se estivesse pedindo uma esmola por piedade.
– Tendes o remorso. É um bom amigo nos bons.
– Não te afastes, Senhor! Tu nos havias dito que iríamos rezar juntos… –suplica Tadeu, que não ousa mais fazer ao Ressuscitado os gestos que se fazem entre parentes, e está com toda a sua estatura encurvada para a frente, em sinal de veneração.
– Não é a meditação a oração mais perfeita? E Eu não vos fiz contemplar e meditar, e não vos dei um tema para meditar quando vos reuni na estrada, movendo os vossos corações com verdadeiros atos de santos sentimentos? Isto é que é oração, ó homens: entrar em contato com o Eterno e com as coisas que servem para conduzir o espírito para muito além da Terra, para meditar nas perfeições de Deus e na miséria do homem, do eu, e suscitar atos de uma vontade amorosa ou reparadora, sempre adoradora, mesmo que a vontade surja da meditação sobre uma culpa ou um castigo. O mal e o bem servem ao fim último, se o soubermos usar. Eu já disse isso muitas vezes. O pecado é uma ruína incurável somente se for sem arrependimento e reparação. Em caso contrário, com a contrição do coração se faz uma argamassa resistente para conservar compactos os fundamentos da santidade, cujas pedras são as boas resoluções. Poderíeis ter as pedras unidas sem a argamassa? Sem aquela substância, bruta e vil na aparência, as pedras polidas, os mármores luzentes não ficariam unidos para formar o edifício.
630.18Jesus está para se encaminhar.
João, ao qual seu irmão e o outro Tiago, com Pedro e Bartolomeu, estavam falando em voz baixa, levanta-se e acompanha o Senhor, dizendo:
– Jesus, meu Deus. Nós esperávamos poder dizer contigo a oração ao teu Pai. A tua oração. Nós nos sentimos pouco perdoados se Tu não nos concedes dizê-la contigo. Nós sentimos que precisamos muito disso…
– Onde dois estiverem unidos em oração, lá estou Eu entre eles. Dizei, então, a oração entre vós. E eu estarei entre vós.
– Ah! Tu não nos julgas mais dignos de rezar contigo –grita Pedro com o rosto escondido entre as ervas, que ainda não estão completamente lavadas do Sangue divino, e no meio de um grande pranto.
Tiago de Alfeu exclama:
– Nós estamos infelizes, irm… Senhor.
Ele se corrigiu imediatamente, dizendo “Senhor”, em vez de “irmão.”
E Jesus olha para ele, dizendo:
– Porque é que não me chamas de irmão, tu, que és do meu sangue? Sendo eu irmão de todos os homens, de Ti eu o sou duas vezes. Três vezes, como filho de Adão, como Filho de Davi e como filho de Deus. Termina o que ias dizendo.
– Irmão, meu Senhor, nós somos uns infelizes e estultos, Tu sabes disso, e mais estultos nos torna o aviltamento em que estamos. Como poderemos dizer com a alma a tua oração, se nós nem sabemos o significado dela?
– Quantas vezes, como a uns meninos na menoridade, Eu vo-la tenho explicado! Mas vós, mais duros de cerviz do que o mais distraído dos escolares de um pedagogo, não conservastes na memória as minhas palavras.
– É verdade! Mas agora a nossa mente está aflita pela tortura que sentimos por não te termos compreendido… Oh! Não compreendemos nada! Eu o confesso por todos! É que ainda não te compreendemos bem, Senhor. Mas, eu te peço, o perdão pelo mal que fizemos, e que o atribuas ao mesmo mal que nos fez ficar confusos. Tu tinhas acabado de expirar quando o grande rabi, em alta voz, denunciou a verdade da obtusidade de Israel, até lá, aos pés da tua Cruz. E Tu, Deus Onipotente, Espírito de Deus, livre agora do cárcere da carne, ouviste aquelas palavras: “Séculos e séculos de uma cegueira espiritual estão sobre a visão interior,” e te faz este pedido: “Neste pensamento, que está ainda prisioneiro de fórmulas, penetra Tu agora, ó Libertador.” Ó meu adorado e adorável Jesus, que nos salvaste da Culpa Original, tomando sobre Ti os nossos pecados e anulando-os no ardor do teu amor perfeito, toma também o nosso modo de entender de obstinados israelitas e dá-nos uma mentalidade nova, virgem como a de um infante que acaba de sair do seio materno, tira-nos a memória para preencher-nos unicamente da tua sabedoria. Muitas coisas do passado morreram naquele dia horrendo. Elas morreram contigo. Mas agora, que estás ressuscitado, faze que nasça em nós um pensamento novo, meu Senhor, e nós te compreenderemos – pede João.
630.19– Não cabe a Mim essa tarefa, mas Àquele sobre o qual vos falei na última Ceia. Cada palavra minha se perde no abismo do vosso pensamento, totalmente ou em parte, ou fica presa e trancada no seu espírito. Somente o Paráclito, quando vier, extrairá do vosso abismo as minhas palavras e as abrirá para vós, para fazer-vos compreender o espírito contido nelas.
– Mas Tu o infundiste em nós –objeta Zelotes.
– Mas Tu já nos disseste que, quando tivesses ido para o Pai, Ele, o Espírito da Verdade teria vindo –objeta, ao mesmo tempo que Zelotes, Mateus.
– Dizei-me: quando uma criança nasce já tem a alma infusa em si?
– Certo que a tem! –respondem todos.
– Mas essa alma está na Graça de Deus?
– Não. A culpa original está nela e a priva da Graça.
– E a alma e a Graça de onde vêm?
– De Deus!
– Por que é, então, que Deus não dá, ao mesmo tempo, a alma e a graça ao filho que nasce?
– Porque Adão foi punido, e nós fomos punidos nele. Mas agora que Tu te fizeste o Redentor, assim vai ser.
– Não. Não vai ser assim. Os homens nascerão todos impuros em sua alma, que Deus criou e que a herança de Adão manchou. Mas por um rito que Eu vos explicarei, em outra vez, a alma infundida no homem será vivificada pela Graça, e o Espírito do Senhor tomará posse dela. Vós, pois, batizados com a água por João, sereis batizados com o Fogo do Poder de Deus. E, então, verdadeiramente o Espírito de Deus estará em vós. E será o Mestre que os homens não podem perseguir nem expulsar e que em vosso íntimo vos dirá qual é o espírito das minhas palavras, e vos dará muitas outras instruções. Eu vo-lo infundi porque somente pelos meus méritos todas as coisas podem suster-se e ser válidas. Suster-se em Deus e ter validade, isso só se dá pela palavra de um emissário de Deus. Mas, por enquanto, não está em vós, como Mestre, o Espírito da Verdade.
– Pois bem. Assim seja. Mas, por enquanto, faze-nos sentir o teu perdão. Sê Tu para nós o Mestre, ó meu Senhor. Ainda, ainda, visto que Tu disseste que é necessário perdoar setenta vezes sete vezes –insiste João.
E termina — ele é sempre o mais fiel e amoroso — ousando pegar entre as suas a Mão esquerda de Jesus, pendente ao longo do seu corpo, e sobre a qual a lua parece tornar ainda maior o rasgão feito pelo cravo:
– Tu, que és a Luz Eterna, não permitas que os teus servos fiquem nas trevas.
E beija-lhe os dedos levemente, nas pontas, estes dedos que ficaram um pouco arqueados, exatamente como ficam aqueles de quem foi ferido e ficou são, mas cujos nervos continuam levemente contraídos.
630.20– Vinde. Vamos ali para o alto e diremos uma oração juntos –concede Jesus, deixando a sua mão na mão de João, enquanto já se encaminha para o limite mais alto do Getsêmani, em direção ao caminho mais alto que vai para Betânia pelo campo dos Galileus.
Também aqui se pode ver que as obras de delimitação pensadas por Lázaro estão em andamento. E que mais para cá, mais longe da casa do guarda do olival, já foi levantado um muro liso e alto, que acompanha a sebe e o caminho, fazendo as curvas que eram o limite de Getsêmani.
Jerusalém, lá embaixo, já vai saindo lentamente das trevas até nas partes do poente, porque a lua agora está no zênite e vai embranquecendo todas as coisas com sua foicinha fina, luzindo como uma chama de diamante pousada sobre a escuridão do firmamento, sobre o qual palpitam as corolas luminosas de um número incalculável de estrelas, dessas incríveis estrelas do céu do oriente.
630.21Jesus abre os braços na sua posição habitual de rezar, e entoa:
“Pai nosso que estais nos Céus…”
Ele se interrompe, e comenta:
– Que Ele seja um pai, já vos deu a prova ao ter-vos perdoado. Vós, chamados à perfeição mais do que todos, vós, tão agraciados por Ele, e assim — como vós dizeis — tão ineptos para a vossa missão, qual é o Senhor que, se não fosse vosso Pai, não vos teria punido? Eu não vos puni. O Pai não vos puniu. Porque o que faz o Pai, o Filho o faz; porque aquilo que o Filho faz, o Pai faz, já que Nós somos uma só Divindade unida no Amor. Eu estou no Pai. E o Pai está Comigo. O Verbo está sempre junto de Deus, o qual é sem princípio. E o Verbo existe desde antes de todas as coisas, desde sempre, desde uma eternidade que se chama sempre, desde um presente eterno junto de Deus, e é Deus como Deus, pois é o Verbo do Pensamento divino.
630.22Portanto, quando Eu for embora, pedirei ao nosso Pai — meu e vosso, pois somos irmãos, e Eu sou o primogênito, vós sois os irmãos menores — que queirais sempre ver também a Mim no Pai meu e vosso. Que queirais ver o Verbo que foi vosso “Mestre” e vos amou até a morte e além da morte, deixando-vos a Si mesmo como alimento e bebida, para que vós estivésseis em Mim e Eu em vós enquanto durar o exílio, e depois estaremos, Eu e vós, no Reino pelo qual vos ensinei a rezar, dizendo: “Venha a nós o vosso Reino,” depois que tiverdes invocado que as vossas obras santifiquem o Nome do Senhor, dando-Lhe glória na terra e no Céu. Sim. O Céu não seria o Reino para vós, o Reino para aqueles que acreditarão como vós, se antes não tivésseis desejado o Reino de Deus em vós, com a prática real da Lei de Deus e da minha palavra, que é o aperfeiçoamento da Lei, tendo dado, no tempo da Graça, a Lei dos eleitos, ou seja, a daqueles que estão além das constituições civis, morais, religiosas do tempo mosaico, já na Lei espiritual do tempo de Cristo.
Vós estais vendo o que é estar perto de Deus, mas não ter Deus em vós; o que significa ter ouvido a palavra de Deus, mas não a prática real daquela palavra. Todo delito se comete por isso: por ter Deus perto de si, mas não no coração; por ter conhecimento da palavra, mas não a obediência a ela. Tudo! Tudo por isso. A obtusidade e a delinquência, o deicídio, a traição, as torturas, a morte do Inocente e do seu Caim, tudo veio por causa disso. No entanto, quem como Judas foi amado por Mim? Mas ele não teve a Mim, Deus em seu coração. E o deicida foi condenado como infinitamente culpado, por ser israelita e discípulo, como suicida e como deicida, bem como pelos seus sete vícios capitais e cada uma das suas outras culpas.
630.23Agora é possível ter o Reino de Deus em vós mais facilmente, porque Eu o obtive para vós com a minha morte. Eu vos recuperei de novo com o meu sofrimento. Lembrai-vos disso. E ninguém pisoteie a Graça, porque ela custou a vida e o Sangue de um Deus. Esteja, pois, o Reino de Deus em vós, ó homens, por meio da Graça. Esteja na Terra, por meio da Igreja; esteja no Céu, por meio do povo formado pelos bem-aventurados que, tendo vivido com Deus no coração, unidos ao Corpo cuja cabeça é Cristo, unidos à Videira da qual cada cristão é um ramo, merecem repousar no Reino Daquele pelo qual todas as coisas foram feitas: Eu que vos falo e que dei a Mim mesmo para a Vontade paterna a fim de que tudo fosse consumado.
Eu posso ensinar-vos sem hipocrisia, que devemos dizer: “Seja feita a tua vontade assim na terra como no Céu.” Que Eu tenha feito a vontade do meu Pai, até as glebas de terra, a relva, as flores, as pedras da Palestina, as minhas carnes feridas e todo o povo de Israel podem dizê-lo.
Fazei como Eu fiz. Até o fim. Até à morte na Cruz, se assim Deus o quiser. Porque, lembrai-vos disso: Eu o fiz, e não há discípulo que mereça misericórdia mais do que Eu. Contudo, Eu vivenciei a maior dor. Mas Eu obedeci com perpétuas renúncias. Vós o sabeis. Mas ainda havereis de compreender no futuro, quando vos assemelhardes a Mim, bebendo um sorvo do meu cálice… Entregai-vos a este constante pensamento: “Pela sua obediência ao Pai, Ele nos salvou.” E se quereis ser salvadores, fazei o que Eu fiz. Entre vós haverá quem passará até pela cruz, outros pela tortura dos tiranos, outros pela tortura do amor, do exílio dos Céus, e para esses ele se estenderá até à idade mais avançada, antes de subirem para lá. Pois bem: em tudo se faça o que Deus quiser. Pensai que o suplício da morte ou suplício de vida, quando vós quereríeis morrer logo a fim de virdes para onde Eu estou, são iguais, se forem aceitos com alegre obediência, aos olhos de Deus. São a sua Vontade. E por isso são santos.
630.24“Dá-nos o pão nosso de cada dia.” Dia por dia, hora por hora. Isso é fé. É amor. É obediência. É humildade. É esperança pedir o pão de um dia e aceitá-lo como ele é. Hoje é doce, amanhã é amargo, muito, pouco, com especiarias e com cinza. Sempre como se deve. É dado por Deus, que é Pai. Portanto, é bom.
Outra vez Eu vos falarei do outro Pão, que seria bom querer comer todos os dias, pedindo ao Pai que o mantenha. Porque ai daquele dia e daqueles lugares nos quais ele viesse a faltar pela vontade dos homens! Agora vós estais vendo quanto os homens são poderosos em suas obras das trevas. Pedi ao Pai que Ele defenda o seu Pão e vo-lo dê. E que o dê muito mais, quanto mais as trevas quererão sufocar a Luz e a Vida, como fizeram na Parasceve. A segunda Parasceve seria sem ressurreição. Lembrai-vos disso. Todos vós. Se o Verbo não poderá mais ser morto, ainda poderá ser morta a sua Doutrina e anulada a liberdade e a vontade de amá-lo, em muita gente. Mas, então, a Vida e a Luz já teriam acabado para os homens. E ai daquele dia! Que vos sirva de exemplo o Templo. Lembrai-vos: Eu disse que “é o grande Cadáver.”
630.25“Perdoa-nos as nossas ofensas, como nós perdoamos aos que nos ofenderam.”
Pecadores todos, sede bondosos com os pecadores. Lembrai-vos das minhas palavras: “Para que é que ficas olhando a palhinha no olho do irmão, se antes não tiras a trave do teu olho?” Aquele Espírito que Eu infundi em vós, aquela ordem que Eu vos dei, vos darão faculdade de perdoar, em Nome de Deus, os pecados do próximo. Mas como podereis fazer isso se a vós Deus não perdoar os vossos pecados? Na próxima vez Eu falarei disso. Por enquanto, Eu vos digo: perdoai a quem vos ofende para serdes perdoados e para terdes o direito de absolver ou condenar. Quem estiver sem pecado pode fazê-lo com plena justiça. Quem não perdoar e estiver em culpa, e fingir estar escandalizado, é um hipócrita, e o Inferno o está esperando. Porque, se ainda houver misericórdia para com os pequenos, severo será o veredito para os tutores dos pequenos, pois são culpados de culpas iguais ou maiores, mesmo se tiverem a plenitude do Espírito a seu favor.
630.26“Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.” Eis a humildade, pedra basilar da perfeição. Na verdade Eu vos digo que abençoeis quem vos humilha, porque vos dá o necessário para alcançardes o vosso trono nos Céus.
Não. A tentação não é uma ruína, se o homem humildemente estiver junto do Pai e lhe pedir que não permita que Satanás, o mundo e a carne triunfem sobre ele. As coroas dos bem-aventurados são ornadas com as gemas das tentações vencidas. Não as procureis. Mas não sejais covardes quando elas chegam. Humildes, e por isso fortes, gritai ao meu Pai e vosso Pai: “Livra-nos do mal,” e vencereis o mal. E santificareis verdadeiramente o Nome de Deus com as vossas ações, como Eu disse no princípio, porque todo homem, vendo-vos, dirá: “Deus existe, porque eles vivem como deuses, pois é muito perfeita a conduta deles,” e a Deus eles irão, multiplicando os cidadãos do Reino de Deus.
630.27Ajoelhai-vos, para que Eu vos abençoe e a minha benção vos abra a mente para meditardes.
Eles se prostram no chão e Ele os abençoa, e desaparece como se tivesse sido absorvido pelos raios lunares.
Dali a pouco os apóstolos levantam as cabeças, espantados por não ouvirem mais outras palavras, e veem que Jesus desapareceu… Eles se prostram com o rosto no chão, com tremor, tão antigo como os séculos,e que sentem todos os israelitas quando percebem que estiveram em contato com Deus, como Ele está no Céu.
1 disse, como em: Salmo 110,1.
2 perfurados por anéis… como está prescrito em: Êxodo 25,12-15; 30,4; 37,3-5.27.
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