481. 481. Chegada a Enganim. Maquinaçõesde Judas Iscariotes para desvendar uma emboscada.


27 de agosto de 1946.

481.1 O tempo manteve as suas promessas e se desfez numa água abundante, fina, persistente. Quem está sobre os carros se defende bem. Mas quem está a pé ou sobre os burrinhos se molha e se molesta, sobretudo, quem ao cair da chuva, que lhe banha a cabeça e as costas, une-se aquela da lama que penetra nas sandálias, gruda nos calcanhares e suja as vestes. Os peregrinos cobriram a cabeça com cobertas ou mantos, e parecem todos frades encapuçados.

Jesus e João, a pé, estão bem molhados. Mas se preocupam mais de proteger os sacos, onde estão as vestes para si mesmos. Assim chegam a Enganim e se põem a procurar os apóstolos, dividindo-se para encontrá-los antes.

481.2É João aquele que os encontra, ou seja, encontra Tiago de Zebedeu, que fez as provisões para o sábado.

– Estávamos pensando. Se não nos víssemos, tornaríamos atrás, não obstante o sábado… Onde está o Mestre?

– Ele saiu a procurar-vos. Quem primeiro encontre, que vá ao ferreiro.

– Então, olha. Nós já estamos na casa. Uma boa mulher, com três filhos. Vai logo dizer ao Mestre, e volta…

Tiago abaixa a voz e cochicha, olhando para os lados:

– Aqui há muitos fariseus… e… certamente com más intenções. Eles nos perguntaram por que é que Ele não estava conosco. Queriam saber se Ele já foi na frente, ou se ainda vem vindo atrás. Primeiro, nós dissemos: “Não sabemos.” Eles não acreditaram. Era justo, porque como podíamos dizer, logo nós, que não sabíamos onde Ele está? Então, Iscariotes, que não tem tantos escrúpulos, disse: “Ele foi na frente”, e, como eles não acreditassem e perguntassem com quem e levando o quê, e quando foi que Ele saiue se todos sabiam que na outra sexta-feira Ele estava perto de Gíscala, ele disse: “Em Ptolemaida Ele fez uso de um navio e por isso chegou à nossa frente. Ele descerá até Jope, entrando em Jerusalém pela porta de Damasco, para ir logo em procura de José de Arimateia, na casa dele em Bezeta.”

– Mas, para que tantas mentiras? –pergunta, escandalizado, João.

– Ora! Nós também lhe dissemos isso. Mas ele se riu, dizendo: “Olho por olho, dente por dente, e mentira por mentira. Basta que o Mestre seja salvo. Eles o procuram para fazer-lhe mal. Eu o sei.” Pedro o fez lembrar-se de que envolver o nome de José podia causar a ele aborrecimentos. Mas Judas respondeu: “Eles correrão para lá e, vendo o espanto de José, compreenderão que não é verdade.” Nós lhe objetamos: “Eles te odiarão depois pela mentira de que fizeste uso para com eles.” Mas ele se riu, dizendo: “Eu estou rindo do ódio deles. Eu sei neutralizá-lo…” Mas, deixa disso, João. Procura encontrar o Mestre, e vem com Ele. A chuva está a nosso serviço. Os fariseus estão nas casas, para não molharem suas longas vestes…

João dá ao seu irmão os sacos, e está para sair, correndo pela estrada. Mas Tiago o detém, para dizer-lhe:

– Não contes ao Mestre as mentiras do Judas. Ainda que tenham sido ditas com um fim bom, mas sempre são mentiras. E o Mestre odeia a mentira…

– Eu não o direi –diz João, e sai correndo.

Tiago falou certo. Os ricos já estão em suas casas. Somente os pobres é que se agitam à procura de um abrigo…

481.3 Jesus está por debaixo de um corredor, perto da alveitaria. João chega perto dele, e lhe diz:

– Vem logo, Eu os encontrei. Podemos vestir de novo as roupas enxutas.

E não falou nada mais, para dar a entender que estava com pressa.

Chegaram perto da casa. Entram pela porta, que estava apenas encostada. Logo ali atrás estão os onze apóstolos, que se aglomeram ao redor de Jesus, como se não o vissem, fazia muitos meses. A dona da casa, uma mulherzinha enfraquecida e muito magra, de vez em quando dá uma olhada por uma porta semi-aberta.

– Paz esteja convosco –diz Jesus com um sorriso, e os abraça, sem diferença em seu afeto.

Todos falam juntos, querendo dizer muttas coisas. Mas Pedro grita:

– Calai-vos! E deixai-o ir. Não estais vendo como ele está todo molhado e cansado?

E ao Mestre diz:

– Mandei preparar um banho quente para Ti… e dá-me aqui o teu manto… e as vestes quentes. Eu as apanhei em teu saco…

Depois ele se vira para o interior da casa e grita:

– Ó mulher! O hóspede chegou. Traze a água, que o resto eu faço.

E a mulher, tímida como quem já sofreu — e seu rosto diz que ela já sofreu — atravessa em silêncio o corredor, acompanhada por três mocinhas que se parecem com ela na magreza e nas expressões do rosto, que vão com ela apanhar os caldeirões cheios de água fervendo.

– Vem, Mestre. E tu também, João. Estais frios como uns afogados. Mas eu fiz cozinhar genebra com vinagre para colocá-la na água. Faz bem.

E, de fato, dos caldeirões que vão passando exala um odor de vinagre e outros aromas.

Jesus, ao entrar em uma pequena sala, onde estão dois grandes alguidares (isto é, duas tinas de madeira, talvez destinadas à preparação da barrela), olha para a mulher, que sai com suas filhas, e as saúda:

– A paz esteja contigo e com tuas filhas. E o Senhor vos pague.

– Obrigada, Senhor… –diz ela, e se esgueira por ali, afastando-se.

Pedro entra com Jesus e João, fecha a porta e sussurra:

– Cuidado, porque ela não sabe quem és Tu… Para ela nós somos todos peregrinos, Tu és um rabi, e nós teus amigos. No fundo, é verdade… Não, é… Hum! Ora, não é senão uma verdade oculta… Há fariseus demais… e interessados demais por Ti… Controla-te… Depois falaremos.

E lá se vai ele, deixando-os sozinhos, e voltando para perto dos seus companheiros, que estão sentados em uma salinha.

481.4 – E agora? Que diremos ao Mestre? Se dissermos que mentimos, Ele ficará triste por isso. Mas… não podemos deixar de dizer- lhe

–diz Pedro.

– Mas não precisas tomar esse incômodo. Fui eu que menti, eu lhe direi.

– E com isso o farás ficar mais triste ainda. Não viste como Ele já não tem alegria?

– Eu já vi. Mas é porque está cansado… Afinal… Eu sei também dizer aos fariseus: “Eu menti.” Isto tudo são inépcias. O importante é Ele não ter que sofrer.

– Eu não diria nada. A ninguém. Se o dizes a Ele, não conseguirás conservar escondido o assunto. Se o dizes a eles, não conseguirás salvá-lo das ciladas… –observa Filipe.

– Isso veremos –diz com segurança Judas.

481.5 Passado pouco tempo, Jesus torna a entrar, com suas roupas enxutas, restaurado pelo banho. João vem atrás dele.

Falam de tudo o que aconteceu com o grupo dos apóstolos, com o Mestre e João. Mas ninguém fala nada dos fariseus, até que Judas diz:

– Mestre, eu sei com certeza que tu estás sendo procurado pelos que te odeiam. E, para salvar-te, eu fiz espalhar a notícia de que Tu não vais a Jerusalém pelos caminhos de costume, mas por mar até Jope… Eles irão todos correndo para lá, ah! ah!

– Mas, para que mentir?

– E eles, por que mentem?

– Mas eles são eles, e tu não o és, não deverias agir como eles…

– Mestre, eu sou uma coisa só: alguém que os conhece e que te quer bem. Queres arruinar-te? Eu estou pronto para impedi-lo. Escuta-me bem, ouve o meu coração em minhas palavras. Tu amanhã não sais daqui…

– Amanhã é sábado…

– É certo. Mas não sais daqui. Toma um repouso. Tu…

– Tudo, menos o pecado, Judas. Nenhuma consideração me fará aceitar a falta contra a santificação do sábado…

– Eles…

– Que façam o que quiserem. Eu não pecarei. Se Eu o fizesse, além do meu pecado, que, pesaria sobre Mim, Eu poria nas mãos deles uma arma para acabarem comigo. Não te lembras que já me acusam de profanador do sábado?

– O Mestre tem razão –dizem os outros.

– Está bem. Farás o que quiseres no sábado. Mas, ir pela estrada, não. Não vamos pelo caminho, por onde todos vão, Mestre. Mestre, escuta-me. Desorienta-os…

481.6 – Mas, afinal! Que é que sabes de certo, tu que estás falando? –grita Simão, levantando os seus braços curtos–. Mestre, manda que ele fale!

– Devagar, Simão. Se o teu irmão chegou ao conhecimento de algum perigo, talvez até com perigo para ele também, e se deu conta dele, nós não devemos tratá-lo como um inimigo, mas ser-lhe até agradecidos. Se ele não podia dizer tudo, porque poderia comprometer a alguém, alguma pessoa não muito corajosa para tomar a iniciativa de falar, mas ainda bastante honesta para não permitir um delito, por que é que quereis forçá-la a falar? Deixai-a, pois, falar, e Eu aceitarei tudo o que houver de bom em seu parecer, e repelirei o que puder haver de não bom. Fala, Judas.

– Obrigado, Mestre. Só Tu me conheces verdadeiramente pelo que eu sou. Dentro dos confins da Samaria poderíamos andar com segurança. Porque na Samaria quem manda é Roma, mais do que na Galileia e na Judeia, e aqueles que te odeiam não querem nada com Roma. Mas sempre, para desorientar os espiões, eu acho que não se há de seguir uma estrada direta, mas, ao sair daqui, dirigir-se a Dotaim, e depois, sem chegar à Samaria, atravessar a região, depois descer até Efraim, passando pelo Adonim e o Carit, e de lá chegar a Betânia.

– É um caminho longo e difícil, especialmente se chover.

– Perigoso! O Adonim…

– Parece que tu procuras os perigos…

Não há entusiasmo entre os apóstolos. Mas Jesus diz:

– Judas tem razão. Seguiremos por esse caminho. Depois teremos tempo para descansar. Tenho ainda outras coisas a fazer, antes que a hora chegue, e se cumpra Não devo, por uma estultice, ir colocar-me nas mãos deles, antes que tudo se tenha cumprido. Passaremos por Lázaro, se formos por aí. Ele certamente está muito doente, e me esperando… Agora, comei vós. Eu me retiro. Estou cansado…

– Mas, não tomas nem um pouco de alimento? Não estás doente?

– Não, Simão. Mas há sete dias que não me deito em uma cama. Adeus, meus amigos. A paz esteja convosco…

E se retira.

481.7 Judas está radiante de alegria:

– Vistes só? Ele é humilde e justo, não rejeita o que acha que é bom…

– Sim… mas… Achas Tu que Ele está contente? Contente de verdade?

– Eu não o acho… Mas Ele compreende que eu tenho razão…

– Eu gostaria de saber o que foi que fizeste para ficar sabendo tantas coisas. No entanto, sempre tens estado conosco!

– Sim. E vós viveis me vigiando, como a um animal perigoso. Eu sei. Mas não faz mal. Lembrai-vos disso: até um mendigo, até um ladrão, e até mesmo uma mulher podem ajudar a saber. Eu falei com um mendigo, e lhe dei uma ajuda. Com um ladrão, e descobri… Com uma mulher, e… quantas coisas pode saber uma mulher!

Os apóstolos, muito admirados, olham-se uns aos outros. E com os olhos fazem perguntas. Quando? Onde foi que Judas soube e foi ver?

Ele se ri, e diz:

– E até com um soldado! Sim. Porque a mulher tinha falado tantas coisas, que tive que ir ao soldado. E ele confirmou. E fui comunicar… Tudo é licito, quando é necessário. Até as cortesãs e as milícias…

– És… Tu és… –diz Bartolomeu, omitindo o mais que estava para dizer.

– Sim. Sou eu. Nada mais do que eu. Um pecador a favor de vós. Mas eu, com todos os meus pecados, ainda sirvo ao Mestre melhor do que vós. E, afinal… Se uma cortesã sabe o que estão querendo fazer os inimigos de Jesus, isso é sinal de que eles frequentam as cortesãs e as têm consigo, tanto as bailarinas, como as atrizes, para se divertirem… E, se eles as têm perto de si… eu também posso tê-las. Isso me ajudou, entendestes? Pensai bem que, até nos confins da Judeia Ele podia ser preso. E dizei que eu sou um sábio por ter evitado isto…

481.8 Todos estão pensativos, e vão comendo sem vontade o seu alimento. Depois Bartolomeu se levanta.

– Aonde vais?

– Vou encontrá-lo… Não tenho certeza de que esteja dormindo. Eu lhe levarei leite quente… e depois verei.

Ele sai, fica fora por algum tempo. E depois volta.

– Ele estava sentado na cama… e estava chorando… Tu o entristeceste, Judas. Eu já esperava isso..

– Foi Ele que o disse? Eu vou explicar-me.

– Não. Ele não o disse. Pelo contrário, Ele disse que tu também tens os teus méritos. Mas eu o entendi. Não vás a Ele, deixa-o em paz.

– Sois todos uns bobos. Ele está sofrendo porque está sendo perseguido e impedido em sua missão. É isto! –diz, revoltado, Judas.

E João confirma:

– É verdade. Ele estava chorando, já mesmo antes de reunir-se conosco. Está sofrendo muito, também por causa de sua Mãe, de seus irmãos, dos camponeses infelizes. Oh! Quanto sofrimento!…

– Conta, conta…

– Deixar a Mãe é um sofrimento. E ver-se incompreendido, a tal ponto que ninguém o compreende, é um sofrimento. Ver que os servos de Jocanã…

– É sim. Vê-los já é na verdade, um sofrimento! Eu estou contente porque Marziam não os viu. Ele teria sofrido e odiado o fariseu…

–diz Pedro.

– Mas os meus irmãos ainda terão feito Jesus sofrer? –pergunta com seriedade Judas Tadeu.

– Não. Pelo contrário! Eles foram vistos e conversaram amigavelmente, foram deixados em paz e com boas promessas. Mas Ele os quereria… como nós… e mais do que nós todos… Quereria a todos nós convictos a respeito do seu Reino e da natureza dele. E nós…

João não diz mais nada. E o silêncio desce sobre a salinha iluminada por uma candeia de dois bicos, que ilumina doze rostos, todos diferentemente pensativos.