517. 517. Indo para Nobe. Perplexidadede Judas Iscariotes depois de uma discussão.
24 de outubro de 1946.
517.1Um vento úmido e frio passa penteando as plantas da colina e vai formando no céu cúmulos de nuvens pardacentas. Todos enfiados em seus pesados mantos, Jesus com os doze e com Estevão, descem de Gabaon para a estrada que vai para a planície. E vão falando uns com os outros, enquanto Jesus, absorto em um daqueles seus silêncios, está muito longe das coisas que estão ao redor dele. E assim fica até que, tendo chegado a uma encruzilhada na metade da encosta, ou um pouco mais para a base da colina, diz:
– Rumemos por aqui e vamos para Nobe.
– Como? Não voltas para Jerusalém? –pergunta Iscariotes.
– Nobe e Jerusalém é quase uma coisa só para quem está acostumado a caminhar muito. Mas Eu prefiro ir a Nobe. Isso te desagrada?
– Oh! Mestre. Para mim, tanto aqui como lá. O que me desagrada mais é que Tu, em um lugar tão favorável a Ti, tenhas te mostrado tão pouco. Falaste mais em Beteron, que certamente não se portou como tua amiga. Parece-me que deverias fazer o contrário. Procurar atrair sempre mais para Ti as cidades que te são favoráveis, e tomar nelas… posições contra as cidades dominadas por teus inimigos. Sabes que valor têm as cidades vizinhas de Jerusalém e que estão do teu lado? Afinal, Jerusalém não é tudo. Também os outros lugares podem ter valor e fazer pressão, com o valor deles, contra as pretensões de Jerusalém. Os reis geralmente são proclamados como tal nas cidades mais fiéis e, uma vez feita a proclamação, as outras cidades aderem…
– Quando não se rebelam e, então, vêm as lutas fratricidas. Não creio que o Messias queira iniciar o seu Reino com uma guerra civil –diz Filipe.
– Eu quereria somente uma coisa: que tudo tivesse começo entre vós com um modo justo de ver. Mas vós não vedes ainda o que é justo… Quando é, então, que chegareis a compreender?
517.2Percebendo que talvez seja uma censura o que está para vir, Iscariotes torna a perguntar:
– Por que foi, então, que aqui em Gabaon falaste tão pouco?
– Eu preferi ouvir e descansar. Não compreendeis que Eu também preciso de repouso?
– Podíamos parar e fazê-los felizes. Se estás cansado, por que é que te puseste a caminho? –pergunta, aflito, Bartolomeu.
– Eu não estou cansado em meus membros. Não é preciso parar para dar-lhes descanso. É o meu coração que está cansado e precisa de repouso. Eu tenho repouso onde encontro amor. Credes talvez que eu seja insensível a tanto ódio? E que as rejeições não me façam sofrer? Credes que as conjuras contra Mim me deixem insensível? Que as traições de quem se finge meu amigo e é um espião dos meus inimigos, colocado a meu lado para…
– Que nunca haja isso, Senhor! E não deves nem suspeitar disso! Dizendo isso Tu nos ofendes! –protesta Iscariotes, com um mal-estar cheio de aflição, mais do que a de todos os outros, ainda que todos protestem, dizendo–: Mestre, Tu nos entristeces com estas palavras, Tu duvidas de nós!
E Tiago de Zebedeu, sempre impulsivo, exclama:
– Eu te saúdo, Mestre, e volto para Cafarnaum. Com o coração esmagado. Mas vou-me embora. E se não bastasse ir para Cafarnaum, irei ficar com os pescadores de Tiro e de Sidon, irei para Cintium, irei não sei para onde. Mas irei para algum lugar tão longe, que seja impossível ficares pensando que estou te traindo. Abençoa-me para a viagem!
Jesus o abraça, dizendo:
– Paz, meu apóstolo. São tantos os que se dizem meus amigos, não sois vós somente. Causam-te tristeza, e tristeza aos outros, as minhas palavras. Mas em que corações Eu devo derramar as minhas aflições e buscar conforto, a não ser nos dos meus diletos apóstolos e discípulos fiéis? Procuro em vós uma parte daquela união que Eu deixei para vir unir os homens: a união com meu Pai no Céu e uma centelha do amor que eu deixei por amor aos homens: o amor de minha mãe. Eu os procuro para o meu conforto. Oh! A onda amarga, o peso desumano abatem e oprimem o meu coração, o coração do Filho do Homem! A minha Paixão, a minha hora está ficando cada vez mais perto. Ajudai-me a suportá-la e a cumpri-la, porque é muito dolorosa!
Os apóstolos olham uns para os outros, comovidos pela profunda dor que percebem nas palavras do Mestre, e não sabem fazer outra coisa a não ser ajuntarem-se ao redor dele, acariciá-lo, beijá-lo e, ao mesmo tempo, Judas o beija pela direita e João pela esquerda, no rosto de Jesus, que abaixa as pálpebras, enquanto Judas Iscariotes e João o beijam.
517.3Recomeçam a andar e Jesus pode terminar o seu pensamento, que havia sido interrompido:
– No meio de tantas aflições, o meu coração procura lugares onde encontre amor e repouso. Onde, em lugar de falar a pedras áridas ou serpentes traiçoeiras, ou a umas descuidadas borboletas, pode ouvir as palavras de outros corações e consolar-se, porque sabe que são sinceras, amorosas e justas. Gabaon é um desses lugares. Eu nunca tinha ido lá. Mas lá encontrei um campo arado e semeado por ótimos operários de Deus. Aquele sinagogo! Ele veio para a Luz, mas já era um espírito luminoso. Quantas coisas pode fazer um bom servo de Deus. Gabaon certamente não está isento das intrigas dos que me odeiam. Insinuações e corrupções também lá serão tentadas. Mas Gabaon tem um sinagogo que é um justo, e lá os venenos do Mal perdem sua força. Pensais talvez que me seja agradável ter que estar corrigindo sempre, censurando e repreendendo? Para Mim é doce, quando posso dizer: “Tu compreendeste a Sabedoria. Continua pelo teu caminho e sê santo”, como Eu disse ao sinagogo de Gabaon.
– Então, nós voltaremos lá?
– Quando o Pai me faz achar um lugar de paz, Eu gosto disso e bendigo a meu Pai. Mas Eu não vim para isso. Eu vim para converter ao Senhor os lugares culpados e afastados dele. 517.4Estais vendo que Eu poderia estar em Betânia e não estou.
– Mas também para não incomodar Lázaro.
– Não, Judas de Simão. Até as pedras sabem que Lázaro é meu amigo. E por isso seria inútil que Eu pusesse freios ao meu desejo de conforto. Mas é por causa de…
– Das irmãs de Lázaro, especialmente de Maria.
– Também não, Judas de Simão. Até as pedras sabem que a luxúria não me perturba. Observa que, entre as muitas acusações que me têm sido feitas, a primeira a cair por terra foi esta, porque mesmo os meus mais encarniçados adversários já compreenderam que dizer isso seria o mesmo que desmascarar o hábito que eles têm de mentir. Ninguém entre os homens honestos teria acreditado que Eu sou um sensual. A sensualidade só pode ter atrativos para aqueles que não se nutrem do sobrenatural e que sentem horror pelo sacrifício. Mas para quem se devotou ao sacrifício, para quem é vítima, que atrativos queres que tenha o prazer de uma hora? O gozo da alma que é vítima está todo no espírito e, se vestem uma carne, esta é apenas uma veste. Pensas tu que as vestes que nós vestimos tenham sentimentos? Do mesmo modo é a carne para aqueles que vivem do espírito: é uma veste e nada mais. O homem espiritual é o verdadeiro super-homem, porque não é escravo da sensualidade, enquanto que o homem materialista é um não-valor, comparado com a verdadeira dignidade do homem, porque ele tem, como o animal, demasiados apetites, e é até inferior a ele, superando-o, por fazer do instinto natural do animal um vício degradante.
Judas, perplexo, morde os lábios, e depois diz:
– Sim. E, afinal, não poderias mais incomodar Lázaro. Daqui a pouco a morte o tirará para fora de todo perigo de vinganças… E, então, por que não vais a Betânia mais vezes?
– Porque Eu não vim para gozar, mas para converter. Eu já te disse.
– Mas… Tu te alegras de teres contigo os teus irmãos?
– Sim. Mas também é verdade que não uso de parcialidade para com eles. Quando temos que separar-nos, para acharmos lugar em alguma casa, geralmente eles não ficam comigo, mas vós é que ficais com eles. E isso é para demonstrar-vos que, aos olhos e às mentes de quem se devotou à redenção, a carne e o sangue não têm valor, mas o que tem valor é a formação dos corações e a redenção deles. 517.5Agora vamos a Nobe e tornaremos a separar-nos para o sono. E Eu te terei ainda comigo, e terei também Mateus, Filipe e Bartolomeu.
– Somos nós talvez os menos formados? Eu, especialmente, que queres sempre perto de Ti.
– Tu o disseste, Judas de Simão.
– Obrigado, Mestre. Eu o havia compreendido –diz, com uma ira mal dissimulada, Iscariotes.
– E se já o compreendeste, por que não te esforças para formar-te? Crês talvez que Eu, para não dar-te uma mortificação, pudesse dizer-te uma mentira? Estamos entre irmãos, aliás, e não devem ser objeto de escárnio as fraquezas de algum, nem de abatimento o serdes advertidos diante dos outros, que já sabem que faltas cometem os irmãos. Ninguém é perfeito. Eu vo-lo digo. Mas até as imperfeições de cada um, tão desagradáveis ao serem vistas e de serem suportadas, tudo isso serve de ocasião para se melhorarem a si mesmos, a fim de que não se aumente o mal-estar recíproco. E podes crer-me, ó Judas, se Eu te vejo exatamente como tu és, nem mesmo tua mãe te ama como Eu te amo, e ela se esforça para que te tornes bom como o teu Jesus.
– Mas, no entanto, Tu me repreendes e me corriges, e até diante de um discípulo.
– É esta a primeira vez que Eu te chamo à ordem, à justiça?
Judas fica calado.
– Responde-me, Eu te ordeno –diz Jesus, como dando uma ordem.
– Não.
– Quantas vezes foi que Eu o fiz publicamente? Poderás dizer que Eu te envergonhei? Ou, antes, deves dizer que Eu te encobri e defendi? Fala!
– Tu me defendeste, é verdade. Mas agora…
– Mas agora foi para o teu bem. Quem acaricia um filho culpado, deverá depois enfaixar as feridas dele, diz1 um provérbio. E diz ainda um outro provérbio que o cavalo não domado se torna intratável, e que o filho abandonado a si mesmo será um intratável.
– Mas será que eu sou teu filho? –pergunta Judas, enquanto seu rosto mostra sinal de arrependimento.
– Se Eu te tivesse gerado não poderias ser mais do que és. E Eu faria arrancar as minhas vísceras para dar-te o meu coração e fazer de ti alguém como eu quereria.
Judas tem um dos seus retornos… e com sinceridade, verdadeiramente sincero, joga-se nos braços de Jesus, gritando:
– Ah! Eu não te mereço! Eu sou um demônio, e não te mereço. Tu és bom demais! Salva-me Jesus, e chora, chora de verdade, com um pranto cheio de aflição, com um coração perturbado por coisas não boas e por um contraste entre elas e o remorso de ter entristecido a quem o ama.
1 diz, em Siraque 30,7-8.
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