483. 483. Os apóstolos discutem sobre o ódio dos judeus.Os dez leprosos curados na Samaria.
29 de agosto de 1946.
483.1 Estão sempre indo por entre os montes, e montes bem ásperos, por certas estradinhas, por onde não podem passar carros, mas somente viajantes a pé, ou montados nos burrinhos da montanha, que são mais altos e robustos do que os costumeiros das regiões menos acidentadas. Uma observação, que a muitos poderá parecer inútil, mas que eu faço assim mesmo.
Na Samaria há muitas diferenças dos costumes de outros lugares. Tanto no modo de vestir-se, como em outras coisas. Uma dessas diferenças é a grande quantidade de cães que não há em outros lugares1, e que me causa surpresa, como me causou surpresa a presença de porcos na Decápole. Há muitos cães, porque na Samaria há muitos pastores e ela deverá ter muitos lobos em seus montes selvagens. E muitos também, porque, aos pastores da Samaria, eu os vejo quase sempre sozinhos, quando muito com um menino, com um rebanho próprio deles, enquanto que em outros lugares estão os cães em sua maior parte guardando rebanhos numerosos da propriedade de algum rico. O fato é que aqui cada pastor tem o seu cão, ou mais cães, conforme o número de ovelhas do seu rebanho.
Uma outra caracteristica são estes asnos quase da altura de um cavalo, robustos, capazes de escalar estes montes com uma pesada carga sobre a albarda. Mesmo que seja de lenha, descem com boa disposição desses maravilhosos montes, cobertos de árvores seculares.
Outra particularidade: a desenvoltura no modo de agir dos habitantes que, sem serem uns “pecadores”, como lhes chamavam os judeus e os galileus, são abertos, francos, sem hipocrisias, sem nada de certos sestros que outras pessoas têm. E são hospitaleiros. Esta verificação me faz pensar que, na parábola2 do Bom Samaritano não tenha havido apenas a intenção de pôr em relevo a ideia de que o bom e o mau estão em toda parte, em todos os lugares e raças, e que até entre os herejes podem haver pessoas de corações retos, mas quer destacar a descrição real dos hábitos samaritanos para com quem está necessitado de ajuda. Se eles ficaram parados no Pentateuco, eu os ouço falar dele e nada mais, mas o praticam, pelo menos para com o próximo e com muito mais retidão do que os outros com os seus seiscentos e treze codicilos de preceitos etc.
483.2 Os apóstolos falam com o Mestre e, não obstante serem eles incorrigivelmente israelitas, devem reconhecer e louvar o espírito que encontraram nos habitantes de Siquém, os quais, eu deduzo isso das conversações que ouço, convidaram Jesus a parar no meio deles.
– Ouviste, não? –diz Pedro–, como disseram claramente, que conhecem o ódio judaico? Eles disseram: “Por Ti e contra Ti existe mais ódio do que contra nós samaritanos, tanto para com todos os que hoje vivemos, como contra os que já viveram. Eles te odeiam sem limites…”
– E aquele velho? Como ele falou bem: “Na verdade, é justo que assim seja por que Tu não és um homem, mas és o Cristo, o Salvador do mundo e, portanto, és o Filho de Deus, pois só um Deus pode salvar o mundo corrompido. Por isso, sendo Tu sem limites, como Deus, sem limitações no teu poder, na tua santidade e no teu amor, como também sem limites a tua vitória sobre o Mal, assim é natural que o Mal e o ódio, fazendo tudo isso uma só coisa com o Mal, sejam sem limites contra Ti.” Ele falou bem mesmo. E isso explica muitas coisas –diz Zelotes.
– A teu ver, que é que explica? Eu… eu digo que explica somente que existem estultos –diz Tomé, em poucas palavras.
– Não. A estultície seria ainda uma atenuante. Mas estultos eles não são.
– Então, são uns ébrios, ébrios pelo ódio –replica Tomé.
– Também não. A embriaguez termina, depois que se desencadeou. Mas este ódio não termina.
– Mas, sim, ele está mais do que desencadeado. Tanto assim está, que já devia ter cessado.
– Meus amigos, ele ainda não atingiu a sua meta –diz calmamente Jesus, como se a meta do ódio não fosse a morte dele.
– Não?! Mas, se eles não nos deixam nunca em paz?!
– Mestre, eles ainda não se persuadiram de que eu disse a verdade. Mas eu a disse. Se a disse! E digo também que se o caso fosse convosco, teríeis caído todos na armadilha, como nela caiu o Batista. Contudo, não o conseguirão, porque eu estou vigilante –diz Iscariotes.
Jesus olha para ele. E eu também olho para ele, perguntando-me... há dias que venho me fazendo essa pergunta, se a conduta de Iscariotes é causada por alguma boa e verdadeira volta para o caminho do Bem e do Amor, uma liberação dele das forças humanas e extra-humanas, que o seguravam; ou se não será mais um refinado trabalho de preparação para o golpe final, um ato mais de sua escravização aos inimigos de Cristo e a Satanás. Mas Judas é um ser de tal modo especial, que se torna indecifrável. Só Deus pode compreendê-lo. E Deus, que é Jesus, desce um véu de misericórdia e de prudência sobre todas as ações e sobre a personalidade do seu apóstolo… esclarecendo os muitos porquês, que agora são misteriosos, somente quando forem abertos os livros dos céus.
483.3Os apóstolos estão de tal modo preocupados pela ideia de o ódio dos inimigos não ter ainda chegado a seu fim, que nem falam mais, de algum tempo para cá. Depois Tomé se volta de novo para Zelotes, dizendo:
– E, então, se eles não estão ébrios, nem são uns estultos, se o ódio deles explica tantas coisas, mas não esta, que é que ele explica? Que é que são eles? Isto não disseste.
– Que são? São uns possessos. Aquilo que eles dizem dele; eles é que são. Isto é o que explica o seu furor, que não conhece pausa, que, pelo contrário, cresce sempre mais, quanto mais se evidencia o seu poder. Falou bem aquele samaritano. Em Jesus, filho do Pai e de Maria, Homem e Deus, está a Infinidade de Deus. E infinito é o ódio, que separa, e essa Infinidade perfeita se opõe, mesmo quando, sem ser sem limite, o ódio não é perfeito em suas ações. Mas, se o ódio pudesse chegar ao abismo da perfeição, este é que desceria para poder tocar nele, para fazê-lo saltar depois, pela sua própria veemência da sua queda no abismo do Inferno, para o Cristo, a fim de feri-lo com todas as armas arrancadas do abismo infernal. O firmamento, controlado por Deus, tem apenas um sol. Ele se levanta, emite seus raios, e depois desaparece, deixando seu lugar para outro sol menor, que é a lua, e esta, depois de ter emitido seus raios ao redor de si, some no ocaso, para dar lugar ao sol. Os astros ensinam muito aos homens, pois eles se sujeitam aos desejos do Criador. Mas os homens, não. Um exemplo é este: esta vontade de se opor ao Mestre. Que aconteceria se a lua, um dia pela manhã dissesse: “Eu não quero desaparecer, e volto pelo caminho já feito”? Certamente pareceria ir chocar-se contra o sol, com grande horror e prejuízo por parte de toda a natureza criada. É isso o que querem fazer os que querem despedaçar o sol…
– É a luta das trevas contra a Luz. Nós vemos esta luta cada dia nas auroras luminosas e nas tardes que vão escurecendo. Essas duas forças, que se contrastam, que tomam, cada um por sua vez, o domínio da terra. Contudo as trevas são sempre vencidas, porque elas nunca são completas. Um pouco de luz sempre paira no ar, mesmo nas noites mais privadas da luz dos astros. Parece que o ar, por si mesmo, a crie nos infinitos espaços do firmamento, e a difunda, ainda que seja muito pouca para persuadir os homens de que os astros não estão apagados. Eu digo que igualmente nestas trevas particulares do Mal contra a Luz, que é Jesus sempre, não obstante todo o esforço das trevas, a luz estará confortando os que creem nela, diz João, sorrindo por esse seu pensamento, e recolhido em si mesmo, como se estivesse falando sozinho.
Seu primeiro pensamento foi recolhido por Tiago de Alfeu:
– Nos livros o Cristo é chamado “Estrela da Manhã.” Portanto, uma noite Ele também conhecerá, e — eu me espanto — nós também a conheceremos, uma noite, um tempo, no qual não parecerá forte a Luz, e, sim, parecerão vitoriosas as Trevas. Mas, posto que Ele é chamado “Estrela da Manhã”, de tal modo que exclui um limite no tempo, eu digo que, depois da noite momentânea, Ele será a Luz matutina pura, fresca, virginal, semelhante àquela que sucedeu ao Caos, no primeiro dia. Oh! Sim. O mundo será recriado em sua Luz.
– Haverá maldição para os réprobos, que tiverem querido levantar suas mãos para ferirem a Luz, repetindo os erros já feitos, desde Lúcifer até os profanadores do povo santo. Javé deixa livre o homem em suas ações. Mas, por amor ao próprio homem, não permitirá que o Inferno prevaleça –termina Tiago de Alfeu.
483.4 – Oh! Ainda menos mal, que depois de tão grande entorpecimento dos espíritos, pelo qual todos pareciam ser uns obtusos e tardos, por uma velhice precoce, a sabedoria floresce de novo sobre nossos lábios. Nem estávamos mais parecendo sermos nós! Agora encontro de novo Zelotes e João, os dois irmãos de outro tempo! diz Iscariotes, felicitando-se.
– Não me parece que houvéssemos mudado tanto, a ponto de nem parecermos mais sermos nós –diz Pedro.
– Mas nós estávamos assim! Todos. Tu, por primeiro. Depois, Simão e os outros, inclusive eu. Se havia um que era mais ou menos o de sempre, era João.
– Hum! Não posso saber em quê…
– Em quê? Taciturnos, como uns cansados, indiferentes, pensativos… Não se ouviam mais aquelas conversações, parecidas com muitas de outro tempo, semelhante a esta de agora, e que ajudam tanto…
– A discutir –diz Tadeu, lembrando-se de que, de fato, muitas vezes elas degeneravam em bate-bocas.
– Não. Para formar-nos. Porque nem todos são como Natanael, nem como Simão, nem como vós de Alfeu, pelo nascimento e pela sabedoria. Quem o é menos, aprende sempre de quem o é mais –replica o Iscariotes.
483.5 – Realmente… eu diria que, mais do que tudo, é necessário ter-se uma formação na justiça. E desta tem-nos dado magníficas lições Simão –diz Tomé.
– Eu? Mas tu estás enxergando mal. Eu sou o mais estulto de todos –diz Pedro.
– Não. Tu és o que mais mudaste. Nisso tem razão Judas de Keriot. Não há em ti mais do que pouca coisa daquele Simão que eu conheci, quando vim ficar convosco, e que, perdoa-me, havia permanecido como era, durante muito tempo. Desde quando eu te reencontrei, depois da nossa separação no tempo das Encênias, tu outra coisa não fizeste, mais do que transformar-te. Agora és… sim, eu to digo: és mais paternal e, ao mesmo tempo, mais austero. Tens compaixão de todos os teus pobres irmãos, enquanto que antes… E se pode ver, eu pelo menos vejo, o que isso te custa. Mas, tu vences a ti mesmo. E nunca, como agora que pouco falas e pouco censuras, tu nos inspiras respeito…
– Mas, meu amigo! Tu és muito bom, por ver-me desse modo… Eu, a não ser o amor pelo Mestre, que cresce em mim cada vez mais, não mudei nada mesmo.
– Não. Pensa bem. Mudaste muito –muitos confirmam.
– Não. Vós o estais dizendo… –diz Pedro, encolhendo os ombros.
E acrescenta:
– Somente o juízo do Mestre é que seria certo. Mas eu tomo cuidado para não lho pedir. Ele conhece a minha fraqueza, e sabe que até um elogio mal feito poderia fazer mal ao meu espírito. Por isso, Ele não me elogiaria, e faria bem. Eu compreendi cada vez melhor o coração dele e o seu modo de agir, em tudo vejo a justiça.
– Porque tens uma intenção reta, porque sempre mais me amas. Quem te faz ver e compreender é o teu amor por Mim. Como teu Mestre, o teu verdadeiro e maior Mestre, que te faz compreender o teu Mestre, é o Amor –diz Jesus, que até aquele momento havia escutado e ficado calado.
– Eu creio que… seja também a dor que eu sinto aqui dentro…
– Dor? Por quê? –perguntam alguns.
– Ora! por tantas coisas que acontecem, e que depois formam uma só: tudo aquilo que faz o Mestre sofrer…e o pensamento sobre aquilo que Ele irá sofrer… 483.6Não podemos mais ser uns descuidados como nos primeiros tempos! Nós pensávamos que, bastava que nos apresentássemos, logo os outros viriam para o nosso lado! Nós pensávamos que conquistar Israel e o mundo fosse uma coisa assim como jogar uma rede sobre um lugar fundo e cheio de peixes. Pobres de nós! Eu penso que se Ele não consegue obter um bom resultado, nós é que não obteremos nenhum. Mas isso ainda não é nada. Eu acho que eles são maus e o fazem sofrer. Creio que esse seja o motivo de nossa mudança em geral…
– É verdade. Por minha parte, é verdade –confirma Zelotes.
– Da minha também. Da minha também –dizem os outros.
– Eu estava tão inquieto por isso, que procurei ter boas ajudas. Mas elas me traíram… e vós não me compreendestes… E eu não vos compreendi. Eu pensava que fôsseis assim como sois, por alguma fraqueza do espírito, por desconfiança, por desilusão –confessa o Iscariotes.
– Eu nunca esperei alegrias humanas e, portanto, não estou desiludido –diz o Zelotes.
– Eu e o meu irmão gostaríamos de tê-lo visto vitorioso, mas para alegria dele. Nós o temos acompanhado por um amor de parentes, mais do que de discípulos. Nós o viemos acompanhando desde pequenos. Ele é mais novo na idade do que nós, seus irmãos, mas sempre muito maior do que nós –diz Tiago, naquela sua admiração sem limites pelo seu Jesus.
– Se uma dor nós sentimos, é porque nem todos de nossa parentela o amamos com o nosso espírito e somente com ele. Mas não somos somente nós em Israel que o amamos mal –diz Tadeu.
483.7 Judas Iscariotes olha para ele, talvez fosse falar, mas foi distraído por um grito que chegou até eles, vindo de uma colina mais alta do que o povoado, que eles agora vão flanqueando e procurando o caminho para nele entrarem.
– Jesus! Rabi Jesus! Filho de Davi e Senhor nosso, tem piedade de nós.
– São leprosos! Vamos, Mestre, senão o povoado virá correndo, e nos deterá em suas casas –dizem os apóstolos.
Mas os leprosos levam a vantagem de já estarem mais na frente do que eles, a certa altura acima da estrada, a pouco menos de uns cento e cinquenta metros do povoado, descem, andando com dificuldade, e procurando correr até Jesus, repetindo sempre aquele grito.
– Vamos entrar no povoado, Mestre. Eles lá não podem entrar –dizem alguns dos apóstolos.
Mas outros discordam:
– Já as mulheres estão aparecendo às janelas para olhar. Se nós entrarmos, nos livraremos dos leprosos, mas não de sermos conhecidos e detidos.
Enquanto estão na incerteza do que fazer, os leprosos vão ficando sempre mais perto de Jesus que, sem dar atenção aos mas e aos seus apóstolos, foi continuando por sua estrada. Os apóstolos se resignam a acompanhá-lo, enquanto as mulheres, com os meninos agarrados às suas saias, e um ou outro homem de idade, que ficou no povoado, aproximam-se para ver, ficando a uma prudente distância dos leprosos, que vão parar a alguns metros de Jesus, e continuam suplicando-lhe:
– Jesus, tem piedade de nós!
Jesus os observa por um instante. Depois, sem aproximar-se deste grupo de sofredores, pergunta:
– Sois deste povoado?
– Não, Mestre. Somos de diferentes lugares. Mas aquele monte onde estamos, do outro lado, está virado para a estrada, que vai para Jericó, e aquele lugar é bom para nós…
– Ide, então, ao lugarejo que fica perto do vosso monte, e mostrai-vos aos sacerdotes.
Jesus continua a caminhar, começando a andar pela beira da estrada, a fim de não tocar nos leprosos, que o veem indo aproximando-se deles, sem terem mais do que um olhar cheio de esperança em seus pobres olhos doentes. Jesus, tendo chegado à altura deles, levanta a mão para abençoá-los. As pessoas do povoado, decepcionadas, voltam para suas casas… Os leprosos sobem de novo pelo monte, a fim de se dirigirem para a gruta ou para a estrada que vai para Jericó.
– Fizeste bem em não curá-los. Não teriam mais deixado que fôssemos para a frente os habitantes do povoado…
– Sim, e seria preciso chegarmos a Efraim antes da noite.
483.8 Jesus vai caminhando e guardando silêncio. O povoado já vai desaparecendo de sua vista, por causa das curvas da estrada, que é muito sinuosa, devido aos caprichos do monte, no qual ela foi traçada.
Mas uma voz chega até eles:
– Louvor ao Deus Altíssimo e ao verdadeiro Messias. Nele está todo o poder, sabedoria e piedade! Louvor ao Deus Altíssimo que nele nos concedeu a paz. Louvai-o, homens todos dos povoados da Judeia e da Samaria, da Galileia e do Além-Jordão. Até às neves do altíssimo Hermon, até às ardentes pedreiras da Idumeia, até às areias molhadas pelas ondas do Mar Grande, ressoem os louvores ao Altíssimo e ao seu Cristo. Eis que está cumprida a profecia de Balaão3. A Estrela de Jacó brilha sobre o céu reintegrado da Pátria, de novo unida pelo verdadeiro Pastor. Eis também cumpridas as promessas feitas aos patriarcas. Eis a palavra de Elias, que nos amou.
Ouvi-a, ó povos da Palestina, e compreendei-a. Não se deve mais ficar claudicando dos dois lados, mas deve-se escolher, por meio da luz espiritual e, se a intenção for reta, então se escolherá bem. Isto é o que o Senhor ensina. Segui-o! Ah! Como temos sido castigados até agora, porque não nos esforçamos para comprender! O homem de Deus amaldiçoou o falso altar, profetizando: “Eis que nascerá da Casa de Davi um filho chamado Josué, o qual imolará sobre o altar e queimará os ossos de Adão. Então, o altar se abrirá até ás vísceras da Terra, e as cinzas da imolação se espalharão para o norte e o sul, para o oriente e para o lado do ocaso do sol.” Não queirais fazer como o estulto Ocosias, que mandava consultar o deus de Acaron, enquanto o Altíssimo estava em Israel. Não queirais ser menos do que a mula de Balaão, a qual, pela atenção prestada por ele ao espírito de luz, teria merecido a vida, enquanto teria caído ferido o profeta, que não via. Eis a Luz que passa pelo meio de nós. Abri os olhos, ó cegos de espírito, e vede.
E um dos leprosos os acompanha sempre mais de perto pela estrada mestra à qual já chegaram, e está mostrando Jesus aos peregrinos.
Os apóstolos, depois de se terem enxugado, tornam a ir duas ou três vezes ao leproso, que já está perfeitamente curado, intimando-o a calar-se. Quase que até o ameaçam, na última vez. Mas ele, deixando, por um momento, de ficar levantando a voz para falar a todos, responde:
– E que quereis? Que eu não dê glória a Deus pelas grandes coisas que Ele me fez? Quereis que eu não o bendiga?
– Bendize-o em teu coração, e cala a boca! –respondem-lhe eles com impaciência.
– Não, eu não posso calar-me. Deus vai pondo as palavras em minha boca, e recomeça a dizer em voz alta: – Pessoas dos dois lugares da divisa, pessoas que estais passando por acaso, esparai aí para adorardes Aquele que reinará em nome do Senhor. Eu me ria por estar dizendo tantas palavras4. Mas agora eu as repito, porque vejo que elas se cumpriram. Vede como estão em movimento todos os povos para virem jubilosos até o Senhor, pelos caminhos do mar e dos desertos, pelas colinas e pelos montes. Também nós, um povo que tem vindo a caminhar pelo meio das trevas, iremos para a grande luz que surgiu para a vida, saindo da região da morte. Lobos, leões e leopardos era o que nós éramos, mas nós renasceremos no Espírito do Senhor, e nos amaremos nele à sombra do Rebento de Jessé, que se tornou um cedro, sob o qual acampam as nações reunidas por Ele nos quatro pontos da terra. Eis que aí vem o dia no qual o ciúme de Efraim terminará, porque não existe mais Israel e Judá, mas um Reino só: o do Cristo do Senhor. Eis que eu canto os louvores do Senhor que me salvou e consolou. Eis que eu digo: louvai-o, e vinde beber a salvação na fonte do Salvador. Hosana! Hosana às grandes coisas que Ele faz! Hosana ao Altíssimo, que colocou no meio dos homens o seu Espírito, revestindo-o de carne, para que se tornasse o Redentor!
É inexaurível. 483.9O número de pessoas aumenta, se alegra, entulha a estrada. Quem estava atrás corre para a frente, quem estava adiante volta para trás. Aqueles que vieram de algum pequeno povoado, perto do qual já estão, unem-se aos que vão passando.
– Mas, Senhor, faze que ele se cale. Ele é samaritano. Assim está dizendo o povo. Ele não deve falar quem és, se Tu nem a nós permites que vamos à tua frente, falando quem és –dizem, inquietos, os apóstolos.
– Meus amigos, Eu vos repito as palavras5 de Moisés a Josué, filho de Nun, que se estava lamentando, porque Eldad e Medad estavam profetizando nos acampamentos: “Estás ciumento por mim, em meu lugar? Oh! Se, assim profetizasse todo o povo, o Senhor desse a todos o seu espírito!” Contudo eu pararei,o despedirei, para contentar-vos.
Jesus para, chama a Si o leproso curado, que se aproxima, e se prostra aos pés de Jesus, beijando o pó.
– Levanta-te. Os outros, onde estão? Não éreis dez? Os outros nove não sentiram a necessidade de agradecer ao Senhor. Entre os dez leprosos, dos quais só um era samaritano, não se achou outro, senão este estrangeiro, que julgasse ser seu dever voltar atrás para dar glória a Deus, antes de ir reintegrar-se na vida e na família. Ele é chamado de “samaritano”. Não são mais uns bêbados os samaritanos, porque agora eles veem, sem se enganarem, e correm pela estrada da Salvação sem vacilações. Portanto, a Palavra fala uma linguagem estranjeira e a entendem os estrangeiros, mas não a entendem os que são do seu povo?
Ele corre seu belo olhar por sobre a multidão, que veio de todos os lugares da Palestina, e que aí se encontra presente. São insuportáveis aqueles olhos em seus lampejos… Muitos inclinam as cabeças, outros esperam as cavalgaduras, ou põem-se a caminhar, afastando-se dali…
483.10 Jesus inclina seu olhar sobre o samaritano, que está ajoelhado a seus pés. O seu olhar se torna muito suave. Ele levanta a mão, que estava descida ao longo do lado, em um gesto de bênção, e diz:
– Levanta-te, e vai. A tua fé te salvou, mais ainda do que a tua carne. Anda na Luz de Deus. Vai.
O homem beija outra vez o pó e, antes de levantar-se, faz-lhe um pedido:
– Um nome, Senhor. Um nome novo, porque tudo é novo em mim, e para sempre.
– Em que terra nos encontramos?
– Na terra de Efraim.
– Efrém te chamarás, de agora em diante, porque duas vezes6 a Vida te deu vida. Vai.
O homem se levanta, e se vai.
As pessoas do lugar, e um ou outro peregrino quereriam deter a Jesus. Mas Ele os domina com o seu olhar, que não é de severidade, mas é até muito suave ao olhar para eles, mas que deve estar exalando uma força tal, que ninguém pode fazer nem um gesto para detê-lo.
Jesus deixa a estrada, sem entrar no pequeno povoado, atravessa um campo, depois um pequeno rio e uma senda, sobe pela elevação do lado do oriente, que é cheia de bosques, e embrenha-se na mata com os seus, dizendo:
– Para não ficarmos perdidos, seguiremos a estrada, mas sem sairmos da mata. Para lá daquela curva, a estrada vai por este monte. Lá encontraremos alguma gruta para dormir, e, lá pela aurora, deixaremos Efraim…
1 insólita em outro lugar, notando o primeiro cão na visão de 31 de março de 1944 (605.3) e o segundo na visão de 13 de março de 1945 (129.1).
2 parábola, que está em 281.10.
3 profecia de Balaão, que está em Números 24,15-19; jumenta de Balaão, do qual se narra em Números 22,20-35. As citações entre uma e outra estão em 1 Reis 13,1-5; 2 Re 1,15-16.
4 tantas palavras, as de Isaías 11-12.
5 as palavras, relatadas em Números 11,26-30.
6 duas vezes, porque o signicado literal de Efrém é “duplo fruto”.
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