129. 129. A cura, em Águas Belas,de um romano endemoninhado.


13 de março de 1945.

129.1 Jesus está com os nove que ficaram, porque os outros três partiram para Jerusalém. Tomé, sempre alegre, se divide entre as suas verduras e as outras incumbências mais espirituais, enquanto Pedro com Filipe, Bartolomeu e Mateus se ocupam com os peregrinos, e os outros vão para o rio, para batizar. É verdadeiramente um batismo de penitência, por causa deste vento norte que sopra!

Jesus ainda está no canto da cozinha, enquanto Tomé trabalha calado, para deixar em paz o Mestre, quando entra o André e diz:

– Mestre, está aí um doente, que eu acho bom curá-lo logo, porque… dizem que é doido, porque não são israelitas. Mas nós diríamos que ele está possesso. Grita, berra, estrebucha. Vem vê-lo, Tu.

– Já vou. Onde está?

– Ainda está no campo. Estás ouvindo estes uivos? É ele. Parece um animal, mas é ele. Deve ser rico, porque quem o acompanha é bem vestido, e o doente foi descido de um carro de grande luxo por muitos servos. Deve ser pagão, porque blasfema contra os deuses do Olimpo.

– Vamos.

– Eu também vou para ver –diz Tomé, mais curioso em ver, do que preocupado com as suas verduras.

Saem, e, em vez de virarem em direção ao rio, tomam o sentido dos campos, que separam esta casa de colonos (nós diremos assim), da casa do feitor.

No meio de um prado, onde antes pastavam ovelhas, que agora, espantadas, se dispersaram para todos os lados, reunidas em vão por pastores e um cão — é o segundo cão que eu vejo, desde que comecei a ter estas visões — está um homem fortemente amarrado e que, não obstante isso, dá saltos como um louco, com gritos horríveis, que aumentam cada vez mais, à medida que Jesus se aproxima.

Pedro, Filipe, Mateus e Natanael estão ali perto, perplexos. Há ali também pessoas do povo: só os homens, porque as mulheres têm medo.

– Já vieste, Mestre? Estás vendo que fúria? –diz Pedro.

– Agora passará.

– Mas… é um pagão, sabes?

– E que importância tem isto?

– Ora, por causa da alma!!

Jesus tem um breve sorriso e procede. Alcança o grupo do louco, que se agita sempre mais.

129.2 Afasta-se do grupo alguém que, a veste e o rosto raspado, denunciam como um romano, e saúda:

– Salve, Mestre. A tua fama chegou até mim. És maior do que o Hipócrates para curar, e do que o simulacro de Esculápio para operar milagres sobre as doenças. Eu sei. Por causa disso é que eu vim. Estás vendo o meu irmão? Ficou louco por um mal misterioso. Nenhum médico entende. Eu fui com ele ao templo de Esculápio. Mas ele saiu de lá ainda mais louco. Em Ptolemaida eu tenho um parente. Ele mandou uma mensagem da multidão. Dizia que aqui há Um que tudo cura. E eu vim. É uma viagem horrível!

– Merece um prêmio.

– Mas espera. Nem prosélitos somos. Somos romanos, fiéis aos deuses. Vós dizeis que somos pagãos. Somos de Síbari e agora de Chipre.

– É verdade. Vós sois pagãos.

– Então… nada para nós? O teu Olimpo expulsa o nosso ou é expulso?

– O meu Deus, Uno e Trino, reina, único e sozinho.

– Eu vim em vão, diz o romano decepcionado.

– Por quê?

– Porque eu sou de um outro deus.

– A alma é criada por Um só.

– A alma…?

– A alma. Aquela coisa divina, que vem de Deus, criada para cada homem. Companheira na existência, sobrevive além da existência.

– E onde está?

– Nas profundezas do eu. Mas mesmo estando, como coisa divina, no interior do delubro1 mais sagrado, porque não é uma coisa, mas um verdadeiro ser, digno de todo o respeito.

– Por Júpiter! És um filósofo?

– Sou a Razão unida a Deus.

– Estava pensando que Tu o fosses, pelo que dizias…

– E que é a filosofia, quando é verdadeira e honesta, senão a elevação da razão humana para a Sabedoria e o Poder infinitos, ou seja, para Deus?

– Deus! Deus!! Tenho aquele infeliz que me incomoda. Mas estou quase me esquecendo do estado dele, para escutar a Ti, que és divino.

– Eu o sou, mas não como tu dizes. Tu chamas divino ao que é superior ao humano. Eu digo que tal nome há de ser dado somente a quem é de Deus.

– Que é Deus? Quem já o viu?

– Foi escrito: “Tu, que nos formaste, salve! Quando eu descrevo a perfeição humana, as harmonias de nosso corpo, eu celebro a tua glória.” Foi dito: “A tua bondade refulge em teres distribuído os teus dons a todos os que vivem, para que cada homem tivesse o que lhe é necessário. E a tua sabedoria se testemunha pelos teus dons, como o teu poder, na realização de tuas vontades.” Reconheces estas palavras?

– Se Minerva me ajuda… são palavras de Galeno2. Mas como é que as conheces? Eu estou assombrado!!

Jesus sorri e responde:

– Vem ao Deus verdadeiro e o seu divino espírito te fará douto da “verdadeira sabedoria e piedade que é conhecer a ti mesmo e adorar a Verdade.”

– Mas isso também é de Galeno! Agora tenho certeza. Além de médico e mago, és também filósofo. Por que não vais para Roma?

– Não sou médico, nem mago, nem filósofo, como tu dizes. Mas sou testemunho de Deus sobre a terra. 129.3Trazei-me aqui perto o doente.

Entre gritos e convulsões, arrastam-no até ali.

– Estás vendo? Tu dizes que ele está louco. Dizes que nenhum médico pôde curá-lo. É verdade. Nenhum médico, porque ele não é louco. Mas, eu falo a ti assim, porque és pagão, um dos ínferos entrou nele.

– Mas ele não tem o espírito de píton. Pelo contrário, só diz coisas erradas.

– Nós o chamamos “demônio”, não píton. Há o que fala e há o mudo. Aquele que engana com razões tingidas de verdade e o que é apenas desordem mental. O primeiro destes dois é o mais completo e perigoso. Teu irmão tem o segundo. Mas agora sairá dele.

– Como?

– Ele mesmo dirá a ti.

Jesus ordena:

– Deixa o homem! Volta ao teu abismo.

– Eu vou. Contra Ti fraco demais é o meu poder. Tu me expulsas e me amordaças. Por que é que sempre nos vences…?

O espírito falou pela boca do homem, que depois abate-se como extenuado.

– Está curado. Desata-o sem medo.

– Curado? Tens certeza disso? Eu te adoro!

O romano está para prostrar-se.

Mas Jesus não quer:

– Levanta o teu espírito. Deus está no Céu. Adora-o, e vai para Ele. Adeus.

– Não. Assim não. Pelo menos toma. Permite que eu te trate como os sacerdotes de Esculápio. Concede-me te ouvir falar… Permite que fale de Ti na minha pátria…

– Podes fazê-lo. E vem com o teu irmão.

O irmão está olhando ao redor espantado e perguntando:

– Mas onde eu estou? Aqui não é Cintium! Onde está o mar?

– Estavas…

Jesus faz um sinal para impor silêncio e diz:

– Estavas sofrendo uma grande febre e te conduziram para um outro clima. Agora estás melhor. Vem.

Vão todos ao quarto grande, mas nem todos igualmente comovidos, porque há quem admira e quem critica a cura do pagão. 129.4E Jesus vai para o seu lugar, tendo justamente os romanos à frente da assembleia.

– Não vos desagrade se Eu vou citar um passo3 dos Reis. Está dito nessa passagem que o rei da Síria, estando para entrar em guerra contra Israel, tinha em sua corte um homem ilustre e honrado chamado Naamã, que era leproso. E que uma menina de Israel, aprisionada pelos sírios e tornada sua escrava, lhe disse: “Se o meu Senhor tivesse ido ao profeta que está na Samaria, certamente ele o teria curado da lepra.” Ao que, Naamã, pedindo licença ao rei, seguiu o conselho da menina. Mas o rei de Israel ficou muito perturbado e disse: “Por acaso serei eu Deus, para que o rei da Síria me mande os doentes? Isto é uma cilada para irmos à guerra.” Aí o profeta Eliseu, tendo sabido do fato, disse: “Venha a mim o leproso e eu o curarei e ele saberá que existe um profeta em Israel.” Naamã foi, então, até Eliseu. Mas Eliseu não o recebeu. Só mandou dizer-lhe: “Vai lavar-te sete vezes no Jordão e ficarás limpo.” Naamã se indignou com isso, parecendo-lhe ter viajado tanto por nada e, irritado, estava para voltar para a sua terra. Mas os seus servos lhe disseram: “Ele não te pediu nada mais do que te fosses lavar sete vezes, e, se ele te tivesse mandado muito mais do que isso, terias devido ir fazê-lo, porque ele é o profeta.” Então Naamã se rendeu. Foi, lavou-se e ficou são. Jubiloso ele voltou ao servo de Deus e lhe disse: “Agora eu sei a verdade: não há outro Deus em toda a terra. Só existe o Deus de Israel.” E como Eliseu não queria presentes, pediu-lhe para pegar pelo menos o tanto necessário de terra, para que pudesse oferecer sacrifício sobre a terra de Israel, ao Deus verdadeiro.

Sei que nem todos vós aprovais o que Eu fiz. Sei também que não tenho obrigação de justificar-me para vós. Mas, posto que vos amo com verdadeiro amor, quero que compreendais o meu gesto e dele aprendais, saindo de vossa alma todo sentido de crítica e de escândalo.

Aqui temos dois súditos de um estado pagão. Um estava doente, e disseram-lhe por boca de algum parente, mas certamente por alguém de Israel: “Se fôsseis ao Messias de Israel, Ele curaria o doente.” E eles, de muito longe, vieram a Mim. Maior ainda foi a fé deles do que aquela de Naamã, porque nada sabiam de Israel, nem do Messias, enquanto que o sírio, pela vizinhança de sua nação e pelo contínuo contato com escravos de Israel, já sabia que em Israel está Deus. O Deus verdadeiro. Não fica bem que agora um homem pagão possa voltar para a sua terra, dizendo: “Realmente em Israel há um homem de Deus e em Israel adoram ao verdadeiro Deus”?

Eu não disse: “Vai lavar-te sete vezes.” Mas falei de Deus e da alma, duas coisas por eles ignoradas e que, como as bocas de uma nascente inesgotável, trazem em si os sete dons. Porque, onde existe conceito de Deus e de espírito, e desejo de chegar até eles, nascem as plantas da fé, esperança, caridade, justiça, temperança, fortaleza, prudência. Virtudes desconhecidas por aqueles que dos seus deuses não podem senão imitar as comuns paixões humanas, aumentadas em seu desregramento, pois são praticadas por supostos excelsos. Agora eles vão voltar para sua terra. Mas, maior do que a alegria de terem sido atendidos, vai ser a de poderem dizer: “Sabemos que não somos brutos, que além da vida, há ainda um futuro. Sabemos que o verdadeiro Deus é Bondade e, por isso, ama a nós também e nos beneficia para persuadir-nos a irmos a Ele.”

129.5E que achais? Que só eles é que ignoram a verdade? Há pouco um dos meus discípulos pensava que Eu não pudesse curar o doente, porque ele tinha uma alma pagã. Mas, que é a alma? E de quem vem? A alma é a essência espiritual do homem. É ela que, tendo sido criada em idade perfeita, reveste, acompanha, aviva toda a vida da carne e continua a viver, depois que a carne já não existe mais, sendo ela imortal, como Aquele que a criou: Deus. Havendo um só Deus, não existem almas de pagãos e almas de não pagãos, criadas por deuses diferentes. Existe uma Força única, que cria as almas: é a do Criador, do nosso Deus, único, poderoso, santo, bom, sem outra paixão que não seja o amor, a caridade perfeita, absolutamente espiritual, e, para ser entendido por estes romanos, da mesma maneira como disse: caridade, digo também: caridade absolutamente moral. Porque o conceito de espírito não é compreendido por estes pequenos, que ainda não sabem nada das palavras santas.

E que achais? Que Eu tenha vindo somente para Israel? Sou Aquele que reunirá as raças sob um só pastor: o do Céu. E em verdade vos digo que logo virá o tempo em que muitos pagãos dirão: “Deixa-nos tomar parte para podermos, em nosso solo pagão, consumar sacrifícios ao Deus verdadeiro, ao Deus uno e trino”, do qual Eu sou a Palavra.

Agora estes se vão. Convencidos mais do que se Eu os houvesse rejeitado com o desprezo. Estes, no meu milagre, e nas minhas palavras, sentem Deus, e isto irão dizer nos lugares para onde voltam.

Além disso, vos digo: não era justo premiar tão grande fé? Desorientados pelas respostas dos médicos, decepcionados pelas inúteis viagens aos templos, eles souberam ainda ter fé para virem ao desconhecido, ao grande Desconhecido do mundo, ao escarnecido, ao Grande Escarnecido e Caluniado de Israel, e lhe disseram: “Eu creio que Tu podes.” O primeiro crisma (a primeira mudança) para essa sua nova mentalidade lhes vem disto: de terem sabido crer. Não tanto pela doença, quanto pela fé errada Eu os curei, porque pus os lábios deles em um cálice, cuja sede cresce quanto mais dele beberem: a sede de conhecer ao Deus verdadeiro.

Terminei. Digo a vós de Israel: Procurai saber ter fé, como estes souberam.

129.6 O romano se aproxima com o curado:

– Mas… Não ouso mais dizer: “por Júpiter!” Digo, sobre a minha honra de cidadão romano: eu te juro que terei essa sede! Agora eu preciso ir-me embora. Quem me vai dar de beber?

– O teu espírito, a alma que agora sabes que tens, até o dia em que alguém enviado por Mim irá a ti.

– E Tu, não?

– Eu… Eu não. Mas, mesmo não estando presente, não estarei ausente. E não passarão senão pouco mais de dois anos, que Eu te darei um presente maior do que o da cura deste que te era caro. Adeus aos dois. Procurai perseverar neste sentimento de fé.

– Salve, Mestre. Que o Deus verdadeiro te salve.

Os dois romanos vão-se e ouve-se que estão chamando os servos com o carro.

– E nem mesmo sabiam que tinham uma alma! –murmura um velho.

– Sim, pai. E souberam aceitar minha palavra melhor do que muitos em Israel. Agora, como eles nos deram tanto óbolo, vamos ajudar os pobres de Deus, duas ou três vezes mais. E que os pobres rezem por estes benfeitores, que são mais pobres do que eles mesmos, para que cheguem à verdadeira e única riqueza, que é conhecer a Deus.

129.7 A mulher velada está chorando sob o seu véu, que impede de ver suas lágrimas, mas não de ouvir os seus soluços.

– Aquela mulher está chorando –diz Pedro–. Talvez ela não tenha dinheiro. Vamos dar a ela?

– Ela não está chorando por isso. Mas vai dizer-lhe assim: “As pátrias passam. Mas o Céu fica. Ele pertence a quem sabe ter fé. Deus é Bondade e por isso ama também os pecadores. E te ajuda para que te persuadas a ir a Ele.” Vai. Diz a ela assim e depois deixa-a chorar. É veneno que está saindo.

Pedro vai até a mulher, que já se vai caminhando em direção aos campos. Fala e volta.

– Pôs-se a chorar mais forte –diz–. Pensava que a estava consolando… –e olha para Jesus.

– De fato, ficou consolada. A alegria também faz chorar.

– Hum!! Mas… Eis, eu ficarei contente, quando vir o rosto dela. Eu o verei?

– No dia do Juízo.

– Divina Misericórdia! Mas então estarei morto! E que me adiantará ficar sabendo disso? Terei então que olhar o Eterno!

– Faz isto, desde este momento. É a única coisa útil.

– Sim… mas… Mestre, quem é ela?

Todos riem.

– Se me perguntares outra vez, vamos logo embora: assim te esquecerás dela.

– Não, Mestre. Mas… basta que fiques Tu…

Jesus sorri.

– Aquela mulher –diz Ele–, é um resto e uma primícia.

– Que queres dizer? Eu não entendo.

Mas Jesus o deixa e põe-se a caminho do povoado.

– Vai à casa de Zacarias. Ele está com a mulher à morte –explica André–. Ele me mandou vir dizer isto ao Mestre.

– Tu me causas raiva! Sabes tudo, fazes tudo e não me contas nada. És pior do que um peixe –Pedro desabafa em seu irmão sua decepção.

– Irmão, não te preocupes. Fala tu por mim também. Vamos recuperar nossas redes. Vem.

Um vai à direita e o outro à esquerda e tudo termina.



1 delubro: santuário pagão [N.T.]
2 Galeno, aqui e algumas linhas mais abaixo, se não é um nome escrito de forma inexata, é todavia o nome de um personagem diverso do conhecido médico e filósofo vivido no segundo século depois de Cristo. Nomes de pessoas escritas erroneamente pela escritora são assinaladas em: 14.478.1134.1234.1331.5342.1417.1443.1532.1538.8552.2554.6576.4 (e em 236.12 um nome de cidade).
3 passo que está em: 2 Reis 5,1-19.