361. 361. Os dois enxertos que transformarão os apóstolos.Maria de Magdala adverte Jesus de um perigo.Milagre sobre o rio Jordão em cheia.


17 de setembro de 1944.

361.1 Finalmente posso escrever tudo o que cai ao alcance da minha vista mental e de minha audição mental, e que, desde as primeiras horas desta manhã, fazem-me sofrer, pelo esforço para ouvir as coisas externas e também as de casa, na hora em que eu devo ver e ouvir as coisas de Deus, impassível a quaisquer outras, que não sejam o que o espírito vê.

Quanta paciência é exigida de mim para… não perder a paciência em ficar esperando o momento de dizer a Jesus:

– Eis-me aqui! Agora podes ir adiante.

Porque, eu o disse já muitas vezes, e o repito, quando eu não posso continuar ou iniciar a narração daquilo que eu vejo, então a cena fica parada nos primeiros compassos, ou então, no ponto em que eu for interrompida, para depois desenvolver-se para diante, e de novo, quando estou livre para acompanhá-la. Creio que Deus assim queira, a fim de que eu nada omita, nem erre, até mesmo em algum particular, coisa que me poderia acontecer, se eu escrevesse algum tempo depois de ter visto.

Eu afirmo, com consciência do que digo, que tudo o que eu escrevo, quando o vejo ou o ouço, eu o escrevo, enquanto o estou vendo e ouvindo.

Eis aqui, pois, o que estou vendo nesta manhã e o meu monitor interior me diz que é o inicio de uma longa e bela visão.

361.2 Jesus, com um tempo muito chuvoso, vai caminhando por uma estrada da campina, muito barrenta. A estrada parece um pequeno rio, de tal sorte que comprimida sob o pé, em cada passo, ela espirra uma lama amarelenta, pegajosa e escorregadia como sabão molhado, que se pega às sandálias, agarra-se a ela como uma ventosa e, ao mesmo tempo, escorre para debaixo delas, tornando difícil o caminhar, por causa dos freqüentes escorregões.

Deve ter chovido continuamente nestes dias. E o céu ainda promete mais chuva, estando como um teto baixo e cor de chumbo como está, percorrido por nuvens grandes e escuras que impedem os ventos siroco ou grego e tão pesadas que o ar fica parecendo ser em nossa boca uma coisa adocicada, como se fosse uma mistura de azinhavre com mel. Não dão sossego essas rajadas intermitentes de vento, que dobram as ervas e os ramos das árvores e depois passam e tudo volta a ficar naquela imobilidade, naquele mormaço que precede à tempestade. De vez em quando, algumas daquelas nuvens grandes se abrem e grossas gotas quentes, como se estivessem vindo de alguma ducha morna, descem fazendo bolhas na lama, que agora espirra mais ainda sobre as vestes e as pernas.

As vestes que estão por baixo das túnicas, por mais que Jesus e os apóstolos as tenham levantado enrolando-as bem na cintura e amarrando-as por meio de um cordão, mesmo assim tudo fica salpicado de barro, um barro bastante mole embaixo mas já quase seco nos espirros que foram bater mais no alto. As vestes e as capas, ainda que estas fossem sendo levadas quanto possível ao alto, dobradas ao meio para se conservarem limpas e para abrigá-las contra os aguaceiros, breves, mas violentos, mesmo assim elas estão muito sujas. Os pés e as pernas dos caminhantes, até o meio das canelas, parecem estar com umas meias grossas de uma lã cheia de protuberâncias, mas não é nada disso: é lama e mais lama que ali grudou.

361.3 Até aqui o início. E agora continua.

Os discípulos estão se queixando um pouco do tempo e da estrada e, verdade seja dita, também daquela vontade pouco… higiênica do Mestre de se pôr em viagem com um tempo destes.

Jesus faz como se nada tivesse ouvido. Mas Ele ouve. E duas ou três vezes Ele se vira ligeiramente para trás, — eles vão caminhando em fila indiana para se conservarem no lado esquerdo da estrada, que é um pouco mais alto que o direito e, por isso, menos barrento — ele se vira a fim de olhar para eles. Mas não diz nada.

Na última vez é o mais velho dos discípulos que diz:

– Oh! Pobre de mim! Com esta umidade que vai se enxugando em mim, começo a sentir as dores que ela traz! Eu já estou velho! Meus trinta anos já ficaram longe!

E Mateus também resmunga:

– E eu, então? Eu não estava acostumado com isso… Quando chovia em Cafarnaum, tu bem sabes Pedro, eu não saía de minha casa. Mandava os servos à banca do telônio e eles me levavam os que tinham que pagar. Eu havia organizado um verdadeiro serviço para isso. E… quem ia sair de viagem com tempo assim feio? Hum! Algum melancólico e basta. As feiras e as viagens se fazem quando há bom tempo…

– Calai-vos! Que Ele ouve –diz João.

– Mas, não é que Ele não ouça. Ele está pensando. E, quando pensa… é como se nós não existíssemos –diz Tomé.

– E quando determina uma coisa, nenhuma consideração justa o demove dela. Quer fazer o que quer. Só confia em si mesmo. Isso vai ser a sua ruína. Se Ele se aconselhasse um pouco comigo… 361.4Eu sei tantas coisas! –diz Judas com aquela sua bazófia de “saber fazer tudo” e de “ser mais do que os outros.”

– Que sabes tu? –pergunta-lhe Pedro, que já está de repente verme-lho como uma brasa–. Tu, tudo sabes! Quais são os teus amigos? Serás talvez um dos grandes de Israel? Mas deixa disso. Tu também és um pobre homem como eu e os outros. Um pouco mais bonito. Mas a beleza da juventude é flor que só dura um dia! Eu também era bonito.

Uma boa risada de João ressoa pelo ar. Também os outros riem e caçoam um pouco das rugas de Pedro, de suas pernas um pouco arqueadas como as de todos os marinheiros, dos seus olhos um pouco bovinos e avermelhados pelos ventos do lago.

– Ride à vontade, mas assim é. E, além disso, não me interrompais. Dize-me, tu, Judas. Quais são os teus amigos? Que sabes tu? Para saberes o que nos dás a entender deves ter amigos entre os inimigos de Jesus. E quem tem amigos entre os inimigos é um traidor. Vamos, rapaz! Ai de ti se o que te preocupa é a tua beleza! Porque, se é verdade que eu não sou mais bonito, também é verdade que eu sou ainda forte para fazer de ti um desdentado e que para afundar-te um olho não teria dificuldade –diz Pedro.

– Que modos de falar! Tem o jeito de um rústico pescador –diz Judas, com o desprezo de um príncipe ofendido.

– Sim, senhor. E disso eu me glorio. Pescador, mas sincero como o meu lago que, quando quer formar uma tempestade, não diz antes “Vou fazer uma calmaria”, mas tem aquele arrepio e apresenta como testemunhas, diante dos céus certos flocos de nuvens que, a não ser que alguém seja um animal ou um bêbado, compreenderá o salmo, e se modera. Tu… tu me pareces este barro, que parece sólido –(e dá uma forte pisadela e o barro espirra até sobre o queixo do Iscariotes).

– Mas, Pedro! Isso são modos indignos. Belo fruto produzem em ti as palavras do Mestre sobre a caridade!

– E em ti também as palavras sobre a humildade e a sinceridade. Vamos. Cospe logo o que tu sabes. Que sabes? É verdade que tu sabes mesmo ou somente te dás uns ares de quem sabe a fim de que creiam que tens uns amigos poderosos? Pobre verme que és.

– O que sou, sou. E não te irei dizer para criar aquelas rixas que te agradariam, sendo como és um galileu. Eu repito que se o Mestre fosse menos teimoso seria um grande bem. E se Ele fosse menos violento. As pessoas ficam cansadas por se sentirem ofendidas.

– Violento? Mas, se Ele assim fosse, deveria fazer-te voar para dentro do rio imediatamente. E seria um belo vôo por cima daquelas árvores. Assim ficarias limpo do barro que está sujando o teu rosto. E talvez servisse para lavar o teu coração que, se não estou enganado, deve estar mais cascudo do que as minhas pernas enlameadas.

De fato, Pedro, muito peludo e de baixa estatura como é, está com as pernas bem barreadas. Ele e Mateus parecem feitos de argila até quase à altura dos joelhos.

– Mas, afinal, acabai com isso! –diz Mateus.

361.5João, que notou como Jesus ia andando mais devagar, suspeita que Ele tenha ouvido e, apressando o passo, passa à frente de dois ou três companheiros e o alcança e se põe a seu lado chamando-o: “Mestre!” com aquela sua voz delicada como sempre e com aquele olhar de amor, virando a cabeça para o alto, porque ele é mais baixo e porque vai indo bem pelo meio da estrada e, por isso, está para baixo da pequena saliência sobre a qual todos estão caminhando.

– Oh! João! Tu me alcançaste –diz-lhe Jesus, sorrindo.

João, tendo com amor e compreensão estudando o rosto dele para perceber se Ele teria ouvido, responde:

– Sim, Mestre meu. Queres-me aqui?

– Eu sempre te quero. E quereria a todos com o teu coração! Mas, se tu ficas aí e caminhas nesse lugar acabas ficando todo molhado.

– Não me importa, Mestre. Nada me importa, contanto que eu esteja perto de Ti!

– Queres estar sempre comigo? Tu não pensas que Eu sou imprudente e que posso pôr em dificuldades a vós também. Não te sentes ofendido por que Eu não escuto os teus conselhos?

– Oh! Mestre! Então, Tu ouviste?

João está consternado.

– Eu ouvi tudo. Desde as primeiras palavras. Mas não te entristeças por isso, vós não sois perfeitos. Eu já sabia desde quando vos quis. E não pretendo que vos torneis perfeitos rapidamente. Primeiro é preciso que vos transformeis de selvagens em domésticos com dois enxertos.

– Quais são eles, Mestre?

– Um de sangue, e o outro de fogo. Depois, sereis heróis do Céu e convertereis o mundo, começando por vós mesmos.

– De sangue? De fogo?

– Sim, João. O Sangue: o meu

– Não, Jesus.

João o interrompe com um gemido.

– Bem, meu amigo. Não me interrompas. Escuta tu, primeiro, estas verdades. Tu mereces. O Sangue: é o meu. Tu sabes. Eu vim para isso. Eu sou o Redentor… Pensa nos profetas. Eles não omitiram nem um i ao descreverem a minha missão. Eu serei o homem descrito por Isaías. E, quando Eu tiver sido sangrado, o meu Sangue vos fecundará. Mas Eu não me limitarei a isso. Tão imperfeitos, fracos, obtusos e medrosos sois vós, que Eu, quando estiver na Glória ao lado do Pai, vos mandarei o Fogo, a Força que procede do meu ser pela geração do Pai e que une o Pai e o Filho em uma união indissolúvel, fazendo de Um Três: o Pensamento, o Sangue e o Amor. Quando o Espírito de Deus, ou melhor, o Espírito do Espírito de Deus, a Perfeição das Perfeições divinas, vier sobre vós, já não sereis mais como sois. Mas sereis novos, fortes, santos… Contudo, para um o Sangue será inútil e inútil o Fogo. Porque o Sangue terá tido para ele um poder de condenação e para sempre ele conhecerá um outro fogo no qual se queimará, vomitando sangue e engolindo sangue, pois sangue éo que ele verá por toda parte para onde virar os seus olhos mortais ou os seus olhos espirituais, desde o momento em que tiver traído o Sangue de um Deus.

– Oh! Mestre! Quem é?

– Tu o saberás um dia. Por enquanto, fica sem saber. E, por caridade, não procures nem ficar indagando. A indagação pressupõe suspeita. Não deves suspeitar dos teus irmãos, porque a suspeita já é uma falta de caridade.

– Basta-me que me garantas que não serei eu nem Tiago quem te trairá.

– Oh! Tu, não. Nem Tiago. Tu és o meu conforto, bom João!

E Jesus lhe põe um braço sobre o ombro e o puxa para Si e vão caminhando, assim abraçados.

361.6 Ficam calados por algum tempo. Os outros também agora estão calados. Só se ouve o barulho dos pés sobre a lama.

Depois é um outro barulho que se faz ouvir. É um ruído como de alguém que estivesse gorgolejando, eu diria, como o roncar soturno de uma pessoa encatarrada. É um borbulhar monótono, interrompido de vez em quando por uns pequenos estalos.

– Estás ouvindo? –diz Jesus–, o rio está perto.

– Mas ao vau só chegaremos à noite. Daqui a pouco já estará chegando a tarde.

– Dormiremos em qualquer cabana. Atravessaremos amanhã. Eu teria querido chegar antes, porque de hora em hora a cheia vai crescendo. Estás ouvindo? Os caniços das margens estão sendo esmagados sob o peso das águas que aumentaram.

– Eles Te detiveram muito naquelas vilas da Decápole. Nós dizíamos àqueles doentes: “Na outra vez!” mas…

– Mas quem está doente quer ficar são, João. E quem tem piedade cura logo, João. Não importa. Atravessaremos do mesmo modo. Quero ir para a outra margem antes de voltar a Jerusalém para a festa de Pentecostes.

Ficam calados de novo. A tarde desce com a rapidez das tardes chuvosas. Ir andando num crepúsculo que se torna cada vez mais escuro fica ainda mais difícil. E até as árvores, que estão ao longo da estrada, aumentam, com suas copas, a escuridão.

– Vamos passar para o outro lado da estrada. Já estamos bem perto mesmo do vau. Vamos ver se achamos alguma cabana.

E vão atravessando, acompanhados pelos outros. Vão indo por uma passagem barrenta e rasa, que tem mais lama do que água e esta vai, borbulhando, jogar-se no rio. Meio às apalpadelas, passam por entre uma árvore e outra, dirigindo-se depois para o rio, cujo barulho está sempre mais perto e forte.

361.7Um primeiro clarão da lua afastada das nuvens intromete-se entre uma nuvem e outra e desce, fazendo aparecer a água barrenta do Jordão, que está muito cheio e largo neste ponto (se calculo bem, o rio é largo de 50 a 60 metros. Sou uma verdadeira tola em relação a medidas, mas penso que a minha casa poderia entrar na abertura nove ou dez vezes, ao menos, e era larga 5,5 metros aproximadamente). Já não é mais o belo, tranqüilo e azul Jordão, de águas calmas e baixas que deixam descoberta a areia fina da praia nas margens, no lugar onde vegetam os caniços que estão sempre zumbindo ao vento. Agora a água invadiu tudo e os primeiros caniços dobrados, quebrados e submergidos, já não podem ser vistos ou, quando muito, suas folhas em forma de fitas, que vão boiando à flor d’água,. É como se estivessem dando um sinal de adeus ou fazendo um pedido de socorro. A água já está chegando aos pés das primeiras grandes árvores. Não sei que árvores são essas. Mas são fortes e frondosas, compactas como um muro bem escuro no meio da noite escura. Um ou outro salgueiro ainda mergulha suas copas desgrenhadas na água amarelenta.

– Aqui não se passa mais a vau –diz Pedro.

– Aqui, não. Mas lá, estás vendo? Lá ainda se passa –diz André.

E realmente dois quadrúpedes passam o rio com cuidado. A água está batendo na barriga dos animais.

– Se eles passarem, as barcas também passam.

– E é melhor passar logo, ainda que seja de noite. As nuvens se espalharam e o luar já está aí. Não deixemos passar a oportunidade. Vamos ver se encontramos uma barca…

E Pedro, por três vezes, lança aquele seu grito longo e lamentoso:

– Ôôô… êêê!

Mas não teve nenhuma resposta.

– Vamos mais para baixo até o próprio vau. Melquias com os seus filhos deve estar lá. Para ele é esta a estação mais bela. Ele nos passará.

Vão caminhando o mais depressa que podem sobre a pequena trilha, que vai justamente pela margem do rio e quase tocando nele.

361.8 – Mas, aquela não é uma mulher? –diz Jesus, olhando para os dois que, com os seus cavalos, já conseguiram passar o rio e já estão firmes na estrada.

– Uma mulher?

Pedro e os outros não estão vendo e não distinguem se é homem ou mulher aquele vulto escuro, que apeou e está esperando.

– Sim. É uma mulher. É… Maria. Olhai agora que ela está sob o clarão do luar.

– Que bom para ti que estás vendo. Felizes os teus olhos!

– É Maria. Que quererá ela? –pergunta Jesus.

E grita:

– Maria!

– Raboni! És tu? Graças sejam dadas a Deus porque eu te encontrei!

E Maria vai correndo como uma gazela até Jesus. Não sei como ela não tropeça naquele terreno acidentado. Ela deixou cair primeiro uma capa pesada e agora vai indo para frente com o seu véu e o seu manto mais leve enrolado ao corpo sobre a veste escura.

Quando chega perto de Jesus, cai-lhe aos pés sem se preocupar com a lama. Está ofegante mas feliz. E repete:

– Glória a Deus, que me fez encontrar-te!

– Por que, Maria? Que é que está acontecendo? Não estavas em Betânia?

– Eu estava em Betânia com tua mãe e com as mulheres como Tu me tinhas mandado… Mas eu vim ao teu encontro… Lázaro não pode porque está sofrendo muito… Então, eu vim com o criado…

– Tu, viajando sozinha, só com um rapaz e com este tempo!

– Oh! Raboni! Não me estarás querendo dizer que eu tenha medo. Eu não tive medo de fazer todo o mal que eu fiz… E não tenho agora para fazer o bem.

– E, então? Por que vieste?

– Para dizer-te que não passes para o outro lado. Porque do lado de lá te estão esperando para te fazerem mal. Eu o fiquei sabendo… Fiquei sabendo disso por um herodiano que, há tempo… há tempo me amava. Que ele o tenha dito por amor ou por ódio, eu não sei. Só sei que anteontem ele me viu através da cancela e me disse: “Estulta Maria, estás esperando o teu Mestre? Fazes bem, porque será a última vez pois quando ele atravessar ao ir para a Judéia será preso. Olha bem para Ele e depois tenta fugir, porque não é prudente estar por perto dele agora…” Então… podes pensar com que coração… comecei a indagar… Tu sabes… a muitos eu reconheci e julgando-me eles talvez uma doida e… uma possessa, assim mesmo me falaram. E eu fiquei sabendo que é verdade. Então, tomei dois cavalos e vim, sem dizer nada à tua mãe… para não entristecê-la. 361.9Volta… vai logo, Mestre. Se eles souberem que estás aqui, do lado de cá do Jordão, virão até aqui. E também Herodes te procura… E Tu aqui já estás bem perto de Maqueronte. Vai, vai logo, por piedade, por piedade, Mestre!…

– Não chores, Maria…

– Estou com medo, Mestre!

– Não. Com medo, tu que tens tanta coragem para atravessar o rio em plena noite!…

– Mas ele é um rio e eles são homens, teus inimigos, e que te odeiam… Do ódio que eles têm a Ti é que eu tenho medo… Porque eu te amo, Mestre.

– Não tenhas medo. Não me prenderão ainda. Não chegou minha hora. Mesmo se colocassem fileiras e fileiras de soldados ao longo de todas as estradas, não me prenderiam. Não é a minha hora. Mas farei como tu queres. Voltarei atrás…

Judas resmunga algumas palavras por entre dentes e Jesus lhe responde:

– Sim, Judas. É mesmo como tu dizes. E exatamente como disseste na primeira metade de tua frase. Eu dou atenção a esta, sim, dou-lhe atenção. Mas não é porque é uma mulher, como estás insinuando, e, sim porque é a que fez mais progresso no amor. Maria, volta para casa logo que puderes. Eu irei atrás e atravessarei… por onde Eu puder e irei para a Galiléia. Tu vai ficar com minha Mãe e as outras em Caná, na casa da Susana. Lá Eu vos direi o que deveis fazer. Vai em paz, bendita. Deus está contigo.

Jesus põe-lhe a mão sobre a cabeça, abençoando-a assim. Maria pega nas mãos de Cristo e as beija. Depois se levanta e volta para trás. Jesus a olha indo. Olha como ela apanha o manto e o veste, depois aproxima-se do cavalo, monta nele e toma de novo o caminho para o vau e o atravessa.

– E agora, vamos –diz Ele–. Eu queria fazer-vos descansar, mas não posso. Tenho que cuidar de vossa segurança, por mais que Judas pense diferente. E, podeis acreditar, se caísseis nas mãos dos meus inimigos, seria pior para a vossa vida do que a chuva e a lama…

Todos abaixam a cabeça, compreendendo a censura velada dada como resposta aos seus comentários de antes.

361.10 Eles vão, vão indo durante a noite inteira por entre as clareiras que aparecem pelo meio das nuvens e as breves pancadas de chuva. Uma aurora pálida os surpreende perto de uma vila muito pobre que se estende por perto do rio, com seus casebres feitos de barro batido. O rio é aqui um pouco menos largo do que no vau. Duas barcas estão sendo puxadas para terra até dentro da povoação para ficarem salvas da cheia.

Pedro solta o seu grito:

– Ôôô… êêê…

Sai para fora de um casebre um homem forte, mas já de idade.

– Que queres?

– Barcas para atravessar.

– Impossível! O rio está cheio demais… A corrente…

– Ora, meu amigo! A quem estás dizendo isso? Eu sou pescador da Galiléia.

– O mar é uma coisa.. Mas aqui é um rio… eu não vos quero entregar a barca. Além disso, eu só tenho uma e tu e os teus companheiros sois muitos.

– Mentiroso! Queres dizer que só tens uma barca?

– Que meus olhos fiquem secos se eu estiver mentindo.

– Toma cuidado para que não fiquem secos mesmo. Este aqui é o Rabi da Galiléia, que dá olhos aos cegos e que… pode tornar-te contente, secando os teus dois…

– Misericórdia! O Rabi! Perdoa-me, Raboni!

– Sim. Mas não mintas mais. Deus ama os sinceros. Por que dizes que só tens uma barca quando a vila toda pode te desmentir? É aviltante demais para um homem a mentira e o ter que ser desmascarado. Tu me cedes as tuas barcas?

– Todas, Mestre.

– De quantas vamos precisar, Pedro?

– Em tempos normais, duas bastariam. Mas, com o rio em cheia, mais difícil a manobra e precisamos de três delas.

– Podes apanhá-las, pescador. Mas como farei para recebê-las de volta?

– Vem conosco em uma delas. Não tens filhos?

– Tenho um filho, dois genros e dois netos.

– Dois em cada barca bastam para a volta.

– Então, vamos.

361.11 O homem chama os outros e com ajuda de Pedro, André, Tiago e João empurram as barcas para cima d’água. As cordas com que elas estão amarradas nos troncos mais próximos estão esticadas como a de um arco e chiando, por causa da força a que estão sendo submetidas. Pedro fica olhando. Olha para as barcas, olha para o rio. Olha e sacode a cabeça. Eriça os cabelos cinzentos com uma das mãos e depois dá uma olhada cheia de curiosidade para Jesus.

– Estás com medo, Pedro?

– É… é quase isso…

– Não tenhas medo. Tem fé. E tu também, homem. Quem transporta a Deus e aos seus enviados nada tem que temer. Vamos entrar nas barcas. Eu vou na primeira.

O dono das barcas faz um gesto como quem quer se conformar. Ele deve ter ficado pensando que chegou a sua última hora e a de seus parentes. No mínimo ele deve estar também pensando que vai perder suas barcas ou irá ter que parar não sabe onde.

Jesus já está na barca. Está em pé, à proa. Descem os outros para esta barca e para as outras duas. Fica em terra somente um velhinho, talvez o empregado, que toma cuidado das cordas.

– Já estamos todos?

– Estamos todos.

– Estão preparados os remos?

– Estão preparados.

– Solta tu, aí da margem.

O velhinho afrouxa as amarras da cavilha porque ela estava fazendo um nó junto ao tronco. As barcas, à medida que vão ficando soltas, vão mudando de posição, tomando um pouco o rumo do sul atraídas pela corrente das águas.

Mas Jesus está com o seu rosto como quando faz milagres. O que Ele está dizendo ao rio eu não sei. Só sei que a corrente quase cessa de todo. Só se vê agora o movimento lento do Jordão quando não está na cheia. As barcas cortam a água sem dificuldade e até com uma velocidade que deve estar causando espanto ao dono das barcas.

361.12 Ei-los já chegados ao outro lado. Desembarcam com facilidade e a corrente não os está levando para baixo, mesmo quando os remos estão parados.

– Mestre, eu vejo que Tu és verdadeiramente poderoso? –diz o dono das barcas–. Abençoa o teu servo e lembra-te de mim, pecador.

– Por que poderoso?

– Ora! Então te parece pouco? Tu barraste a corrente do Jordão na cheia!

– Josué já havia feito este milagre1 e maior ainda, porque ele fez desaparecerem as águas do rio para fazer passar a Arca…

– E tu, homem, passaste a verdadeira Arca de Deus –diz Judas com sua calma.

– Deus Altíssimo! Sim, eu creio! Tu és o verdadeiro Messias! O Filho de Deus Altíssimo. Oh! Eu o direi pelas cidades e povoados da margem, isto eu direi, isto que fizeste e eu te vi fazer! Volta, Mestre! O meu pobre povoado tem doentes em grande número. Vem para curá-los!

– Eu irei. E tu, por enquanto, vai pregando em meu Nome a necessidade da fé e da santidade para sermos agradáveis a Deus. Adeus, homem. Vai em paz. E não tenhas medo de voltar.

– Eu não tenho medo. Se eu tivesse, ter-te-ia pedido que tivesses piedade de minha vida. Mas eu creio em Ti e em tua bondade e vou sem pedir. Adeus.

Ele torna a subir para a barca, que é a primeira a colocar a proa sobre o rio, e lá se vai. Vai seguro e veloz. Até tocar na margem.

Jesus, que ficou parado até quando o viu em terra, faz um gesto de bênção. Depois se retira, indo para a estrada. O rio toma de novo o seu curso vertiginoso… E assim tudo termina.

1 milagre, como relatado em: Josué 3,14-17.


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